Beneficiários do acaso

Abaixo, em tradução livre minha, seguida do original, está uma uma das coisas mais lindas que li na vida. Não tem a ver com crer num além-vida ou não. Tem a ver com reconhecer a existência do amor. Apesar de respeitar o direito das pessoas à espiritualidade e à prática religiosa, o ponto de vista de Ann e Carl é, para mim, mais realista e reconfortante que qualquer expectativa para o que vem (ou não) depois. O amor tem muitas faces. Encontrá-lo e vivê-lo a cada dia é um acaso que desejo a todos. 

“Quando meu marido morreu, por ser tão famoso e conhecido como cético, muitas pessoas vieram falar comigo — isso ainda acontece às vezes — e me perguntaram se Carl mudou no fim e se converteu a alguma crença num além-vida. Muitas vezes também me perguntam se acho que voltarei a vê-lo. Carl encarou a morte com uma coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia era que nós sabíamos que nunca mais veríamos um ao outro. Não espero um dia me reunir com Carl. O importante é que, enquanto estivemos juntos, por quase vinte anos, vivemos com um distinto reconhecimento de como a vida é breve e preciosa. Nunca banalizamos o significado da morte ao fingir que ela era algo além de uma separação final. Cada momento que passamos vivos e juntos foi miraculoso — não miraculoso no sentido de inexplicável ou sobrenatural. Sabíamos que éramos beneficiários do acaso… que o mero acaso poderia ser muito generoso e gentil… que pudemos encontrar um ao outro, como Carl escreveu tão lindamente em ‘Cosmos’, vocês sabem, na vastidão do espaço e na imensidão do tempo… que pudemos passar vinte anos juntos. Isso é algo que me conforta e é muito mais significativo… O modo como ele me tratou e eu o tratei, a forma como tomamos conta um do outro e da nossa família enquanto ele viveu. Isso é muito mais importante do que a ideia de que eu o verei um dia. Não acho que jamais verei Carl outra vez. Mas eu o vi. Nós nos vimos. Nós nos encontramos no cosmo, e isso foi maravilhoso.”

— Ann Druyan sobre Carl Sagan em entrevista ao Committee for Skeptical Inquiry (Comitê pela Investigação Cética)


“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me-it still sometimes happens-and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But, the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous-not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance. . . . That pure chance could be so generous and so kind. . . . That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time. . . . That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful. . . . The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived. That is so much more important than the idea I will see him someday. I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

— Ann Druyan [about Carl Sagan] interviewed by the Committee for Skeptical Inquiry

 

Fonte: Wikiquote.

Não tem receita

“Os escritores inexperientes tendem a procurar receitas para escrever bem. Você compra o livro de receitas, pega a lista de ingredientes, segue as instruções e pronto! Uma obra-prima! O Suflê Infalível! Não seria ótimo? Mas, infelizmente, não há receita. (…) O único modo de aprender a escrever bem é tentar escrever bem. Normalmente isso começa quando você lê obras bem escritas por outras pessoas e escreve mal por um bom tempo.”

Ursula K. Le Guin, conforme matéria do The Guardian. Traduzi livremente.

D’O Colar da Pomba

Esta é uma retradução livre de parte do capítulo Esconder o Segredo (Of Concealing the Secret) d’O Colar da Pomba, de Ibn Hazm (994-1064), a partir da tradução para o inglês feita por Arthur John Arberry (1905-1969), orientalista e tradutor do persa e do árabe, responsável por traduções do Alcorão, de poemas de Rumi e de autores andaluzes da Espanha Árabe. Traduzi o trecho em destaque por fazer parte da minha pesquisa atual.

Um dos atributos do amor é conter a língua; o amante negará tudo caso seja interrogado, fingirá grandes demonstrações de força e parecerá extremamente contido, um solteiro convicto. Com isso, o segredo sutil se revelará. As chamas da paixão que lhe ardem no peito serão vislumbradas em seus gestos e na expressão dos olhos; rastejarão, lentas, mas determinadas, a céu aberto, como o fogo em meio ao carvão ou a água por entre o barro seco. Nos primeiros estágios, é possível ludibriar aqueles desprovidos de maior sensibilidade; uma vez que o Amor tenha se estabelecido com firmeza, contudo, isso será completamente inviável.

Às vezes, a razão para tal reticência é o desejo do amante de evitar ver-se marcado aos olhos de seus colegas; ele professa que o galanteio é um sinal de frivolidade, e portanto (diz ele) foge do amor e nada quer com ele. Mas esta não é de forma alguma a abordagem correta; ao bom muçulmano basta se abster das coisas que Deus proibiu, das quais, se decidir fazer, terá que prestar contas no Dia da Ressurreição. Mas admirar a beleza e ser dominado pelo amor é uma coisa natural que não se inclui nos mandamentos e proibições divinas; todos os corações estão nas mãos de Deus, para deles dispor como Ele quiser, e tudo que se pede a eles é que devem saber e considerar a diferença entre certo e errado, e crer firmemente no que é verdadeiro. O Amor em si é uma disposição inata; o homem pode apenas controlar os movimentos de seus membros, [capacidade] que adquiriu por um esforço decidido.

 

Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

Noite Estrelada

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Noite Estrelada. Van Gogh, 1889. Via Wikipedia.

“No outono de 1970, eu trabalhava cantando no sistema escolar, tocando violão em salas de aula. Um dia, estava sentado na varanda de manhã lendo uma biografia de Van Gogh e, de repente, soube que precisava escrever uma música dizendo que ele não era louco. Ele tinha uma doença, assim como seu irmão Theo. Isso o torna diferente, a meu ver, de um ‘louco’ qualquer – porque ele tinha sido rejeitado por uma mulher [como muitos pensavam]. Então, sentei com uma cópia de Noite Estrelada e escrevi a letra numa sacola de papel.”

Don McLean em entrevista a Helen Brown para o Telegraph.

A defesa de Van Gogh foi gravada em 1971 com o nome de Vincent ou Starry, Starry Night. Nela, McLean faz referência a várias obras do pintor e argumenta que ele tentou se comunicar com o mundo por meio da beleza de sua arte; a incompreensão e o desespero, aliados à sua doença, o teriam levado ao suicídio. Uma verdadeira ode ao acolhimento das pessoas portadoras de psicopatologias, numa época em que pouco (ou nada?) se falava sobre isso.

É uma das músicas mais bonitas que já ouvi, e não lembro quando foi a primeira vez que o fiz. Escutar acompanhando a letra é garantia de choro para mim.

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Doze Gisassóis numa Jarra. Van Gogh, 1888. Via Wikipedia.

Agora, não estou conseguindo publicar o vídeo da música no YouTube aqui, porque o WordPress não me ama mais. Mas você pode ouvi-la toda aqui. O vídeo traz a letra, mas os tempos estão um pouco adiantados, então, é mais confortável ouvir a canção lá e ler a letra aqui.

Caso você ainda não tenha muita familiaridade com o inglês, ofereço uma tradução não poética (sem preocupação com as rimas e a métrica do original) abaixo.

Noite estrelada, estrelada
Pinte sua paleta de azul e cinza
Olhe para fora num dia de verão com olhos que conhecem a escuridão na minha alma

Sombras nas colinas
Esboce as árvores e os narcisos
Capture a brisa e o frio do inverno em cores na terra nevada e linhosa

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Noite estrelada, estrelada
Flores flamejantes que ardem e brilham
Nuvens rodopiando na bruma violeta refletem-se no azul-anil dos olhos de Vincent

Cores mudando de matiz
Campos matinais de grãos ambarinos
Rostos gastos marcados pela dor são suavizados sob as mãos amorosas do artista

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Pois não puderam amar você, mas ainda assim seu amor foi verdadeiro
E, quando não restou nenhuma esperança dentro daquela noite estrelada, você tirou sua vida como os amantes costumam fazer
Mas eu poderia ter lhe dito, Vincent, este mundo não foi feito para alguém tão bonito quanto você

Noite estrelada, estrelada
Retratos pendurados em salas vazias
Cabeças sem moldura em paredes sem nome com olhos que observam o mundo e não conseguem esquecer

Como os estranhos que você conheceu
Os homens esfarrapados em trajes esfarrapados
O espinho de prata, uma rosa de sangue, jazem esmagados e quebrados na neve virgem

Agora acho que sei o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, ainda não estão ouvindo
Talvez nunca ouçam

trigal

Trigal com Corvos. Van Gogh, 1890. Via Wikipedia.

