Escolhas, oportunidades e imposições

“Ao meu ver, traduzir bem é conseguir ‘ouvir’ a voz do autor e encontrar algo similar na língua de chegada, um efeito equivalente (já que o equivalente perfeito não existe), portanto, encontrar essa voz em autores com que não nos identificamos plenamente é um exercício e tanto.” Flávia Souto Maior no blog Ponte de Letras.

Ponte de Letras – Ano 3

Em uma oficina de tradução do espanhol da qual participo, o professor pediu que os alunos escolhessem um autor, e um conto do respectivo autor, para traduzir. Para ajudar na tarefa, passou uma lista de nomes, mas quem quisesse teria ainda a opção de escolher alguém de fora da lista (contanto que estivesse em domínio público ou prestes a entrar). Diante de tantas possibilidades, comecei a ler vários contos de cada autor e a selecionar os que mais me agradavam.

Isso mesmo, meu critério de escolha, inconscientemente, foi meu gosto pessoal. Não pensei se seria fácil ou difícil de traduzir, se apresentaria ou não algum desafio tradutório de qualquer natureza, se era curto ou longo. Simplesmente fui separando coisas mais próximas do que eu gostaria de ler.

Só depois parei para pensar: chegando aos sessenta livros traduzidos, posso contar nos dedos aqueles com que me identifico como leitora. Lamentei por…

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Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

Ela & eu

O lance é assim: ela no seu canto, eu no meu.
É assim que a gente se curte.
Juntas, nada presta. Separadas, temos tempo de recriar o fascínio. Quando ficamos próximas tempo demais, tenho vontade de fugir; ela, de acabar comigo. Se o reencontro é breve, olho-a e vejo-a inédita, se bem que gasta; bonita, ainda que disforme; e, embora injusta, amorosa. Recebe-me ensolarada, de braços abertos. No olhar, o brilho de quem prefere o aperto da saudade à gastura da convivência.
E assim deixo-a, horas depois: encanto renovado e votos reiterados de voltar logo mais. Mas não tão logo, nem por tanto tempo. Só um pouco: o bastante.
Sampa, essa doida. Ela no seu canto, eu no meu.

Publicado originalmente no meu mural do Facebook em 6/6/2014.

O ego é a criança ferida

Tenho reparado nisso. As pessoas acham que tudo é sobre elas, para elas ou contra elas, individualmente; quando, na verdade, o que fazemos é quase sempre por e para nós mesmos. Saber disso nos ajuda a caminhar rumo à paz de espírito, pois passamos a nos importar menos com o que os outros dizem. Afinal, mesmo quando falam contra nós, muitas vezes, estão falando apenas de si mesmos.

“O ego é a criança ferida dentro de nós. Tudo incomoda, tudo fere, tudo mexe com essa criança. Porque ela acredita, lá no fundo, que o mundo existe para ela; ou está contra ela. E isso inverte completamente a nossa interpretação da realidade; e faz tudo parecer muito maior e mais problemático e mais doloroso; porque essa criança interior se vitimiza. Todos passamos por isso, nos momentos em que ficamos passageiros do ego. Cabe respirar, olhar com calma e, se pôde ver e reconhecer mais uma armadilha do ego – agradecer por mais uma camada de aprendizado. Que sejamos melhores hoje do que fomos ontem.”

Paulo Roberto Ramos Ferreira, coach e terapeuta transpessoal

Liberdade de expressão

“Liberdade de expressão é você poder falar o que pensa sem esquecer que você é responsável pelo que fala. Se o que você fala incomoda os outros, os outros também têm a liberdade de se expressar. Se o que você fala fere as leis do seu país, você tem que arcar com as consequências disso. E por aí vai. Só não dá para achar que a gente pode falar o que bem entende porque é nosso direito e que todos os demais ao redor ficarão quietinhos, sorridentes, concordem ou não.”

Eric Novello, em 2014

Não somos obrigadas

Uma vez, uma amiga me disse que o pior calhorda é o calhorda educado.

Eu concordo. Ele é o mais difícil de identificar, e, mesmo após identificado, é aquele ao qual temos mais dificuldade para reagir.

Aprendemos a sorrir quando não queremos, a dar atenção para pessoas cuja companhia nos repele, a desrespeitar nossos instintos e trair nossos sentimentos, a quase nunca dizer não; e, quando dizemos, antes disso temos de pedir desculpas, como se não querer fosse uma afronta ao outro. Os sentimentos dele, afinal, valem mais que os nossos. Tudo por causa da bendita “educação”, que não passa de condicionamento social para suportar o insuportável.

Com essa cultura, como lidar com alguém que está sempre perto, muito perto de nos irritar, mas nunca passa daquele limite em que as atitudes se tornam claramente ofensivas? Como lidar com o calhorda educado, que não pisa fundo no calo, mas dá um sorrisinho toda vez que ameaça pisar?

