O resultado da tradução

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Foto de Patrick Tomasso via Unsplash.

O resultado do texto traduzido, aquele que chega às livrarias, não é obra só do tradutor. Há um trabalho de equipe que envolve no mínimo editor e/ou assistente editorial, tradutor, preparador/cotejador e revisor (em geral, mais de um revisor).

Pela lei brasileira o tradutor é coautor. Suas escolhas poderiam prevalecer, mas na prática não é isso que acontece (e algumas vezes o melhor é que não aconteça mesmo).

Em muitos casos, onde o tradutor errou, o preparador acerta; onde o preparador falhou, o revisor corrige; e assim sai um texto final de boa qualidade, no qual cada um deu o melhor de si e manteve um diálogo com quem dá a palavra final, normalmente o editor. (Melhor ainda seria se todos os envolvidos pudessem conversar entre si e trocar impressões.)

Por outro lado, onde o tradutor fez uma escolha baseada numa pesquisa atenciosa, o preparador estranha, vai lá e faz uma substituição, só que erra; onde o preparador acerta, o revisor vai lá e troca seis por meia dúzia; e assim sai um texto truncado, esquisito, cheio de interferências desnecessárias.

Às vezes, o ego prejudica a visão, e a visão nublada pelo ego prejudica o resultado. Não estou falando só de um ou outro colega; vale para mim também!

Hoje, tendo feito revisão, preparação, cotejo e tradução em momentos diferentes, sabendo um pouco do que acontece nos bastidores do livro, entendo que uma obra lindamente traduzida é mérito de mais de uma pessoa. Da mesma forma, um texto final ruim tem mais de um culpado.

Entrevista

Um ano atrás, recebi um e-mail da Ana Carolina Goldschmidt e do Rogério Badaró, estudantes de Letras — Inglês — Tradução e Interpretação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Tinham lido um livro que eu traduzi (Manuscritos do Mar Morto, de Adam Blake) e decidiram me entrevistar para um trabalho da faculdade. Confesso: cheguei a achar que fosse pegadinha (rs!). Mas não era. Ana e Rogério me mandaram perguntas bem sacadas e eu, que não sei falar pouco, tive o maior prazer em responder. Eles me autorizaram a publicar a entrevista no meu blog. Aí vai!

Em suas palavras, tradutora por persistência. Por que a tradução?

Sempre gostei de traduzir. O processo é interessante e instigante, com todas as escolhas que apresenta e a linha muito tênue entre certo e errado, adequado e inadequado. Sempre gostei de estudar e escrever, o que considero essencial nesse trabalho. Mas demorei para decidir que queria a tradução como profissão e demorei ainda mais para chegar lá. Tive as aulinhas básicas de inglês na rede pública; na adolescência, traduzi letras de músicas e textos de enciclopédias sobre temas que queria entender melhor e não encontrava em português. É claro que cometi toneladas de erros! Mas isso faz parte do processo de aprendizado e, mesmo aos tropeços, me ajudou a aprender muito. Só fui fazer um curso pago de inglês depois que consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, já adulta. Devido ao que tinha aprendido por conta própria, entrei direto no módulo avançado do curso e li tudo o que pude na biblioteca da escola de idiomas. A partir de 2003, comecei a revisar textos em português como freelancer, tarefa na qual caí meio que de paraquedas quando uma autora aceitou contratar uma revisora para seu livro sem pedir o currículo (que bom, porque eu ainda não tinha um). Depois veio outro trabalho, e mais outro. Nesse meio-tempo, tive outros empregos e investi numa carreira alternativa, a de ilustradora. Mas não estava me fazendo feliz. Então, passei a me dedicar com mais afinco ao trabalho textual, revisando e escrevendo ficção. Queria ser tradutora, mas não sabia por onde começar, nem se a falta de formação acadêmica na área barraria minha entrada, nem se estava preparada para isso. Em 2011, uma editora começou a me passar regularmente revisões e preparações com cotejo de originais em inglês. Corrigindo o trabalho alheio e analisando os originais, decidi que conseguiria, sim. Comecei a azucrinar meu cliente (risos), com quem já tinha uma relação de confiança. No ano seguinte, ele me passou uma tradução. Foi graças a essa oportunidade que pude mostrar meu trabalho como tradutora a este e outros clientes, montando um currículo. Hoje, alterno as três tarefas: tradução, preparação e revisão.

 

Como vê o mercado de trabalho para um tradutor no Brasil? 

