Estou no Wattpad!

O conto O chifre negro, publicado em meu livro Reino das Névoascontos de fadas para adultos, foi vertido para o inglês pela Daniela Fernandes e revisado pelo Darryn Smith. Fiz poucas intervenções no trabalho deles, pois gostei muito do resultado.

Decidi publicar essa versão no Wattpad como The black horn. Corram lá que já tem três capítulos à sua espera, e só faltam mais dois.

Eis a sinopse:

A fairy tale about a princess on a hunt for a unicorn and its healing powers. She’ll go to any length to save her father from death, endangering her life and that of those who serve her.

A story about love, pride and self-knowledge.

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Prerrogativas

Conto de 2005, originalmente publicado no NecroZine #4, especial de contos eróticos de terror.

Ela jogou os cabelos para trás uma, duas, três vezes, no ritmo dos próprios gemidos. Atrás, o homem bufava, ia e vinha, eufórico. Ela fazia o que ele queria. Fazia tudo o que eles queriam. De frente, de lado, de costas, sobre o chão de folhas secas, acuada contra as árvores ou imersa no lamaçal. Em silêncio ou aos berros. Era sua prerrogativa.

Abordava-os no meio da estrada que atravessava o bosque. Nua, a pele de cera reluzindo ao luar, os cabelos de fogo fazendo espirais sobre seus seios, derramando-se em cascata nos quadris, lambendo-lhe mesmo os calcanhares. Uma visão. Uma Vênus. Braços estendidos. Venha. Faça de mim o que quiser.

Preferia os solitários, a quem a privacidade da mata roubava qualquer pudor. Os casados vacilavam, pensando na confiança das esposas. Aqueles que vinham em grupos eram ora tímidos, ora vorazes – isso dependia do que pretendiam provar uns aos outros. Mas todos, sem exceção, atiravam-se ao seu regaço. Por que fariam outra coisa? Experimentavam seus orifícios, faziam-se homens, copulavam por horas. Ela gostava sobretudo dos que pediam. Tinham mentes e línguas sujas. Tornavam seu labor mais fácil, ágil, prazeroso.

O homem dessa noite era vigoroso e indecente: ideal. Nada demorou, jogou-a na relva e possuiu-a ferozmente. As unhas muito longas da mulher rasgavam suas costas dos ombros aos quadris, deixando as marcas rubras do pecado. Mas ele terminou rápido demais e enterrou o rosto em seus seios, ofegante. Ergueu-se, refeito.

Ela sorriu. Palavras não eram necessárias. Estendeu uma vez mais os braços para ele, não para recebê-lo, mas para alcançar-lhe o pescoço, no qual fechou as mãos em garra. Apertou-o com uma força nunca vista em outras mulheres. Era sua prerrogativa também. Sua paga. Seu prazer após o prazer. Perfurou a carne com as unhas; sufocou-o e fê-lo sangrar. O corpo do homem estremeceu. Por fim, parou de mover-se para sempre.

Duas mãos apertaram o ventre do defunto, fazendo nele um rasgo, com num trapo que se parte em dois. Dedos habilidosos tatearam as entranhas ainda quentes, cavoucando. Retiraram de lá um órgão ovalado, do tamanho de um punho, e o embrulharam depressa na camisa do homem. As mãos penetraram mais fundo na carne morta, rasgando o caminho e fazendo espirrar o sangue, até alcançar um órgão maior, macio, que foi juntar-se ao outro na trouxa sangrenta. Então, o último, que encontrou bem protegido sob as costelas. Era maior do que esperava.

Um coração premiado.

Saciou-se rápido no que restava do sangue do homem. Tinha pressa e nada podia ser desperdiçado. Correu pelo bosque aos saltos, como a fera que já conhece todos os caminhos, atalhos, armadilhas. Logo chegou à caverna.

Três pares de olhos brilharam lá no fundo. Três rostos se adiantaram ao ver a mulher chegar. Rostos ainda infantis, pálidos como o dela, como se filhos da Lua. Lábios miúdos se arreganharam em sorrisos felizes, exibindo fileiras de dentes pontiagudos.

A mulher acariciou a cabeça do seu primogênito enquanto ele avançava para o banquete sanguinolento. Escolheu o fígado. Estava ficando forte; em poucos anos, seria um varão e ajudaria a mãe a caçar para os dois irmãos menores, que grunhiam de prazer, mordiscando e lambendo um baço e um coração. Também caçaria para a pequena fera que nesse instante se formava no ventre da mãe, filha do pai que, sem saber, os alimentava agora.