De acordo com o site Van Gogh Gallery, “olhe para fora num dia de verão” é uma referência ao ponto de vista do pintor no asilo em Saint-Remy, onde pintava o jardim visto pela janela do quarto; as “flores flamejantes” referem-se à sua série de girassóis; as “nuvens rodopiantes” estão no próprio quadro Noite Estrelada; os “campos de grãos ambarinos” são o Trigal com Corvos; e os “rostos gastos” são Os Comedores de Batata. Ah, e “terra linhosa” é porque a tela de pintura é feita de linho.

P.S.: McLean é o mesmo autor e cantor da famosa American Pie.

Homossexualidade e Civilização: o Amor na Espanha Árabe

O livro Homossexuality and Civilization, de Louis Crompton, faz parte da pesquisa para o romance que estou escrevendo. Crompton, falecido em 2009, foi um acadêmico que se dedicou ao estudo da diversidade sexual (queer studies) desde a década de 1970, e há uma palestra dele sobre o tema no Youtube. A obra se refere principalmente à homossexualidade masculina, embora essa não seja, necessariamente, a intenção do autor: as fontes, afinal, se ocupam da história dos homens muito mais que da história das mulheres. Fala de diversas culturas e épocas, não se limitando ao Ocidente. Mas não expõe com o mesmo detalhismo a história da homossexualidade em todos os povos abordados (novamente, talvez por falta de fontes escritas). Mesmo assim, é uma leitura prazerosa e instrutiva, acessível para leigos como eu. Vejam o índice.

Peguei o livro no sossego do recesso de fim de ano, que dediquei às minhas pesquisas. Para assimilar melhor o conteúdo que me interessava diretamente, fui traduzindo alguns trechos. A seção Love in Arab Spain, de onze páginas, corresponde a cerca de 1,8% do livro, que tem 623 páginas. Como não há nenhuma previsão do seu lançamento em português, confio que estas linhas não vão ferir nem a memória do autor nem os direitos dos herdeiros. A intenção é meramente compartilhar com vocês algumas das coisas fascinantes que aprendi.

Já aviso que não fiz a tradução poética (com rimas e métrica) dos versos citados, limitando-me a traduzir o significado, que importava mais. Não incluí as notas de rodapé do original, que só podem ser consultadas no fim do livro, e inseri duas notas minhas, além de completar as datas de nascimento e morte dos principais personagens históricos. A intenção é orientar melhor a mim mesma e aos eventuais leitores.

É isso aí. Aproveitem. 🙂

Homossexuality and Civilization – Louis Crompton

O Amor na Espanha Árabe (páginas 161 a 172)

tradução: Camila Fernandes

 

Quais eram, poderíamos perguntar, as atitudes em relação à homossexualidade naquelas terras muçulmanas tão temidas no Ocidente cristão?

Um indício pode ser encontrado em sua literatura, que é pródiga em poesia amorosa homoerótica, principalmente na Espanha árabe. Seu florescimento aqui não foi único, mas deu-se em paralelo com o mundo islâmico em geral. Manifestações líricas semelhantes também agraciaram as cortes do Iraque e da Síria, os jardins da Pérsia, as montanhas do Afeganistão, as planícies do Império Mogol (Índia), os domínios dos turcos otomanos e os estados africanos do Egito, Tunísia e Marrocos. Antologias medievais islâmicas, compiladas em Bagdá, Damasco, Isfahan, Kabul, Délhi, Istambul, Cairo, Kairouan e Fez, revelam, com impressionante consistência e por mais de um milênio, a mesma tendência à paixão homoerótica que encontramos nos poemas de Córdoba, Sevilha e Granada.

A civilização governada pelos califas omíadas de Córdoba, entre os anos 756 e 1031, sobrepujou qualquer uma na Europa católica. A única rival de Córdoba entre as cidades europeias era Constantinopla, do outro lado do continente. Na verdade, os califas podem ter ultrapassado culturalmente os imperadores bizantinos contemporâneos, e é provável que mantivessem uma administração pública de nível mais elevado. Muitos de seus súditos cristãos (e certamente os judeus espanhóis) preferiam esses governantes infiéis no lugar dos visigodos. A arquitetura mourisca produziu, ao longo dos séculos, obras-primas como a Grande Mesquita de Córdoba, o Alcázar e a Giralda em Sevilha e a Alhambra em Granada. Os ibéricos nativos estudavam avidamente a poesia árabe para chegar a um estilo elegante e expressivo, e estudiosos da Europa cristã vinham a Sevilha, Toledo e Córdoba estudar medicina, astronomia e matemática. O erudito Silvestre II (946-1003), papa de Roma no ano 1000, foi estudante em Córdoba.

Para os moralistas do outro lado dos Pirineus, a cultura islâmica parecia um paraíso luxurioso e provocante, dotado de haréns, belas garotas escravas e sakis[1] de beleza suspeita. Mas, nas questões sexuais, o islã mantinha uma ambivalência paradoxal, inclusive em relação à homossexualidade, pois o rigor e a intolerância que caracterizavam o judaísmo e o cristianismo tradicionais reapareceram nas leis da terceira religião abraâmica, principalmente sob a influência das escrituras hebraicas.

O Alcorão demonstra tanto influência judaica quanto cristã na forma como interpreta a história de Sodoma. Embora Maomé (570-632) não mencione esta cidade pelo nome, ele estava bem familiarizado com a história de Ló e se refere ao episódio várias vezes. Apresenta Ló como um profeta de Deus (como o próprio Maomé) e interpreta o fogo que vem dos céus como prova da disposição de Deus para castigar aqueles que ignoram seus mensageiros. Maomé chama os homens de Sodoma simplesmente de “povo de Ló”, isto é, vizinhos de Ló. Por meio dessa curiosa associação, a palavra árabe comum para sodomia, liwat, deriva do nome de Ló, assim como a palavra para homossexual, luti, literalmente “lotita”. No Alcorão, Maomé faz Ló repreender “seu povo” por cobiçar outros homens, preferência que ele condena como “abominação”, e representa Deus punindo-os com tabletes de barro cozido que chovem do céu.

Ao assinalar castigos, porém, o Alcorão não chega à ferocidade do Levítico. Após confinar as mulheres adúlteras às suas casas, Maomé acrescenta: “E quando a vocês dois [homens], que são culpados disso, que ambos sejam castigados. Se eles se arrependerem e melhorarem, deixem-nos em paz. Vejam! Deus é Piedoso, Misericordioso”. Mas o Alcorão não era a única fonte de autoridade entre os muçulmanos ortodoxos. Também havia os hadith, uma série de ditos atribuídos a Maomé que apareceu em cinco enormes coletâneas no século IX. Incluem um decreto ditando que tanto o parceiro ativo quanto o passivo sejam apedrejados, visão que definitivamente influenciou a lei islâmica.

O teólogo Malik de Medina (711-795), cuja escola de jurisprudência acabou por tornar-se dominante na Espanha e no Norte da África, apoiava a pena de morte. Assim como o líder de outra importante escola, o literalista Ibn Hanbal (780-855). Outros, mais lenientes, reduziam a punição ao açoitamento, normalmente cem chibatadas. Sentenças cruéis foram distribuídas por sucessores imediatos de Maomé. Abu Bakr (573-634), amigo do Profeta e primeiro califa muçulmano (632-634), prescreveu a fogueira como penalidade e mandou soterrar um homem condenado sob os escombros de um muro. (No Afeganistão moderno, esse castigo foi revivido pelos governantes talibãs em versão atualizada: os muros foram derrubados por tratores de esteira. O cunhado de Maomé e quarto califa, Ali (601-661) — posteriormente considerado infalível e semidivino pelos muçulmanos xiitas —, mandou jogar um homem culpado do topo de um minarete; outros foram apedrejados.

Assim, no início da teoria e da prática judiciárias, a severidade do Velho Testamento veio, ao menos teoricamente, dominar o âmbito legal do islã.

Em outros pontos da cultura islâmica, porém, as evidências são visivelmente contraditórias. As atitudes populares eram mais acolhedoras que na Cristandade, e os visitantes europeus chocavam-se com frequência com a tolerância relaxada dos árabes, turcos e persas, que pareciam não ver nada de antinatural no amor entre homens e garotos.

Por trás dessa importante diferença cultural há uma veia romântica profundamente enraizada nos tratados árabes medievais de amor. Para os autores islâmicos, a intoxicação emocional pode surgir não só do amor das mulheres, como com os trovadores, mas também do amor masculino.

Entusiastas árabes sustentavam que o amor romântico era uma experiência importante e valiosa por si só. Mas como podiam conciliar essa visão com sua fé? Faziam isso apelando para outra hadith atribuída ao Profeta: “Aquele que ama e permanece casto e esconde seu segredo e morre, morre como mártir”. Esse amor não era limitado pelo gênero.

