10 conselhos para a Mila de 21

De 21.7.2016.

Gosto de usar o recurso On this day do Facebook para rever coisas que já fiz ou disse em anos recentes. Noto que me curei de uma porção de besteiras e suspiro com boas memórias de viagens e momentos com gente querida. Hoje topei com esta: ano passado, circulou pela rede a brincadeira das dez coisas que você diria, se pudesse, ao seu eu mais jovem. A pessoa passava a brincadeira adiante sugerindo uma idade a cada amigo que quisesse brincar: 15, 19, 32, qualquer uma. A Fabiana Zardo me deu 21. Reli o que escrevi na época e resolvi trazer para cá. Quem sabe não haja outra jovem Mila por aí precisando de umas dicas do seu eu mais velho e rabugento?

1. Curta mais suas bochechas de aborrecente. Acredite, você vai sentir falta delas daqui a alguns anos. Fotografe-se mais, curta-se e cobre menos perfeição estética de si mesma. Até porque, ó, estamos com 35 e até hoje você não precisou disso para nada.

2. Por outro lado, tem MUITA COISA MIL VEZES MAIS IMPORTANTE do que as suas bochechas, sua peitoca mixuruca e todo o resto da sua aparência. Como integridade, bom humor, senso crítico, vontade de ser melhor consigo mesma e com os outros. Cultive essas coisas. Ou você veio ao mundo para ser enfeite? Bunda cai, fia. Caráter, não.

3. Sei que parece triste, mas não é: você vai largar o desenho. Não para sempre, mas como profissão. Você não vai ser ilustradora, vai ser tradutora, e vai ser MUITO feliz com essa escolha.

4. Você se acha a CDF, é? Pois TRATE DE ESTUDAR MAIS, prego. Tá estudando pouco, e cada vez menos. Aproveita que é mais fácil enquanto você ainda mora com seus pais. Aliás, comece a estudar tradução agora mesmo. Nunca é tarde psra se reinventar, verdade. Mas você vai querer ter começado mais cedo, e why the fuck not?

5. Falando em estudar, lembra um treco chamado feminismo? Estude isso também. Você ouviu falar quando era criança, mas acabou deixando de lado. Vá atrás. Você vai redescobrir cedo ou tarde, mas por que não já? Vai te ajudar horrores. Vai te fazer pensar duas vezes antes de encher a boca para julgar outras mulheres e vai te ensinar que seu valor não é medido por opiniões masculinas a seu respeito. Em suma, vai expandir seus horizontes (e render umas tretas aí, mas beleza). Vai ser uma delícia, catártico e o escambau.

6. Seja mais legal com ele. Sim, ele mesmo. Vale a pena e ele merece. Daqui a 13 anos vocês ainda vão estar juntos e querendo mais. Esse rolê vai ser a maior aventura da sua vida. Vai nessa que é sucesso.

7. Não insista em tentar cativar quem não te respeita ou apenas não se interessa pela sua companhia. Não aceite migalhas. Não mendigue afeto. Não tente ser alguém que você não é só porque acha que com isso mais gente vai gostar de você. NUNCA, JAMAIS. É mentira, dá trabalho e não funciona. Ninguém é tão fodão que valha essa canseira. E, acredite, ninguém quer que você faça isso; ninguém quer que você faça coisa nenhuma. Pare de tentar adivinhar o roteiro do filme dos outros e esperar que sigam o seu.

8. Você sempre vai ser meio solitária. Sempre vai ser chorona, invocada, carente, tagarela, boca suja e palhaça de lagriminha no canto do olho. TUDO BEM. Aceite isso. Tem seu charme. Ou não, mas, de um jeito ou de outro, vai ter gente que vai gostar de você de verdade. Talvez não para sempre, mas quem é que está contando? Vai durar e vai ser bom. Você nunca vai ser adorável, fofa, corajosa e elegante, mas tem gente muito mais escrota que tem amigos fiéis, sabia? Vai entender. Enfim, tem gosto pra tudo. Para você também.

9. Você vai amar profundamente algumas pessoas que vão pegar seu coração, picar bem miudinho e servir para o gato, e o pior é que o gato vai cheirar, fazer aquela cara que só gato faz de “ih, é caca!” e tentar enterrar no piso da cozinha. Tudo bem. Ame mesmo assim. Sem essa de “nunca mais”. “No fim, o amor que você leva é o amor que você dá” e coisa e tal. Você sabe que não vale a pena viver de outro jeito.

10. ESCREVA, diabo.

 

Caraval

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A história pessoal da Stephanie Garber é um belo exemplo para todos os escritores que estão a ponto de desanimar depois de várias tentativas infrutíferas de obter um lugar ao sol no mercado editorial (e principalmente no coração dos leitores).

