Mas poderia ser

Não tenho tido muito tempo para editar meu romance, mas anteontem escrevi um miniconto no ônibus que descia a serra.

Naquela semana que passamos juntas ela falou muito. Sobre os livros que amou, os filmes que a cativaram, os lugares pelos quais passou, mas que nunca passaram. Nada sobre gente. Nem família, nem amigos, muito menos amante. Deu a entender que não os tinha ou, se tinha, não importavam.
Uma semana é pouco para conhecer alguém. Uma semana não é uma vida, eu sei. Mas poderia ser.
Na absoluta falta de gente em sua existência, eu me senti rainha dos seus dias e privilegiada por sê-lo, já que ela não procurava quem ocupasse o trono. A solidão não lhe pesava nos ombros. Ao contrário: dava-lhe asas. Reinava sem par nem pesar num castelo feito de céu e fez para mim um trono ao seu lado porque quis. Em suas asas vi o mundo do alto, sem peso nem queda.
Ela não era um pássaro, eu sei. Mas poderia ser.
Quando nos despedimos, entendi que provavelmente não nos veríamos de novo. Achei que seria apropriado sofrer de saudade antecipada, só que não consegui. Nunca gostei de pássaro em gaiola. Sempre gostei de pássaro no céu.
No beijo que ela me deu havia aceitação e afeto. Afeto não é amor, eu sei. Mas poderia ser.
Anúncios

Queria ouvir os pássaros

Dezembro de 2017.
Queria ouvir os pássaros, mas o som dos motores não deixou, o carro motocicleta roçadeira, a gasolina, que é petróleo, que é fóssil, que é natureza morta calando a natureza viva, que é resto de bicho, talvez por isso tão feroz, talvez por isso tão fadado a morrer e matar todo o resto.
Só queria ouvir os pássaros. Se não é petróleo é falatório, é boca ocupada com mente vazia, que há de nos matar também.

Algazarra

Encontrei uns versinhos que escrevi em outubro de 2017, guardei no celular e esqueci que existiam. Havia muito tempo que não brincava com rimas.

Minha alma é uma algazarra.
É silêncio o que eu busco,
Mas no mundo há tal ruído
Que é como um cravar de garra
Na vontade e no sentido,
E meu ser se torna brusco,
Besta-fera que na marra
Sai dos eixos e dá ouvido
Às vozes do lusco-fusco,
Demônios que, sempre em farra,
Matam tudo o que é querido.

 

De máquinas do tempo enguiçadas e grifos que gritam com os vizinhos no elevador

 

Griffin_of_Perugia

Grifo com a coroa mural da Perúgia, século XIII. Fonte: Wikipédia (sob licença Creative Commons).

Há algum tempo penso em voltar a estudar a língua de modo mais disciplinado, com acompanhamento de um professor e incentivo dos colegas. O objetivo principal, além do óbvio prazer de aprender, seria aprimorar meu inglês o bastante para passar a escrever nessa língua com a mesma propriedade com que escrevo em português, além de oferecer serviços de versão (que tantas pessoas me pedem e eu, ó, nada).

Então fui à Cultura Inglesa fazer uma avaliação do meu nível de conhecimento. Parte dela mandava compor uma redação em inglês. Havia duas opções: resenha de filme e e-mail em resposta a uma amiga ou amigo.

Acabou sendo um exercício de criatividade. Como não tinha o menor compromisso de dar continuidade ao texto, acabei escrevendo uma ficção curta misturando todas as doideiras que me vieram à mente porque sim. (O professor riu bastante. Diverti uma pessoa, estou feliz. Também me diverti escrevendo.)

Maridoffmann quis ler o texto quando voltei, mas ficou com a escola. (Agora, basta esperar até eu virar uma escritora rica e diva e eles podem leiloar o manuscrito por vários dinheiros…) Então, chegando em casa, tentei reescrever a redação. Não é o mesmo texto, pois obviamente não o memorizei e agora tenho o que não tinha naquele momento: um teclado (detesto escrever à mão e tenho letra de médico) e acesso ao corretor do Grammarly para não pisar (muito) na bola.

Minha expressão verbal em inglês é muito limitada, considerando tudo. Então, críticas à forma serão bem-vindas. Mas esquece a trama, ela não existe. (Por enquanto. Vai saber?)

A redação era mais ou menos assim:

Option 1: Answering a friend’s email. Your friend wrote to you telling he/she has just found a job and moved to São Paulo.

Mandatory items:

Comment on your friend’s big news;

Tell him/her what you’ve been doing since you last met;

Mention something extraordinaire that happened to you;

Make plans to see your friend soon.

 

Hi there, Paola! How’s it going?

I’m so glad to hear from you! I’m rather impressed to know that you’re living in São Paulo. Even more so that you’re living in the 21st century. Are you tired of the Renaissance already?

I’m living in Santos ever since my time machine went FUBAR. I finally managed to successfully make a deal with the English pirates so they’d stop getting nasty with the local mermaids in the 1700’s. It was about time! But now I’m pretty much retired from Time Law Enforcement.

