#Defendaolivro

“A fantasia é escapista e essa é sua glória. Se um soldado é aprisionado pelo inimigo, não consideramos seu dever escapar?… Se valorizamos a liberdade da mente e da alma, se somos partidários da liberdade, é nosso dever escapar e levar conosco todas as pessoas que pudermos.”


Ursula K. Le Guin (1929–2018) em The Language of the Night: Essays on Fantasy and Science Fiction (1979), parafraseando um trecho do ensaio “On Fairy-Stories”, de J. R. R. Tolkien.


#Defendaolivro

Dez escritoras brasileiras que a Cláudia Lemes recomenda

Há alguns dias recebi essa lista da Cláudia Lemes, autora conhecida de thrillers, e desde então não caibo em mim de orgulho. São dez escritoras de “literatura de gênero” (leia-se ficção científica, fantasia, terror e correlatos) que publicaram de modo independente ou por pequenas editoras, ela leu e recomenda. Algumas já conheço; outras, só de nome; algumas, nem conhecia, e vou conferir quando puder.

Para ver do que Camila é capaz, basta ler seu conto A Noite Não Me Deixa Dormir, disponível na Amazon. Ela é muito dona do seu texto, que lemos sem aquela sensação de já ter visto aquilo em outro lugar, e com a certeza de que ela o escreveu com um sorriso malvado no rosto. Uma autora que já encontrou sua voz e seu ritmo e não tem medo deles.

Derreti!

Se você ainda não conhece o boletim (ou newsletter) da Cláudia, assine e receba no seu e-mail notícias sobre lançamentos, dicas de leitura e curiosidades que a autora reúne em suas pesquisas a respeito de criminalística e assassinos em série.

E, se ainda não conhece meu conto A noite não me deixa dormir, aproveite que ele sai por R$ 1,99 na Amazon ou de graça para quem assina o Kindle Unlimited.

Biografias

Estava lendo uma biografia (não posso contar ainda qual é), dessas bem detalhadas, em que o autor consulta mil arquivos e entrevista todas as pessoas vivas que foram íntimas do biografado, da infância até a última palavra engrolada. Pais, cônjuges, melhores amigos, colegas de trabalho.

Como será que é ser relevante o suficiente para ganhar uma biografia, com toda a dedicação e os custos que isso acarreta? Se vocês tivessem tamanho impacto na história da sua época, o que acham que as pessoas entrevistadas diriam de vocês?

Eu só consigo pensar no que minha mãe contaria da minha pessoa quando pirralha e rir muito. DE NERVOSO.

Mas não serei biografada, por isso já conto aqui pra vocês o básico da criança:

– Levava livro a festa de família e me trancava num cômodo para ler até alguém exigir que eu ficasse na festa.

– Não gostava de boneca, só de bola, carrinho e lápis de cor. Tudo meu tinha que ser azul. Minhas tias me convenceram a gostar de boneca quando arranjaram uma Barbie de vestido azul. Era um vestido bem legal e tão trevoso que minhas irmãs e eu passamos a usá-lo como “a roupa da vilã” nas brincadeiras.

– Achava que tinha um lobisomem morando do outro lado do portão misterioso que ficava no muro do quintal dos fundos. (Podem creditar essa às minhas irmãs, tão criativas.) Mas só tinha mesmo uma padaria.

– Acreditava que o Michael Jackson (o bonitinho dos tempos do Thriller, e, na minha opinião, meu noivo) vinha toda noite de avião levar minhas irmãs para passear, mas não me levava porque eu pegava no sono e não conseguia acordar na hora. (Botem na conta das minhas irmãs também.)

– Era tão ansiosa que era só ter um programa diferente, tipo festa de casamento, que me dava caganeira.