A jovem norte-americana é autora de Caraval, young adult que chega ao Brasil pela Novo Conceito com tradução minha. No fim do livro, ela é muito sincera ao fazer “um agradecimento mais que especial aos meus pais, que ajudaram a me manter e me deixaram morar com eles para que eu pudesse terminar este livro. Um agradecimento ainda maior porque vocês dois acreditaram em todos os livros inéditos que vieram antes deste”.

“Antes de Caraval, escrevi outros cinco livros que nunca venderam, nunca foram publicados. Foi doloroso”, conta a autora em entrevista ao Estadão.

Este ano ela finalmente publicou pela primeira vez. Caraval esgotou na Amazon só duas semanas depois do lançamento. É best-seller do New York Times. Foi traduzido para 26 países. Os direitos de adaptação cinematográfica foram comprados pela Twentieth Century Fox. Dizem que estão desenvolvendo um longa-metragem. Na minha opinião, deveriam fazer uma série. O potencial é alto e o momento é perfeito.

É claro que nem toda obra de estreia terá esse impacto. A maior parte NÃO terá. Mas essa não é a primeira história que Stephanie escreve; só a primeira que publica. Ela estava mais preocupada em escrever o que queria do que em publicar. Porém, insistiu até encontrar uma editora que apostasse nela (e depois disso muitas outras). Escritores, façam como ela e não desistam. Insistam. Mais que tudo, evoluam.

Escrever é suar

Devido ao trabalho e ao resto da vida, que consiste em partes mais ou menos iguais de deveres e prazeres, faz três meses que não escrevo meu livro. Mas ontem à noite, ao voltar de uma visita às minhas tias, vim germinando ideias no caminho e tive um daqueles raros momentos-eureca, em que a solução para um problema (no caso, uma cena) aparece com clareza na cabeça da gente, como se alguém arrastasse o sofá da sala e dissesse “pronto, sua tonta, foi aqui atrás que você escondeu e não lembrava, agora trata de usar”.

Digo raro por não acreditar que a maior parte do fazer literário venha da inspiração e do acaso, mas sim do estudo, da prática e do esforço, talvez partindo de um momento-eureca, sim, mas quase nunca se alicerçando nele. Escrever é suar. Não por acaso, é delicioso e deixa a gente exausta.

Para empreender esse esforço cada autor trabalha no seu ritmo. Uns separam algumas horas para escrever no fim do dia de trabalho (outro trabalho, entenda-se), e assim funcionam; outros precisam de mais horas, até dias seguidos de dedicação quase integral, e reservam um fim de semana, feriado prolongado ou até as férias para a escrita.

Em geral sou do segundo tipo (lembra os três meses sem escrever?). Preciso imergir e dar uma boa olhada nas profundezas do cenário antes de sair nadando por ele. Poupo umas tardes de sábado e domingo para a escrita, se puder até uma semana inteira de folga-sem-folga, e mergulho. E aí, como dizem os andaluzes, no estoy pa na. Não telefone, não mande carta, não mande alguém me avisar, que eu só quero escrever.

Mas tem os momentos-eureca. Não dá para conjurá-los, mas quando eles baixam na gente é melhor aproveitar. Nunca espere a inspiração. Também não a rejeite quando vier.

Daí cheguei à casa da minha sogra, tomei banho, hora de escrever. Não tinha computador nem caderno, saquei o celular: 436 palavras. Pouco, mas muito bom para um dia que eu nem dediquei à escrita. Solucionei uma cena-chave que precisava de drama e ação. Dormi feliz.

O resultado da tradução

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Foto de Patrick Tomasso via Unsplash.

O resultado do texto traduzido, aquele que chega às livrarias, não é obra só do tradutor. Há um trabalho de equipe que envolve no mínimo editor e/ou assistente editorial, tradutor, preparador/cotejador e revisor (em geral, mais de um revisor).

Pela lei brasileira o tradutor é coautor. Suas escolhas poderiam prevalecer, mas na prática não é isso que acontece (e algumas vezes o melhor é que não aconteça mesmo).

Em muitos casos, onde o tradutor errou, o preparador acerta; onde o preparador falhou, o revisor corrige; e assim sai um texto final de boa qualidade, no qual cada um deu o melhor de si e manteve um diálogo com quem dá a palavra final, normalmente o editor. (Melhor ainda seria se todos os envolvidos pudessem conversar entre si e trocar impressões.)

Por outro lado, onde o tradutor fez uma escolha baseada numa pesquisa atenciosa, o preparador estranha, vai lá e faz uma substituição, só que erra; onde o preparador acerta, o revisor vai lá e troca seis por meia dúzia; e assim sai um texto truncado, esquisito, cheio de interferências desnecessárias.

