David D. Levine, pesquisa e Wild Cards

 

o reciclador

Imagem oficial de divulgação da Editora LeYa. Ilustração de capa por Marc Simonetti.

“O legal da pesquisa é que você aprende coisas sobre o mundo real que enriquecem a trama. Comecei com uma vaga noção do Tiago como um menino da favela — não sabia nada sobre o Rio, a não ser que era uma cidade grande com umas partes muito ricas e outras muito pobres —, mas as coisas que descobri pesquisando se infiltraram no personagem e na história em desenvolvimento de um jeito que agora parece inevitável. Principalmente quando aprendi sobre os catadores e como eles reciclam lixo e o transformam em coisas úteis, a ligação com Tiago e seus poderes ficou óbvia — mas eu não sabia nada sobre isso até começar a pesquisar. As tensões entre os ricos e os pobres acrescentaram drama ao cenário, e os traficantes de drogas se mostraram vilões perfeitos.”

David D. Levine

David D. Levine é autor de O Reciclador, que conta a história do primeiro personagem brasileiro do universo de Wild Cards, série editada por George R. R. Martin. Nesta entrevista ao Omelete ele conta um pouco sobre o processo de pesquisa e escrita do livro.

Tradução minha (tanto da entrevista quanto do livro). 

Neste link oficial da LeYa você pode ler as primeiras páginas de O Reciclador.

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O perfeccionismo está te afastando do sonho de escrever?

 

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Foto de Aaron Burden via Visual Hunt.

A escritora norte-americana Kaitlin Hillerich é dona do ótimo site Ink and Quills, onde publica uma série de dicas para autores iniciantes. Também tem uma newsletter que eu assino e um ouriço de estimação que se chama Camilla, olha, somos quase xarás.

Assim, em outubro passado recebi dela um e-mail que falava do perfeccionismo exacerbado pelo qual muitos autores se deixam levar, o medo de chegar ao fim da jornada da escrita e soltar a cria literária no mundo (ao contrário dqueles que publicam qualquer texto sem leitura crítica nem revisão, mas isso já são outros quinhentos). Não tenho medo de publicar, mas muitas vezes me pego procrastinando a escrita por uma série de outros motivos (bobos) que, percebo, me separam dos meus objetivos.

O artigo da Kaitlin era exatamente o que eu precisava ler naquele momento. Gostei tanto que pedi à autora permissão para traduzi-lo. Ela disse sim!

Esta tradução é especialmente para aqueles dentre vocês que amam escrever e sonham em publicar, mas temem o próprio sonho.

13/10/2016

O perfeccionismo está te afastando do sonho de escrever?

E aí, escritor? Como vai a sua história? Estive editando meu livro THESE SAVAGE BONES e me abastecendo com muito chocolate e quantidades absurdas de cereais. (Sou viciada em cereais, ok? Não me julgue.)

Hoje, vou entrar num campo um pouco pessoal e compartilhar com você uma dificuldade que venho enfrentando há algum tempo… Perfeccionismo. Se você também encara essa dificuldade, quero que saiba que não está sozinho, amigo.

Ultimamente, percebi que meu perfeccionismo na escrita está me impedindo de desenvolver uma carreira como autora. Já faz quase um ano que terminei de escrever minha novela e ainda estou procrastinando os toques finais. Deveria ter começado a procurar um agente há meses, mas, toda vez que pensava nisso, ficava paralisada.

Demorei um tempo para descobrir por que insistia em arranjar desculpas para não começar o processo de publicação. Não é que eu tivesse medo de mostrar meu trabalho às pessoas — por mim, tudo bem deixar os amigos, a família e os leitores beta lerem minhas histórias. O xis da questão era um pouco mais específico.

Sabe o que finalmente percebi?

Estou morrendo de medo de publicar. E isso, você sabe, é um baita problema se eu pretendo ser escritora.

Finalmente descobri que esse medo vinha da minha natureza perfeccionista. Tenho receio de lançar um trabalho e deixá-lo para sempre à vista de todos, algo que nunca mais poderei mudar, e que ele seja uma porcaria. A simples ideia me dá um nó no estômago.