O escritor iraquiano Al-Jahiz (776-868), que escreveu amplamente sobre o amor, havia estabelecido a regra de que o ishq, ou amor apaixonado, só podia existir entre um homem e uma mulher. Mas Ibn Daud (868-909), que nasceu no ano da morte de Jahiz, reconheceu a possibilidade do amor entre homens em seu Livro da Flor (Kitab al-Zahra), e essa visão prevaleceu na cultura árabe tardia. Ibn Daud era tanto um jurista culto quando um literato; mas, de acordo com um relato citado diversas vezes, sua paixão por Muhammad ibn Jami (a quem dedicou o livro) fez dele um “mártir do amor”. Outro amigo contou a história dos dois:

“Fui ver Ibn Daud durante a doença da qual ele morreu e disse-lhe: ‘Como se sente?’. Ele me respondeu: ‘O amor de você-sabe-quem me causou o que você vê!’. Então eu disse a ele: ‘O que o impede de desfrutá-lo, já que você tem o poder de fazê-lo?’. Ele respondeu: ‘O desfrute tem dois aspectos: um é o olhar permitido e outro é o prazer proibido. Quanto ao olhar permitido,  causou-me a condição que você vê, e, quanto ao prazer proibido, algo que meu pai me disse afastou-me dele.’ Ele afirmou… ‘o Profeta disse: ‘Aquele que ama apaixonadamente e esconde seu segredo e permanece casto e paciente, Deus o perdoará e fará com que entre no Paraíso’… e morreu naquela mesma noite, ou talvez no dia seguinte.”

Essas duas tradições, a punitiva e a romântica, figuram na literatura da Espanha Árabe, principalmente nos escritos do seu maior teórico do amor, Ibn Hazm (994-1064). Ibn Hazm nasceu em Córdoba durante os últimos dias da dinastia omíada. Seu pai ocupava um cargo político, mas foi forçado a fugir quando os omíadas foram destronados em 1013. Mais tarde, Ibn Hazm tornou-se famoso — e controverso — como teólogo e autor de um ensaio notável sobre religião comparada. Mas, em torno de 1022 ou 1027, escreveu um tratado sobre o amor chamado, no estilo poético preferido pelos escritores árabes, O Colar da Pomba. Morreu em 1064, sete anos antes do nascimento de Guilherme IX da Aquitânia, o primeiro trovador.

Ibn Hazm começa o livro com uma prece muçulmana convencional e apressa-se em dar uma justificativa religiosa à sua empreitada:

“O amor não é nem reprovado pela Religião nem proibido pela Lei; pois todo coração está nas mãos de Deus”, isto é, o amor é uma disposição inata “que os homens não podem controlar”. Depois, ele desenvolve o argumento: “Basta ao bom muçulmano abster-se das coisas que Deus proibiu, pelas quais, se escolher fazer, ele prestará contas no Dia da Ressurreição. Mas admirar a beleza, e ser dominado pelo amor — esta é uma coisa natural, e não faz parte do conjunto de mandamentos e proibições divinos”. Ibn Hazm nos garante que “dos santos e doutores cultos da fé que viveram nas eras há muito passadas, há alguns cujos poemas de amor são testemunho suficiente de sua paixão, de forma que não requerem explicação”. Como prova, ele menciona diversos imãs e juristas famosos de Medina.

Ibn Hazm, diferente dos gregos, não exalta o amor porque ele leva à coragem, à virtude e à sabedoria. Pode levar, mas também produzir simples transtorno. É o diagnóstico de Epicuro sem sua condenação. Na verdade, esse psicólogo árabe considera o amor “uma doença deliciosa, uma enfermidade muito desejável. Quem quer que dela esteja livre não gosta de ser imune, e quem quer que seja acometido por ela não deseja se recuperar”. Ibn Hazm enfatiza, e parece quase saborear, um elemento masoquista: um amigo que sofria o repreendeu quando ele expressou a esperança de se ver livre do sofrimento, e um homem importante que ele conhecia alegrou-se quando um jovem pagem notou seu fascínio dando-lhe um tapa.

O que o tratado de Ibn Hazm nos diz sobre as atitudes hispano-árabes quanto à homossexualidade? O Colar da Pomba é um misto de generalizações teóricas e anedotas, a maioria baseada nas observações pessoais do autor. Talvez nove décimos das anedotas se refiram ao amor de homens por mulheres, especialmente por belas escravas. Porém, Ibn Hazm mescla várias histórias sobre homens se apaixonando por outros homens e presume que o amor homossexual não é, psicologicamente, diferente do heterossexual. Aristóteles, Plutarco e Ovídio haviam separado nitidamente os dois tipos de amor. Mas Ibn Hazm vai do relato do fascínio de um homem por uma escrava a uma história de amor entre homens sem sugerir que uma experiência difere da outra.

Consideremos, por contraste, um autor cristão como Andreas Capellanus, que escreveu seu famoso ensaio sobre o amor cortês um século e meio depois, na corte da neta de Guilherme IX, Marie de Champagne. No segundo capítulo, Andreas declara categoricamente as ideias da Europa cristã medieval: “A principal questão a notar quanto ao amor é que ele só pode existir entre pessoas de sexo diferente. Entre dois machos ou duas fêmeas, não pode reivindicar um posto, pois duas pessoas do mesmo sexo não estão de forma alguma aptas a retribuir o amor uma da outra ou praticar seus atos naturais. O amor ruboriza ao aceitar o que a natureza nega”. Autores que posteriormente abordaram o amor ao norte dos Pirineus teriam concordado totalmente. O que poderíamos ter chamado de bissexualidade romântica de Ibn Hazm teria sido imcompreensível para eles.

As anedotas e poemas de Ibn Hazm podem nos ajudar a inferir como ele e seus colegas de fé viam o amor entre homens. A delicadeza e a discrição árabes são amplamente ilustradas pelos contos de Ibn Hazm sobre homens que guardavam segredo quanto ao amor. Não era considerado apropriado, na sociedade árabe, que dois homens declarassem seu amor publicamente — em contraste, digamos, com a Grécia Antiga ou com o Japão do Período Tokugawa —, mas era percebido como imensamente romântico nutrir tais sentimentos sem nomear o amado. Eis aqui um platonismo mais platônico que o próprio Platão. Num capítulo sobre os “mártires do amor”, Ibn Hazm menciona seis amantes que morreram, ou quase morreram — duas mulheres que amavam homens, dois homens que amavam mulheres, e dois homens que amavam homens. As histórias estão dispersas pela obra, não agrupadas por gênero. Uma delas conta de um amigo, Ibn al-Tubni, a quem ele enaltece por sua erudição, qualidades pessoais e beleza: “Poder-se-ia dizer que a própria beleza foi criada à sua semelhança, ou moldada pelos suspiros daqueles que olharam para ele”. Foram separados quando as tropas berberes invadiram Córdoba. Exilado em Valência, Ibn Hazm ficou triste pela notícia da morte de Ibn al-Tubni. Quando um conhecido havia perguntado a Ibn al-Tubni por que estava tão abatido, ele havia respondido:

“‘Sim, eu lhe direi. Estava parado à porta da minha casa em Ghadir Ibn al-Shammas na hora em que Ali ibn Hammud adentrou Córdoba, e seus exércitos invadiam a cidade vindos de todas as direções. Vi entre eles um hovem de aparência tão formidável, que eu nunca poderia ter acreditado, até aquele momento, que a beleza poderia ser personificada desse modo na forma de um ser vivo. Perguntei sobre ele e disseram-me que era Fulano de Tal, filho de Fulano de Tal, e que habitava tal e tal distrito — uma província muito distante de Córdoba, praticamente inacessível. Perdi a esperança de jamais voltar a vê-lo; e juro por minha vida… nunca deixarei de amá-lo, até deitar em meu túmulo.’ E assim aconteceu.”

Tanto as anedotas quanto os poemas de Ibn Hazm, os quais ele cita descaradamente em O Colar da Pomba, revelam algo da sensibilidade erótica do próprio autor. Sua grande paixão parece ter sido a que ele experimentou aos dezesseis anos por uma escrava. Mas vários poemas falam de seus sentimentos por outros homens. Embora a poesia de Ibn Hazm raramente esteja acima da mediocridade, mesmo suas banalidades são instrutivas:

“Caso ele fale, entre aqueles que se sentam em minha companhia, ouço apenas as palavras desse maravilhoso encantador.

Mesmo que o Príncipe dos Fiéis estivesse comigo, eu não deixaria de lado meu amor pelo primeiro.

