A mente livre

“Discutiam porque gostavam de discussões, gostavam do movimento rápido da mente livre pelos caminhos das possibilidades, gostavam de questionar o que não se questionava.”

Os Despossuídos, Ursula K. Le Guin, tradução de Susana L. de Alexandria para a Editora Aleph.

Beneficiários do acaso

Abaixo, em tradução livre minha, seguida do original, está uma uma das coisas mais lindas que li na vida. Não tem a ver com crer num além-vida ou não. Tem a ver com reconhecer a existência do amor. Apesar de respeitar o direito das pessoas à espiritualidade e à prática religiosa, o ponto de vista de Ann e Carl é, para mim, mais realista e reconfortante que qualquer expectativa para o que vem (ou não) depois. O amor tem muitas faces. Encontrá-lo e vivê-lo a cada dia é um acaso que desejo a todos. 

“Quando meu marido morreu, por ser tão famoso e conhecido como cético, muitas pessoas vieram falar comigo — isso ainda acontece às vezes — e me perguntaram se Carl mudou no fim e se converteu a alguma crença num além-vida. Muitas vezes também me perguntam se acho que voltarei a vê-lo. Carl encarou a morte com uma coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia era que nós sabíamos que nunca mais veríamos um ao outro. Não espero um dia me reunir com Carl. O importante é que, enquanto estivemos juntos, por quase vinte anos, vivemos com um distinto reconhecimento de como a vida é breve e preciosa. Nunca banalizamos o significado da morte ao fingir que ela era algo além de uma separação final. Cada momento que passamos vivos e juntos foi miraculoso — não miraculoso no sentido de inexplicável ou sobrenatural. Sabíamos que éramos beneficiários do acaso… que o mero acaso poderia ser muito generoso e gentil… que pudemos encontrar um ao outro, como Carl escreveu tão lindamente em ‘Cosmos’, vocês sabem, na vastidão do espaço e na imensidão do tempo… que pudemos passar vinte anos juntos. Isso é algo que me conforta e é muito mais significativo… O modo como ele me tratou e eu o tratei, a forma como tomamos conta um do outro e da nossa família enquanto ele viveu. Isso é muito mais importante do que a ideia de que eu o verei um dia. Não acho que jamais verei Carl outra vez. Mas eu o vi. Nós nos vimos. Nós nos encontramos no cosmo, e isso foi maravilhoso.”

— Ann Druyan sobre Carl Sagan em entrevista ao Committee for Skeptical Inquiry (Comitê pela Investigação Cética)


“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me-it still sometimes happens-and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But, the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous-not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance. . . . That pure chance could be so generous and so kind. . . . That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time. . . . That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful. . . . The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived. That is so much more important than the idea I will see him someday. I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

— Ann Druyan [about Carl Sagan] interviewed by the Committee for Skeptical Inquiry

 

Fonte: Wikiquote.

Não tem receita

“Os escritores inexperientes tendem a procurar receitas para escrever bem. Você compra o livro de receitas, pega a lista de ingredientes, segue as instruções e pronto! Uma obra-prima! O Suflê Infalível! Não seria ótimo? Mas, infelizmente, não há receita. (…) O único modo de aprender a escrever bem é tentar escrever bem. Normalmente isso começa quando você lê obras bem escritas por outras pessoas e escreve mal por um bom tempo.”

Ursula K. Le Guin, conforme matéria do The Guardian. Traduzi livremente.

Um livro é a prova…

“Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais nós imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. A milênios de distância, um autor está falando clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente a você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”

Carl Sagan

 Tradução minha a partir deste link.

O ego é a criança ferida

Tenho reparado nisso. As pessoas acham que tudo é sobre elas, para elas ou contra elas, individualmente; quando, na verdade, o que fazemos é quase sempre por e para nós mesmos. Saber disso nos ajuda a caminhar rumo à paz de espírito, pois passamos a nos importar menos com o que os outros dizem. Afinal, mesmo quando falam contra nós, muitas vezes, estão falando apenas de si mesmos.

“O ego é a criança ferida dentro de nós. Tudo incomoda, tudo fere, tudo mexe com essa criança. Porque ela acredita, lá no fundo, que o mundo existe para ela; ou está contra ela. E isso inverte completamente a nossa interpretação da realidade; e faz tudo parecer muito maior e mais problemático e mais doloroso; porque essa criança interior se vitimiza. Todos passamos por isso, nos momentos em que ficamos passageiros do ego. Cabe respirar, olhar com calma e, se pôde ver e reconhecer mais uma armadilha do ego – agradecer por mais uma camada de aprendizado. Que sejamos melhores hoje do que fomos ontem.”

Paulo Roberto Ramos Ferreira, coach e terapeuta transpessoal