Meu novo livro: Contos Sombrios

Além da edição digital de Reino das Névoas ter finalmente voltado à Amazon por R$ 7,00, lancei também um novo livro: Contos Sombrios, compilação de histórias que escrevi ao longo dos últimos anos editada pela Editora Dandelion. Segue a sinopse:

Dezesseis contos sombrios. Terrores pessoais e coletivos que a escrita tenta exorcizar: sequestradores e assassinos, canibais, vampiros e coisas piores. Talvez você também queira exorcizá-los.

Custa apenas R$ 6,00. Quem compra, apoia a autora. 😉

Na página de compra você pode pedir que uma amostra grátis seja enviada ao seu dispositivo de leitura. Mas, para já dar um gostinho, segue a introdução.

Introdução

Escrevi os contos reunidos neste livro entre 2004 e 2010. Alguns apareceram em blogs, sites e zines. Outros são inéditos. Alguns deles, hoje, eu não escreveria do jeito que escrevi. Outros, não escreveria de jeito nenhum. Já os chamei de contos de terror, mas não tinha a pretensão de aterrorizar quem os lesse. O que eu queria era falar de coisas sombrias. Das minhas sombras. E isso, acho, consegui.

Já que estou aqui, prefaciando meu próprio livro, aproveito para martelar: esta é uma obra de ficção. Não faz apologia à violência e seu propósito não é incitar nenhum tipo de agressão. Confio no discernimento de quem me lê. Mas vale o trigger warning, ou aviso de conteúdo: aqui tem sangue, sim, e morte, e violência sexual. Alguns terrores pessoais, que tentei exorcizar pela escrita. Se você chegou até aqui, talvez também precise exorcizá-los.

Vivemos tempos em que as notícias viajam muito rápido, alimentando nossa curiosidade — inclusive pelo que é sórdido. Enquanto sonhamos em (e, de preferência, fazemos nossa parte para) banir a violência do mundo real, a ficção, a fantasia e a arte nos acenam como válvulas de escape fundamentais. Ao mesmo tempo, a imaginação do ficcionista, essa esponja impregnada de tinta e alucinação, se embebe justamente da realidade, do absurdo nos casos diários. Sequestradores, amantes vingativos, assassinos de ocasião. Psicopatas, fanáticos religiosos, estupradores. Até canibais e vampiros.

Deliramos dentro de nosso horror coletivo, real ou imaginário. Temos um fascínio um tanto doente pelo que é sombrio, uma ânsia de testemunhar e registrar. É o pássaro morto no meio da estrada. Torto e esparramado em meio ao próprio sangue, uma coisa terrível de se ver. Mas a gente não consegue parar de olhar…

Por isso, convido você a experimentar estes pequenos surtos, em forma de contos, de desejo, truculência e morte, entre casos realistas e indícios sobrenaturais. Torço para que a ficção possa tocar os pontos do seu ser que a realidade não alcança.

Não foi para isso que você veio?

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Seu personagem é macho?

Saindo do automático na hora de criar

 

O sexo da criança

Calma. Antes de responder ao título, saiba que não estou perguntando se o personagem tem semelhanças com os de Chuck Norris, Bruce Willis, Sylvester Stallone e outros durões cujos nomes denunciam a minha idade. O que quero saber é: o personagem central da sua história é do sexo masculino? E os coadjuvantes?

Mais importante que isso: se eles são, por quê?

Sério, existe uma razão especial para que sejam homens?

Pois quase sempre parece necessário ter uma razão especial para que eles não sejam homens, ou para que não sejam homens brancos, cissexuais, heterossexuais, padronizados. Tudo bem, sei que a menção a esse combo de características já cansou um pouco. Mas sabe por que cansou? Porque ele continua sendo repetido de forma inconsciente, e a gente continua precisando discutir o porquê disso.

Só para o texto não ficar interminável, vou me concentrar na presença — ou ausência — de personagens femininas.

 

Lugar de mulher

Já li algumas vezes que um autor decidiu que um personagem seria mulher “porque a história pedia”. Tenho calafrios toda vez que alguém diz isso. Que tipo de história “pede” uma mulher?