– Sentei num balanço pendurado numa árvore com minha irmã e uma prima. O galho estava podre de cupim e caiu em cheio na minha cabeça. Saí trançando as pernas, tão zureta que berrava MEU CÉREBRO, MEU CÉREBRO, EU VOU FICAR COM PROBLEMAS MENTAIS. (Tinha bom vocabulário e zero noção.)

– Fui internada por causa de uma febre, mas a diaba era tão forte que as enfermeiras tiveram que me amarrar no berço. Ficaram com medo que eu me atirasse da janela, porque comecei a delirar, jurando que era um gavião-aranha (híbrido da minha cabeça) e queria voar pra casa.

Pronto, o que tinha de interessante era isso.

E vocês? Que coisas levemente-constrangedoras-mas-engraçadinhas seus pais e irmãos revelariam aos seus biógrafos?

Texto publicado originalmente no meu perfil no Facebook em 31.1.2020.

Grande, feio, com cara de mau

Quando acordei, tinha uma tatuagem nova: um besouro enorme, preto, cobrindo todo o antebraço feito um inseto paleozoico. Examinei bem a figura, a cabeça dela tinha um rosto humano, masculino, maldoso.

Na mesma semana eu tinha feito minha primeira tatuagem, uma porcariazinha no braço direito, dessas que a gente tampa com a roupa quando não quer mostrar. Eu a havia ganhado num sorteio qualquer. Mas não me lembrava de jamais ter feito, nem mesmo desejado, uma tatuagem daquele tamanho, ainda mais de besouro grande, feio, com cara de mau.

Será que eu tinha um bom motivo para ter feito a tatuagem? Será que gostava dela? Claro que não. Antecipei os piores desdobramentos: a cara da minha mãe quando a visse, a dificuldade de arranjar emprego como caixa de banco com aquela coisa no braço ou a cicatriz caso resolvesse tirá-la a laser, e o custo, putz, o custo.

Levantei, zonza. O que tinha feito ontem? Não sou de beber, nem cheirar, nem injetar. Esfreguei os olhos, mas o besouro não sumiu. Ao contrário: quando saí do quarto para ver minha família, havia mais besouros. Dos de verdade: pretos, cascudos, cheios de zum-zum, e por mim tudo bem, nunca tive medo de besouro, mas por que eles me cercavam, vinham para cima de mim, nublavam a visão feito muscae volitantes? Que é isso, maldição?

“Mãe, nunca fui supersticiosa”, lembro-me de dizer, “mas acho que agora sou.”

Na rua os besouros acorriam à minha pessoa e os humanos se afastavam, contrariados. Tinham nojo de mim. Lembrei-me de ter lido que no século 19 as pessoas consideravam as baratas como coleópteros, portanto primas dos besouros, tudo a mesma coisa, e pensei vagamente: “Sou uma espécie de Kafka hipster”.

Antes de me resignar àquela solidão cercada de patas, asas e zumbidos, acordei.

E esse foi o sonho esquisito da semana.

Mas ainda é quarta-feira…

P. S.: Não tenho tatuagem. Nem acho que vou ter, porque sou cagona, sovina e morro de medo de agulha.

Está sem ideias para escrever?

Escritora, está sem ideias pra escrever?

Assista a documentários.

Dá certo para mim, talvez por não ser de caso pensado, mas não custa tentar.

Na década passada, estava sem nada para fazer um dia e, zapeando pela TV, vi parte de um documentário sobre plantas carnívoras. Saiu “Verde Efêmero do Éden”. Foi uma das minhas poucas incursões na ficção científica um conto que agradou muito os leitores. Um amigo, também autor e editor, chegou a me dizer para largar a fantasia e meter as caras na ficção científica, que lá era o meu lugar. (Não o ouvi, nem uma coisa exclui a outra, mas entendi o amigo: foi elogio.)

