A mente livre

“Discutiam porque gostavam de discussões, gostavam do movimento rápido da mente livre pelos caminhos das possibilidades, gostavam de questionar o que não se questionava.”

Os Despossuídos, Ursula K. Le Guin, tradução de Susana L. de Alexandria para a Editora Aleph.

O resultado da tradução

patrick-tomasso-71909-unsplash_pequena

Foto de Patrick Tomasso via Unsplash.

O resultado do texto traduzido, aquele que chega às livrarias, não é obra só do tradutor. Há um trabalho de equipe que envolve no mínimo editor e/ou assistente editorial, tradutor, preparador/cotejador e revisor (em geral, mais de um revisor).

Pela lei brasileira o tradutor é coautor. Suas escolhas poderiam prevalecer, mas na prática não é isso que acontece (e algumas vezes o melhor é que não aconteça mesmo).

Em muitos casos, onde o tradutor errou, o preparador acerta; onde o preparador falhou, o revisor corrige; e assim sai um texto final de boa qualidade, no qual cada um deu o melhor de si e manteve um diálogo com quem dá a palavra final, normalmente o editor. (Melhor ainda seria se todos os envolvidos pudessem conversar entre si e trocar impressões.)

Por outro lado, onde o tradutor fez uma escolha baseada numa pesquisa atenciosa, o preparador estranha, vai lá e faz uma substituição, só que erra; onde o preparador acerta, o revisor vai lá e troca seis por meia dúzia; e assim sai um texto truncado, esquisito, cheio de interferências desnecessárias.

Às vezes, o ego prejudica a visão, e a visão nublada pelo ego prejudica o resultado. Não estou falando só de um ou outro colega; vale para mim também!

Hoje, tendo feito revisão, preparação, cotejo e tradução em momentos diferentes, sabendo um pouco do que acontece nos bastidores do livro, entendo que uma obra lindamente traduzida é mérito de mais de uma pessoa. Da mesma forma, um texto final ruim tem mais de um culpado.

VIII Congresso Internacional da Abrates

Agora, sim, deu para sentar e dizer:
O VIII Congresso Internacional da Abrates foi sensacional. É a segunda edição a que vou, desta vez também como palestrante, e a cada vez aumenta minha convicção de que um evento como esse é muitíssimo necessário. Palestras em seis salas ao mesmo tempo, com temas variados para um público igualmente diverso, que vai do iniciante ao veterano, do generalista ao especialista. (Difícil é escolher a palestra, queria poder voltar uma hora no tempo para ver mais de uma, mas cadê máquina do tempo quando a gente precisa?) Chance de troca de conhecimentos, reencontro com velhos conhecidos, criação de novos contatos, enfim, aprendizado em muitos níveis pessoais e profissionais num fim de semana cheio de boa vontade.
Valeu, diretoria da Abrates! Valeu, pessoal da Quest e da Haas, palestrantes e participantes. Ano que vem tem mais e é no Rio de Janeiro.

Entrevista

Um ano atrás, recebi um e-mail da Ana Carolina Goldschmidt e do Rogério Badaró, estudantes de Letras — Inglês — Tradução e Interpretação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Tinham lido um livro que eu traduzi (Manuscritos do Mar Morto, de Adam Blake) e decidiram me entrevistar para um trabalho da faculdade. Confesso: cheguei a achar que fosse pegadinha (rs!). Mas não era. Ana e Rogério me mandaram perguntas bem sacadas e eu, que não sei falar pouco, tive o maior prazer em responder. Eles me autorizaram a publicar a entrevista no meu blog. Aí vai!

Em suas palavras, tradutora por persistência. Por que a tradução?

Sempre gostei de traduzir. O processo é interessante e instigante, com todas as escolhas que apresenta e a linha muito tênue entre certo e errado, adequado e inadequado. Sempre gostei de estudar e escrever, o que considero essencial nesse trabalho. Mas demorei para decidir que queria a tradução como profissão e demorei ainda mais para chegar lá. Tive as aulinhas básicas de inglês na rede pública; na adolescência, traduzi letras de músicas e textos de enciclopédias sobre temas que queria entender melhor e não encontrava em português. É claro que cometi toneladas de erros! Mas isso faz parte do processo de aprendizado e, mesmo aos tropeços, me ajudou a aprender muito. Só fui fazer um curso pago de inglês depois que consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, já adulta. Devido ao que tinha aprendido por conta própria, entrei direto no módulo avançado do curso e li tudo o que pude na biblioteca da escola de idiomas. A partir de 2003, comecei a revisar textos em português como freelancer, tarefa na qual caí meio que de paraquedas quando uma autora aceitou contratar uma revisora para seu livro sem pedir o currículo (que bom, porque eu ainda não tinha um). Depois veio outro trabalho, e mais outro. Nesse meio-tempo, tive outros empregos e investi numa carreira alternativa, a de ilustradora. Mas não estava me fazendo feliz. Então, passei a me dedicar com mais afinco ao trabalho textual, revisando e escrevendo ficção. Queria ser tradutora, mas não sabia por onde começar, nem se a falta de formação acadêmica na área barraria minha entrada, nem se estava preparada para isso. Em 2011, uma editora começou a me passar regularmente revisões e preparações com cotejo de originais em inglês. Corrigindo o trabalho alheio e analisando os originais, decidi que conseguiria, sim. Comecei a azucrinar meu cliente (risos), com quem já tinha uma relação de confiança. No ano seguinte, ele me passou uma tradução. Foi graças a essa oportunidade que pude mostrar meu trabalho como tradutora a este e outros clientes, montando um currículo. Hoje, alterno as três tarefas: tradução, preparação e revisão.

