Como eu escrevo

José Nunes De Cerqueira Neto tem um site chamado Como eu escrevo com uma proposta linda, que transcrevo nas palavras dele:

“Eu criei o ‘Como eu escrevo’ pensando nas pessoas que sofrem para escrever.

Saber como escrevem as pessoas que admiramos nos inspira a refletir sobre o nosso próprio processo criativo.

Minha esperança é que o projeto ajude a fazer da academia (e da literatura) um lugar melhor.”

O site está repleto de entrevistas com escritores, acadêmicos e juristas brasileiros. Entre autores de ficção e não ficção, já responderam às perguntas dele nomes conhecidos como Frei Betto, Laerte Coutinho, Leonardo Boff e Márcia Tiburi, além escritores de ficção especulativa como Alexey Dodsworth, Aline Valek, Braulio Tavares, Carolina ManciniCristina LasaitisChristopher KastensmidtErica Nara BombardiFelipe Castilho e tantos outros queridos que a gente acompanha. 

Agora estou entre eles, feliz e sorridente que nem uma invasora de selfie alheia.  O link para minha entrevista é este. Passem por lá!

Valeu, José!

A maluquice de abraçar gente estranha

Tive uma amiga que, quando via gente estranha chorando na rua, fazia questão de se aproximar e perguntar por quê. Eu achava maluquice. Uma maluquice do bem, mas ainda assim maluquice. Sempre pensei que se eu estivesse chorando na rua preferiria ser deixada em paz (como já aconteceu). E tinha receio de que a pessoa, alterada, pudesse gritar comigo ou me apresentar um problema que eu não poderia solucionar (como se a gente devesse esperar que alguém resolvesse nossos problemas; às vezes, só precisa falar deles ou ser respeitada em silêncio por alguém que se importa…). Essa impotência, com um quê de arrogância, me paralisa às vezes. Em geral, eu evito gente estranha e seus problemas.

Mas ontem, começo da tarde, quando eu estava no metrô indo à casa de uma amiga, sentou ao meu lado um jovem que olhava o celular e estremecia. Primeiro pensei que estivesse rindo, logo vi que soluçava. Aí fiz uma maluquice: perguntei por quê. Não entendi a resposta, o choro era intenso. Aí fiz outra maluquice: abracei o menino. Abracei forte, e ele chorou no meu ombro um tempão. Explicou que tinha saído com um amigo na noite anterior e de manhã vira no Facebook a notícia da morte dele. Ao que parecia, um acidente. Ele estava indo para a casa da família do amigo a fim de entender o que tinha acontecido. Chorou mais um pouco, abracei mais um pouco. Desceu mais calmo na sua estação. Espero que ele e a família estejam bem, na medida do possível.

Apesar da situação muito triste, vi beleza no fato de ele se deixar abraçar sem reservas por uma estranha. Não sei se eu me permitiria essa vulnerabilidade. Depois do exemplo dele, gostaria de pensar que sim.

Não sei em quem ele votou. Confesso que não me importa. Só sei que o mundo já é violento demais, e precisamos ser mais gentis com as pessoas, mesmo sob o risco de elas gritarem conosco ou contarem problemas que não podemos resolver. Vale a pena, e eu vou tentar.

O melhor possível

Pesquise bem, faça o melhor trabalho possível, encare as críticas com serenidade.

Porque as críticas VÃO vir. Não importa o quanto a pesquisa seja detalhada, a atitude, respeitosa e o interesse, genuíno.

Faz parte.

A crítica é uma mensagem importante. Não mate o mensageiro. Aprenda com as palavras dele.

(Sim, o recado é para mim também.)

Nunca a esqueci

A escritora Ana Lúcia Merege perguntou hoje aos colegas em sua timeline do Facebook se havia um personagem que os acompanhara em diferentes fases da vida e como ele havia evoluído.
Tenho uma personagem sobre a qual escrevi muito na adolescência. Desenhei vários retratos seus. Ainda tenho alguns. Outros foram roubados. Depois a abandonei com a promessa de um dia voltar a registrá-la quando eu fosse boa o bastante para fazer-lhe justiça.
Lá se vão vinte anos. Nunca a esqueci.
Uns anos atrás, numa noite de insônia, o cérebro só sossegou quando levantei e escrevi duas páginas sobre ela, prometendo, de novo, voltar quando estivesse pronta.
O curioso é a forma como a imaginei quando a criei: uma mulher entre 30 e 40 anos, fisicamente baixa, de ombros largos, pele amarelada, cabelos pretos rebeldes e vincos bem fortes em torno da boca, o que, combinado às pálpebras pesadas, dava-lhe um ar um tanto arrogante.
Não sei se ela evoluiu. Só que eu, hoje “entre 30 e 40 anos”, me tornei fisicamente parecida com ela.