Vamos ver. Há um certo número de papéis nos quais os autores se sentem desconfortáveis para encaixar homens, ou mesmo impossibilitadas de fazê-lo. Por exemplo, o papel da mãe será diferente do papel do pai (ou a maioria das pessoas parece acreditar que tem de ser). O papel da mocinha no filme de terror não será dado a um homem, pois não aceitaríamos ver o cara correndo, chorando e pedindo “por favor, não me mate” — a não ser que ele fosse um personagem descartável ou o alívio cômico. Já a mulher, sim, pode se mostrar frágil e emotiva, mesmo que vença no final. O interesse romântico de um protagonista masculino não seria outro homem, a não ser num filme “de nicho” (pois, supostamente, pessoas que não sejam gays não gostariam de ver filmes com personagens gays). O papel da pessoa sedutora que manipula e corrompe outras por meio do sexo não será dado a um homem (afinal, Eva era mulher). E, quando quisermos que um personagem passe por um trauma desencadeador de mudanças, se ele for homem, raramente pensaremos em fazer com que esse trauma seja um estupro. No caso da personagem feminina, essa ideia surgirá de maneira quase automática, com o respaldo da vida real.

Então, basicamente, os papéis que “pedem” mulheres são os de mãe, interesse romântico/sexual e vítima. Dentro deles temos os subtipos da mãe batalhadora, que faz tudo pelos filhos; a mãe castradora, que só atrapalha a vida (do homem); a personagem que não tem filhos, mas desenvolve sentimentos maternais por outrem; a garota divertida e original, conhecida como Manic Pixie Dream Girl, que existe na história para inspirar e incentivar (o homem); a donzela em perigo que deve ser salva (pelo homem); a mulher durona que só não é mais durona que o protagonista (o homem); a sedutora irresistível que só vive para causar problemas (para o homem); a vítima cuja morte/estupro deve ser vingada (pelo homem).

Assim, temos um bando de mulheres que quase sempre são alguma coisa para o homem, raramente são protagonistas e, quando o são, passam a fazer parte de uma obra de nicho, feita “para mulheres” (isto é, metade da população do mundo), da qual os homens são instruídos a manter distância.

 

O personagem padrão

Então, se você escreve histórias, e se não for necessário que o personagem central das suas histórias seja mulher, há uma grande chance de ele ser homem. E, sim, branco, hétero e cissexual.

Esse é o personagem padrão, automático, neutro. É a base que cobriremos com as demais características para torná-lo único. É o pensamento — inconsciente — de boa parte dos escritores e roteiristas. Se não houver nenhum motivo especial para que o personagem seja mulher, ou não branco, ou não hétero, é isso que ele será.

Os personagens secundários, cuja história não acompanhamos de perto, podem até ser diferentes disso. Mas o protagonista? Se ele for negro, ou indígena, ou mulher, ou gay, ou transexual, ou portador de uma deficiência, ou qualquer outra coisa fora do padrão, a história será sobre isso, não sobre qualquer outra coisa. Será uma história sobre sair do armário. Ou sobre superar as limitações de sua condição física. Ou sobre vencer o preconceito racial. Etc. (E é ótimo que existam obras discutindo e retratando essas questões. Mas é preciso lembrar que a vida de uma pessoa diferente não é composta só por aquilo que a torna diferente — ou que a faz ser vista como diferente, pois tal pessoa é mais comum do que os autores de ficção em geral parecem dispostos a mostrar.)

Com raras exceções, parece haver um consenso mudo quanto a isso. Todo mundo conhece a história do homem padrão, e ela é fácil de acompanhar.

 

Os tipos de sempre

Listei aqui alguns tipos de personagens que são criados como homens de forma frequente e automática:

Figuras de autoridade: imperador, rei, ditador, general, governador, político, líder da rebelião, presidente da empresa, chefe da aldeia, diretor da escola, professor, pai.

Ajudantes e conselheiros: melhor amigo, tutor, parceiro de trabalho, assistente, escudeiro, criado.

Visionários, criadores e catalisadores: inventor, pintor, engenheiro, arquiteto, matemático, cientista, ativista político, hacker.

Caçadores da verdade: detetive, jornalista, escritor, estudante, agente do FBI, aprendiz de feiticeiro.

Personagens de ação: soldado, policial, matador de aluguel, agente secreto, artista marcial, guerreiro, cavaleiro, super-herói.

Agora, pense nos livros e HQs que leu, nos filmes e séries de TV que viu. De quantos homens você consegue se lembrar nesses papéis?

E quantas mulheres?

 

A solidão da protagonista feminina

Mesmo nos livros e filmes de hoje, com o público exigindo maior representatividade da mulher em mídias como literatura, cinema, TV, games, etc., noto uma ausência de personagens femininas. Muitas vezes cria-se uma protagonista bem construída, dá-se a ela uma boa dose de garra, um conjunto de habilidades e uma missão difícil… só para jogá-la num mundo habitado por homens!

Ela é a única mulher interessante da história, ou a única que toma decisões, mesmo quando vive num universo fictício no qual não se fala em sexismo ou patriarcado. As outras mulheres são apenas citadas, servindo como motivação para outros personagens. A mãe morta que se torna uma cara lembrança. A mulher que está na trama só para engravidar, porque o bebê será importante. A distante esposa de um homem poderoso, que está ali (ou nem isso) só para justificar a existência de herdeiros. A coadjuvante notável, mas breve, que logo morre para mostrar que ninguém está seguro. A moça bonita que é o motivo para viver, matar e morrer de outra pessoa (adivinha o gênero desta pessoa?).