E se não for tão bom quanto pensei que fosse? E se me arrepender depois? E se as pessoas detestarem? E se for um fracasso total?

Fiquei tão obcecada com a perfeição nas minhas histórias que isso passou a me bloquear como escritora. Esta foi uma das razões pelas quais decidi escrever e lançar por conta própria minha próxima novela, THESE SAVAGE BONES: me forçar a superar meu perfeccionismo e meu medo de publicar.

E vou te dizer uma coisa: estou com medo. Já devo ter me perguntado “que diabo eu estava pensando?” pelo menos um zilhão de vezes desde que defini a data de publicação. Mas sabe o que mais? PERFEIÇÃO É ILUSÃO.

Arrã, ilusão, assim como esses modelos photoshopados que você vê nas capas das revistas. Nenhuma história que você escreva jamais será perfeita. Os livros publicados também estão cheios de defeitos. Até mesmo a J.K. Rowling disse que há coisas que ela gostaria de poder mudar em seus livros, se pudesse voltar atrás.

Há mais uma coisa que percebi: AS IMPERFEIÇÕES NÃO NECESSARIAMENTE IMPEDEM OS LEITORES DE APRECIAR SUA HISTÓRIA. A série Harry Potter pode ter defeitos, mas veja quantas pessoas a adoram (inclusive eu). Já pensou se a J.K. Rowling nunca tivesse publicado Harry Potter por achar que não era bom o bastante? O mundo teria ficado sem essa história sensacional.

Gostei de escrever THESE SAVAGE BONES, acho que é uma história boa e estou feliz com o resultado, ainda que não seja perfeito. Fiz tudo o que pude para tornar a história tão boa quanto possível. E sabe de uma coisa? É o suficiente. O MELHOR QUE VOCÊ PODE FAZER COMO ESCRITOR É O SUFICIENTE.

É inevitável que algumas pessoas não gostem da sua história — é impossível agradar a todos os leitores, e tudo bem. Mas, se você está feliz com o que obteve, é o suficiente. Se consegue se orgulhar do seu trabalho, é o suficiente. Se há leitores que gostem de ler sua história tanto quanto você gostou de escrever, é o suficiente.

Mesmo que ainda tenha defeitos.

Estou aprendendo que um escritor não pode se agarrar a uma história para sempre, tentando chegar a uma perfeição inalcançável. Você precisa publicar suas histórias e começar a desenvolver sua carreira. É o que estou tentando fazer agora, começando com THESE SAVAGE BONES. Estou cansada de deixar meu perfeccionismo me controlar e me afastar do sonho de me tornar escritora. É hora de lançar minhas histórias pelo mundo.

E você, amigo? O perfeccionismo está te segurando? Vamos superá-lo juntos. Se você enfrenta esse problema e precisa de apoio e incentivo, fique à vontade para me mandar um e-mail ou me procurar no Twitter como @ink_and_quills.

Tenho fé em nós. Agora, vamos lá ser escritores destemidos e confiantes e publicar histórias maravilhosas!

Boa escrita e até a próxima!

Kaitlin
Copyright © 2016 Ink and Quills, Todos os direitos reservados.

A propósito: a obra da Kaitlin já está à venda como e-book na Amazon. Está na minha lista de desejos!

Abaixo, o texto original em inglês:

Hey there, writer! How’s your story coming? I’ve been editing away on THESE SAVAGE BONES and powering through with lots of chocolate and ridiculous amounts of cereal. (I have a cereal addiction okay? Don’t judge).

Today, I’m going to get a little personal and share with you something I’ve been struggling with for a while now… Perfectionism. If this is something you struggle with as well, I want you to know you’re not alone, friend.

Lately, I’ve come to realize that my perfectionism in my writing is holding me back from building a career as an author. It’s been almost a year since I’ve finished my full-length novel, and I’m still procrastinating about finishing up the final edits. I should have started querying agents months ago, but every time I thought about it, I froze.