Se sou obrigado a deixá-lo, olho para trás constantemente, e caminho como um animal ferido no casco.

Meus olhos mantêm-se fixos nele, embora meu corpo tenha partido, assim como o homem que se afoga no mar insondável olha a praia.”

Atestando a própria pureza, Ibn Hazm garante, com ingênua franqueza, que “sou completamente inocente, íntegro, irrepreensível…  e juro por Deus, pelo voto mais solene, que nunca tirei minha roupa íntima para ter relações sexuais ilícitas”. Ainda assim, admite ser tentado pela beleza dos homens: para evitar o pecado, faltou a uma festa na qual encontraria um homem bonito pelo qual se sentia atraído.

Nos capítulos finais, Ibn Hazm analisa os aspectos morais, religiosos e legais do amor, que na cultura muçulmana são, claro, um só. Várias das transgressões que ele descreve em A Vileza do Pecado são homossexuais. Um distinto estudioso da religião, conta ele, arruinou a reputação por causa de sua ligação pública com um garoto. Outro estudioso, ex-líder de uma importante seita muçulmana, apaixonou-se tão loucamente por um rapaz cristão que cometeu a atrocidade suprema — escreveu um tratado a favor da Trindade. Mas nem todo árabe era tão crítico quanto Ibn Hazm. Na casa de um rico homem de negócios, dois hóspedes se retiravam várias vezes para uma câmara particular. Quando Ibn Hazm demonstrou sua reprovação — tipicamente, recitando um poema —, o anfitrião o ignorou.

Esse capítulo também contém a única referência de Ibn Hazm ao lesbianismo. “Uma vez vi uma mulher”, conta ele, “que havia concedido seus afetos de maneiras que não agradavam ao Deus Todo-Poderoso”. Mas seu amor mudou para uma “inimizade do tipo que não é causada pelo ódio, nem pela vingança, nem pelo assassinato de um pai ou pela tomada de uma mãe como cativa. Esta é a reação de Deus a todos aqueles que praticam abominações”. Mas, ao que parece, as referências islâmicas ao lesbianismo nem sempre eram tão condenatórias. Pelo menos uma dúzia de romances de amor nos quais os amantes são mulheres é mencionada em O Livro de Hind, que também era lésbica. O século IX produziu um Tratado do Lesbianismo (Kitab al-Sahhakat), hoje perdido, e obras árabes eróticas posteriores continham capítulos sobre o tema. Eis aqui um desafio à pesquisa.

No islã, as questões da moralidade eram também, inevitavelmente, questões legais. Assim, o capítulo de Ibn Hazm sobre pecados sexuais também expõe as várias penalidades recomendadas pela tradição religiosa. Ele reconta a história de quando Abu Bakr queimou um homem vivo por fazer o papel passivo. O primeiro califa, conta-nos, atacou e matou um homem “que havia [meramente] se encostado a um jovem até ter o orgasmo”. O jurista Malik, nota ele, elogiou um emir que espancou até a morte um jovem por permitir que outro homem o abraçasse de maneira semelhante. Mas para Ibn Hazm isso era excessivo; ele afirma que dez chibatadas teriam bastado, embora admita que isso seria heterodoxo. Quanto ao ato completo da sodomia, cita apenas a opinião de Malik de que ambas as partes devem ser apedrejadas, mas não chega a dizer se concorda ou não.

Nessa atmosfera de leis religiosas severas e exagerado romantismo, os homens amavam, expressavam os sentimentos abertamente em versos fervorosos e declaravam em voz alta sua castidade. Talvez parte do fervor poético tenha sido somente literário. Talvez algumas das declarações tenham sido sinceras. Às vezes, esses casos de amor envolviam governantes famosos. O Califa Abd ar-Rahman III, que reinou em Córdoba no seu ápice político e cultural (929-961), sentiu-se atraído por um jovem refém cristão, foi rejeitado e mandou executá-lo brutalmente. O rapaz, canonizado como São Pelágio, tornou-se o herói-mártir de um poema narrativo escrito pela freira alemã Hrosvitha (935-1002), que criticou a luxúria árabe e glorificou a castidade cristã.

A arquitetura, a literatura e a erudição floresceram em Córdoba sob o filho de Abd ar-Rahman, al-Hakam II (915-976), um patrono ávido e exigente. Na juventude, seus amores parecem ter sido inteiramente homossexuais. Tal exclusividade era um problema, já que era incumbência do novo califa produzir um herdeiro. O impasse, conta-se, foi resolvido quando o califa arranjou uma concubina que vestiu roupas de menino e ganhou o nome masculino de Jafar.

O amor de al-Mutamid (1040-1095), emir de Sevilha e poeta andaluz proeminente de sua época, por outro poeta, Ibn Ammar (1031-1086), acabou de forma violenta após uma longa amizade. Al-Mutamid era um amante apaixonado das mulheres, mas também amava homens. Sobre um copeiro, escreveu: “Deram-lhe o nome de Espada; duas outras espadas: seus olhos!/… agora somos ambos mestres, ambos escravos!”. Seu amor por Ibn Ammar é o romance mais famoso, e o mais trágico, da história de al-Andalus. Em 1053, al-Mutamid, com treze anos, foi nomeado governador titular de Silves por seu pai, que fez de Ibn Ammar, nove anos mais velho, seu vizir. Uma história conta como, após uma noite de vinho e poesia, seu afeto o levou a se declarar para Ibn Ammar: “Esta noite você dormirá comigo no mesmo travesseiro!”. Num poema que enviou para o pai de al-Mutamid, Ibn Ammar declarou:

“Na noite da união veio voando até mim,

Nas suas carícias, o perfume da alvorada,

Minhas lágrimas percorreram o lindo jardim

De suas faces para umedecer-lhe as murtas e lírios.”

Parece que o pai do príncipe veio a reprovar o relacionamento com o plebeu, pois exilou o poeta de forma a separá-los. Ao subir ao trono, al-Mutamid deu a Ibn Ammar grande poder político e militar. Um relato famoso, no qual não se espera que acreditemos, conta como, quando dormiram juntos na mesma cama, o poeta sonhou que seu amante o mataria, e fugiu; o rei o convenceu a voltar, garantindo-lhe que isso nunca aconteceria. Mas depois os dois homens brigaram amargamente. Por fim, quando Ibn Ammar caiu nas mãos de al-Mutamid, este governante, em geral humano e generoso, primeiro o perdoou; depois, quando Ibn Ammar gabou-se triunfalmente desse indulto, al-Mutamid se enfureceu e o partiu em pedaços com as próprias mãos. “Depois, ele chorou, assim como há muito tempo Alexandre chorou por Heféstion, e deu-lhe um funeral suntuoso.”

Praticamente toda coletânea de poesia hispano-árabe contém farta quantidade de poemas amorosos escritos por homens para ou sobre outros homens. A poesia erótica floresceu primeiramente na Andalusia em Córdoba sob Abd ar-Rahman II (822-852). Seu neto, Abdallah (888-912), dedicou versos de amor a um “cervo de olhos negros”. Ibn Abd Rabbihi (860-940), um poeta liberto da corte de Abdallah, escreveu sobre outro rapaz em um tom típico de sujeição. “Dei a ele o que pediu, fiz dele meu mestre…/O amor acorrentou meu coração/Como um pastor acorrenta um camelo”. Al-Ramadi (m. 1022), o maior poeta de Córdoba no século X, apaixonou-se por um escravo negro. Novamente vemos a inversão consciente de papéis: “Olhei nos olhos dele e fiquei embriagado…/Sou seu escravo, ele é o senhor”. Poetas latinos na Roma de Augusto também haviam dirigido poemas amorosos a jovens escravos, mas nunca nesse estilo; a autodegradação desses andaluzes prenuncia ainda mais o romantismo cavaleiresco da França medieval.

Após a queda dos omíadas em Córdoba, a Espanha Árabe — fatalmente enfraquecida — se desintegrou numa série de estados menores. Mas, apesar da desordem política, o século XI foi uma era de ouro para a poesia árabe na Península Ibérica. Canções de amor continuaram a se derramar sob os governantes almorávidas (1090-1145) e almóadas (1145-1223), e, com elas, os versos homoeróticos. O mais aclamado autor dessa era brilhante, Ibn Quzman (c. 1080-1160), foi considerado o maior dos poetas medievais. Um boêmio irreverente nos moldes de François Villon, compôs zajals[2] coloquiais e atrevidos, em estilo muito diverso dos cânones do verso árabe clássico. Alto, loiro e de olhos azuis, Ibn Quzman levava uma vida libertina que lembrava a do companheiro inseparável do califa Harun al-Rashid (763-809) em Bagdá, o poeta Abu Nuwas (756-814), que também era descaradamente aberto quanto à sua homossexualidade. Em versos curtos, concisos e estrofes elípticas, quase intraduzíveis, ele celebra “o vinho, o adultério e a sodomia”. Como os trovadores da Provença, queixa-se da arrogância e do desprezo de seus amantes, que com frequência são homens, mas ri dos escrúpulos do amor ideal: “O que você diz de um amado, quando vocês dois estão totalmente sozinhos, e a porta da casa está trancada?”. Empobrecido, ele terminou a vida como imã, ensinando numa mesquita.