Às vezes, o ego prejudica a visão, e a visão nublada pelo ego prejudica o resultado. Não estou falando só de um ou outro colega; vale para mim também!

Hoje, tendo feito revisão, preparação, cotejo e tradução em momentos diferentes, sabendo um pouco do que acontece nos bastidores do livro, entendo que uma obra lindamente traduzida é mérito de mais de uma pessoa. Da mesma forma, um texto final ruim tem mais de um culpado.

Entrevista

Um ano atrás, recebi um e-mail da Ana Carolina Goldschmidt e do Rogério Badaró, estudantes de Letras — Inglês — Tradução e Interpretação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Tinham lido um livro que eu traduzi (Manuscritos do Mar Morto, de Adam Blake) e decidiram me entrevistar para um trabalho da faculdade. Confesso: cheguei a achar que fosse pegadinha (rs!). Mas não era. Ana e Rogério me mandaram perguntas bem sacadas e eu, que não sei falar pouco, tive o maior prazer em responder. Eles me autorizaram a publicar a entrevista no meu blog. Aí vai!

Em suas palavras, tradutora por persistência. Por que a tradução?

Sempre gostei de traduzir. O processo é interessante e instigante, com todas as escolhas que apresenta e a linha muito tênue entre certo e errado, adequado e inadequado. Sempre gostei de estudar e escrever, o que considero essencial nesse trabalho. Mas demorei para decidir que queria a tradução como profissão e demorei ainda mais para chegar lá. Tive as aulinhas básicas de inglês na rede pública; na adolescência, traduzi letras de músicas e textos de enciclopédias sobre temas que queria entender melhor e não encontrava em português. É claro que cometi toneladas de erros! Mas isso faz parte do processo de aprendizado e, mesmo aos tropeços, me ajudou a aprender muito. Só fui fazer um curso pago de inglês depois que consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, já adulta. Devido ao que tinha aprendido por conta própria, entrei direto no módulo avançado do curso e li tudo o que pude na biblioteca da escola de idiomas. A partir de 2003, comecei a revisar textos em português como freelancer, tarefa na qual caí meio que de paraquedas quando uma autora aceitou contratar uma revisora para seu livro sem pedir o currículo (que bom, porque eu ainda não tinha um). Depois veio outro trabalho, e mais outro. Nesse meio-tempo, tive outros empregos e investi numa carreira alternativa, a de ilustradora. Mas não estava me fazendo feliz. Então, passei a me dedicar com mais afinco ao trabalho textual, revisando e escrevendo ficção. Queria ser tradutora, mas não sabia por onde começar, nem se a falta de formação acadêmica na área barraria minha entrada, nem se estava preparada para isso. Em 2011, uma editora começou a me passar regularmente revisões e preparações com cotejo de originais em inglês. Corrigindo o trabalho alheio e analisando os originais, decidi que conseguiria, sim. Comecei a azucrinar meu cliente (risos), com quem já tinha uma relação de confiança. No ano seguinte, ele me passou uma tradução. Foi graças a essa oportunidade que pude mostrar meu trabalho como tradutora a este e outros clientes, montando um currículo. Hoje, alterno as três tarefas: tradução, preparação e revisão.

 

Como vê o mercado de trabalho para um tradutor no Brasil? 

O mercado é amplo, pois pode-se ser tradutor literário, técnico, juramentado… O tradutor literário normalmente é freelancer e presta serviços para editoras brasileiras. O técnico pode se especializar num tema, ou em vários, como medicina ou eletrônica; pode trabalhar como freelancer ou funcionário de uma agência de tradução, e seus clientes podem ser brasileiros ou estrangeiros. O tradutor juramentado, ou público, é um profissional que passou no concurso da Junta Comercial da sua região ou município e traduz documentos oficiais. Até hoje só trabalhei como tradutora literária, por isso, não sei muito sobre as subdivisões do ramo. A área de tradução parece estar um pouco saturada, por ser uma profissão atraente para muitas pessoas, preparadas ou não para ela. Na minha experiência, os clientes raramente contratam sem indicação. Por isso, é preciso investir na rede de contatos, marcar presença em eventos e, claro, estudar, seja por conta própria, seja fazendo cursos. Cursos e oficinas servem não só para ampliar suas habilidades, mas também para conhecer colegas de profissão. Para quem não mora nas grandes capitais, há cursos rápidos ou à distância. Por exemplo, em março deste ano [2016] fiz a oficina do Projeto TransMit. É totalmente online e se propõe a treinar tradutores para o trabalho nas agências, ensinando macetes do ramo e corrigindo erros comuns. É muito bom e me deu esperança de trabalhar também para a área técnica.