It took me a while to figure out why I kept looking for excuses to avoid starting the publication process. It wasn’t that I was afraid of letting people read my work—I’m fine with letting friends, family, and beta readers read my stories. The true issue was a little more specific.

You know what I finally realized?

I’m terrified of publication. Which is, you know, kind of a problem if I intend to be an author.

I finally figured out this fear was coming from my nature as a perfectionist. I’m afraid of putting a piece of work out there permanently for everyone to see that I can never change again, and I’m afraid it will suck. The thought of it makes my stomach twist into knots.

What if it isn’t as good as I thought it was? What if I regret it later? What if people hate it? What if it totally bombs?

I’ve become so obsessed with perfection in my stories that it’s holding me back as a writer. This is one of the reasons I decided to write and self-publish my upcoming novella, THESE SAVAGE BONES—to force myself to overcome my perfectionism and my fear of publication.

And let me tell you, I am afraid. I’ve probably said to myself “What the hell was I thinking?” at least a kazillion times since setting my publication date. But you know what? PERFECTION IS AN ILLUSION.

Yep, an illusion, just like those photoshopped models you see on the covers of magazines. No story you write will ever be perfect and even published books are full of flaws. Even J.K. Rowling has said there are things she wishes she could go back and change about her books.

Here’s something else I’ve realized: IMPERFECTIONS DON’T NECESSARILY KEEP READERS FROM ENJOYING YOUR STORY. The Harry Potter series may have flaws, but look how many people adore it (myself included). Can you imagine if J.K. Rowling never published Harry Potter because she thought it wasn’t good enough? The world would have been deprived an amazing story.

I enjoyed writing THESE SAVAGE BONES and I think it’s a good story and I’m happy with how it turned out even though it isn’t perfect. I’ve done everything I can to make the story the best it can be. And you know what? That’s enough. YOUR BEST IS ENOUGH AS A WRITER.

Inevitably, there will be people who won’t like your story—it’s impossible to please every reader and that’s okay. But if you’re happy with how it turned out, it’s enough. If you can take pride in your work, it’s enough. If there are readers who enjoy reading your story as much as you enjoyed writing it, it’s enough.

Even if it still has flaws.

I’m learning that as a writer, you can’t hold on to a story forever trying to achieve unattainable perfection. You need to publish your stories and start building your career. That’s what I’m trying to do now, starting with THESE SAVAGE BONES. I’m tired of letting my perfectionism control me and hold me back from my dream of becoming an author. It’s time for me to release my stories into the world.

What about you, friend? Is perfectionism holding you back? Let’s overcome it together. If you struggle with perfectionism and need a friendly, encouraging ear, feel free to shoot me an email or hit me up on Twitter @ink_and_quills.

I believe in us. Now let’s be fearless, confident writers and
publish amazing stories!

Until next time, happy writing!

-Kaitlin

_Copyright © 2016 Ink and Quills, All rights reserved._

Beneficiários do acaso

Abaixo, em tradução livre minha, seguida do original, está uma uma das coisas mais lindas que li na vida. Não tem a ver com crer num além-vida ou não. Tem a ver com reconhecer a existência do amor. Apesar de respeitar o direito das pessoas à espiritualidade e à prática religiosa, o ponto de vista de Ann e Carl é, para mim, mais realista e reconfortante que qualquer expectativa para o que vem (ou não) depois. O amor tem muitas faces. Encontrá-lo e vivê-lo a cada dia é um acaso que desejo a todos. 

