Jabuti 2016

A lista de premiados pelo Jabuti em 2016 está cheia de autoras em diversas categorias. Destaco (por motivos francamente pessoais):
 
Juvenil, 3º lugar: Iluminuras, de Rosana Rios, Editora Lê;
 
Reportagem e Documentário, 1º lugar: Cova 312, de Daniela Arbex, Geração;
 
Romance, 3º lugar: Desesterro, de Sheyla Smanioto, Record.
 
Parabéns, mulheres!
 
Link para a lista completa em todas as categorias aqui.

Sobre a vida fora do Facebook

Outro dia, um amigo meu, escritor de mão cheia, lançou um livro em São Paulo. Eu sabia que ele estava para lançar, mas não imaginava quando. Estava em São Paulo, mas não soube do lançamento. Ele provavelmente divulgou muito no Facebook e convidou todo mundo para o evento criado na rede social, mas, ainda assim, eu não soube. Perdi o lançamento. Claro que ainda dá para comprar o livro, ora. Mas o grande dia, o abraço, o autógrafo, perdi.

Moral da história: não dependam só do Face, amiguinhos! A gente não vê tudo o que rola por lá, mesmo que tente. Aliás, dependam cada vez menos dele! Usem também o bom e velho e-mail. Visitem os blogs nos quais vocês eram viciados há uns anos. Escrevam, convidem, contem as novidades, perguntem “como vai?”. Aí fica quase impossível a amiga dizer “ih, não sabia do seu lançamento/aniversário/festa do divórcio” (mas ela ainda pode dizer, “ah, esqueci” ou “ih, não deu pra ir”, e tudo bem).

Os colegas que já têm newsletters estão promovendo um retorno à comunicação via e-mail, felizmente livre de apresentações em PowerPoint, correntes supersticiosas e historinhas ingênuas e edificantes (que migraram para o Facebook e o Whatsapp, porque nada é perfeito, né?). Esses colegas estão dando um bom exemplo. Até eu, que nem sempre tenho algo assim superimportante a dizer, estou considerando montar uma newsletter… E aí assina quem quer.

Ainda sobre a relação de amor e ódio com o Facebook, recomendo duas leituras:

Então eu meio que resolvi sair do Facebook. Oh noes! O tom e a intenção do autor são muito pessoais, mas eu “me li” em cada parágrafo.

Facebook’s Mental Health Problem. É longo e está em inglês, mas vale a pena. A autora fala sobre a relação entre a depressão e o uso de redes sociais. A situação pode não ser verdadeira para todo mundo, mas com certeza vale para muitos. Foi-me enviado por um amigo que saiu do Facebook e não se arrependeu.

Dezesseis livros

Resgatei este texto de uma postagem que fiz no Facebook em 19/9/2014, pois adoro me surpreender com as memórias do aplicativo On this day. É uma lista não exaustiva de livros que indico por terem sido marcantes para mim. Se tiver curiosidade, ficam aí as dicas.😉

Cinco amigos já me chamaram na chincha para a lista dos DEZ LIVROS MARCANTES. Estava com preguiça de brincar, mas agora me sinto querida e vou fazer a simpática. Incluo apenas romances e antologias, não HQs nem peças de teatro, e não necessariamente em ordem de importância:

1. Coleção O Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. A série toda, tirando um livro ou outro. Ensinou-me a gostar de leitura, história, mitologia, folclore. Resvalava na distopia e tinha personagens complexos. (Sim, eu sei que o autor exala racismo em vários momentos e isso é deplorável. Mas não foi o que me marcou na infância. Recomendo a leitura com cautela. Se for ler com uma criança, aproveite para discutir esses pontos.)

2. Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho. Sabe quando você compra um livro do qual nunca ouviu falar porque estava em promoção e bateu curiosidade, e não se arrepende nem um pouco? Foi assim. Num fim de mundo em Portugal, onde as pessoas vivem da mesma maneira provavelmente há séculos, uma trama sutil envolve superstições, um possível lobisomem e principalmente a maldade humana. Um livro diferente, no mínimo.

3. O Círculo da Cruz, de Iain Pears. Caiu na minha mão meio por acaso. Trama de mistério, assassinato e misticismo na Inglaterra da Restauração (século XVII), contada sob quatro pontos de vista diferentes, alguns de pessoas francamente detestáveis, o que só enriquece a trama. Magistral.

4. O Ornamento do Mundo, de María Rosa Menocal. Não ficção. A história da Al-Andalus, a Espanha medieval governada pelos mouros. Uma narrativa encantadora, releio-a sempre que posso.

5. Um Espinho de Marfim e Outras Histórias, de Marina Colasanti. Contos de fadas de um lirismo simples e cativante, que fala com partes do meu ser que às vezes tenho dificuldade em contatar. Forte influência no meu estilo de escrita.

6. As Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell. Dispensa apresentações, né? Para mim, a história do Rei Artur é conforme contada pelo Bernardão.

