Ignorante

De uns tempos para cá adquiri o hábito de confessar minha ignorância com todas as letras. Sou ignorante mesmo. Nada de “hum, como assim xyz?” (coisa que a gente ouve muito quando usa uma palavra que o outro não conhece, mas não quer admitir). Mando logo um “desculpe, não entendi, você pode explicar?”, ou então “não sei o que é xyz, me explica?”.
Recomendo. É libertador fazer isso quando você está cansada de ambientes onde parecer inteligente é mais importante que sê-lo de fato. Se isso me fizer parecer a burrinha do rolê, paciência. Quem não pergunta não quer aprender.

Paella vegetariana

Fiz hoje pela primeira vez e gostei do resultado. Como acertar um prato é um verdadeiro acontecimento nesta casa, registrei a obra e a receita. Para quem se interessar, segue abaixo.

 

DSC_0952-pequena

Se o desfoque das bordas te incomoda, saiba que é só para desviar sua atenção do fogão sujo. 😛

 

Primeiramente, existem muitas formas de fazer paella, assim como existem muitos modos de preparar arroz. Mesmo que a sua receita se restrinja a ingredientes vegetarianos. Como a vegetariana já é em si uma variação, não uma tradição, o prato é seu e você pode colocar os legumes que quiser: frescos, desidratados ou em conserva. O importante é enriquecer a paella com sabores e texturas diferentes. Já vi até quem sugerisse usar leite e algas japonesas desidratadas. Consultei algumas receitas na internet, umas mais complexas, outras mais simples, com modos de fazer variados, peguei o que tinha em casa e cheguei ao “meu” jeito.

Segundamente, vamos ao que interessa.

1 copo de arroz integral
3 copos de água
1/2 cebola picada
1/3 de uma berinjela grande cortada em cubos
1/3 de uma abobrinha grande cortada em cubos
1/3 de um pimentão vermelho cortado em cubos
1 tomate italiano cortado em cubos
1 punhado de lentilha
1 punhado de feijão branco grande
1 punhado de cogumelo paris fatiado em conserva (pode ser o fresco também)
1 colher de sopa de açafrão em pó (pode ser açafrão-da-terra)
sal a gosto
azeite a dar com pau (ou “quanto baste”, se você for elegante)

Por que esse monte de terços?, você pode perguntar. Se já preparou alguma coisa com abobrinha, berinjela ou pimentão, sabe que esses vegetais rendem muito mais do que a gente espera. Cheguei a picar mais que isso e não consegui usar tudo! Vá por mim, quantidades pequenas é mais seguro. Afinal, são vários ingredientes.

Ferva 2 copos de água numa panela. Acrescente o arroz, a lentilha, o sal e o açafrão e cozinhe em fogo médio. Mexa de vez em quando. (Aqui coloquei também o feijão branco hidratado, mas ele ficou um pouco duro; se quiser usar o feijão é melhor cozinhá-lo previamente.) Desligue antes de ficar totalmente seco.

Aqueça uma paellera (no meu caso foi uma frigideira bem grande), ponha uma dose generosa de azeite e refogue a cebola. Acrescente o pimentão picado, a abobrinha, a berinjela (fiz nessa ordem mesmo) e deixe refogar até “murchar” um pouco. Por último, o tomate, que é mais molinho. Sal à vontade (lembrando que o arroz já está salgado).

Coloque o arroz da panela com os outros ingredientes na paellera ou frigideira. Misture, acrescente 1 copo de água quente (aquele terceiro da lista de ingredientes) e deixe cozinhar em fogo médio.

Toque pessoal: enquanto a mistura toda cozinhava, arrumei uma parte do pimentão e do tomate que havia cortado em tirinhas por cima da paella, como enfeite. Algumas receitas sugerem isso. Nessa hora coloquei também os cogumelos. Pode afundar essas coisas um pouco com uma colher ou escumadeira para que peguem o sabor do resto do cozido. Um último fio de azeite por cima de tudo fica bom também.

Fique de olho. Tá com a cara boa? Tá cremosinho, não muito seco nem muito molhado? Desligue o fogo. Coma. Lamba os beiços!

Tempo de preparo: 40 minutos.

Serve: 3-4 pessoas (ou duas muito comilonas).

