Gatos em particular

Depois de certa idade — e, para alguns de nós, isso pode ocorrer muito cedo — não existem novas pessoas, animais, sonhos, rostos, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, já apareceu antes, com outra máscara, outras roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é igual, igual, tudo é eco e repetição; e não há nem dor que não seja uma recorrência de algo há muito esquecido que se expressa numa angústica inacreditável, em dias de lágrimas, solidão, consciência de traição; e tudo por um gato pequeno, magro e moribundo.

Doris Lessing, Gatos em particular, em Sobre gatos; tradução de Julia Romeu, Autêntica Editora, 2017.

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Traduzindo Clarice

Katrina Dodson, autora da tradução premiada de Todos os Contos (The Complete Stories) de Clarice Lispector para o inglês, escreveu um relato delicioso sobre o processo para a revista The Believer. Contou sua relação com a obra de Clarice, como fã e tradutora; com os tradutores anteriores, cujas agruras passou a entender melhor; a sensação de imersão mística proporcionada pela leitura; e outras coisinhas. Quem traduz, escreve ou gosta de livros vai gostar de ler.

Leia o relato completo aqui. Abaixo, destaco alguns trechos (tradução minha, não oficial):

Os dois anos que passei traduzindo Todos os Contos de Lispector foram como uma jornada mística, ou, no mínimo, um rito de passagem em que suas frases surgiram como alucinações ferozes enquanto eu tentava captar seu significado. Não cheguei a traduzir rezando, mas muitas vezes falei com uma foto dela que preguei acima da minha mesa, as mãos cobrindo o famoso rosto bonito. Gostava do fato de que poderia ser um gesto de angústia ou um sinal de recolhimento num mundo interior, correspondendo às minhas próprias oscilações entre a frustração e o foco.

(…)

Pensar e escrever além da nossa própria experiência é uma transgressão necessária se quisermos expandir nossa compreensão do mundo. Para traduzir as histórias, tive que realizar uma encarnação dupla, habitar Clarice habitando seus muitos personagens. Foi fascinante e brutal viver as crises de tantas mulheres, experimentar a carência e o amor dos maridos e filhos quando eu mesma não tinha nenhum, sentir a solidão e o desejo irrealizado de viúvas idosas e esquecidas quando eu tinha trinta e cinco anos – mais ou menos o ponto médio da faixa etária de Clarice quando escreveu essas histórias.

Pérolas acessíveis

Correndo o risco de chover no molhado: pessoas, procurem diversões gratuitas na sua cidade. Vale a pena e rende ótimas surpresas.

No último fim de semana, maridoffmann e eu estávamos contendo gastos e recebi a dica providencial da minha amiga Ana Cristina Kashiwagi (valeu, Ana!) sobre a apresentação Kurasawa e Sonhos no sábado, 5/5, no Sesc Santos. Uma exibição do filme Sonhos (na verdade, oito curtas do diretor japonês baseados em seus sonhos recorrentes), com trilha sonora do compositor Anselmo Mancini, executada ao vivo por ele (piano), Kooi Kawazoe (koto e shamisen), Silnei Doomacil (flauta transversal e piccolo) e Rubens Alves (vibrafone e percussão). Foi uma experiência sensorial mágica.

No domingo (6/5), fomos ao Museu do Café, no centro da cidade, ver a exposição intinerante Estação da Língua Portuguesa, com parte do conteúdo do Museu da Língua Portuguesa (aquele que pegou fogo), que vinha percorrendo cidades do estado de São Paulo. Eu nem sabia dessa mostra, mas estava decidida a fazer alguma coisa diferente no domingo e peguei a dica no site Juicy Santos, que sempre tem alguma opção para quem quer ver mais que praia por aqui. Chegamos a tempo de pegar o último dia.

Aproveitando que Santos é uma pequena grande cidade, fizemos tudo a pé, depois do almoço, voltando para jantar em casa. Curtimos: horrores. Gastamos: zero dinheiro.

Verifiquem sempre a programação do Sesc mais próximo da sua casa. Acompanhem os eventos nas bibliotecas públicas. Procurem. Sei que às vezes a gente não tem dinheiro nem para o ônibus, mas, tendo chance, aproveitem. Adoro meu combo costumeiro de domingo, praia+videogame+Netflix, mas isso é confortável, e conforto não cria novidade. Sair da rotina faz bem à cabeça. Para quem pretende criar algum tipo de arte, contar histórias, dar um jeito de se expressar e tocar o mundo, é mais que bom: é essencial.

P.S.: Quem passar por Santos até 1/7, confira no Sesc a mostra “Barroco Ardente e Sincrético Luso-Afro-Brasileiro“, com curadoria de Emanoel Araujo e “pinturas, esculturas e artefatos religiosos apresentam referências do barroco na religião e nas culturas erudita e popular do Brasil e de Portugal, entre os séculos XVII e XIX.”

P.S.2: Outra opção com eventos culturais gratuitos em Santos é a Pinacoteca Benedicto Calixto, lindo casarão na orla com mostra permanente do pintor, belo jardim e um bistrô nos fundos (investimento opcional, rs!).

P.S.3: Quem perdeu o filme/música ainda pode ouvir a trilha no site do Anselmo!

Metáfrase #8

Saiu em dezembro o número 8 da Metáfrase, a revista da Abrates! A edição reúne textos sobre as apresentações mais apreciadas no VIII Congresso da Abrates, com temas como currículos visuais, de Carolina Walliter, e tradução literária para o inglês, de Luciana Bonancio, além das reflexões da professora Alzira Allegro sobre versões de contos brasileiros e muito, muito mais!