As bocas dos meninos estavam vermelhas; sua sede e sua fome, saciadas. Essa era sua prerrogativa.

O monstro em mim

Conto de 2005.

Há um monstro dentro de mim.

Ele aparece principalmente quando você está por perto.

Observa pelos meus olhos os seus gestos, me retorce as entranhas num nó de fúria e sussurra, de mim para mim, as lições que eu deveria lhe dar.

Esse monstro me mata, amor. E mata devagar. E ele já se mostrou a você.

Na primeira vez, éramos somente nós, e eu me abri, revelei meu caráter mais íntimo, e lhe mostrei o que existe dentro de mim. Você não disse nada. Mudou o assunto, comprar cerveja, alugar um filme – mas vi nos seus olhos aquele desassossego de quem tenta enganar o medo.

Na segunda vez, tivemos platéia. O erro, o grito, os queixos esmurrados, o escândalo. Lembro-me quase sorrindo dos olhares chocados no bar. Lembro-me quase chorando das suas ameaças, mas não me deixe, não, amor, eu serei bom…

Foi só do muito que eu a quero que consegui fazê-la ficar. Recolhi o demônio ao meu calabouço mais profundo, barrei-o, soquei-o em mim, embalsamado. Então, cumulei-a de flores, perfumes, momentos de calmaria e gentileza, e olhe, amor é a nossa música tocando no rádio. Dancemos.

Chorar, nunca. A besta permite nunca o lamento e sempre o ódio.

Mas o monstro cochila e pisca os olhos sonolentos, muito vivos, para mim. Ele me diz que eu devo ser severo. Para puni-la por tudo o que ainda não fez. Para não deixar que você me engane. Você me engana, amor? Com os abraços e os beijinhos e os amigos que na sua boca são apenas amigos e talvez na sua esperança sejam mais? Você me diz que não há malícia, não há maldade neste mundo a não ser em mim, mas ilude-se e me ilude consigo: há interesse nos gestos casuais desses sujeitos que a cercam.

Você é belíssima. Bela demais para ser de um homem só. Bela demais para que o homem que a tem suporte dividi-la com outros.

A besta que reside em mim vigia seu domínio, querida. Você e eu? Suas vítimas. Seu nome? O ciúme.

Esse monstro me mata, amor. E, um dia, matará a nós dois.

NecroZine?

necrozine022Quem acompanha desde o começo o grupo Necroautores deve se lembrar do…

Peraí. Necroautores?

Necroautores foi o apelido que Alexandre Heredia, Gian Celli, Giorgio Cappelli, Richard Diegues e eu ganhamos quando começamos a unir nossos esforços para escrever e publicar contos de suspense e terror.

Nosso trabalho talvez seja mais conhecido pela trilogia Necrópole. A formação original do grupo lançou 5 contos no livro Necrópole – histórias de vampiros em 2005. No ano seguinte, tivemos como convidados especiais os autores Dóris Fleury e Marcelo Dias Amado, com os quais lançamos 7 contos em Necrópole – histórias de Fantasmas. Já em 2008 Giorgio não participou de Necrópole – histórias de bruxaria, no qual contamos com trabalhos de Eric Novello e Nazarethe Fonseca nos 6 contos que compõe o livro.

Mas antes de Necrópole o grupo original trabalhou no NecroZine, uma publicação que teve 6 edições com nossos contos. Era uma publicação muito bem-feita, com editorial, contos caprichados e revisados, capa e ilustrações exclusivas (by moi), que só faltaram no segundo volume, que precisamos aprontar às pressas para uma festa gótica. De fato, as primeiras edições do NecroZine foram impressas e distribuídas de graça em eventos góticos e alternativos. Depois passamos a preferir a distribuição virtual, em formato PDF.

Hoje, muito por acaso, descobri que o blog Baixar Aki (não confundir com o site Baixaki) armazenou nossos zines para donwload. O que é ótimo, já que, sei lá por que razão, não estou conseguindo acessá-los no local onde originalmente estavam hospedados e também não sei onde guardei meus próprios PDFs, rs. Obrigada, pessoal do Baixar Aki!

Chega de papo, né? Convido todos a baixar as 6 edições do NecroZine! É só clicar nos links abaixo. Enjoy.