“Quando meu marido morreu, por ser tão famoso e conhecido como cético, muitas pessoas vieram falar comigo — isso ainda acontece às vezes — e me perguntaram se Carl mudou no fim e se converteu a alguma crença num além-vida. Muitas vezes também me perguntam se acho que voltarei a vê-lo. Carl encarou a morte com uma coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia era que nós sabíamos que nunca mais veríamos um ao outro. Não espero um dia me reunir com Carl. O importante é que, enquanto estivemos juntos, por quase vinte anos, vivemos com um distinto reconhecimento de como a vida é breve e preciosa. Nunca banalizamos o significado da morte ao fingir que ela era algo além de uma separação final. Cada momento que passamos vivos e juntos foi miraculoso — não miraculoso no sentido de inexplicável ou sobrenatural. Sabíamos que éramos beneficiários do acaso… que o mero acaso poderia ser muito generoso e gentil… que pudemos encontrar um ao outro, como Carl escreveu tão lindamente em ‘Cosmos’, vocês sabem, na vastidão do espaço e na imensidão do tempo… que pudemos passar vinte anos juntos. Isso é algo que me conforta e é muito mais significativo… O modo como ele me tratou e eu o tratei, a forma como tomamos conta um do outro e da nossa família enquanto ele viveu. Isso é muito mais importante do que a ideia de que eu o verei um dia. Não acho que jamais verei Carl outra vez. Mas eu o vi. Nós nos vimos. Nós nos encontramos no cosmo, e isso foi maravilhoso.”

— Ann Druyan sobre Carl Sagan em entrevista ao Committee for Skeptical Inquiry (Comitê pela Investigação Cética)


“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me-it still sometimes happens-and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But, the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous-not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance. . . . That pure chance could be so generous and so kind. . . . That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time. . . . That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful. . . . The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived. That is so much more important than the idea I will see him someday. I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

— Ann Druyan [about Carl Sagan] interviewed by the Committee for Skeptical Inquiry

 

Fonte: Wikiquote.

Não tem receita

“Os escritores inexperientes tendem a procurar receitas para escrever bem. Você compra o livro de receitas, pega a lista de ingredientes, segue as instruções e pronto! Uma obra-prima! O Suflê Infalível! Não seria ótimo? Mas, infelizmente, não há receita. (…) O único modo de aprender a escrever bem é tentar escrever bem. Normalmente isso começa quando você lê obras bem escritas por outras pessoas e escreve mal por um bom tempo.”

Ursula K. Le Guin, conforme matéria do The Guardian. Traduzi livremente.

D’O Colar da Pomba

Esta é uma retradução livre de parte do capítulo Esconder o Segredo (Of Concealing the Secret) d’O Colar da Pomba, de Ibn Hazm (994-1064), a partir da tradução para o inglês feita por Arthur John Arberry (1905-1969), orientalista e tradutor do persa e do árabe, responsável por traduções do Alcorão, de poemas de Rumi e de autores andaluzes da Espanha Árabe. Traduzi o trecho em destaque por fazer parte da minha pesquisa atual.

Um dos atributos do amor é conter a língua; o amante negará tudo caso seja interrogado, fingirá grandes demonstrações de força e parecerá extremamente contido, um solteiro convicto. Com isso, o segredo sutil se revelará. As chamas da paixão que lhe ardem no peito serão vislumbradas em seus gestos e na expressão dos olhos; rastejarão, lentas, mas determinadas, a céu aberto, como o fogo em meio ao carvão ou a água por entre o barro seco. Nos primeiros estágios, é possível ludibriar aqueles desprovidos de maior sensibilidade; uma vez que o Amor tenha se estabelecido com firmeza, contudo, isso será completamente inviável.

Às vezes, a razão para tal reticência é o desejo do amante de evitar ver-se marcado aos olhos de seus colegas; ele professa que o galanteio é um sinal de frivolidade, e portanto (diz ele) foge do amor e nada quer com ele. Mas esta não é de forma alguma a abordagem correta; ao bom muçulmano basta se abster das coisas que Deus proibiu, das quais, se decidir fazer, terá que prestar contas no Dia da Ressurreição. Mas admirar a beleza e ser dominado pelo amor é uma coisa natural que não se inclui nos mandamentos e proibições divinas; todos os corações estão nas mãos de Deus, para deles dispor como Ele quiser, e tudo que se pede a eles é que devem saber e considerar a diferença entre certo e errado, e crer firmemente no que é verdadeiro. O Amor em si é uma disposição inata; o homem pode apenas controlar os movimentos de seus membros, [capacidade] que adquiriu por um esforço decidido.

 

Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

Noite Estrelada

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Noite Estrelada. Van Gogh, 1889. Via Wikipedia.