7. Harry Potter, de J.K. Rowling. Série completa, em especial O Prisioneiro de Azkaban. Meu envolvimento com esse livro foi tamanho que cheguei a ter dor de cabeça enquanto lia o clímax. Também dispensa apresentações, então só digo que reavivou meu interesse por fantasia e literatura infanto-juvenil.

8. Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis. Estilo firme, com lirismo e bom-humor nos lugares certos. Impressiona o fato de a autora ter apenas 24 anos quando o lançou. Aproveite que o livro foi relançado em e-book este ano.

9. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. De jeito nenhum poderia estar fora da lista. Um livro difícil para a menina de 13 anos que eu era quando li. Ampliou meu vocabulário e minha percepção da complexidade emocional humana. Apesar de ser considerado por gente mal-informada como “só um livro de mulherzinha”, foi na contramão das obras da época, considerado perverso e negativo pelos críticos (talvez por seus protagonistas dolorosamente humanos). E Brontë escreveu-o aos 19 anos…

10. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Apesar de este também dispensar apresentações, quero dizer que é provavelmente o livro mais engraçado que já li. E, por que não, um dos mais tristes.

11. Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. Profundo, íntimo, perverso, apaixonante. Nunca houve um livro de vampiros como esse, e nunca mais haverá.

12. Memórias de um Diabo de Garrafa, de Alexandre Raposo. O personagem central, um demoninho conjurado e lacrado numa garrafa, conta uma história que atravessa o mundo e os séculos, em meio a personagens e momentos históricos reais, com bom humor e originalidade. Do jeito que eu gosto.

13. Zigurate, de Max Mallmann. A trama reúne doses bem pensadas de aventura, mistério, bom humor, sensualidade e momentos filosóficos ao contar a história de dois personagens que, basicamente, testemunharam toda a história da humanidade. Divertidíssimo.

14. Territórios Invisíveis, de Nikelen Witter. Tem folclore, mitologia, mistério, aventura, perigo, momentos engraçados e personagens humanos e complicados, que despertam simpatia e às vezes até revolta. Um infanto-juvenil cheio de nuances, para adulto nenhum botar defeito.

15. Meio óbvio, mas vá: A Song of Ice and Fire, de George R.R. Martin. Levei uns 6 meses para ler os 5 tijolões da série (ainda incompleta) e, no final, estava tão emocionalmente envolvida que foi como terminar um relacionamento. Bateu vazio existencial e tudo. Sim, é tão legal quanto dizem.

Aumento a lista, que deveria ser de 10, para 16: The Last Unicorn, de Peter S. Beagle. Porque unicórnios são MUITO legais, ponto. Mentira, não é só por isso. É uma história delicada, irônica, bem-humorada e ao mesmo tempo triste (oi, Quixote) sobre a busca pelo amor e pela beleza, e como o desejo pode se transformar em cobiça e crueldade, e levar à morte da magia no mundo. Um dos livros mais bonitos que já li. Falei um pouco mais sobre ele e outros aqui.

Escolhas, oportunidades e imposições

“Ao meu ver, traduzir bem é conseguir ‘ouvir’ a voz do autor e encontrar algo similar na língua de chegada, um efeito equivalente (já que o equivalente perfeito não existe), portanto, encontrar essa voz em autores com que não nos identificamos plenamente é um exercício e tanto.” Flávia Souto Maior no blog Ponte de Letras.

Ponte de Letras – Ano 3

Em uma oficina de tradução do espanhol da qual participo, o professor pediu que os alunos escolhessem um autor, e um conto do respectivo autor, para traduzir. Para ajudar na tarefa, passou uma lista de nomes, mas quem quisesse teria ainda a opção de escolher alguém de fora da lista (contanto que estivesse em domínio público ou prestes a entrar). Diante de tantas possibilidades, comecei a ler vários contos de cada autor e a selecionar os que mais me agradavam.

Isso mesmo, meu critério de escolha, inconscientemente, foi meu gosto pessoal. Não pensei se seria fácil ou difícil de traduzir, se apresentaria ou não algum desafio tradutório de qualquer natureza, se era curto ou longo. Simplesmente fui separando coisas mais próximas do que eu gostaria de ler.

Só depois parei para pensar: chegando aos sessenta livros traduzidos, posso contar nos dedos aqueles com que me identifico como leitora. Lamentei por…

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Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

Ela & eu

O lance é assim: ela no seu canto, eu no meu.
É assim que a gente se curte.
Juntas, nada presta. Separadas, temos tempo de recriar o fascínio. Quando ficamos próximas tempo demais, tenho vontade de fugir; ela, de acabar comigo. Se o reencontro é breve, olho-a e vejo-a inédita, se bem que gasta; bonita, ainda que disforme; e, embora injusta, amorosa. Recebe-me ensolarada, de braços abertos. No olhar, o brilho de quem prefere o aperto da saudade à gastura da convivência.
E assim deixo-a, horas depois: encanto renovado e votos reiterados de voltar logo mais. Mas não tão logo, nem por tanto tempo. Só um pouco: o bastante.
Sampa, essa doida. Ela no seu canto, eu no meu.

Publicado originalmente no meu mural do Facebook em 6/6/2014.