NecroZine 1

NecroZine 2

NecroZine 3

NecroZine 4

NecroZine 5

NecroZine 6

Velha

De 1995 a 1999, escrevi muita poesia. O suficiente para juntar tudo em dois documentos que eu tencionava transformar em livros. Tinha até prefácio. Por razões diversas, abandonei a idéia.
Muito não necessariamente significa bom. A maior parte do material era extremamente rebuscada, com versos longos demais e métrica caduca ou ausente (nenhum problema com os versos brancos, o problema é forçar uma rima ao ponto do absurdo, rs). Mas há uma parte desses poemas que considero aproveitável, especialmente considerando o quanto eu era crua e jovem quando os compus.
Aqui segue um deles, de 1998.

Velha

Sou velha. Nos vincos de meu rosto
Dormem os nomes de meus amores;
Na tez macilenta jazem dores:
Herança de um gozo pressuposto.

Na curva indigente da verruga
Rola a lágrima, que na secura
Da pele experiente se enxuga,
Como um mal que sozinho se cura.

Olhares dolentes, de esguelha,
São-me oferecidos; sou idosa:
Silhueta lassa e lacrimosa
Que a alma de tanta gente espelha.

Comigo, importo-me muito pouco;
Não sou beata de vossa igreja
E a indiferença me sobeja
Aos que seguem visionários loucos.

Pouco se me dá que me olheis
Com sorrisos tímidos e largos;
Se hoje vós sois, por vitais leis,
Doces, amanhã sereis amargos.

Ríeis do meu arroubo ranzinza?
Temei a profana casquinada
Com que honro a troca efetuada
Entre rubra infante e velha cinza!

Teus gostos, um dia, foram meus,
Mas, ora, exacerbo-me à toa,
Namorando arcaicos camafeus;
Não há o que me alente ou já me doa.

Na ausência de lábios e meiguice
– Uns, ralados da guasca dos anos,
Outra, extirpada pelo que disse
Ao peito a voz grave dos enganos –,

Espraio-me ao sol senil da idade;
Folgo da arenosa consistência
Destas rugas, cuja faculdade
É deixar-me à flor da decadência.

Hei de estar assim, silente e queda,
Ícone de mil temeridades,
Engendrando, entre vis veleidades,
Iscas para quem de mim se arreda.

Do início das raças fictícias
Ao fim das verdades animais,
Do alto da mágoa aos pés da delícia,
Estou cá desde sempre até jamais.

Sei que a insaciedade já me estoura
E, antes que a plenitude me leve,
Eu quero ser eternamente breve
E efemeramente imorredoura.

Sou eu mesma a torpe legatária
Da poeira dos risos que eu rir;
Sou velha: uma fera temerária;
Sou velha: acostumada a ferir.

Para amar uma ruiva

Texto de 2006, originalmente publicado no blog 7 Erros.

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Para amar uma ruiva é preciso haver coração de sobejo.

Não que as ruivas não se amem facilmente. Na verdade, é comum que sejam amadas por muitos. Basta às vezes um só olhar para que isso aconteça.

É que, uma vez acesa a chama, nunca será pequena; será sempre fogo denso, impiedoso, inquisidor.

Portanto, para amar uma ruiva é preciso saber queimar. É preciso brincar sem medo com fogo. E é preciso também respeitá-lo – o fogo que nasce no crânio da ruiva feito cabelo, que lhe afogueia as faces. Um fogo que, quando afrontado, em lugar de aquecer, incinera.

Judas tinha cabelos vermelhos, diz-se; como Esaú também os tinha, e antes dele, Caim. Waterhouse pintou Lamia, lenda de sedução, com cabelos vermelhos; as madeixas com que a Vênus de Boticcelli cobre languidamente o sexo não são de outra cor que não a do fogo. Cor que é certamente um sinal de perigo. Sinal claro de divindade.

Para amar uma ruiva é preciso fitá-la intensamente nos olhos – sejam azuis do mar, verdes dos fiordes ou, mais raramente, castanhos como a terra que os consumirá – e provar-lhe a ausência do medo. Conquistá-la no olhar primeiramente, e só depois no toque – pois tu certamente quererás tocar a pele muito, muito clara, de uma claridade quase ofuscante, mesmo sob o sol maldoso dos trópicos. Quererás isso como teus pulmões querem o ar. Eu sei porque já quis.

Mas, antes disso, terás de provocar seu sorriso, e embora sorrisos sejam fáceis na boca-morango da ruiva, não penses que serão todos teus. Alguns serão da tua tolice, da tua presunção, e estes ela te dará sem cerimônia, sem promessa, sem futuro. Serão paina ao vento, macios e inúteis. O sorriso que queres tomar da ruiva é o do fascínio. Pois ela, que fascina, não quer outra coisa que não ser fascinada. Ela é chama, e para incendiar deve ser alimentada com palavras hábeis, coração honesto, virilidade sem disfarces. É preciso atrevimento, mas nunca certeza; ela é amada por muitos, e pode escolher a quem amar.