 

Como vê o mercado de trabalho para um tradutor no Brasil? 

O mercado é amplo, pois pode-se ser tradutor literário, técnico, juramentado… O tradutor literário normalmente é freelancer e presta serviços para editoras brasileiras. O técnico pode se especializar num tema, ou em vários, como medicina ou eletrônica; pode trabalhar como freelancer ou funcionário de uma agência de tradução, e seus clientes podem ser brasileiros ou estrangeiros. O tradutor juramentado, ou público, é um profissional que passou no concurso da Junta Comercial da sua região ou município e traduz documentos oficiais. Até hoje só trabalhei como tradutora literária, por isso, não sei muito sobre as subdivisões do ramo. A área de tradução parece estar um pouco saturada, por ser uma profissão atraente para muitas pessoas, preparadas ou não para ela. Na minha experiência, os clientes raramente contratam sem indicação. Por isso, é preciso investir na rede de contatos, marcar presença em eventos e, claro, estudar, seja por conta própria, seja fazendo cursos. Cursos e oficinas servem não só para ampliar suas habilidades, mas também para conhecer colegas de profissão. Para quem não mora nas grandes capitais, há cursos rápidos ou à distância. Por exemplo, em março deste ano [2016] fiz a oficina do Projeto TransMit. É totalmente online e se propõe a treinar tradutores para o trabalho nas agências, ensinando macetes do ramo e corrigindo erros comuns. É muito bom e me deu esperança de trabalhar também para a área técnica.

 

Você menciona em seu website que sua primeira tradução profissional foi em 2012. Qual foi a obra e o que te levou a traduzi-la? Ficou satisfeita com o resultado?

A obra foi The Chase, ou A Caçada, de Clive Cussler, um thriller/aventura histórica. E o que me levou a traduzi-la foi, muito simplesmente, a proposta da editora (risos). Pela minha experiência, o tradutor raramente escolhe o que traduz; o que ele escolhe é dizer sim ou não à proposta de um cliente, que já tem um material a publicar. É claro que podemos rejeitar um livro por indisponibilidade ou por motivos ideológicos. Também podemos sugerir a uma editora que compre os direitos de publicação de uma obra específica. Mas, na maior parte do tempo, é o cliente quem bate à porta, e a gente diz sim. Voltando a The Chase, foi um baita desafio. Primeiro, por ser minha primeira tradução profissional; segundo, porque não foi o livro mais fácil que já traduzi. A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX e é recheada de referências à época, detalhes sobre locomotivas e motocicletas. Então, apanhei bastante desse livro. E, claro, aprendi muito.

 

Como é o seu processo de preparação para suas traduções de obras literárias mais complexas, como as do Adam Blake, por exemplo?

Num mundo ideal, eu teria tempo para ler um livro inteiro, sossegadamente, fazendo anotações sobre pontos a pesquisar, trechos a ponderar, nomes a traduzir… No mundo real, a gente tem prazos e não dá para fazer isso. Então, com qualquer obra, simples ou complexa, o que faço primeiro é ler a sinopse e alguma coisa sobre o autor, para ter ideia do que me espera; se tiver tempo, leio algumas resenhas; depois, folheio a obra, verifico se tem pontos de vista múltiplos (o que resulta em tons de voz diferentes) e leio alguns parágrafos para entender o tom predominante. Isso é rápido, coisa de uma tarde. Depois, já começo a traduzir. Os desafios vão se apresentando ao longo do processo. Trabalho sempre conectada à internet para poder pesquisar expressões que ainda não conheça, jargões de uma área profissional, dados sobre um período histórico ou sobre o universo em que se passa a história, quando ela é derivada de um filme ou série de TV, por exemplo. Vale consultar os colegas também: há comunidades de tradutores dedicadas a isso nas redes sociais. Às vezes, é preciso montar um glossário do universo da obra. Noutras vezes, é preciso voltar a capítulos anteriores e mudar todas as decisões que já se tomou (risos!) em nome da coerência. Manuscritos do Mar Morto, no original The Dead Sea Deception, foi minha segunda tradução e me fez pesquisar termos usados pela polícia, armas de fogo, história e geografia. Dos livros em que trabalhei, é um dos meus favoritos. Mas, como acontece com toda tradução de principiante, ele saiu com vários erros que hoje eu adoraria corrigir, se pudesse.