“No outono de 1970, eu trabalhava cantando no sistema escolar, tocando violão em salas de aula. Um dia, estava sentado na varanda de manhã lendo uma biografia de Van Gogh e, de repente, soube que precisava escrever uma música dizendo que ele não era louco. Ele tinha uma doença, assim como seu irmão Theo. Isso o torna diferente, a meu ver, de um ‘louco’ qualquer – porque ele tinha sido rejeitado por uma mulher [como muitos pensavam]. Então, sentei com uma cópia de Noite Estrelada e escrevi a letra numa sacola de papel.”

Don McLean em entrevista a Helen Brown para o Telegraph.

A defesa de Van Gogh foi gravada em 1971 com o nome de Vincent ou Starry, Starry Night. Nela, McLean faz referência a várias obras do pintor e argumenta que ele tentou se comunicar com o mundo por meio da beleza de sua arte; a incompreensão e o desespero, aliados à sua doença, o teriam levado ao suicídio. Uma verdadeira ode ao acolhimento das pessoas portadoras de psicopatologias, numa época em que pouco (ou nada?) se falava sobre isso.

É uma das músicas mais bonitas que já ouvi, e não lembro quando foi a primeira vez que o fiz. Escutar acompanhando a letra é garantia de choro para mim.

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Doze Gisassóis numa Jarra. Van Gogh, 1888. Via Wikipedia.

Agora, não estou conseguindo publicar o vídeo da música no YouTube aqui, porque o WordPress não me ama mais. Mas você pode ouvi-la toda aqui. O vídeo traz a letra, mas os tempos estão um pouco adiantados, então, é mais confortável ouvir a canção lá e ler a letra aqui.

Caso você ainda não tenha muita familiaridade com o inglês, ofereço uma tradução não poética (sem preocupação com as rimas e a métrica do original) abaixo.

Noite estrelada, estrelada
Pinte sua paleta de azul e cinza
Olhe para fora num dia de verão com olhos que conhecem a escuridão na minha alma

Sombras nas colinas
Esboce as árvores e os narcisos
Capture a brisa e o frio do inverno em cores na terra nevada e linhosa

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Noite estrelada, estrelada
Flores flamejantes que ardem e brilham
Nuvens rodopiando na bruma violeta refletem-se no azul-anil dos olhos de Vincent

Cores mudando de matiz
Campos matinais de grãos ambarinos
Rostos gastos marcados pela dor são suavizados sob as mãos amorosas do artista

Agora entendo o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, não sabiam como
Talvez ouçam agora

Pois não puderam amar você, mas ainda assim seu amor foi verdadeiro
E, quando não restou nenhuma esperança dentro daquela noite estrelada, você tirou sua vida como os amantes costumam fazer
Mas eu poderia ter lhe dito, Vincent, este mundo não foi feito para alguém tão bonito quanto você

Noite estrelada, estrelada
Retratos pendurados em salas vazias
Cabeças sem moldura em paredes sem nome com olhos que observam o mundo e não conseguem esquecer

Como os estranhos que você conheceu
Os homens esfarrapados em trajes esfarrapados
O espinho de prata, uma rosa de sangue, jazem esmagados e quebrados na neve virgem

Agora acho que sei o que você tentou me dizer
E como sofreu por sua sanidade, e como tentou libertá-los
Eles não quiseram ouvir, ainda não estão ouvindo
Talvez nunca ouçam

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Trigal com Corvos. Van Gogh, 1890. Via Wikipedia.

De acordo com o site Van Gogh Gallery, “olhe para fora num dia de verão” é uma referência ao ponto de vista do pintor no asilo em Saint-Remy, onde pintava o jardim visto pela janela do quarto; as “flores flamejantes” referem-se à sua série de girassóis; as “nuvens rodopiantes” estão no próprio quadro Noite Estrelada; os “campos de grãos ambarinos” são o Trigal com Corvos; e os “rostos gastos” são Os Comedores de Batata. Ah, e “terra linhosa” é porque a tela de pintura é feita de linho.

P.S.: McLean é o mesmo autor e cantor da famosa American Pie.