O mercado é amplo, pois pode-se ser tradutor literário, técnico, juramentado… O tradutor literário normalmente é freelancer e presta serviços para editoras brasileiras. O técnico pode se especializar num tema, ou em vários, como medicina ou eletrônica; pode trabalhar como freelancer ou funcionário de uma agência de tradução, e seus clientes podem ser brasileiros ou estrangeiros. O tradutor juramentado, ou público, é um profissional que passou no concurso da Junta Comercial da sua região ou município e traduz documentos oficiais. Até hoje só trabalhei como tradutora literária, por isso, não sei muito sobre as subdivisões do ramo. A área de tradução parece estar um pouco saturada, por ser uma profissão atraente para muitas pessoas, preparadas ou não para ela. Na minha experiência, os clientes raramente contratam sem indicação. Por isso, é preciso investir na rede de contatos, marcar presença em eventos e, claro, estudar, seja por conta própria, seja fazendo cursos. Cursos e oficinas servem não só para ampliar suas habilidades, mas também para conhecer colegas de profissão. Para quem não mora nas grandes capitais, há cursos rápidos ou à distância. Por exemplo, em março deste ano [2016] fiz a oficina do Projeto TransMit. É totalmente online e se propõe a treinar tradutores para o trabalho nas agências, ensinando macetes do ramo e corrigindo erros comuns. É muito bom e me deu esperança de trabalhar também para a área técnica.

 

Você menciona em seu website que sua primeira tradução profissional foi em 2012. Qual foi a obra e o que te levou a traduzi-la? Ficou satisfeita com o resultado?

A obra foi The Chase, ou A Caçada, de Clive Cussler, um thriller/aventura histórica. E o que me levou a traduzi-la foi, muito simplesmente, a proposta da editora (risos). Pela minha experiência, o tradutor raramente escolhe o que traduz; o que ele escolhe é dizer sim ou não à proposta de um cliente, que já tem um material a publicar. É claro que podemos rejeitar um livro por indisponibilidade ou por motivos ideológicos. Também podemos sugerir a uma editora que compre os direitos de publicação de uma obra específica. Mas, na maior parte do tempo, é o cliente quem bate à porta, e a gente diz sim. Voltando a The Chase, foi um baita desafio. Primeiro, por ser minha primeira tradução profissional; segundo, porque não foi o livro mais fácil que já traduzi. A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX e é recheada de referências à época, detalhes sobre locomotivas e motocicletas. Então, apanhei bastante desse livro. E, claro, aprendi muito.

 

Como é o seu processo de preparação para suas traduções de obras literárias mais complexas, como as do Adam Blake, por exemplo?

Num mundo ideal, eu teria tempo para ler um livro inteiro, sossegadamente, fazendo anotações sobre pontos a pesquisar, trechos a ponderar, nomes a traduzir… No mundo real, a gente tem prazos e não dá para fazer isso. Então, com qualquer obra, simples ou complexa, o que faço primeiro é ler a sinopse e alguma coisa sobre o autor, para ter ideia do que me espera; se tiver tempo, leio algumas resenhas; depois, folheio a obra, verifico se tem pontos de vista múltiplos (o que resulta em tons de voz diferentes) e leio alguns parágrafos para entender o tom predominante. Isso é rápido, coisa de uma tarde. Depois, já começo a traduzir. Os desafios vão se apresentando ao longo do processo. Trabalho sempre conectada à internet para poder pesquisar expressões que ainda não conheça, jargões de uma área profissional, dados sobre um período histórico ou sobre o universo em que se passa a história, quando ela é derivada de um filme ou série de TV, por exemplo. Vale consultar os colegas também: há comunidades de tradutores dedicadas a isso nas redes sociais. Às vezes, é preciso montar um glossário do universo da obra. Noutras vezes, é preciso voltar a capítulos anteriores e mudar todas as decisões que já se tomou (risos!) em nome da coerência. Manuscritos do Mar Morto, no original The Dead Sea Deception, foi minha segunda tradução e me fez pesquisar termos usados pela polícia, armas de fogo, história e geografia. Dos livros em que trabalhei, é um dos meus favoritos. Mas, como acontece com toda tradução de principiante, ele saiu com vários erros que hoje eu adoraria corrigir, se pudesse.

 

Você faz traduções do inglês para o português brasileiro. Não se arriscaria no caminho inverso? Por quê?

Já fiz uma versão, que é como chamamos as traduções do português para outra língua. Era um texto muito curto e simples, que pude ler inteiro para avaliar se meus conhecimentos estavam à altura do trabalho. Mas, neste momento, não me arriscaria com versões de textos mais complexos. Como muitos tradutores, eu me sinto mais confortável para trabalhar com minha língua nativa como língua de chegada, ou seja, para trazer textos de outra língua para o português, mas não o oposto. Faltam-me naturalidade e aprofundamento na gramática do inglês. Isso faz toda a diferença entre um texto fluido e um texto trôpego, pouco espontâneo. Afinal, o ideal é que uma tradução não tenha cara de tradução. Ela deve parecer um texto escrito originalmente na língua de chegada.