 

Você faz traduções do inglês para o português brasileiro. Não se arriscaria no caminho inverso? Por quê?

Já fiz uma versão, que é como chamamos as traduções do português para outra língua. Era um texto muito curto e simples, que pude ler inteiro para avaliar se meus conhecimentos estavam à altura do trabalho. Mas, neste momento, não me arriscaria com versões de textos mais complexos. Como muitos tradutores, eu me sinto mais confortável para trabalhar com minha língua nativa como língua de chegada, ou seja, para trazer textos de outra língua para o português, mas não o oposto. Faltam-me naturalidade e aprofundamento na gramática do inglês. Isso faz toda a diferença entre um texto fluido e um texto trôpego, pouco espontâneo. Afinal, o ideal é que uma tradução não tenha cara de tradução. Ela deve parecer um texto escrito originalmente na língua de chegada.

Um bom negócio

Hoje fiz um excelente negócio: dispensei a chance de comprar uma briga.
Há brigas das quais a dignidade não permite fugir, porque fundamentais. Mas há aquelas das quais o bom senso recomenda passar longe, porque inférteis. Acho que estou aprendendo a distingui-las.

Beneficiários do acaso

Abaixo, em tradução livre minha, seguida do original, está uma uma das coisas mais lindas que li na vida. Não tem a ver com crer num além-vida ou não. Tem a ver com reconhecer a existência do amor. Apesar de respeitar o direito das pessoas à espiritualidade e à prática religiosa, o ponto de vista de Ann e Carl é, para mim, mais realista e reconfortante que qualquer expectativa para o que vem (ou não) depois. O amor tem muitas faces. Encontrá-lo e vivê-lo a cada dia é um acaso que desejo a todos. 

“Quando meu marido morreu, por ser tão famoso e conhecido como cético, muitas pessoas vieram falar comigo — isso ainda acontece às vezes — e me perguntaram se Carl mudou no fim e se converteu a alguma crença num além-vida. Muitas vezes também me perguntam se acho que voltarei a vê-lo. Carl encarou a morte com uma coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia era que nós sabíamos que nunca mais veríamos um ao outro. Não espero um dia me reunir com Carl. O importante é que, enquanto estivemos juntos, por quase vinte anos, vivemos com um distinto reconhecimento de como a vida é breve e preciosa. Nunca banalizamos o significado da morte ao fingir que ela era algo além de uma separação final. Cada momento que passamos vivos e juntos foi miraculoso — não miraculoso no sentido de inexplicável ou sobrenatural. Sabíamos que éramos beneficiários do acaso… que o mero acaso poderia ser muito generoso e gentil… que pudemos encontrar um ao outro, como Carl escreveu tão lindamente em ‘Cosmos’, vocês sabem, na vastidão do espaço e na imensidão do tempo… que pudemos passar vinte anos juntos. Isso é algo que me conforta e é muito mais significativo… O modo como ele me tratou e eu o tratei, a forma como tomamos conta um do outro e da nossa família enquanto ele viveu. Isso é muito mais importante do que a ideia de que eu o verei um dia. Não acho que jamais verei Carl outra vez. Mas eu o vi. Nós nos vimos. Nós nos encontramos no cosmo, e isso foi maravilhoso.”

— Ann Druyan sobre Carl Sagan em entrevista ao Committee for Skeptical Inquiry (Comitê pela Investigação Cética)


“When my husband died, because he was so famous and known for not being a believer, many people would come up to me-it still sometimes happens-and ask me if Carl changed at the end and converted to a belief in an afterlife. They also frequently ask me if I think I will see him again. Carl faced his death with unflagging courage and never sought refuge in illusions. The tragedy was that we knew we would never see each other again. I don’t ever expect to be reunited with Carl. But, the great thing is that when we were together, for nearly twenty years, we lived with a vivid appreciation of how brief and precious life is. We never trivialized the meaning of death by pretending it was anything other than a final parting. Every single moment that we were alive and we were together was miraculous-not miraculous in the sense of inexplicable or supernatural. We knew we were beneficiaries of chance. . . . That pure chance could be so generous and so kind. . . . That we could find each other, as Carl wrote so beautifully in Cosmos, you know, in the vastness of space and the immensity of time. . . . That we could be together for twenty years. That is something which sustains me and it’s much more meaningful. . . . The way he treated me and the way I treated him, the way we took care of each other and our family, while he lived. That is so much more important than the idea I will see him someday. I don’t think I’ll ever see Carl again. But I saw him. We saw each other. We found each other in the cosmos, and that was wonderful.”

— Ann Druyan [about Carl Sagan] interviewed by the Committee for Skeptical Inquiry

 

Fonte: Wikiquote.