No começo desta década assisti a um documentário sobre teorias a respeito da cidade perdida da Atlântida. Tive um insight e fiz trocentas anotações para um romance histórico-mitológico, que ficou por terminar, mas um dia termina. Esses dias mesmo, peguei o bichinho no colo por um tempo antes de ele fugir de novo. É que vi um doc de arqueologia e na sequência despejei mais uma parte desse livro esquecido (mas não muito) na minha tela. Uma hora ele topa vir comer na minha mão.

Veja se dá certo para você.

É claro que a dica não vale só para documentários, mas também filmes de ficção, livros, música, passeios etc. Qualquer experiência que amplie suas referências é matéria-prima.

Publicado originalmente no meu perfil no Facebook em 3 de julho de 2019.

A morte e a torre

Ontem, voltando do almoço, vi um carro dos bombeiros à porta do prédio, retirando uma senhora numa cadeira de rodas.

À noite, por mensagem, a síndica contou que ela havia morrido.

Lembrei a imagem: a mulher pequena, muito velha, lúcida, conversando com o zelador e os bombeiros enquanto a carregavam escada abaixo até a maca e o carro para ir ao hospital. Não parei para olhar por mais que uns segundos. A situação estava sob controle, não precisavam de mim ali.

A falecida tinha 97 anos. Teve um infarto, mas, sabendo o que viria, deu tempo de escolher a roupa que usaria no velório. Era muito limpa e vaidosa, contou o zelador, e morou aqui por cinquenta anos. Espero que, além de longa, sua vida tenha sido boa.

Não a conheci, mas já devo tê-la visto. O prédio é grande e antigo, e parte das moradoras, ainda mais antiga, se reúne num banco ao lado do portão, quando não chove, para prosear. Talvez ela estivesse entre essas pessoas. Moro aqui há pouco mais de dois anos e é a segunda pessoa a morrer só no meu bloco.

Hoje cedo a síndica perguntou: como ela não está na cidade e a administradora do condomínio não abre aos domingos, será que eu poderia fazer a nota de falecimento para colar na porta do prédio e nos elevadores, avisando aos moradores onde e quando será o velório? Não tenho impressora, expliquei, terá que ser à mão. Serviu.

Antes de escrever, confirmei na internet o endereço do cemitério. E descobri, fascinada, que existem arranha-céus para os mortos, o maior deles aqui mesmo, em Santos.

Em seu site, o Memorial Necrópole Ecumênica se anuncia como o cemitério vertical mais alto do mundo, registrado no Guinness Book desde 1991. À primeira vista, parece um condomínio comum, a única torre numa rua de casinhas antigas, térreas, amuralhadas por um morro coberto de floresta. São “40 mil m² de área, 90% mata atlântica nativa preservada”, diz o site, que tem um chat para tirar dúvidas.

Reconheci a estranheza da pergunta e a fiz mesmo assim: parece bonito, posso visitar em circunstâncias felizes?

Posso. “Venha conhecer nosso museu de carros antigos.”

Meu “rolê trevoso no cemitério” acaba de ser redefinido.

Como eu escrevo

José Nunes De Cerqueira Neto tem um site chamado Como eu escrevo com uma proposta linda, que transcrevo nas palavras dele:

“Eu criei o ‘Como eu escrevo’ pensando nas pessoas que sofrem para escrever.

Saber como escrevem as pessoas que admiramos nos inspira a refletir sobre o nosso próprio processo criativo.

Minha esperança é que o projeto ajude a fazer da academia (e da literatura) um lugar melhor.”

O site está repleto de entrevistas com escritores, acadêmicos e juristas brasileiros. Entre autores de ficção e não ficção, já responderam às perguntas dele nomes conhecidos como Frei Betto, Laerte Coutinho, Leonardo Boff e Márcia Tiburi, além escritores de ficção especulativa como Alexey Dodsworth, Aline Valek, Braulio Tavares, Carolina ManciniCristina LasaitisChristopher KastensmidtErica Nara BombardiFelipe Castilho e tantos outros queridos que a gente acompanha. 

Agora estou entre eles, feliz e sorridente que nem uma invasora de selfie alheia.  O link para minha entrevista é este. Passem por lá!

