Dezesseis livros

Resgatei este texto de uma postagem que fiz no Facebook em 19/9/2014, pois adoro me surpreender com as memórias do aplicativo On this day. É uma lista não exaustiva de livros que indico por terem sido marcantes para mim. Se tiver curiosidade, ficam aí as dicas.😉

Cinco amigos já me chamaram na chincha para a lista dos DEZ LIVROS MARCANTES. Estava com preguiça de brincar, mas agora me sinto querida e vou fazer a simpática. Incluo apenas romances e antologias, não HQs nem peças de teatro, e não necessariamente em ordem de importância:

1. Coleção O Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. A série toda, tirando um livro ou outro. Ensinou-me a gostar de leitura, história, mitologia, folclore. Resvalava na distopia e tinha personagens complexos. (Sim, eu sei que o autor exala racismo em vários momentos e isso é deplorável. Mas não foi o que me marcou na infância. Recomendo a leitura com cautela. Se for ler com uma criança, aproveite para discutir esses pontos.)

2. Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho. Sabe quando você compra um livro do qual nunca ouviu falar porque estava em promoção e bateu curiosidade, e não se arrepende nem um pouco? Foi assim. Num fim de mundo em Portugal, onde as pessoas vivem da mesma maneira provavelmente há séculos, uma trama sutil envolve superstições, um possível lobisomem e principalmente a maldade humana. Um livro diferente, no mínimo.

3. O Círculo da Cruz, de Iain Pears. Caiu na minha mão meio por acaso. Trama de mistério, assassinato e misticismo na Inglaterra da Restauração (século XVII), contada sob quatro pontos de vista diferentes, alguns de pessoas francamente detestáveis, o que só enriquece a trama. Magistral.

4. O Ornamento do Mundo, de María Rosa Menocal. Não ficção. A história da Al-Andalus, a Espanha medieval governada pelos mouros. Uma narrativa encantadora, releio-a sempre que posso.

5. Um Espinho de Marfim e Outras Histórias, de Marina Colasanti. Contos de fadas de um lirismo simples e cativante, que fala com partes do meu ser que às vezes tenho dificuldade em contatar. Forte influência no meu estilo de escrita.

6. As Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell. Dispensa apresentações, né? Para mim, a história do Rei Artur é conforme contada pelo Bernardão.

7. Harry Potter, de J.K. Rowling. Série completa, em especial O Prisioneiro de Azkaban. Meu envolvimento com esse livro foi tamanho que cheguei a ter dor de cabeça enquanto lia o clímax. Também dispensa apresentações, então só digo que reavivou meu interesse por fantasia e literatura infanto-juvenil.

8. Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis. Estilo firme, com lirismo e bom-humor nos lugares certos. Impressiona o fato de a autora ter apenas 24 anos quando o lançou. Aproveite que o livro foi relançado em e-book este ano.

9. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. De jeito nenhum poderia estar fora da lista. Um livro difícil para a menina de 13 anos que eu era quando li. Ampliou meu vocabulário e minha percepção da complexidade emocional humana. Apesar de ser considerado por gente mal-informada como “só um livro de mulherzinha”, foi na contramão das obras da época, considerado perverso e negativo pelos críticos (talvez por seus protagonistas dolorosamente humanos). E Brontë escreveu-o aos 19 anos…

10. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Apesar de este também dispensar apresentações, quero dizer que é provavelmente o livro mais engraçado que já li. E, por que não, um dos mais tristes.

11. Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. Profundo, íntimo, perverso, apaixonante. Nunca houve um livro de vampiros como esse, e nunca mais haverá.

12. Memórias de um Diabo de Garrafa, de Alexandre Raposo. O personagem central, um demoninho conjurado e lacrado numa garrafa, conta uma história que atravessa o mundo e os séculos, em meio a personagens e momentos históricos reais, com bom humor e originalidade. Do jeito que eu gosto.

13. Zigurate, de Max Mallmann. A trama reúne doses bem pensadas de aventura, mistério, bom humor, sensualidade e momentos filosóficos ao contar a história de dois personagens que, basicamente, testemunharam toda a história da humanidade. Divertidíssimo.

14. Territórios Invisíveis, de Nikelen Witter. Tem folclore, mitologia, mistério, aventura, perigo, momentos engraçados e personagens humanos e complicados, que despertam simpatia e às vezes até revolta. Um infanto-juvenil cheio de nuances, para adulto nenhum botar defeito.

15. Meio óbvio, mas vá: A Song of Ice and Fire, de George R.R. Martin. Levei uns 6 meses para ler os 5 tijolões da série (ainda incompleta) e, no final, estava tão emocionalmente envolvida que foi como terminar um relacionamento. Bateu vazio existencial e tudo. Sim, é tão legal quanto dizem.

Aumento a lista, que deveria ser de 10, para 16: The Last Unicorn, de Peter S. Beagle. Porque unicórnios são MUITO legais, ponto. Mentira, não é só por isso. É uma história delicada, irônica, bem-humorada e ao mesmo tempo triste (oi, Quixote) sobre a busca pelo amor e pela beleza, e como o desejo pode se transformar em cobiça e crueldade, e levar à morte da magia no mundo. Um dos livros mais bonitos que já li. Falei um pouco mais sobre ele e outros aqui.

Escolhas, oportunidades e imposições

“Ao meu ver, traduzir bem é conseguir ‘ouvir’ a voz do autor e encontrar algo similar na língua de chegada, um efeito equivalente (já que o equivalente perfeito não existe), portanto, encontrar essa voz em autores com que não nos identificamos plenamente é um exercício e tanto.” Flávia Souto Maior no blog Ponte de Letras.