 

Você menciona em seu website que sua primeira tradução profissional foi em 2012. Qual foi a obra e o que te levou a traduzi-la? Ficou satisfeita com o resultado?

A obra foi The Chase, ou A Caçada, de Clive Cussler, um thriller/aventura histórica. E o que me levou a traduzi-la foi, muito simplesmente, a proposta da editora (risos). Pela minha experiência, o tradutor raramente escolhe o que traduz; o que ele escolhe é dizer sim ou não à proposta de um cliente, que já tem um material a publicar. É claro que podemos rejeitar um livro por indisponibilidade ou por motivos ideológicos. Também podemos sugerir a uma editora que compre os direitos de publicação de uma obra específica. Mas, na maior parte do tempo, é o cliente quem bate à porta, e a gente diz sim. Voltando a The Chase, foi um baita desafio. Primeiro, por ser minha primeira tradução profissional; segundo, porque não foi o livro mais fácil que já traduzi. A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX e é recheada de referências à época, detalhes sobre locomotivas e motocicletas. Então, apanhei bastante desse livro. E, claro, aprendi muito.

 

Como é o seu processo de preparação para suas traduções de obras literárias mais complexas, como as do Adam Blake, por exemplo?

Num mundo ideal, eu teria tempo para ler um livro inteiro, sossegadamente, fazendo anotações sobre pontos a pesquisar, trechos a ponderar, nomes a traduzir… No mundo real, a gente tem prazos e não dá para fazer isso. Então, com qualquer obra, simples ou complexa, o que faço primeiro é ler a sinopse e alguma coisa sobre o autor, para ter ideia do que me espera; se tiver tempo, leio algumas resenhas; depois, folheio a obra, verifico se tem pontos de vista múltiplos (o que resulta em tons de voz diferentes) e leio alguns parágrafos para entender o tom predominante. Isso é rápido, coisa de uma tarde. Depois, já começo a traduzir. Os desafios vão se apresentando ao longo do processo. Trabalho sempre conectada à internet para poder pesquisar expressões que ainda não conheça, jargões de uma área profissional, dados sobre um período histórico ou sobre o universo em que se passa a história, quando ela é derivada de um filme ou série de TV, por exemplo. Vale consultar os colegas também: há comunidades de tradutores dedicadas a isso nas redes sociais. Às vezes, é preciso montar um glossário do universo da obra. Noutras vezes, é preciso voltar a capítulos anteriores e mudar todas as decisões que já se tomou (risos!) em nome da coerência. Manuscritos do Mar Morto, no original The Dead Sea Deception, foi minha segunda tradução e me fez pesquisar termos usados pela polícia, armas de fogo, história e geografia. Dos livros em que trabalhei, é um dos meus favoritos. Mas, como acontece com toda tradução de principiante, ele saiu com vários erros que hoje eu adoraria corrigir, se pudesse.

 

Você faz traduções do inglês para o português brasileiro. Não se arriscaria no caminho inverso? Por quê?

Já fiz uma versão, que é como chamamos as traduções do português para outra língua. Era um texto muito curto e simples, que pude ler inteiro para avaliar se meus conhecimentos estavam à altura do trabalho. Mas, neste momento, não me arriscaria com versões de textos mais complexos. Como muitos tradutores, eu me sinto mais confortável para trabalhar com minha língua nativa como língua de chegada, ou seja, para trazer textos de outra língua para o português, mas não o oposto. Faltam-me naturalidade e aprofundamento na gramática do inglês. Isso faz toda a diferença entre um texto fluido e um texto trôpego, pouco espontâneo. Afinal, o ideal é que uma tradução não tenha cara de tradução. Ela deve parecer um texto escrito originalmente na língua de chegada.

Um bom negócio

Hoje fiz um excelente negócio: dispensei a chance de comprar uma briga.
Há brigas das quais a dignidade não permite fugir, porque fundamentais. Mas há aquelas das quais o bom senso recomenda passar longe, porque inférteis. Acho que estou aprendendo a distingui-las.

Ignorante

De uns tempos para cá adquiri o hábito de confessar minha ignorância com todas as letras. Sou ignorante mesmo. Nada de “hum, como assim xyz?” (coisa que a gente ouve muito quando usa uma palavra que o outro não conhece, mas não quer admitir). Mando logo um “desculpe, não entendi, você pode explicar?”, ou então “não sei o que é xyz, me explica?”.
Recomendo. É libertador fazer isso quando você está cansada de ambientes onde parecer inteligente é mais importante que sê-lo de fato. Se isso me fizer parecer a burrinha do rolê, paciência. Quem não pergunta não quer aprender.