O filósofo Ibn Bajja (1080-1138), mais conhecido na Europa latina como Avempace, era em todos os aspectos uma figura mais respeitável. Foi ele quem introduziu o aristotelismo na Espanha e abriu caminho para Averroes. Ibn Bajja, informa um antologista, escreveu versos em memória de “um escravo negro com o qual estava encantado e que… morreu em Barcelona, para sua grande tristeza”. Várias antologias andaluzas surgiram nos séculos XII e XIII, sendo a mais importante O Livro das Bandeiras dos Campeões (1243), de Ibn Said (1213-1286). Uma seleção desses poemas foi traduzida para a língua inglesa pelo poeta e estudioso A. J. Arberry. O cauteloso inglês parece ter evitado versos cujos detalhes sexuais fossem explícitos, mas sua seleção ainda revela uma ampla gama de poemas de amor entre homens entremeados a outras líricas. Ibn Said, que nasceu em Alcalá la Real, perto de Granada, organizou a antologia de acordo com os locais de nascimento e ocupações dos poetas. Versos que celebram rapazes aparecem em Sevilha, Lisboa, Córdoba, Toledo, Granada, Alcalá, Múrcia, Valência e Saragoça, da autoria de reis, ministros de estado, acadêmicos, intelectuais e funcionários públicos, bem como poetas profissionais. A tradução dessa poesia sofisticada representa um desafio formidável. Marcada por jogos de palavras elaborados, alusões compactas com conotações sutis acumuladas ao longo dos séculos, rimas complexas e muita aliteração, esses poemas — para a mente ocidental — beiram o fantástico, até o surreal. A face delicada de um saki é tão embriagante quanto o vinho que ele serve, os dedos de outro estão manchados de vinho dourado assim como os lábios do boi estão sujos do pólen do narciso que ele come. Uma verruga na bochecha de Ahmad é como um jardineiro abissínio num canteiro de rosas. Um garoto é elogiado porque nenhum traço de penugem eclipsa o sol de seu semblante. Outro recebe agradecimentos por sua barba, já que ela é uma bainha que protege o poeta contra “o sabre de seu sorriso”. Um poeta de Córdoba, do século XIII, transforma os equipamentos de trabalho de um rapaz em símbolos de cavalaria:

“Seu banquinho de trabalho (como se fosse um cavalo)

o carrega orgulhosamente (como se ele fosse um herói).

Mas este meu herói está armado com apenas uma agulha,

longa como seus cílios e, como eles, brilhante.

Vendo-o costurar as juntas de um casaco,

Penso numa estrela cadente seguida por um fio sedoso de luz.

Ele torce o fio e o fio dá voltas em meu coração.

Oh, se meu coração pudesse segui-lo, próximo como o fio atrás da agulha!”

Uma consequência surpreendente dessa profusão de poesia amorosa andaluza foi sua imitação por parte dos poetas judeus que escreviam em hebraico clássico. Como língua falada, o hebraico havia desaparecido muitos séculos antes, mas na Espanha mourisca a linguagem literária ressuscitou, e seguiu-se um renascimento da poesia judaica. Embora a poesia religiosa medieval judaica tenha sido largamente estudada, pouca atenção se havia dedicado, até pouco tempo atrás, ao verso secular, que demonstra forte influência árabe em sua imagística e temas. Esses poetas parecem ter emulado com entusiasmo os poemas árabes para garotos e rapazes, apesar dos tabus religiosos do judaísmo. Essa revelação inesperada alvoroçou alguns estudiosos judaicos conservadores, mas a prova de um conjunto sólido de poesia hispano-hebraica sobre o amor entre homens parece, agora, incontestável.

Os mais distintos poetas hebreus do período árabe foram Solomão ibn Gabirol (c. 1021-1057), Moisés ibn Ezra (1055-1140) e Judá Halevi (1075-1141), e todos mereceram artigos elogiosos na Encyclopaedia Judaica. Ibn Ezra é considerado com frequência o maior dos poetas religiosos judeus da Espanha. Os três imitaram os assuntos, métricas e imagens dos contemporâneos árabes e, inspirados na Bíblica hebraica, usaram conceitos eróticos do Cântico dos Cânticos em poemas que escreveram para rapazes. Os poetas árabes, às vezes, escreviam poemas de amor para jovens judeus; os poetas hebreus retribuíram professando seu amor por muçulmanos jovens e belos, embora só falem em beijos e abraços e não cheguem à objetividade árabe nas questões sexuais. Como seus pares árabes, retratam os rapazes como cervos ou lindas gazelas de face radiante e cabelo negro, que arrasam corações, rendem noites em claro e traem cruelmente seus admiradores. Um registro deve servir como exemplo:

“Gazela desejada na Espanha, de formas maravilhosas,

Recebeu o poder e o domínio sobre todos os seres vivos;

Formosa como a lua, de bela estatura:

Cachos púrpura sobre a testa luminosa,

Sua aparência é como a de José, seu cabelo, como o de Adionah (Absalão).

De olhos adoráveis como os de Davi, ele me matou como Urias.

Inflamou minhas paixões e consumiu meu coração em chamas.”

Não devemos imaginar que os teólogos judeus toleravam tais casos. O maior de todos os estudiosos judeus medievais, Moshe ben Maimon, conhecido como Maimônides (1135-1204), nasceu em Córdoba, mas fugiu com a família para o Norte da África aos vinte e quatro anos para escapar aos rebeldes berberes. Maimônides surpreendeu a ortodoxia ao explicar os milagres das escrituras como fenômenos naturais e ao argumentar que a fé não deveria contradizer a razão. Mas, como moralista, ele era severamente ortodoxo, e sua interpretação do Pentateuco era que “devemos limitar a relação sexual completamente, considerá-la com desdém, e só desejá-la muito raramente. A proibição à pederastia (Lev. 18:22) e ao relacionamento carnal com animais (ibid. 23) é muito clara. Se da maneira natural o ato é baixo demais para ser realizado exceto quando necessário, é ainda pior se realizado de modo antinatural, e apenas em nome do prazer”. O quinto livro da enorme série de comentários de Maimônides sobre a lei judaica, famoso como Mishné Torá ou Código de Maimônides, ensina que a lei judaica exige que tanto o parceiro ativo quanto o passivo na relação homossexual devem ser apedrejados até a morte.

Do século XIII em diante, o poder árabe declinou na Espanha, até entregar seu último baluarte, Granada, em 1492. Até o fim, seus poetas cantaram o amor dos rapazes, como no caso de Yusuf III, que reinou na Alhambra de 1408 a 1417 e compôs estes versos:

“Oh, você que mirou em meu coração o dardo de um olhar penetrante:

Conheça aquele que está morrendo, cujos olhos derramam lágrimas velozes!

Quem exigirá justiça de um cervo encantador

De corpo delgado como o ramo verde e fresco,

Que insistiu na distância e na rejeição?…

Ele me seduziu com o feitiço de suas pálpebras.

Se fosse possível — mas ele sempre me evita —,

Eu teria conquistado meu desejo ao abrir seu cinturão.”

Como podemos explicar essa esquizofrenia lírico-legal, na qual uma religião poderosa e uma cultura secular florescente parecem entrar em conflito? Os árabes alegavam ser os descendentes de Ismael, filho de Abraão, e portanto consideravam a Bíblia hebraica um livro sagrado, mesmo que suplantado pelo Alcorão. Essa afiliação racial-religiosa garantiu que o islã compartilhasse muitos dos preconceitos do judaísmo e do cristianismo. Comparativamente, a homossexualidade parece não ter estado em evidência entre os beduínos da Arábia nos tempos pré-islâmicos. Sugeriu-se que as atitudes árabes em relação ao sexo passaram por uma mudança à medida que eles tomavam territórios mais avançados e sofisticados, especialmente o Império Sassânida. Culturalmente, a conquista da Pérsia fez pelos árabes o que a conquista da Grécia fez por Roma — apresentou uma sociedade um tanto primitiva a outra muito mais avançada e exuberante. Infelizmente, embora saibamos que o amor por rapazes floresceu de modo espetacular na Pérsia islâmica, inspirando uma literatura de peso, sabemos pouco sobre os costumes persas antes da conquista árabe, e o que sabemos é contraditório. O Zend Avesta (c. 550), o livro sagrado dos zoroastrianos, proibia a prática e decretava a pena de morte, mas cem anos depois Heródoto contou que os persas haviam adotado a visão grega do assunto.