DSC_0954-pequena

Não tem receita

“Os escritores inexperientes tendem a procurar receitas para escrever bem. Você compra o livro de receitas, pega a lista de ingredientes, segue as instruções e pronto! Uma obra-prima! O Suflê Infalível! Não seria ótimo? Mas, infelizmente, não há receita. (…) O único modo de aprender a escrever bem é tentar escrever bem. Normalmente isso começa quando você lê obras bem escritas por outras pessoas e escreve mal por um bom tempo.”

Ursula K. Le Guin, conforme matéria do The Guardian. Traduzi livremente.

D’O Colar da Pomba

Esta é uma retradução livre de parte do capítulo Esconder o Segredo (Of Concealing the Secret) d’O Colar da Pomba, de Ibn Hazm (994-1064), a partir da tradução para o inglês feita por Arthur John Arberry (1905-1969), orientalista e tradutor do persa e do árabe, responsável por traduções do Alcorão, de poemas de Rumi e de autores andaluzes da Espanha Árabe. Traduzi o trecho em destaque por fazer parte da minha pesquisa atual.

Um dos atributos do amor é conter a língua; o amante negará tudo caso seja interrogado, fingirá grandes demonstrações de força e parecerá extremamente contido, um solteiro convicto. Com isso, o segredo sutil se revelará. As chamas da paixão que lhe ardem no peito serão vislumbradas em seus gestos e na expressão dos olhos; rastejarão, lentas, mas determinadas, a céu aberto, como o fogo em meio ao carvão ou a água por entre o barro seco. Nos primeiros estágios, é possível ludibriar aqueles desprovidos de maior sensibilidade; uma vez que o Amor tenha se estabelecido com firmeza, contudo, isso será completamente inviável.

Às vezes, a razão para tal reticência é o desejo do amante de evitar ver-se marcado aos olhos de seus colegas; ele professa que o galanteio é um sinal de frivolidade, e portanto (diz ele) foge do amor e nada quer com ele. Mas esta não é de forma alguma a abordagem correta; ao bom muçulmano basta se abster das coisas que Deus proibiu, das quais, se decidir fazer, terá que prestar contas no Dia da Ressurreição. Mas admirar a beleza e ser dominado pelo amor é uma coisa natural que não se inclui nos mandamentos e proibições divinas; todos os corações estão nas mãos de Deus, para deles dispor como Ele quiser, e tudo que se pede a eles é que devem saber e considerar a diferença entre certo e errado, e crer firmemente no que é verdadeiro. O Amor em si é uma disposição inata; o homem pode apenas controlar os movimentos de seus membros, [capacidade] que adquiriu por um esforço decidido.

 

Moana

Maridoffmann e eu conseguimos achar Moana, um mar de aventuras ainda em cartaz num cinema de rua de Santos.

O filme é lindo, divertido e emocionante. Chorei umas quatro vezes (mas lembrem-se de que não sou um bom parâmetro, caio feito mosca na teia de qualquer cena destinada a comover). Com roteiro bem construído, aborda questões interessantes e atuais, como o progresso desenfreado versus a convivência harmoniosa com a natureza, ponto em que se aproxima fortemente de Mononoke Hime. Aliás, notei uma ou outra referência visual aos filmes de Miyazaki, não sei se proposital ou não.

Moana vive numa ilha belíssima e é a filha do líder da tribo, cuja cultura é de inspiração polinésia. Ela é educada para governar, vivendo não uma vida de luxo, mas de serviço. De fato, é mostrada trabalhando para o povo. Tudo indica que será a primeira mulher a governar a tribo, mas isso não é abordado como novidade ou aberração.

Nos primeiros minutos já sabemos que tipo de pessoa Moana é: desde criança, tem o desejo de atravessar o recife de corais que separa a ilha do mar aberto, o que é proibido, mas está disposta a deixar de lado seus desejos pessoais para ajudar os necessitados (morram de fofura com a cena da tartaruguinha). Tem o perfil de uma líder desbravadora, mais interessada no desenvolvimento que nas tradições impostas pelo pai.

Porém, logo ela encontra um bom motivo para quebrar as regras. Sua missão é encontrar o semideus Maui, fazê-lo devolver o coração que roubou de Te Fiti, deusa da Terra, e com isso restaurar a saúde da própria natureza, em rápido declínio.