Also, I’m now the proud mother of two baby gryphons named Artemisia and Altaïr, and yes, the last one was named after Assassins Creed’s best character ever. I’ll leave you to guess why I haven’t named the first one Sophonisba like I promised your favorite Italian painter back in the 1600’s. I’m having a hard time trying to teach them not to scream at the neighbors in the elevator. Can you give me some tips on how to do it? You’re the expert!

Please come to Santos, David and I will love to have you here. Or else I can go to São Paulo. With the New Transbrazilian Railroad I can get there in less than 30 minutes.

Love you always.

Estou no Wattpad!

O conto O chifre negro, publicado em meu livro Reino das Névoascontos de fadas para adultos, foi vertido para o inglês pela Daniela Fernandes e revisado pelo Darryn Smith. Fiz poucas intervenções no trabalho deles, pois gostei muito do resultado.

Decidi publicar essa versão no Wattpad como The black horn. Corram lá que já tem três capítulos à sua espera, e só faltam mais dois.

Eis a sinopse:

A fairy tale about a princess on a hunt for a unicorn and its healing powers. She’ll go to any length to save her father from death, endangering her life and that of those who serve her.

A story about love, pride and self-knowledge.

Prerrogativas

Conto de 2005, originalmente publicado no NecroZine #4, especial de contos eróticos de terror.

Ela jogou os cabelos para trás uma, duas, três vezes, no ritmo dos próprios gemidos. Atrás, o homem bufava, ia e vinha, eufórico. Ela fazia o que ele queria. Fazia tudo o que eles queriam. De frente, de lado, de costas, sobre o chão de folhas secas, acuada contra as árvores ou imersa no lamaçal. Em silêncio ou aos berros. Era sua prerrogativa.

Abordava-os no meio da estrada que atravessava o bosque. Nua, a pele de cera reluzindo ao luar, os cabelos de fogo fazendo espirais sobre seus seios, derramando-se em cascata nos quadris, lambendo-lhe mesmo os calcanhares. Uma visão. Uma Vênus. Braços estendidos. Venha. Faça de mim o que quiser.

Preferia os solitários, a quem a privacidade da mata roubava qualquer pudor. Os casados vacilavam, pensando na confiança das esposas. Aqueles que vinham em grupos eram ora tímidos, ora vorazes – isso dependia do que pretendiam provar uns aos outros. Mas todos, sem exceção, atiravam-se ao seu regaço. Por que fariam outra coisa? Experimentavam seus orifícios, faziam-se homens, copulavam por horas. Ela gostava sobretudo dos que pediam. Tinham mentes e línguas sujas. Tornavam seu labor mais fácil, ágil, prazeroso.

O homem dessa noite era vigoroso e indecente: ideal. Nada demorou, jogou-a na relva e possuiu-a ferozmente. As unhas muito longas da mulher rasgavam suas costas dos ombros aos quadris, deixando as marcas rubras do pecado. Mas ele terminou rápido demais e enterrou o rosto em seus seios, ofegante. Ergueu-se, refeito.

Ela sorriu. Palavras não eram necessárias. Estendeu uma vez mais os braços para ele, não para recebê-lo, mas para alcançar-lhe o pescoço, no qual fechou as mãos em garra. Apertou-o com uma força nunca vista em outras mulheres. Era sua prerrogativa também. Sua paga. Seu prazer após o prazer. Perfurou a carne com as unhas; sufocou-o e fê-lo sangrar. O corpo do homem estremeceu. Por fim, parou de mover-se para sempre.

Duas mãos apertaram o ventre do defunto, fazendo nele um rasgo, com num trapo que se parte em dois. Dedos habilidosos tatearam as entranhas ainda quentes, cavoucando. Retiraram de lá um órgão ovalado, do tamanho de um punho, e o embrulharam depressa na camisa do homem. As mãos penetraram mais fundo na carne morta, rasgando o caminho e fazendo espirrar o sangue, até alcançar um órgão maior, macio, que foi juntar-se ao outro na trouxa sangrenta. Então, o último, que encontrou bem protegido sob as costelas. Era maior do que esperava.

Um coração premiado.

Saciou-se rápido no que restava do sangue do homem. Tinha pressa e nada podia ser desperdiçado. Correu pelo bosque aos saltos, como a fera que já conhece todos os caminhos, atalhos, armadilhas. Logo chegou à caverna.

Três pares de olhos brilharam lá no fundo. Três rostos se adiantaram ao ver a mulher chegar. Rostos ainda infantis, pálidos como o dela, como se filhos da Lua. Lábios miúdos se arreganharam em sorrisos felizes, exibindo fileiras de dentes pontiagudos.

A mulher acariciou a cabeça do seu primogênito enquanto ele avançava para o banquete sanguinolento. Escolheu o fígado. Estava ficando forte; em poucos anos, seria um varão e ajudaria a mãe a caçar para os dois irmãos menores, que grunhiam de prazer, mordiscando e lambendo um baço e um coração. Também caçaria para a pequena fera que nesse instante se formava no ventre da mãe, filha do pai que, sem saber, os alimentava agora.

As bocas dos meninos estavam vermelhas; sua sede e sua fome, saciadas. Essa era sua prerrogativa.