Top 5 livros de Terror | Por Diego Guerra

No Top 5 livros de Terror que o Diego Guerra* fez para o site Crônicas Fantásticas, em meio a Lovecraft, Rudyard Kipling e Bram Stocker, está meu livro Contos sombrios! Nas palavras dele sobre o conto Chuva vem:

Um dia os estudiosos da literatura escreverão ensaios completos sobre esse conto curto. Enquanto o narrador conta suas agruras como morador de rua, somos seduzidos pela sua triste história, embalados docilmente pelo seu jeito simples, até que o final nos atinge como uma martelada na nuca. Daquelas coisas que a gente lê e fica com raiva porque sabe que jamais vai conseguir escrever algo tão bom assim.

Estou lisonjeada e muito feliz. Obrigada, Diego!

Confiram as 5 indicações aqui.

*Escritor e designer, autor de O Teatro da Ira (Draco, 2016) e O Gigante da Guerra (Crown, 2017).

A maluquice de abraçar gente estranha

Tive uma amiga que, quando via gente estranha chorando na rua, fazia questão de se aproximar e perguntar por quê. Eu achava maluquice. Uma maluquice do bem, mas ainda assim maluquice. Sempre pensei que se eu estivesse chorando na rua preferiria ser deixada em paz (como já aconteceu). E tinha receio de que a pessoa, alterada, pudesse gritar comigo ou me apresentar um problema que eu não poderia solucionar (como se a gente devesse esperar que alguém resolvesse nossos problemas; às vezes, só precisa falar deles ou ser respeitada em silêncio por alguém que se importa…). Essa impotência, com um quê de arrogância, me paralisa às vezes. Em geral, eu evito gente estranha e seus problemas.

Mas ontem, começo da tarde, quando eu estava no metrô indo à casa de uma amiga, sentou ao meu lado um jovem que olhava o celular e estremecia. Primeiro pensei que estivesse rindo, logo vi que soluçava. Aí fiz uma maluquice: perguntei por quê. Não entendi a resposta, o choro era intenso. Aí fiz outra maluquice: abracei o menino. Abracei forte, e ele chorou no meu ombro um tempão. Explicou que tinha saído com um amigo na noite anterior e de manhã vira no Facebook a notícia da morte dele. Ao que parecia, um acidente. Ele estava indo para a casa da família do amigo a fim de entender o que tinha acontecido. Chorou mais um pouco, abracei mais um pouco. Desceu mais calmo na sua estação. Espero que ele e a família estejam bem, na medida do possível.

Apesar da situação muito triste, vi beleza no fato de ele se deixar abraçar sem reservas por uma estranha. Não sei se eu me permitiria essa vulnerabilidade. Depois do exemplo dele, gostaria de pensar que sim.

Não sei em quem ele votou. Confesso que não me importa. Só sei que o mundo já é violento demais, e precisamos ser mais gentis com as pessoas, mesmo sob o risco de elas gritarem conosco ou contarem problemas que não podemos resolver. Vale a pena, e eu vou tentar.

Gatos em particular

Depois de certa idade — e, para alguns de nós, isso pode ocorrer muito cedo — não existem novas pessoas, animais, sonhos, rostos, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, já apareceu antes, com outra máscara, outras roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é igual, igual, tudo é eco e repetição; e não há nem dor que não seja uma recorrência de algo há muito esquecido que se expressa numa angústica inacreditável, em dias de lágrimas, solidão, consciência de traição; e tudo por um gato pequeno, magro e moribundo.

Doris Lessing, Gatos em particular, em Sobre gatos; tradução de Julia Romeu, Autêntica Editora, 2017.

Traduzindo Clarice

Katrina Dodson, autora da tradução premiada de Todos os Contos (The Complete Stories) de Clarice Lispector para o inglês, escreveu um relato delicioso sobre o processo para a revista The Believer. Contou sua relação com a obra de Clarice, como fã e tradutora; com os tradutores anteriores, cujas agruras passou a entender melhor; a sensação de imersão mística proporcionada pela leitura; e outras coisinhas. Quem traduz, escreve ou gosta de livros vai gostar de ler.

Leia o relato completo aqui. Abaixo, destaco alguns trechos (tradução minha, não oficial):

Os dois anos que passei traduzindo Todos os Contos de Lispector foram como uma jornada mística, ou, no mínimo, um rito de passagem em que suas frases surgiram como alucinações ferozes enquanto eu tentava captar seu significado. Não cheguei a traduzir rezando, mas muitas vezes falei com uma foto dela que preguei acima da minha mesa, as mãos cobrindo o famoso rosto bonito. Gostava do fato de que poderia ser um gesto de angústia ou um sinal de recolhimento num mundo interior, correspondendo às minhas próprias oscilações entre a frustração e o foco.

(…)

Pensar e escrever além da nossa própria experiência é uma transgressão necessária se quisermos expandir nossa compreensão do mundo. Para traduzir as histórias, tive que realizar uma encarnação dupla, habitar Clarice habitando seus muitos personagens. Foi fascinante e brutal viver as crises de tantas mulheres, experimentar a carência e o amor dos maridos e filhos quando eu mesma não tinha nenhum, sentir a solidão e o desejo irrealizado de viúvas idosas e esquecidas quando eu tinha trinta e cinco anos – mais ou menos o ponto médio da faixa etária de Clarice quando escreveu essas histórias.