Ponte de Letras – Ano 3

Em uma oficina de tradução do espanhol da qual participo, o professor pediu que os alunos escolhessem um autor, e um conto do respectivo autor, para traduzir. Para ajudar na tarefa, passou uma lista de nomes, mas quem quisesse teria ainda a opção de escolher alguém de fora da lista (contanto que estivesse em domínio público ou prestes a entrar). Diante de tantas possibilidades, comecei a ler vários contos de cada autor e a selecionar os que mais me agradavam.

Isso mesmo, meu critério de escolha, inconscientemente, foi meu gosto pessoal. Não pensei se seria fácil ou difícil de traduzir, se apresentaria ou não algum desafio tradutório de qualquer natureza, se era curto ou longo. Simplesmente fui separando coisas mais próximas do que eu gostaria de ler.

Só depois parei para pensar: chegando aos sessenta livros traduzidos, posso contar nos dedos aqueles com que me identifico como leitora. Lamentei por…

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Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

Ela & eu

O lance é assim: ela no seu canto, eu no meu.
É assim que a gente se curte.
Juntas, nada presta. Separadas, temos tempo de recriar o fascínio. Quando ficamos próximas tempo demais, tenho vontade de fugir; ela, de acabar comigo. Se o reencontro é breve, olho-a e vejo-a inédita, se bem que gasta; bonita, ainda que disforme; e, embora injusta, amorosa. Recebe-me ensolarada, de braços abertos. No olhar, o brilho de quem prefere o aperto da saudade à gastura da convivência.
E assim deixo-a, horas depois: encanto renovado e votos reiterados de voltar logo mais. Mas não tão logo, nem por tanto tempo. Só um pouco: o bastante.
Sampa, essa doida. Ela no seu canto, eu no meu.

Publicado originalmente no meu mural do Facebook em 6/6/2014.

O ego é a criança ferida

Tenho reparado nisso. As pessoas acham que tudo é sobre elas, para elas ou contra elas, individualmente; quando, na verdade, o que fazemos é quase sempre por e para nós mesmos. Saber disso nos ajuda a caminhar rumo à paz de espírito, pois passamos a nos importar menos com o que os outros dizem. Afinal, mesmo quando falam contra nós, muitas vezes, estão falando apenas de si mesmos.

“O ego é a criança ferida dentro de nós. Tudo incomoda, tudo fere, tudo mexe com essa criança. Porque ela acredita, lá no fundo, que o mundo existe para ela; ou está contra ela. E isso inverte completamente a nossa interpretação da realidade; e faz tudo parecer muito maior e mais problemático e mais doloroso; porque essa criança interior se vitimiza. Todos passamos por isso, nos momentos em que ficamos passageiros do ego. Cabe respirar, olhar com calma e, se pôde ver e reconhecer mais uma armadilha do ego – agradecer por mais uma camada de aprendizado. Que sejamos melhores hoje do que fomos ontem.”

Paulo Roberto Ramos Ferreira, coach e terapeuta transpessoal

Liberdade de expressão

“Liberdade de expressão é você poder falar o que pensa sem esquecer que você é responsável pelo que fala. Se o que você fala incomoda os outros, os outros também têm a liberdade de se expressar. Se o que você fala fere as leis do seu país, você tem que arcar com as consequências disso. E por aí vai. Só não dá para achar que a gente pode falar o que bem entende porque é nosso direito e que todos os demais ao redor ficarão quietinhos, sorridentes, concordem ou não.”

Eric Novello, em 2014

Não somos obrigadas

Uma vez, uma amiga me disse que o pior calhorda é o calhorda educado.

Eu concordo. Ele é o mais difícil de identificar, e, mesmo após identificado, é aquele ao qual temos mais dificuldade para reagir.

Aprendemos a sorrir quando não queremos, a dar atenção para pessoas cuja companhia nos repele, a desrespeitar nossos instintos e trair nossos sentimentos, a quase nunca dizer não; e, quando dizemos, antes disso temos de pedir desculpas, como se não querer fosse uma afronta ao outro. Os sentimentos dele, afinal, valem mais que os nossos. Tudo por causa da bendita “educação”, que não passa de condicionamento social para suportar o insuportável.

Com essa cultura, como lidar com alguém que está sempre perto, muito perto de nos irritar, mas nunca passa daquele limite em que as atitudes se tornam claramente ofensivas? Como lidar com o calhorda educado, que não pisa fundo no calo, mas dá um sorrisinho toda vez que ameaça pisar?

Foi por meio do meu contato com outras mulheres, mais vividas, seguras de si e conscientes do próprio valor, que aprendi uma coisa simples: não sou obrigada. Apesar do condicionamento social, não sou obrigada. Apesar de ser mulher, apesar de ter sido treinada para sorrir, apesar de ter sido ensinada a modular a voz para soar mais doce mesmo quando rumino o amargo do desconforto, não, eu não sou obrigada. Meu único dever é o respeito, aquela via de mão dupla. O resto é teatro, é maquiagem, aquela coisa que as pessoas esperam que as mulheres usem, mas os homens, não. Quero dizer: só mais uma dessas muitas coisas.

Há quem queira nos obrigar, sempre haverá; mas não obrigar a mim mesma é libertador. O feminismo me ensinou isso. Não o feminismo acadêmico, teórico, restrito. O feminismo da web, o feminismo da rua, o feminismo de mina pra mina, de mana pra mana, discutido e praticado por cada vez mais gente que, como eu, não aceita mais ser obrigada.

Muito obrigada.