Porém, uma coisa a conquista sem dúvida conseguiu: forneceu um grande suprimento de jovens escravos. Uma diferença crucial entre o islã e o cristianismo era seu relacionamento com a escravidão. O cristianismo proibia relações sexuais com escravos. Ao contrário dessa religião, que durante seus primeiros três séculos de existência não teve poder político, o islã, desde o começo, teve enorme sucesso militar, conquistando nação após nação. Nessa atmosfera triunfal, poucos moralistas estavam preparados para desafiar as prerrogativas do vencedor, que incluíam o direito sexual às mulheres, casadas ou solteiras, que pertencessem a homens derrotados em batalha. Para esses governantes todo-poderosos, na crista da onda de boa sorte, deve ter parecido muito razoável que jovens cativos do sexo masculino que não fossem muçulmanos também fossem vistos como parceiros sexuais legítimos. Algumas autoridades parecem ter aprovado tais relações.

O paralelo com Roma é claro. Mas essa não é a história completa, pois, apesar de inúmeros casos de amor com escravos do sexo masculino terem sido registrados e a poesia sobre esse tema ser abundante, notamos que nos círculos de Ibn Daud e Ibn Hazm, e nas cortes reais, os homens se apaixonavam várias vezes por amigos, conhecidos e às vezes estranhos do mesmo nível. Aqui, temos um padrão semelhante ao dos antigos gregos. A ênfase em tais casos de amor, contudo, não está na relação mentor-pupilo, como em Esparta e Atenas, mas na experiência emocional por si só, que era permitida sob o pretexto de um platonismo semirreligioso.

Acima de tudo, foi a hadith do mártir amoroso que conferiu e exaltou o status do amor no islã, fornecendo sanção religiosa a um romantismo extravagante que, mais tarde, cruzou os Pirineus e abriu caminho pela Provença medieval. O mais impressionante, do ponto de vista cristão, era que essa glorificação do amor não dependia do gênero. Vinculada a uma castidade teoricamente perfeita, podia escapar à condenação moral. Na literatura mística sufi, a poesia arrebatadora dirigida aos amantes do sexo masculino podia até simbolizar a união com o divino. Então, a religião muçulmana paradoxalmente proibia, permitia e exaltava o desejo homoerótico. Na esfera legal, apresentava semelhanças impressionantes com o judaísmo e o cristianismo, mas estimulava uma atmosfera literária, social e afetiva radicalmente diferente, e muito mais tolerante. O contato sexual era proibido, mas o homem que admitisse o amor por outro homem ainda poderia ser respeitado e admirado. Ele não era, na cultura islâmica, um monstro imoral, um traidor do criador ou um pária que poderia expor uma nação à destruição nas mãos de uma divindade furiosa.

[1] Saki: transliteração da palavra persa para copeiro ou servidor de vinho.
[2] Zajal é uma forma tradicional de poesia declamada num dos vários dialetos árabes, semi-improvisada e semicantada.

“Nós sempre lutamos”: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”

“As histórias nos dizem quem somos. Do que somos capazes. Quando saímos em busca de histórias, creio que estamos, de muitas formas, procurando por nós mesmos, tentando encontrar uma compreensão da nossa vida e das pessoas à nossa volta. As histórias e a linguagem nos dizem o que é importante.”
Kameron Hurley

Em 2013, a escritora Kameron Hurley publicou o ensaio “We Have Always Fought”: Challenging the “Women, Cattle and Slaves” Narrative no site A Dribble of Ink, de Aidan Moher. No ano seguinte, o texto levou o Prêmio Hugo na categoria Best Related Work, e a autora venceu na categoria Best Fan Writer.

Um tempo depois, eu a abordei perguntando se poderia traduzir o texto para o português de forma que chegasse a mais leitores. Ela disse sim.

 
Demorou, mas eis a tradução!
 

Recomendo a leitura para todo mundo que escreve e/ou consome ficção. Todos os links do texto foram escolhidos pela própria autora, exceto os que explicam ANC, Shaka Zulu e James Tiptree Jr., que achei por bem fornecer aos leitores brasileiros. Fiz com carinho, torço para que gostem!

 

Nós sempre lutamos: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”

por Kameron Hurley em 20/5/2013 
@kameronhurley

traduzido por Camila Fernandes em 27/1/2016

Vou lhe contar uma história sobre lhamas. Será como todas as outras histórias que você já ouviu sobre lhamas: o modo como elas são cobertas por escamas finas; como devoram os próprios filhotes se não forem criadas do jeito certo; e como, no fim da vida, se jogam de um penhasco, como lemingues, para se afogarem no mar bravio. No fundo, elas são criaturas marinhas, nascidas do mar, vinculadas a ele tal qual o pescador que dele tira seu sustento.

Toda história que você ouve sobre lhamas é a mesma. Você a vê nos livros: o pobre e desgraçado do bebê lhama mastigado pelo pai glutão. Na TV: a gigantesca onda de lhamas escamosas caindo majestosamente no mar. Nos filmes: lhamas duronas fumando cigarro e pintando as escamas com camuflagem de selva.

Por ter visto essa história tantas vezes, por já conhecer a natureza e a história das lhamas, às vezes, é claro, é chocante para você ver uma lhama fora desses espaços midiáticos. As lhamas que você vê não têm escamas. Então, você duvida do que vê e faz piadas com seus amigos sobre “aquelas lhamas escamosas”, e eles riem e dizem: “É, as lhamas são mesmo escamosas!”, e você esquece a experiência real.

Então, você esquece as lhamas que não se encaixam na narrativa vista nos filmes, nos livros, na TV — aquelas sobre as quais você ouviu nas histórias.

O que você lembra é a lhama que viu com sarna, o que depois de um tempo meio que pareceu escamas, e aquela outra lhama que foi meio agressiva com um bebê lhama, como se fosse comê-lo, quem sabe. Então, você esquece as lhamas que não se encaixam na narrativa vista nos filmes, nos livros, na TV — aquelas sobre as quais você ouviu nas histórias — e lembra aquelas que exibiam o comportamento do qual falavam as histórias. De repente, todas as lhamas de que se lembra se encaixam na narrativa que você vê e ouve a cada dia de todos à sua volta. Você faz piadas sobre isso com os amigos. Sente que ganhou alguma coisa. Você não é doido. Pensa exatamente como as outras pessoas.

Então, chegou o dia em que você começou a escrever sobre suas próprias lhamas. Sem surpresa, não decidiu escrever sobre as lhamas mansas, felpudas e nada canibais que conheceu, pois sabia que ninguém as acharia “realistas”. Pegou as lhamas das histórias. Criou lhamas canibais com desejo de matar e escamas manchadas de tinta.

É mais fácil contar as mesmas histórias que os outros contam. Não há nenhuma vergonha nisso.

Só que é coisa de preguiçoso, ou seja, a pior coisa que um escritor de ficção especulativa pode ser.

Ah, e, além disso, não é verdade.

***

Sou apaixonada pela verdade: a verdade é uma coisa que acontece quer a gente veja ou não, acredite ou não, escreva ou não sobre ela. A verdade simplesmente é.

Como alguém com um conhecimento mais que passável de História (todas as coisas que vieram antes de mim), sou apaixonada pela verdade: a verdade é uma coisa que acontece quer a gente veja ou não, acredite ou não, escreva ou não sobre ela. A verdade simplesmente é. Podemos chamá-la por outro nome, ou fingir que não aconteceu, mas suas repercussões vivem conosco, quer escolhamos ou não lembrá-la e admiti-la.

Quando sentei com um dos meus professores em Durban, África do Sul, para conversar sobre minha tese de mestrado, ele perguntou por que eu queria escrever sobre as mulheres combatentes da resistência.

“Porque as mulheres compunham mais de vinte por cento da ala militante do ANC!”, respondi de uma vez. “Vinte por cento! Quando descobri, não consegui acreditar. E você sabe, as mulheres nunca fizeram parte das forças combatentes…”

Ele me interrompeu, dizendo:

“As mulheres sempre lutaram.”

“Quê?”

“As mulheres sempre lutaram”, repetiu ele. “Shaka Zulu tinha uma força de combatentes composta só por mulheres. As mulheres foram parte de todos os movimentos de resistência. Vestiram-se como homens e foram para a guerra, para o mar, e participaram ativamente das lutas desde que o mundo é mundo.”