Leitor crítico também é gente: vídeo

No mês passado, visitei o pessoal do Who’s Geek, canal do YouTube dedicado à literatura, principalmente ficção científica e fantasia, e a nerdices correlatas. A Gabriela Colicigno e eu conversamos sobre publicação, editais de literatura, leitura crítica, procrastinação, as mensagens da ficção e muito mais.

E teve a participação especial de uma fofura chamada Thor. 😀

E a Gabs ainda conseguiu condensar tudo em 11 minutos!

Além do canal, o Who’sGeek também é um site onde a Gabs, o Roberto Fideli e seus colaboradores publicam resenhas e análises de filmes, livros, games, HQs e afins, escritas com cuidado profissional. Conheça o site aqui!

Pérolas acessíveis

Correndo o risco de chover no molhado: pessoas, procurem diversões gratuitas na sua cidade. Vale a pena e rende ótimas surpresas.

No último fim de semana, maridoffmann e eu estávamos contendo gastos e recebi a dica providencial da minha amiga Ana Cristina Kashiwagi (valeu, Ana!) sobre a apresentação Kurasawa e Sonhos no sábado, 5/5, no Sesc Santos. Uma exibição do filme Sonhos (na verdade, oito curtas do diretor japonês baseados em seus sonhos recorrentes), com trilha sonora do compositor Anselmo Mancini, executada ao vivo por ele (piano), Kooi Kawazoe (koto e shamisen), Silnei Doomacil (flauta transversal e piccolo) e Rubens Alves (vibrafone e percussão). Foi uma experiência sensorial mágica.

No domingo (6/5), fomos ao Museu do Café, no centro da cidade, ver a exposição intinerante Estação da Língua Portuguesa, com parte do conteúdo do Museu da Língua Portuguesa (aquele que pegou fogo), que vinha percorrendo cidades do estado de São Paulo. Eu nem sabia dessa mostra, mas estava decidida a fazer alguma coisa diferente no domingo e peguei a dica no site Juicy Santos, que sempre tem alguma opção para quem quer ver mais que praia por aqui. Chegamos a tempo de pegar o último dia.

Aproveitando que Santos é uma pequena grande cidade, fizemos tudo a pé, depois do almoço, voltando para jantar em casa. Curtimos: horrores. Gastamos: zero dinheiro.

Verifiquem sempre a programação do Sesc mais próximo da sua casa. Acompanhem os eventos nas bibliotecas públicas. Procurem. Sei que às vezes a gente não tem dinheiro nem para o ônibus, mas, tendo chance, aproveitem. Adoro meu combo costumeiro de domingo, praia+videogame+Netflix, mas isso é confortável, e conforto não cria novidade. Sair da rotina faz bem à cabeça. Para quem pretende criar algum tipo de arte, contar histórias, dar um jeito de se expressar e tocar o mundo, é mais que bom: é essencial.

P.S.: Quem passar por Santos até 1/7, confira no Sesc a mostra “Barroco Ardente e Sincrético Luso-Afro-Brasileiro“, com curadoria de Emanoel Araujo e “pinturas, esculturas e artefatos religiosos apresentam referências do barroco na religião e nas culturas erudita e popular do Brasil e de Portugal, entre os séculos XVII e XIX.”

P.S.2: Outra opção com eventos culturais gratuitos em Santos é a Pinacoteca Benedicto Calixto, lindo casarão na orla com mostra permanente do pintor, belo jardim e um bistrô nos fundos (investimento opcional, rs!).

P.S.3: Quem perdeu o filme/música ainda pode ouvir a trilha no site do Anselmo!

Mas poderia ser

Não tenho tido muito tempo para editar meu romance, mas anteontem escrevi um miniconto no ônibus que descia a serra.

Naquela semana que passamos juntas ela falou muito. Sobre os livros que amou, os filmes que a cativaram, os lugares pelos quais passou, mas que nunca passaram. Nada sobre gente. Nem família, nem amigos, muito menos amante. Deu a entender que não os tinha ou, se tinha, não importavam.
Uma semana é pouco para conhecer alguém. Uma semana não é uma vida, eu sei. Mas poderia ser.
Na absoluta falta de gente em sua existência, eu me senti rainha dos seus dias e privilegiada por sê-lo, já que ela não procurava quem ocupasse o trono. A solidão não lhe pesava nos ombros. Ao contrário: dava-lhe asas. Reinava sem par nem pesar num castelo feito de céu e fez para mim um trono ao seu lado porque quis. Em suas asas vi o mundo do alto, sem peso nem queda.
Ela não era um pássaro, eu sei. Mas poderia ser.
Quando nos despedimos, entendi que provavelmente não nos veríamos de novo. Achei que seria apropriado sofrer de saudade antecipada, só que não consegui. Nunca gostei de pássaro em gaiola. Sempre gostei de pássaro no céu.
No beijo que ela me deu havia aceitação e afeto. Afeto não é amor, eu sei. Mas poderia ser.