10 conselhos para a Mila de 21

De 21.7.2016.

Gosto de usar o recurso On this day do Facebook para rever coisas que já fiz ou disse em anos recentes. Noto que me curei de uma porção de besteiras e suspiro com boas memórias de viagens e momentos com gente querida. Hoje topei com esta: ano passado, circulou pela rede a brincadeira das dez coisas que você diria, se pudesse, ao seu eu mais jovem. A pessoa passava a brincadeira adiante sugerindo uma idade a cada amigo que quisesse brincar: 15, 19, 32, qualquer uma. A Fabiana Zardo me deu 21. Reli o que escrevi na época e resolvi trazer para cá. Quem sabe não haja outra jovem Mila por aí precisando de umas dicas do seu eu mais velho e rabugento?

1. Curta mais suas bochechas de aborrecente. Acredite, você vai sentir falta delas daqui a alguns anos. Fotografe-se mais, curta-se e cobre menos perfeição estética de si mesma. Até porque, ó, estamos com 35 e até hoje você não precisou disso para nada.

2. Por outro lado, tem MUITA COISA MIL VEZES MAIS IMPORTANTE do que as suas bochechas, sua peitoca mixuruca e todo o resto da sua aparência. Como integridade, bom humor, senso crítico, vontade de ser melhor consigo mesma e com os outros. Cultive essas coisas. Ou você veio ao mundo para ser enfeite? Bunda cai, fia. Caráter, não.

3. Sei que parece triste, mas não é: você vai largar o desenho. Não para sempre, mas como profissão. Você não vai ser ilustradora, vai ser tradutora, e vai ser MUITO feliz com essa escolha.

4. Você se acha a CDF, é? Pois TRATE DE ESTUDAR MAIS, prego. Tá estudando pouco, e cada vez menos. Aproveita que é mais fácil enquanto você ainda mora com seus pais. Aliás, comece a estudar tradução agora mesmo. Nunca é tarde psra se reinventar, verdade. Mas você vai querer ter começado mais cedo, e why the fuck not?

5. Falando em estudar, lembra um treco chamado feminismo? Estude isso também. Você ouviu falar quando era criança, mas acabou deixando de lado. Vá atrás. Você vai redescobrir cedo ou tarde, mas por que não já? Vai te ajudar horrores. Vai te fazer pensar duas vezes antes de encher a boca para julgar outras mulheres e vai te ensinar que seu valor não é medido por opiniões masculinas a seu respeito. Em suma, vai expandir seus horizontes (e render umas tretas aí, mas beleza). Vai ser uma delícia, catártico e o escambau.

6. Seja mais legal com ele. Sim, ele mesmo. Vale a pena e ele merece. Daqui a 13 anos vocês ainda vão estar juntos e querendo mais. Esse rolê vai ser a maior aventura da sua vida. Vai nessa que é sucesso.

7. Não insista em tentar cativar quem não te respeita ou apenas não se interessa pela sua companhia. Não aceite migalhas. Não mendigue afeto. Não tente ser alguém que você não é só porque acha que com isso mais gente vai gostar de você. NUNCA, JAMAIS. É mentira, dá trabalho e não funciona. Ninguém é tão fodão que valha essa canseira. E, acredite, ninguém quer que você faça isso; ninguém quer que você faça coisa nenhuma. Pare de tentar adivinhar o roteiro do filme dos outros e esperar que sigam o seu.

8. Você sempre vai ser meio solitária. Sempre vai ser chorona, invocada, carente, tagarela, boca suja e palhaça de lagriminha no canto do olho. TUDO BEM. Aceite isso. Tem seu charme. Ou não, mas, de um jeito ou de outro, vai ter gente que vai gostar de você de verdade. Talvez não para sempre, mas quem é que está contando? Vai durar e vai ser bom. Você nunca vai ser adorável, fofa, corajosa e elegante, mas tem gente muito mais escrota que tem amigos fiéis, sabia? Vai entender. Enfim, tem gosto pra tudo. Para você também.