Eu não tinha ideia do que responder. Tinha sido educada no sistema escolar norte-americano com uma dieta regular de teoria sobre os Grandes Homens da História. A História está cheia de Grandes Homens. Tive que fazer cursos separados de História das Mulheres só para aprender sobre o que elas estavam fazendo enquanto os homens se matavam. Entendi que muitas delas estavam governando países e descobrindo métodos mais eficazes de controle da natalidade que tiveram amplas consequências na criação de estados específicos, especialmente a Grécia e Roma.

Metade do mundo é feito de mulheres, mas é raro ouvir uma narrativa que não fale delas como as pessoas às quais se faz alguma coisa, em vez das pessoas que fazem as coisas. O mais frequente é que a mulher seja retratada como a filha ou a esposa de um homem.

Eu tinha acabado de ver um reality show sobre pilotos de ultraleve no Alaska, no qual todos os participantes faziam pequenas apresentações falando da família e de suas paixões, mas a única piloto feminina dizia uma frase só, aparecendo como “namorada do Piloto X”. Só na segunda temporada, quando eles terminaram o namoro, ela ganhou sua própria apresentação. Aí soubemos que ela estava no Alaska havia quatro vezes mais tempo do que todos os outros pilotos, e caçava, pescava e escalava paredões de gelo, além de ser um ás da aviação.

Mas era a narrativa da “lhama canibal”, e nós nos distraímos, deixando de ver essa mulher como qualquer outra coisa.

***

A linguagem é uma coisa poderosa, que muda a forma como vemos a nós mesmos, e às outras pessoas, de maneiras deliciosas e horripilantes. Qualquer um que saiba alguma coisa sobre o exército, ou que preste atenção à forma como a mídia fala da guerra, provavelmente já notou isso.

Nós não matamos “pessoas”. Matamos “alvos”. (Ou japs ou gooks ou ragheads [termos pejorativos usados, respectivamente, para japoneses, coreanos e pessoas de qualquer grupo social que tradicionalmente use turbante].) Não matamos “meninos de quinze anos”, mas “combatentes inimigos” (sim, cada menino de quinze anos ou mais morto num ataque de drone agora é automaticamente registrado como combatente inimigo. Não menino. Não criança.).

E, quando falamos de “pessoas”, não queremos dizer “homens e mulheres”. Queremos dizer “pessoas e pessoas do sexo feminino”. Falamos de “escritores americanos” e “mulheres escritoras americanas”. Falamos de “programadores adolescentes” e “meninas programadoras adolescentes”.

E, quando falamos de guerra, falamos de soldados e mulheres soldados.

Por ser esse o nosso jeito de falar, quando falamos de história e usamos a palavra “soldado”, ela imediatamente apaga as mulheres da luta. Por isso, não admira que o pessoal que escavou os túmulos vikings não tenha se dado ao trabalho de verificar se os túmulos escavados eram de homens ou mulheres. Eram túmulos com espadas dentro. As espadas são para os soldados. Os soldados são homens.

Eles levaram anos para pensar em ao menos analisar os ossos, em vez de dizer: “Se tem espada, é um cara!”, e perceber o erro.

Vamos explicar assim: se você acha que tem alguma coisa — qualquer coisa — que as mulheres não tenham feito no passado, está errado.

As mulheres lutaram também.

Na verdade, elas fizeram todo tipo de coisas que achamos que não. Na Idade Média, foram médicas e xerifes. Na Grécia, eras foram… ah, que se dane. Escuta. Para quem quiser “provas”, a Foz Meadows faz um trabalho melhor com todos estes links legais. Vamos explicar assim: se você acha que tem alguma coisa — qualquer coisa — que as mulheres não tenham feito no passado, está errado. As mulheres, agora e antes, até adotaram o hábito de fazer xixi em pé. E usaram dildos. Então, até mesmo as coisas sobre as quais os caras da zoeira imediatamente levantam a mão e dizem: “É impossível uma mulher fazer isso!”. Bom, elas fizeram. As mulheres intersexuais e transexuais também lutaram e morreram, muitas vezes vistas como homens e esquecidas, nas fileiras da história. E devemos lembrar, quando falamos de mulheres e homens como se esses conceitos fossem imutáveis, categorias de algum modo “históricas”, que sempre houve pessoas que viveram e lutaram transitando entre os gêneros.

Mas nenhuma dessas coisas se encaixa na nossa narrativa. O que queremos é falar da mulher numa qualidade: a qualidade de esposa, mãe, irmã e filha de um homem. Vejo isso o tempo todo na ficção. Vejo nos livros e na TV. Ouço na forma como as pessoas falam.

Todas aquelas lhamas canibais.

Isso torna muito difícil para mim escrever sobre lhamas que não sejam canibais.

***

James Tiptree Jr. tem uma história muito interessante chamada “As mulheres que os homens não veem”. Eu li aos vinte anos e admito que tive dificuldade para entender o que tinha de tão importante. Era essa a história? Mas… essa não era a história! Passamos a narrativa toda presos dentro da cabeça de um homem que faz muito pouca coisa e que está viajando com uma mulher e a filha dela. Assim como o homem, é claro, nós, leitores, não “vemos” essas mulheres. Até a história terminar, não percebemos que elas são, na verdade, as heroínas da trama.

Afinal, essa era a história do homem. Era a narrativa dele. Foi da história dele que fizemos parte. As mulheres eram só objetos no cenário, personagens não jogáveis na paisagem limitada do homem.

Nós não as vimos.

***

Quando tinha dezesseis anos, escrevi uma dissertação sobre por que as mulheres do exército americano deveriam continuar sendo impedidas de participar de combates. Encontrei esse texto há pouco tempo enquanto mexia em velhos documentos. Meu argumento defendendo a ideia de que as mulheres não deveriam travar combate era que a guerra é terrível, e as famílias, importantes, e, com todos aqueles homens morrendo na guerra, por que as mulheres deveriam morrer também?

Era esse o meu argumento, pronto.

“As mulheres não deveriam ir para a guerra porque, assim como os homens, elas morreriam.”

Tirei nota A.

***

Muitas vezes digo às pessoas que sou a maior misógina autocrítica que conheço.

Estava escrevendo uma cena noite passada entre uma mulher general e o homem que ela ajudou a colocar no trono. Comecei colocando um pouco de tensão romântica e percebi como essa atitude era preguiçosa. Há outros tipos de tensão.

Fiz uma referência breve à escravidão sexual, que precisei cortar. Quase fiz o homem lançar um insulto sexista à mulher. Rosnei para a tela. Ele queria ajudar a salvar o filho dela… não. O irmão dela? Tá. Ela pretendia traí-lo. Tá. Ele tinha umas esposas que haviam morrido… argh. Não. Conselheiras? Amigas? Talvez alguém simplesmente o tivesse… abandonado?

Mesmo ao escrever sobre sociedades onde há muito pouca violência sexual, ou nenhuma, contra as mulheres, eu me pego escrevendo nos mesmos moldes e motivações gastas. “Bom, esse é um cara malvado, e preciso que uma coisa traumática aconteça com essa heroína, então vou fazer o cara estuprá-la.” Foi isso que fiz na primeira versão do meu primeiro livro, que retrata uma sociedade violenta na qual as mulheres superam os homens em 25 para 1. Pois, claro, é isso que a gente faz.

Há pouco tempo, vi um programa de TV que supostamente era sobre a experiência traumática pela qual uma menina passou, mas essa experiência, na verdade, foi jogada ali só para que dois personagens masculinos pudessem brigar por causa disso e discutir de quem era a culpa pelo que aconteceu com a garota. Foi o mais escandaloso apagamento de uma personagem feminina e de suas experiências que eu vi em muito tempo. Ela estava literalmente na mesma sala que eles enquanto os dois brigavam, revelando vários traços da personalidade deles enquanto ela meio que desaparecia, misturada ao cenário.

Esquecemos sobre que é a história. Nas nossas histórias, na nossa própria vida, apagamos as mulheres poderosas, decididas, inteligentes e aterrorizantes. As mulheres atacam e mutilam e matam e lideram e gerenciam e conquistam e fogem. Nós sabemos. Presenciamos isso todo dia. Vemos isso.

Mas esta é a nossa narrativa: dois homens brigando aos berros numa sala, e uma mulher fungando num cantinho.

***

O problema é que, às vezes, é difícil distinguir o que presenciamos mesmo daquilo que nos disseram que presenciamos, ou que deveríamos ter presenciado.

