Mão dupla

“Amizade é uma via de mão dupla. Mantenha o caminho até a porta da sua casa desobstruído, mas não perca tempo contornando os obstáculos que os outros erguem diante das deles. Quando os dois caminhos estiverem livres, a amizade ocorre.”
Marcelo Paschoalin
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Caraval

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A história pessoal da Stephanie Garber é um belo exemplo para todos os escritores que estão a ponto de desanimar depois de várias tentativas infrutíferas de obter um lugar ao sol no mercado editorial (e principalmente no coração dos leitores).

A jovem norte-americana é autora de Caraval, young adult que chega ao Brasil pela Novo Conceito com tradução minha. No fim do livro, ela é muito sincera ao fazer “um agradecimento mais que especial aos meus pais, que ajudaram a me manter e me deixaram morar com eles para que eu pudesse terminar este livro. Um agradecimento ainda maior porque vocês dois acreditaram em todos os livros inéditos que vieram antes deste”.

“Antes de Caraval, escrevi outros cinco livros que nunca venderam, nunca foram publicados. Foi doloroso”, conta a autora em entrevista ao Estadão.

Este ano ela finalmente publicou pela primeira vez. Caraval esgotou na Amazon só duas semanas depois do lançamento. É best-seller do New York Times. Foi traduzido para 26 países. Os direitos de adaptação cinematográfica foram comprados pela Twentieth Century Fox. Dizem que estão desenvolvendo um longa-metragem. Na minha opinião, deveriam fazer uma série. O potencial é alto e o momento é perfeito.

É claro que nem toda obra de estreia terá esse impacto. A maior parte NÃO terá. Mas essa não é a primeira história que Stephanie escreve; só a primeira que publica. Ela estava mais preocupada em escrever o que queria do que em publicar. Porém, insistiu até encontrar uma editora que apostasse nela (e depois disso muitas outras). Escritores, façam como ela e não desistam. Insistam. Mais que tudo, evoluam.

Escrever é suar

Devido ao trabalho e ao resto da vida, que consiste em partes mais ou menos iguais de deveres e prazeres, faz três meses que não escrevo meu livro. Mas ontem à noite, ao voltar de uma visita às minhas tias, vim germinando ideias no caminho e tive um daqueles raros momentos-eureca, em que a solução para um problema (no caso, uma cena) aparece com clareza na cabeça da gente, como se alguém arrastasse o sofá da sala e dissesse “pronto, sua tonta, foi aqui atrás que você escondeu e não lembrava, agora trata de usar”.

Digo raro por não acreditar que a maior parte do fazer literário venha da inspiração e do acaso, mas sim do estudo, da prática e do esforço, talvez partindo de um momento-eureca, sim, mas quase nunca se alicerçando nele. Escrever é suar. Não por acaso, é delicioso e deixa a gente exausta.

Para empreender esse esforço cada autor trabalha no seu ritmo. Uns separam algumas horas para escrever no fim do dia de trabalho (outro trabalho, entenda-se), e assim funcionam; outros precisam de mais horas, até dias seguidos de dedicação quase integral, e reservam um fim de semana, feriado prolongado ou até as férias para a escrita.

Em geral sou do segundo tipo (lembra os três meses sem escrever?). Preciso imergir e dar uma boa olhada nas profundezas do cenário antes de sair nadando por ele. Poupo umas tardes de sábado e domingo para a escrita, se puder até uma semana inteira de folga-sem-folga, e mergulho. E aí, como dizem os andaluzes, no estoy pa na. Não telefone, não mande carta, não mande alguém me avisar, que eu só quero escrever.

Mas tem os momentos-eureca. Não dá para conjurá-los, mas quando eles baixam na gente é melhor aproveitar. Nunca espere a inspiração. Também não a rejeite quando vier.

Daí cheguei à casa da minha sogra, tomei banho, hora de escrever. Não tinha computador nem caderno, saquei o celular: 436 palavras. Pouco, mas muito bom para um dia que eu nem dediquei à escrita. Solucionei uma cena-chave que precisava de drama e ação. Dormi feliz.

A mente livre

“Discutiam porque gostavam de discussões, gostavam do movimento rápido da mente livre pelos caminhos das possibilidades, gostavam de questionar o que não se questionava.”

Os Despossuídos, Ursula K. Le Guin, tradução de Susana L. de Alexandria para a Editora Aleph.

O resultado da tradução

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Foto de Patrick Tomasso via Unsplash.

O resultado do texto traduzido, aquele que chega às livrarias, não é obra só do tradutor. Há um trabalho de equipe que envolve no mínimo editor e/ou assistente editorial, tradutor, preparador/cotejador e revisor (em geral, mais de um revisor).

Pela lei brasileira o tradutor é coautor. Suas escolhas poderiam prevalecer, mas na prática não é isso que acontece (e algumas vezes o melhor é que não aconteça mesmo).

Em muitos casos, onde o tradutor errou, o preparador acerta; onde o preparador falhou, o revisor corrige; e assim sai um texto final de boa qualidade, no qual cada um deu o melhor de si e manteve um diálogo com quem dá a palavra final, normalmente o editor. (Melhor ainda seria se todos os envolvidos pudessem conversar entre si e trocar impressões.)

Por outro lado, onde o tradutor fez uma escolha baseada numa pesquisa atenciosa, o preparador estranha, vai lá e faz uma substituição, só que erra; onde o preparador acerta, o revisor vai lá e troca seis por meia dúzia; e assim sai um texto truncado, esquisito, cheio de interferências desnecessárias.

Às vezes, o ego prejudica a visão, e a visão nublada pelo ego prejudica o resultado. Não estou falando só de um ou outro colega; vale para mim também!

Hoje, tendo feito revisão, preparação, cotejo e tradução em momentos diferentes, sabendo um pouco do que acontece nos bastidores do livro, entendo que uma obra lindamente traduzida é mérito de mais de uma pessoa. Da mesma forma, um texto final ruim tem mais de um culpado.

VIII Congresso Internacional da Abrates

Agora, sim, deu para sentar e dizer:
O VIII Congresso Internacional da Abrates foi sensacional. É a segunda edição a que vou, desta vez também como palestrante, e a cada vez aumenta minha convicção de que um evento como esse é muitíssimo necessário. Palestras em seis salas ao mesmo tempo, com temas variados para um público igualmente diverso, que vai do iniciante ao veterano, do generalista ao especialista. (Difícil é escolher a palestra, queria poder voltar uma hora no tempo para ver mais de uma, mas cadê máquina do tempo quando a gente precisa?) Chance de troca de conhecimentos, reencontro com velhos conhecidos, criação de novos contatos, enfim, aprendizado em muitos níveis pessoais e profissionais num fim de semana cheio de boa vontade.
Valeu, diretoria da Abrates! Valeu, pessoal da Quest e da Haas, palestrantes e participantes. Ano que vem tem mais e é no Rio de Janeiro.