Um bom negócio

Hoje fiz um excelente negócio: dispensei a chance de comprar uma briga.
Há brigas das quais a dignidade não permite fugir, porque fundamentais. Mas há aquelas das quais o bom senso recomenda passar longe, porque inférteis. Acho que estou aprendendo a distingui-las.

Ignorante

De uns tempos para cá adquiri o hábito de confessar minha ignorância com todas as letras. Sou ignorante mesmo. Nada de “hum, como assim xyz?” (coisa que a gente ouve muito quando usa uma palavra que o outro não conhece, mas não quer admitir). Mando logo um “desculpe, não entendi, você pode explicar?”, ou então “não sei o que é xyz, me explica?”.
Recomendo. É libertador fazer isso quando você está cansada de ambientes onde parecer inteligente é mais importante que sê-lo de fato. Se isso me fizer parecer a burrinha do rolê, paciência. Quem não pergunta não quer aprender.

Moana

Maridoffmann e eu conseguimos achar Moana, um mar de aventuras ainda em cartaz num cinema de rua de Santos.

O filme é lindo, divertido e emocionante. Chorei umas quatro vezes (mas lembrem-se de que não sou um bom parâmetro, caio feito mosca na teia de qualquer cena destinada a comover). Com roteiro bem construído, aborda questões interessantes e atuais, como o progresso desenfreado versus a convivência harmoniosa com a natureza, ponto em que se aproxima fortemente de Mononoke Hime. Aliás, notei uma ou outra referência visual aos filmes de Miyazaki, não sei se proposital ou não.

Moana vive numa ilha belíssima e é a filha do líder da tribo, cuja cultura é de inspiração polinésia. Ela é educada para governar, vivendo não uma vida de luxo, mas de serviço. De fato, é mostrada trabalhando para o povo. Tudo indica que será a primeira mulher a governar a tribo, mas isso não é abordado como novidade ou aberração.

Nos primeiros minutos já sabemos que tipo de pessoa Moana é: desde criança, tem o desejo de atravessar o recife de corais que separa a ilha do mar aberto, o que é proibido, mas está disposta a deixar de lado seus desejos pessoais para ajudar os necessitados (morram de fofura com a cena da tartaruguinha). Tem o perfil de uma líder desbravadora, mais interessada no desenvolvimento que nas tradições impostas pelo pai.

Porém, logo ela encontra um bom motivo para quebrar as regras. Sua missão é encontrar o semideus Maui, fazê-lo devolver o coração que roubou de Te Fiti, deusa da Terra, e com isso restaurar a saúde da própria natureza, em rápido declínio.

Moana é uma protagonista que mete as caras e aprende na marra o que é necessário para desempenhar seu papel. Não segue a cartilha e reivindica aquilo que outros disseram que não era para ela, enfrentando a resistência da família. Ao mesmo tempo que luta por seus sonhos, busca melhorar a vida de todos, servindo a uma causa maior que ela.

Assim, tem muito em comum com Juddy Hopps, a coelhinha do excelente Zootopia. Ambas também passam longe de viver um romance. Estão ocupadas tentando arrastar consigo um parceiro de trabalho relutante e debochado, cujo respeito precisam conquistar. Não por acaso, o roteirista Jared Bush trabalhou nos dois filmes.

Moana, a exemplo de Frozen (“você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer”), brinca com alguns paradigmas clássicos da Disney. Há um momento em que a protagonista faz questão de dizer a Maui que não é uma princesa, ao que ele responde algo como: “É filha do chefe, tá de saia e tem um bichinho, então dá no mesmo”. Não conto mais para não estragar as piadas.

A trilha sonora é linda, misturando as canções típicas dos filmes da Disney com músicas do compositor Opetaia Foa’i, cantadas em samoano. Outro compositor da parte cantada é Lin-Manuel Miranda, do elogiadíssimo musical Hamilton.

Se vocês ainda não viram, deem um jeito de ver! Filmaço.

P.S.: A vovó da Moana, todo mundo quer uma avó como ela.

P.S. 2: Se houvesse um concurso de Melhor Animal Ajudante de Mocinha da Disney, o galo Heihei seria páreo duro para o dragão Mushu, de Mulan. “Desonra pra tu, desonra pra tua vaca!” Se bem que Heihei não é ajudante: é atrapalhante!