O que é “realismo”? O que é “verdade”? As pessoas me dizem que a verdade é o que elas presenciaram. Mas o problema é que, às vezes, é difícil distinguir aquilo que presenciamos mesmo daquilo que nos disseram que presenciamos, ou que deveríamos ter presenciado. Somos criaturas sociais e falíveis.

Em situações de desastre, a pessoa mediana pedirá cerca de quatro outras opiniões antes de formar a sua, antes de agir. Pode-se ensinar as pessoas a reagirem rapidamente nesse tipo de situação por meio de treinamento intenso (como no exército), mas, em geral, aproximadamente 70% dos seres humanos gostam de seguir com sua rotina diária. Gostamos da nossa narrativa. São necessárias evidências esmagadoras e — mais importante ainda — as palavras de muitas, muitas, muitas pessoas à nossa volta para que tomemos uma atitude.

A gente vê isso o tempo todo nas grandes cidades. É por isso que as pessoas se metem em brigas e atacam as outras em calçadas lotadas. É por isso que elas são assassinadas em plena luz do dia, e casas são invadidas mesmo em áreas com muito tráfego de pedestres. Porque a maioria das pessoas simplesmente ignoram as coisas fora do comum. Ou, pior, esperam que alguém, não elas, cuide disso.

Lembro-me de estar no trem em Chicago, num vagão com umas doze pessoas. Do outro lado do vagão, um homem, de repente, caiu do assento. Simplesmente… caiu de cara no corredor. Começou a convulsionar. Havia três pessoas entre mim e ele. Mas ninguém disse nada. Ninguém fez nada.

Eu me levantei.

“Senhor?”, chamei, e fui na direção dele.

Foi aí que todo mundo começou a se mexer. Gritei para alguém nos fundos apertar o botão de emergência, para pedir ao maquinista que chamasse uma ambulância na próxima parada. Depois que me mexi, de repente, havia três ou quatro pessoas comigo, vindo socorrer o homem.

Mas alguém teve que agir primeiro.

Estava de pé num outro trem lotado, outro dia, e vi uma moça parada perto da porta fechar os olhos e derrubar no chão os papéis e a pasta que trazia. Ela estava espremida na multidão, cercada de pessoas, e ninguém disse nada.

O corpo dela começou a ficar frouxo.

“Você está bem?!”, perguntei alto, inclinando-me na direção dela, e aí outras pessoas passaram a olhar, e ela estava caindo, e começou o burburinho, e alguém na frente do vagão gritou que era médico, e alguém cedeu um lugar para ela sentar, e as pessoas agiram, agiram, agiram.

Alguém precisa ser aquele que diz: tem algo errado. Não podemos fingir que não vemos. Porque as pessoas foram assassinadas e assaltadas nas esquinas onde centenas de transeuntes passavam, fingindo que tudo estava normal.

Mas fingir que estava tudo normal não tornou nada normal.

Alguém precisa apontar o dedo. Alguém precisa fazer os outros se mexerem.

Alguém precisa agir.

***

Dei meu primeiro tiro na casa do meu namorado do ensino médio: primeiro, um fuzil, depois, uma escopeta de cano curto. Desde então me tornei bastante boa com uma Glock, ainda sou péssima com um fuzil e tive a oportunidade de disparar uma AK-47, a arma preferida dos exércitos revolucionários de todo o mundo, principalmente nos anos 1980.

Derrubei a socos meu primeiro saco de pancadas de 90 quilos quando tinha 24 anos.

Os socos significaram mais. Qualquer um pode disparar uma arma. Mas agora eu sabia como socar as coisas no meio da cara. Com força.

As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até mesmo nos livros diziam que elas eram anomalias.

Ao crescer, aprendi que as mulheres cumpriam certos tipos de papel e faziam certos tipos de coisas. Não é que eu não tivesse ótimos modelos de comportamento. As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até nos livros diziam que elas eram anomalias. Elas eram lhamas peludinhas e não canibais. Muito raras.

Só que as histórias estavam todas erradas.

Passei dois anos na África do Sul e, depois de voltar aos Estados Unidos, mais uma década pesquisando tudo sobre as mulheres que lutaram. Elas lutaram em todos os exércitos revolucionários, descobri, e estes eram, com frequência, compostos por unidades nas quais as mulheres correspondiam a 20-30%. Mas, quando dizemos “exército revolucionário”, no que pensamos? Que imagem se conjura? Na sua mente, essa unidade inclui três mulheres e sete homens? Seis mulheres e catorze homens?

As mulheres não fizeram só bombas e armas na Segunda Guerra Mundial — elas tomaram armas, dirigiram tanques e pilotaram aviões. A Guerra da Secessão, a Revolução Americana — cite uma guerra e posso mencionar uma ocasião durante esse conflito na qual uma mulher pegou um chapéu, uma arma e foi lutar. E, sim, Shaka Zulu empregava mulheres guerreiras. Mas, quando dizemos “mulheres guerreiras de Shaka Zulu”, que imagem nos surge na mente? Nós pensamos nessas mulheres? Ou elas são aquelas que não vemos? Aquelas que, se fossem incluídas nas nossas histórias, as pessoas diriam que não são “realistas”?

É claro que falamos sobre as mulheres que lutaram ao lado de Shaka Zulu. Quando eu jogo no Google “women who fought for Shaka Zulu”, aprendo tudo sobre seu “harém de 1.200 mulheres”. E sua mãe, claro. E esta frase, muito popular: “mulheres, gado e escravos”. Tudo junto.

É fácil pensar que as mulheres nunca lutaram, nem lideraram, quando nunca somos vistas.

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De que importa se contarmos as mesmas velhas histórias? Se espalharmos as mesmas velhas mentiras? Se as mulheres lutam, lideram e sustentam metade do céu, de que importam as histórias para a verdade? Não vamos mudar a verdade ao excluir as pessoas das histórias.

Vamos?

As histórias nos dizem quem somos. Do que somos capazes. Quando saímos em busca de histórias, creio que estamos, de muitas formas, procurando por nós mesmos, tentando encontrar uma compreensão da nossa vida e das pessoas à nossa volta. As histórias e a linguagem nos dizem o que é importante.

Se as mulheres são “vadias” e “vagabundas” e “putas”, e se as pessoas que estamos matando são “gooks” e “japs” e “ragheads”, então, não são pessoas de verdade, são? Assim, elas ficam mais fáceis de apagar. Mais fáceis de matar. De desconsiderar. De des-ver.

Mas, no momento em que reimaginamos o mundo como um grupo vibrante de indivíduos com uma variedade de gêneros e sexos complicados e narrativas únicas, apaixonantes, que ainda não foram contadas — isso as torna mais difíceis de ignorar. Não são mais “mulheres, gado e escravos”, mas participantes ativos das suas próprias histórias.

E da nossa.

Pois, quando escolhemos escrever uma história, não é só uma história individual que estamos contando. É a delas. E a sua. E a nossa. Todos existimos juntos. Tudo acontece aqui. É confuso, complexo, muitas vezes trágico e aterrorizante. Mas ignorar metade disso e fingir que só existe um jeito de uma mulher viver ou já ter vivido — isto é, em relação aos homens que a cercam — não é um ato isolado de apagamento, e sim um apagamento político.

Povoar um mundo com homens, com heróis masculinos, pessoas masculinas e seu lote de “mulheres, gado e escravos” é um ato político. Você está fazendo a escolha consciente de apagar metade do mundo.

Como contadores de histórias, podemos fazer escolhas mais interessantes.

Eu posso lhe dizer todo dia que lhamas têm escamas. Posso fazer desenhos. Posso reescrever a história. Porém, sou uma única contadora de histórias, e minhas mentiras não se tornam uma narrativa a não ser que você concorde comigo. A não ser que você escreva exatamente como eu. A não ser que você também aceite minha narrativa preguiçosa e a perpetue.

Você deve ser conivente com esse apagamento para que ele aconteça. Você, eu, todos nós.

Não deixe isso acontecer.

Não tenha preguiça.

As lhamas vão lhe agradecer.

Os seres humanos de verdade, também.


Kameron Hurley é autora de The Mirror Empire e da trilogia premiada God’s War, incluindo os livros God’s War, Infidel e Rapture. Ganhou os prêmios Hugo, Kitschy e Sydney J. Bounds de Melhor Estreante. Também foi finalista dos prêmios Arthur C. Clarke, Nebula, Locus, BFS e BSFA de Melhor Romance. Seus contos foram publicados na revista Lightspeed Magazine, no podcast EscapePod e nas coletâneas Year’s Best SF, The Lowest Heaven e Mammoth Book of SF Stories by Women.

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