9. Você vai amar profundamente algumas pessoas que vão pegar seu coração, picar bem miudinho e servir para o gato, e o pior é que o gato vai cheirar, fazer aquela cara que só gato faz de “ih, é caca!” e tentar enterrar no piso da cozinha. Tudo bem. Ame mesmo assim. Sem essa de “nunca mais”. “No fim, o amor que você leva é o amor que você dá” e coisa e tal. Você sabe que não vale a pena viver de outro jeito.

10. ESCREVA, diabo.

 

Caraval

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A história pessoal da Stephanie Garber é um belo exemplo para todos os escritores que estão a ponto de desanimar depois de várias tentativas infrutíferas de obter um lugar ao sol no mercado editorial (e principalmente no coração dos leitores).

A jovem norte-americana é autora de Caraval, young adult que chega ao Brasil pela Novo Conceito com tradução minha. No fim do livro, ela é muito sincera ao fazer “um agradecimento mais que especial aos meus pais, que ajudaram a me manter e me deixaram morar com eles para que eu pudesse terminar este livro. Um agradecimento ainda maior porque vocês dois acreditaram em todos os livros inéditos que vieram antes deste”.

“Antes de Caraval, escrevi outros cinco livros que nunca venderam, nunca foram publicados. Foi doloroso”, conta a autora em entrevista ao Estadão.

Este ano ela finalmente publicou pela primeira vez. Caraval esgotou na Amazon só duas semanas depois do lançamento. É best-seller do New York Times. Foi traduzido para 26 países. Os direitos de adaptação cinematográfica foram comprados pela Twentieth Century Fox. Dizem que estão desenvolvendo um longa-metragem. Na minha opinião, deveriam fazer uma série. O potencial é alto e o momento é perfeito.

É claro que nem toda obra de estreia terá esse impacto. A maior parte NÃO terá. Mas essa não é a primeira história que Stephanie escreve; só a primeira que publica. Ela estava mais preocupada em escrever o que queria do que em publicar. Porém, insistiu até encontrar uma editora que apostasse nela (e depois disso muitas outras). Escritores, façam como ela e não desistam. Insistam. Mais que tudo, evoluam.

Escrever é suar

Devido ao trabalho e ao resto da vida, que consiste em partes mais ou menos iguais de deveres e prazeres, faz três meses que não escrevo meu livro. Mas ontem à noite, ao voltar de uma visita às minhas tias, vim germinando ideias no caminho e tive um daqueles raros momentos-eureca, em que a solução para um problema (no caso, uma cena) aparece com clareza na cabeça da gente, como se alguém arrastasse o sofá da sala e dissesse “pronto, sua tonta, foi aqui atrás que você escondeu e não lembrava, agora trata de usar”.

Digo raro por não acreditar que a maior parte do fazer literário venha da inspiração e do acaso, mas sim do estudo, da prática e do esforço, talvez partindo de um momento-eureca, sim, mas quase nunca se alicerçando nele. Escrever é suar. Não por acaso, é delicioso e deixa a gente exausta.

Para empreender esse esforço cada autor trabalha no seu ritmo. Uns separam algumas horas para escrever no fim do dia de trabalho (outro trabalho, entenda-se), e assim funcionam; outros precisam de mais horas, até dias seguidos de dedicação quase integral, e reservam um fim de semana, feriado prolongado ou até as férias para a escrita.

Em geral sou do segundo tipo (lembra os três meses sem escrever?). Preciso imergir e dar uma boa olhada nas profundezas do cenário antes de sair nadando por ele. Poupo umas tardes de sábado e domingo para a escrita, se puder até uma semana inteira de folga-sem-folga, e mergulho. E aí, como dizem os andaluzes, no estoy pa na. Não telefone, não mande carta, não mande alguém me avisar, que eu só quero escrever.

Mas tem os momentos-eureca. Não dá para conjurá-los, mas quando eles baixam na gente é melhor aproveitar. Nunca espere a inspiração. Também não a rejeite quando vier.

Daí cheguei à casa da minha sogra, tomei banho, hora de escrever. Não tinha computador nem caderno, saquei o celular: 436 palavras. Pouco, mas muito bom para um dia que eu nem dediquei à escrita. Solucionei uma cena-chave que precisava de drama e ação. Dormi feliz.