Síndrome do impostor

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Foto de Jez Timms via unsplash.com

Querida pessoa,

 

Sabe essa história da síndrome do impostor que a paralisa? Também tenho. Mande à merda.

Salvo raras, raríssimas exceções (e estas costumam ser meio iludidas), todo mundo tem inseguranças relacionadas à própria capacidade de fazer uma coisa, ou de corresponder à expectativa de outrem, ou de ter resposta para a pergunta espinhosa que alguém fará quando você finalmente achar que “chegou lá”, e aí, se você não tiver a resposta, será desmascarada, vaiada e tão ridicularizada que rezará para ser esquecida e…

Não. Não, não, não. Respire fundo.

Estamos todos estragados, pois todos ouvimos em algum momento que não íamos conseguir, que não éramos bons o bastante ou que devíamos “parar de perder tempo com essa besteira”. Todos suamos frio diante do que mais queremos. Especialmente aqueles entre nós que resolveram fazer justo o que gente como eles não “deveria” fazer, pois não são atividades tradicionais para sua família, classe social, raça, gênero… Todos “ainda não estamos prontos”, todos “nunca vamos conseguir”.

Mas tenha certeza de uma coisa: gente mais despreparada que você já foi lá e fez. Gente mais crua e até menos talentosa conseguiu o que você quer porque meteu as caras.

Acha que ainda tem muito que aprender para ser quem você esperava ser? Aprenda mais e faça. Aprenda enquanto faz, se tiver que ser. Só não deixe de fazer. Tem medo das críticas? Tranquilize-se: não importa o que e como você faça, elas virão. Alegre-se: se alguém se dedicou a conhecer e criticar seu trabalho, ele deve ser no mínimo relevante. Faça melhor da próxima vez, mas faça.

Eis aqui mais uma certeza: você nunca saberá tanto que ainda não possa aprender mais. Nunca será tão incompetente que não exista gente muito mais inepta sendo bem-sucedida porque tentou. Nunca será tão competente que não haja alguém ainda mais brilhante em quem você possa se espelhar. E nunca será tão boa que não possa se tornar ainda melhor.

Não deixe o medo virar muleta. Quer escrever um livro? Escreva. Quer ilustrar uma história? Comece a desenhar. Quer ter uma banda? Aprenda a tocar esse instrumento aí. As coisas não vão se fazer sozinhas. Faça. Mesmo que fique uma bosta. Parafraseando o que me disse outro dia meu sábio de estimação: “Um livro pronto ruim já é melhor que um livro que poderia ser bom, mas não foi terminado”.

Comece. Termine.

 

Pronto, fim do momento autoajuda.

Sobre a vida fora do Facebook

Outro dia, um amigo meu, escritor de mão cheia, lançou um livro em São Paulo. Eu sabia que ele estava para lançar, mas não imaginava quando. Estava em São Paulo, mas não soube do lançamento. Ele provavelmente divulgou muito no Facebook e convidou todo mundo para o evento criado na rede social, mas, ainda assim, eu não soube. Perdi o lançamento. Claro que ainda dá para comprar o livro, ora. Mas o grande dia, o abraço, o autógrafo, perdi.

Moral da história: não dependam só do Face, amiguinhos! A gente não vê tudo o que rola por lá, mesmo que tente. Aliás, dependam cada vez menos dele! Usem também o bom e velho e-mail. Visitem os blogs nos quais vocês eram viciados há uns anos. Escrevam, convidem, contem as novidades, perguntem “como vai?”. Aí fica quase impossível a amiga dizer “ih, não sabia do seu lançamento/aniversário/festa do divórcio” (mas ela ainda pode dizer, “ah, esqueci” ou “ih, não deu pra ir”, e tudo bem).

Os colegas que já têm newsletters estão promovendo um retorno à comunicação via e-mail, felizmente livre de apresentações em PowerPoint, correntes supersticiosas e historinhas ingênuas e edificantes (que migraram para o Facebook e o Whatsapp, porque nada é perfeito, né?). Esses colegas estão dando um bom exemplo. Até eu, que nem sempre tenho algo assim superimportante a dizer, estou considerando montar uma newsletter… E aí assina quem quer.

Ainda sobre a relação de amor e ódio com o Facebook, recomendo duas leituras:

Então eu meio que resolvi sair do Facebook. Oh noes! O tom e a intenção do autor são muito pessoais, mas eu “me li” em cada parágrafo.

Facebook’s Mental Health Problem. É longo e está em inglês, mas vale a pena. A autora fala sobre a relação entre a depressão e o uso de redes sociais. A situação pode não ser verdadeira para todo mundo, mas com certeza vale para muitos. Foi-me enviado por um amigo que saiu do Facebook e não se arrependeu.