Moana é uma protagonista que mete as caras e aprende na marra o que é necessário para desempenhar seu papel. Não segue a cartilha e reivindica aquilo que outros disseram que não era para ela, enfrentando a resistência da família. Ao mesmo tempo que luta por seus sonhos, busca melhorar a vida de todos, servindo a uma causa maior que ela.

Assim, tem muito em comum com Juddy Hopps, a coelhinha do excelente Zootopia. Ambas também passam longe de viver um romance. Estão ocupadas tentando arrastar consigo um parceiro de trabalho relutante e debochado, cujo respeito precisam conquistar. Não por acaso, o roteirista Jared Bush trabalhou nos dois filmes.

Moana, a exemplo de Frozen (“você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer”), brinca com alguns paradigmas clássicos da Disney. Há um momento em que a protagonista faz questão de dizer a Maui que não é uma princesa, ao que ele responde algo como: “É filha do chefe, tá de saia e tem um bichinho, então dá no mesmo”. Não conto mais para não estragar as piadas.

A trilha sonora é linda, misturando as canções típicas dos filmes da Disney com músicas do compositor Opetaia Foa’i, cantadas em samoano. Outro compositor da parte cantada é Lin-Manuel Miranda, do elogiadíssimo musical Hamilton.

Se vocês ainda não viram, deem um jeito de ver! Filmaço.

P.S.: A vovó da Moana, todo mundo quer uma avó como ela.

P.S. 2: Se houvesse um concurso de Melhor Animal Ajudante de Mocinha da Disney, o galo Heihei seria páreo duro para o dragão Mushu, de Mulan. “Desonra pra tu, desonra pra tua vaca!” Se bem que Heihei não é ajudante: é atrapalhante!

Síndrome do impostor

jez-timms-175640-unsplash-pequena

Foto de Jez Timms via unsplash.com

Querida pessoa,

 

Sabe essa história da síndrome do impostor que a paralisa? Também tenho. Mande à merda.

Salvo raras, raríssimas exceções (e estas costumam ser meio iludidas), todo mundo tem inseguranças relacionadas à própria capacidade de fazer uma coisa, ou de corresponder à expectativa de outrem, ou de ter resposta para a pergunta espinhosa que alguém fará quando você finalmente achar que “chegou lá”, e aí, se você não tiver a resposta, será desmascarada, vaiada e tão ridicularizada que rezará para ser esquecida e…

Não. Não, não, não. Respire fundo.

Estamos todos estragados, pois todos ouvimos em algum momento que não íamos conseguir, que não éramos bons o bastante ou que devíamos “parar de perder tempo com essa besteira”. Todos suamos frio diante do que mais queremos. Especialmente aqueles entre nós que resolveram fazer justo o que gente como eles não “deveria” fazer, pois não são atividades tradicionais para sua família, classe social, raça, gênero… Todos “ainda não estamos prontos”, todos “nunca vamos conseguir”.

Mas tenha certeza de uma coisa: gente mais despreparada que você já foi lá e fez. Gente mais crua e até menos talentosa conseguiu o que você quer porque meteu as caras.

Acha que ainda tem muito que aprender para ser quem você esperava ser? Aprenda mais e faça. Aprenda enquanto faz, se tiver que ser. Só não deixe de fazer. Tem medo das críticas? Tranquilize-se: não importa o que e como você faça, elas virão. Alegre-se: se alguém se dedicou a conhecer e criticar seu trabalho, ele deve ser no mínimo relevante. Faça melhor da próxima vez, mas faça.

Eis aqui mais uma certeza: você nunca saberá tanto que ainda não possa aprender mais. Nunca será tão incompetente que não exista gente muito mais inepta sendo bem-sucedida porque tentou. Nunca será tão competente que não haja alguém ainda mais brilhante em quem você possa se espelhar. E nunca será tão boa que não possa se tornar ainda melhor.

Não deixe o medo virar muleta. Quer escrever um livro? Escreva. Quer ilustrar uma história? Comece a desenhar. Quer ter uma banda? Aprenda a tocar esse instrumento aí. As coisas não vão se fazer sozinhas. Faça. Mesmo que fique uma bosta. Parafraseando o que me disse outro dia meu sábio de estimação: “Um livro pronto ruim já é melhor que um livro que poderia ser bom, mas não foi terminado”.

Comece. Termine.

 

Pronto, fim do momento autoajuda.