Destaquei as matérias de que mais gostei pessoalmente, mas este número conta ainda com ótimos textos de Carolina Selvatici, Cristiane Tribst, Karla Lima, Leilane Papa, Luis Fernando Alves, Ricardo Souza, Samantha Santos, Sidney Barros Junior e Ulisses Wehby de Carvalho.

A Metáfrase é feita POR tradutores PARA tradutores, é digital e GRATUITA. Faço parte da equipe editorial como revisora, com Petê Rissatti como editor-chefe, Carolina Caires Coelho como editora adjunta e Dener Costa como designer e diagramador.

Para baixar a revista, clique aqui!

Podcast Curta Ficção #025: Tradução Literária

 

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Imagem oficial de divulgação do Podcast Curta Ficção #025

Mas eu ando muito pimpona mesmo.

Na semana passada corri um bocado e acabei não avisando aqui, mas saiu a edição número 25 do Podcast Curta Ficção, um dos melhores podcasts brasileiros sobre literatura especulativa. Esta edição é sobre tradução literária e tive o privilégio de participar dela com os anfitriões Janayna Bianchi PinRodrigo Assis Mesquita e Thiago Lee, além do também tradutor e escritor Santiago Santos, tão elogiado pelos colegas que vou ter que conferir sua obra. Esse povo todo é sensacional e eu quero andar com eles no recreio.

Acredite se quiser: falei pouco! Mas são 45 minutos preciosos com reflexões sobre a relação entre a literatura e o fazer tradutório (e uma conclusão hilária!).

Para escutar, clique aqui.

Acompanhe a página do Podcast Curta Ficção no Facebook.

E fique com o recado da equipe:

PARTICIPE DO NOSSO PROGRAMA #026!
Enviem suas perguntas sobre escrita e mercado editorial, criação, universo e tudo mais até o dia 05/10 através de comentários no site, mensagem no Facebook, no Twitter ou por e-mail no contato@curtaficcao.com.br.
http://bit.ly/curtaficcao025

Meu novo livro: Contos Sombrios

Além da edição digital de Reino das Névoas ter finalmente voltado à Amazon por R$ 7,00, lancei também um novo livro: Contos Sombrios, compilação de histórias que escrevi ao longo dos últimos anos editada pela Editora Dandelion. Segue a sinopse:

Dezesseis contos sombrios. Terrores pessoais e coletivos que a escrita tenta exorcizar: sequestradores e assassinos, canibais, vampiros e coisas piores. Talvez você também queira exorcizá-los.

Custa apenas R$ 6,00. Quem compra, apoia a autora. 😉

Na página de compra você pode pedir que uma amostra grátis seja enviada ao seu dispositivo de leitura. Mas, para já dar um gostinho, segue a introdução.

Introdução

Escrevi os contos reunidos neste livro entre 2004 e 2010. Alguns apareceram em blogs, sites e zines. Outros são inéditos. Alguns deles, hoje, eu não escreveria do jeito que escrevi. Outros, não escreveria de jeito nenhum. Já os chamei de contos de terror, mas não tinha a pretensão de aterrorizar quem os lesse. O que eu queria era falar de coisas sombrias. Das minhas sombras. E isso, acho, consegui.

Já que estou aqui, prefaciando meu próprio livro, aproveito para martelar: esta é uma obra de ficção. Não faz apologia à violência e seu propósito não é incitar nenhum tipo de agressão. Confio no discernimento de quem me lê. Mas vale o trigger warning, ou aviso de conteúdo: aqui tem sangue, sim, e morte, e violência sexual. Alguns terrores pessoais, que tentei exorcizar pela escrita. Se você chegou até aqui, talvez também precise exorcizá-los.

Vivemos tempos em que as notícias viajam muito rápido, alimentando nossa curiosidade — inclusive pelo que é sórdido. Enquanto sonhamos em (e, de preferência, fazemos nossa parte para) banir a violência do mundo real, a ficção, a fantasia e a arte nos acenam como válvulas de escape fundamentais. Ao mesmo tempo, a imaginação do ficcionista, essa esponja impregnada de tinta e alucinação, se embebe justamente da realidade, do absurdo nos casos diários. Sequestradores, amantes vingativos, assassinos de ocasião. Psicopatas, fanáticos religiosos, estupradores. Até canibais e vampiros.

Deliramos dentro de nosso horror coletivo, real ou imaginário. Temos um fascínio um tanto doente pelo que é sombrio, uma ânsia de testemunhar e registrar. É o pássaro morto no meio da estrada. Torto e esparramado em meio ao próprio sangue, uma coisa terrível de se ver. Mas a gente não consegue parar de olhar…

Por isso, convido você a experimentar estes pequenos surtos, em forma de contos, de desejo, truculência e morte, entre casos realistas e indícios sobrenaturais. Torço para que a ficção possa tocar os pontos do seu ser que a realidade não alcança.

Não foi para isso que você veio?

Meu livro por R$ 7,00 na Amazon

Antes tarde do que nunca: meu livro Reino das Névoas, contos de fadas para adultos está à venda como e-book na Amazon por R$ 7,00!

Se você gostou do livro, por favor, compartilhe! 🙂

Se ainda não conhece, eis uma chance difícil de perder… 😉

Se quiser saber um pouco mais sobre o livro, visite o blog oficial com resenhas e opiniões de leitores.

Reino das Névoas foi ganhador de uma bolsa para publicação do ProAC (Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura) em 2010. Com sete histórias e ilustrações de minha autoria, contém o conto A outra margem do rio, primeiro lugar no Concurso Hydra de Literatura Fantástica em 2014.