Então, quando obtiveres esse sorriso, estarás pronto para amar uma ruiva.

Para isso, começa sempre no beijo, mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja, porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa, o ato que lhe faça justiça. Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso, onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível; às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha, que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo – é algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher de cabelos carmesim, cobre ou dourado-fogo. Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre as coxas. Sem pressa, porém; pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno: por toda uma noite, aquecendo a casa, crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.

Para amar uma ruiva é necessário amar-lhe cada sarda, da testa ao ventre, saboreando-as como raspas de canela que temperam a pele-leite.

É preciso consumir-se nos cabelos-labareda.

É preciso afogar-se no sexo, rubro jardim sem espinhos, e santificar seu aspecto perpetuamente virginal, a despeito do pecado, que ela te ensinará a adorar, se já não souberes.

Para amar uma ruiva – e disso sei por já ter amado muitas – é preciso arder com graça.

É preciso amar um pouco o próprio inferno.

Por isso, ruiva, se é que deves mesmo me ferir, sê breve: tenho pressa do paraíso.

Atualização em 30.6.2014: Pessoal, não é porque a mulher é ruiva, morena, negra, careca ou cabeluda que ela é especial. Nem é por ser mulher. É por ser GENTE. Cada pessoa é especial para alguém neste mundo e ao mesmo tempo insignificante para muuuuitos outros alguéns. Cor de cabelo não define personalidade, tá? Este texto não é nada além de uma piração minha. Uma idealização, uma poesia em prosa. Se é sobre alguém real ou irreal, isso só a mim interessa. 😉 Eu garanto: ruiva não é melhor que ninguém. Ninguém é superior por conta de cor de cabelo ou pele, nem essas coisas definem personalidade. Mas este texto tem atraído repercussão indesejada e a partir de hoje vou passar a não aprovar certos comentários. Não vou retirar o texto do ar porque, se eu o escrevi um dia, foi por precisar escrevê-lo. Não é algo que escreveria hoje, mas não vou retirar o que disse OITO anos atrás. Não vou pedir desculpas por pirar de vez em quando. Só chega de comentários malucos, por favor. :-/

A mulher tatuada

Vivia desorientada. Por isso, foi a um estúdio de arte corporal e adquiriu sua primeira tatuagem: uma bússola, gravada bem no meio das costas.

Verdade que não apontava para o Norte e sim para onde quer que ela se virasse. Mas pareceu funcionar; sua auto-sugestão era forte. Seu senso de espaço melhorou muito.

Gostou da experiência. Nunca mais parou.

Notou que vivia sem tempo para tudo. Então, tatuou uma ampulheta ao longo da panturrilha direita. O bojo superior da peça foi desenhado cheio e jamais se esvaziava. Nunca mais faltou-lhe tempo.

Morava só, em silêncio. Quis ter um bicho de estimação, mas o gato fugiu e o canário morreu (antes de o gato ter fugido). Então, mandou tatuar um jaguar e uma arara – não fazia mal ser hiperbólica nessa hora. Fez também um lobo, um cavalo, uma baleia narval. E desde então não teve dentro de si mais nenhum silêncio constrangedor.

Mas ainda sentia-se só. Faltava companhia humana. Por isso, tatuou um rapaz viril, um velho paternal, um divertido menininho. Fez também a mãe já morta, a irmã que não teve, a avó que não conheceu. O casal de filhos – gêmeos – que nunca pariu.

E, como os humanos nada são sem seus mitos, mandou espraiar uma sereia na coxa, onde ainda havia espaço; uma fada a voar no braço; um unicórnio empinado no tornozelo.

Um dia, entendeu que, a cada ausência que preenchesse com tinta, outra lhe surgiria. Sempre haveria lacunas em sua vida. Mas no corpo já não havia nenhuma. A pele era espaço finito.

Agora, ela era uma coisa circense, inumana, causando sustos pela rua com o universo vivo na derme.

Percebeu que o que lhe faltava verdadeiramente era a emoção. A aventura. Mais que pintar na pele o mundo todo, ganhá-lo – e ser dele.

Então, assinou contrato com uns japoneses para que a esfolassem após a morte e vendessem sua pele esticada em abajures exclusivos, milionários. Recebeu alguns milhões de euros por isso e foi viajar.

Gostou da experiência. Nunca mais parou.

Pois desde esse dia, dinheiro, pelo menos, nunca mais faltou.