Valeu, José!

Top 5 livros de Terror | Por Diego Guerra

No Top 5 livros de Terror que o Diego Guerra* fez para o site Crônicas Fantásticas, em meio a Lovecraft, Rudyard Kipling e Bram Stocker, está meu livro Contos sombrios! Nas palavras dele sobre o conto Chuva vem:

Um dia os estudiosos da literatura escreverão ensaios completos sobre esse conto curto. Enquanto o narrador conta suas agruras como morador de rua, somos seduzidos pela sua triste história, embalados docilmente pelo seu jeito simples, até que o final nos atinge como uma martelada na nuca. Daquelas coisas que a gente lê e fica com raiva porque sabe que jamais vai conseguir escrever algo tão bom assim.

Estou lisonjeada e muito feliz. Obrigada, Diego!

Confiram as 5 indicações aqui.

*Escritor e designer, autor de O Teatro da Ira (Draco, 2016) e O Gigante da Guerra (Crown, 2017).

A maluquice de abraçar gente estranha

Tive uma amiga que, quando via gente estranha chorando na rua, fazia questão de se aproximar e perguntar por quê. Eu achava maluquice. Uma maluquice do bem, mas ainda assim maluquice. Sempre pensei que se eu estivesse chorando na rua preferiria ser deixada em paz (como já aconteceu). E tinha receio de que a pessoa, alterada, pudesse gritar comigo ou me apresentar um problema que eu não poderia solucionar (como se a gente devesse esperar que alguém resolvesse nossos problemas; às vezes, só precisa falar deles ou ser respeitada em silêncio por alguém que se importa…). Essa impotência, com um quê de arrogância, me paralisa às vezes. Em geral, eu evito gente estranha e seus problemas.

Mas ontem, começo da tarde, quando eu estava no metrô indo à casa de uma amiga, sentou ao meu lado um jovem que olhava o celular e estremecia. Primeiro pensei que estivesse rindo, logo vi que soluçava. Aí fiz uma maluquice: perguntei por quê. Não entendi a resposta, o choro era intenso. Aí fiz outra maluquice: abracei o menino. Abracei forte, e ele chorou no meu ombro um tempão. Explicou que tinha saído com um amigo na noite anterior e de manhã vira no Facebook a notícia da morte dele. Ao que parecia, um acidente. Ele estava indo para a casa da família do amigo a fim de entender o que tinha acontecido. Chorou mais um pouco, abracei mais um pouco. Desceu mais calmo na sua estação. Espero que ele e a família estejam bem, na medida do possível.

Apesar da situação muito triste, vi beleza no fato de ele se deixar abraçar sem reservas por uma estranha. Não sei se eu me permitiria essa vulnerabilidade. Depois do exemplo dele, gostaria de pensar que sim.

Não sei em quem ele votou. Confesso que não me importa. Só sei que o mundo já é violento demais, e precisamos ser mais gentis com as pessoas, mesmo sob o risco de elas gritarem conosco ou contarem problemas que não podemos resolver. Vale a pena, e eu vou tentar.

Edit.: A quem interessar possa, sim, já rompi amizade em razão de posicionamento político inaceitável. Romperia de novo. Praticar empatia não faz de mim uma flor apolítica.

Gatos em particular

Depois de certa idade — e, para alguns de nós, isso pode ocorrer muito cedo — não existem novas pessoas, animais, sonhos, rostos, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, já apareceu antes, com outra máscara, outras roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é igual, igual, tudo é eco e repetição; e não há nem dor que não seja uma recorrência de algo há muito esquecido que se expressa numa angústica inacreditável, em dias de lágrimas, solidão, consciência de traição; e tudo por um gato pequeno, magro e moribundo.

Doris Lessing, Gatos em particular, em Sobre gatos; tradução de Julia Romeu, Autêntica Editora, 2017.