Foi por meio do meu contato com outras mulheres, mais vividas, seguras de si e conscientes do próprio valor, que aprendi uma coisa simples: não sou obrigada. Apesar do condicionamento social, não sou obrigada. Apesar de ser mulher, apesar de ter sido treinada para sorrir, apesar de ter sido ensinada a modular a voz para soar mais doce mesmo quando rumino o amargo do desconforto, não, eu não sou obrigada. Meu único dever é o respeito, aquela via de mão dupla. O resto é teatro, é maquiagem, aquela coisa que as pessoas esperam que as mulheres usem, mas os homens, não. Quero dizer: só mais uma dessas muitas coisas.

Há quem queira nos obrigar, sempre haverá; mas não obrigar a mim mesma é libertador. O feminismo me ensinou isso. Não o feminismo acadêmico, teórico, restrito. O feminismo da web, o feminismo da rua, o feminismo de mina pra mina, de mana pra mana, discutido e praticado por cada vez mais gente que, como eu, não aceita mais ser obrigada.

Muito obrigada.

Noite Estrelada

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Noite Estrelada. Van Gogh, 1889. Via Wikipedia.

“No outono de 1970, eu trabalhava cantando no sistema escolar, tocando violão em salas de aula. Um dia, estava sentado na varanda de manhã lendo uma biografia de Van Gogh e, de repente, soube que precisava escrever uma música dizendo que ele não era louco. Ele tinha uma doença, assim como seu irmão Theo. Isso o torna diferente, a meu ver, de um ‘louco’ qualquer – porque ele tinha sido rejeitado por uma mulher [como muitos pensavam]. Então, sentei com uma cópia de Noite Estrelada e escrevi a letra numa sacola de papel.”

Don McLean em entrevista a Helen Brown para o Telegraph.

A defesa de Van Gogh foi gravada em 1971 com o nome de Vincent ou Starry, Starry Night. Nela, McLean faz referência a várias obras do pintor e argumenta que ele tentou se comunicar com o mundo por meio da beleza de sua arte; a incompreensão e o desespero, aliados à sua doença, o teriam levado ao suicídio. Uma verdadeira ode ao acolhimento das pessoas portadoras de psicopatologias, numa época em que pouco (ou nada?) se falava sobre isso.

É uma das músicas mais bonitas que já ouvi, e não lembro quando foi a primeira vez que o fiz. Escutar acompanhando a letra é garantia de choro para mim.

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Doze Gisassóis numa Jarra. Van Gogh, 1888. Via Wikipedia.

Agora, não estou conseguindo publicar o vídeo da música no YouTube aqui, porque o WordPress não me ama mais. Mas você pode ouvi-la toda aqui. O vídeo traz a letra, mas os tempos estão um pouco adiantados, então, é mais confortável ouvir a canção lá e ler a letra aqui.

Caso você ainda não tenha muita familiaridade com o inglês, ofereço uma tradução não poética (sem preocupação com as rimas e a métrica do original) abaixo.

Noite estrelada, estrelada
Pinte sua paleta de azul e cinza
Olhe para fora num dia de verão com olhos que conhecem a escuridão na minha alma

Sombras nas colinas
Esboce as árvores e os narcisos
Capture a brisa e o frio do inverno em cores na terra nevada e linhosa

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Noite estrelada, estrelada
Flores flamejantes que ardem e brilham
Nuvens rodopiando na bruma violeta refletem-se no azul-anil dos olhos de Vincent

Cores mudando de matiz
Campos matinais de grãos ambarinos
Rostos gastos marcados pela dor são suavizados sob as mãos amorosas do artista

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Pois não puderam amar você, mas ainda assim seu amor foi verdadeiro
E, quando não restou nenhuma esperança dentro daquela noite estrelada, você tirou sua vida como os amantes costumam fazer
Mas eu poderia ter lhe dito, Vincent, este mundo não foi feito para alguém tão bonito quanto você

Noite estrelada, estrelada
Retratos pendurados em salas vazias
Cabeças sem moldura em paredes sem nome com olhos que observam o mundo e não conseguem esquecer

Como os estranhos que você conheceu
Os homens esfarrapados em trajes esfarrapados
O espinho de prata, uma rosa de sangue, jazem esmagados e quebrados na neve virgem

Agora acho que sei o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, ainda não estão ouvindo
Talvez nunca ouçam

trigal

Trigal com Corvos. Van Gogh, 1890. Via Wikipedia.

De acordo com o site Van Gogh Gallery, “olhe para fora num dia de verão” é uma referência ao ponto de vista do pintor no asilo em Saint-Remy, onde pintava o jardim visto pela janela do quarto; as “flores flamejantes” referem-se à sua série de girassóis; as “nuvens rodopiantes” estão no próprio quadro Noite Estrelada; os “campos de grãos ambarinos” são o Trigal com Corvos; e os “rostos gastos” são Os Comedores de Batata. Ah, e “terra linhosa” é porque a tela de pintura é feita de linho.

P.S.: McLean é o mesmo autor e cantor da famosa American Pie.