De resto, todos os personagens relevantes, por padrão, são pensados como homens. Todas as figuras de autoridade, os ajudantes e conselheiros, os criadores, etc. A protagonista não tem irmã, mãe, melhor amiga, mentora, inimiga, nada. É uma ilha de mulher num mar de homens. Chega a ser triste pensar na vida dela sem nenhuma referência feminina.

Nesses casos, o autor adota, em geral sem perceber, o Princípio Smurfette. Quando percebe, cria mais uma personagem feminina num núcleo com vários personagens masculinos e acha que fez uma grande coisa. Os personagens não discutem essa ausência de mulheres, não a enxergam. Ninguém avisa que alguma doença matou nove décimos da população feminina do mundo e agora há muito mais homens do que mulheres, ou coisa assim. A questão não é abordada de forma crítica. Não é abordada de forma alguma.

E isso também acontece em obras escritas por mulheres. Após uma vida inteira consumindo histórias que não saem desse modelo, nós também estamos em piloto automático.

 

O tríplice problema

Assim, o problema que dá título ao texto se multiplica em três:

  • O personagem central é homem;
  • Os coadjuvantes do núcleo central são todos homens, se não for necessário que haja mulheres;
  • A rara protagonista feminina vive num núcleo igualmente povoado por homens.

Nenhuma dessas coisas seria um problema se não fossem todas recorrentes. Uma obra protagonizada por um homem não é um problema. Um só texto no qual o núcleo tenha um bando de homens mais a Smurfette não é um problema. Uma protagonista feminina cercada de homens não é um problema. O problema é a repetição: a extensa quantidade de obras que repetem esse padrão artificial, ditando que precisamos de uma boa razão para uma personagem ser mulher.

E se a gente perguntasse o contrário?

Existe uma boa razão para essa personagem não ser mulher?

***

Não citarei nomes nem títulos porque não me interessa apontar dedos — e tenho certeza de que, se parar e pensar, você lembrará alguns nos quais o padrão dá as caras.

Prefiro falar dos bons exemplos: obras excelentes cujas histórias têm mais de uma personagem feminina bem construída e relevante.

 

Literatura

Trilogia Millenium, de Stieg Larson

A série da icônica Lisbeth Salander tem várias personagens femininas que mal couberam nas versões cinematográficas (sério, leia os livros). Lisbeth é uma hacker inteligentíssima, antissocial e subversiva, que não confia em autoridade e faz justiça com as próprias mãos — e com códigos de programação. Embora ela sofra um dos estupros mais pavorosos da literatura, rejeita o papel de vítima, pune o estuprador e ainda sai em busca da verdade sobre outros crimes contra mulheres, ao lado do jornalista Mikael Blomkvist. Os dois interagem com personagens como Erika Berger, editora de uma revista de jornalismo investigativo, Miriam Wu, universitária e kickboxer, e Sonja Modig, detetive, entre outras. O autor conseguiu abordar a desigualdade entre os gêneros e a violência sexual, e, ao mesmo tempo, construir uma trama recheada de mulheres interessantes.

 

Trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Além da protagonista Katniss Everdeen e das outras garotas que enfrentam os Jogos, como Rue e Johanna, temos várias mulheres em posições de ação e autoridade: soldados, médicas, duas comandantes, Paylor e Lyme, e a presidente, Alma Coin, líder da resistência contra a Capital. Isso, sem contar os figurantes e os personagens descartáveis, ou semidescartáveis, que muitas vezes são pensados como homens porque sim, e que aqui aparecem, na mesma medida, como mulheres. O sistema político em que Katniss vive é autoritário e extremamente cruel, mas pelo jeito não é sexista… Mais uma vez, se você quiser conhecer melhor os personagens, vale ler os livros mais que ver os filmes.

 

Desenho animado

Avatar: A Lenda de Korra, de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko

Korra é o Avatar, a encarnação de uma força que tem o dever de manter o equilíbrio entre o mundo humano e o mundo espiritual, dominando a fogo, a terra, a água e o ar, enquanto as pessoas comuns só dominam um elemento (ou nenhum). Korra está longe de ser perfeita: é molecona e impaciente, e muitas vezes paga o preço por sua impulsividade. Tem uma personalidade sólida e coerente. Não bastasse a protagonista de um desenho de aventura e ação ser uma garota, temos outras que roubam a cena. Asami é a mulher que, sem dominar elemento nenhum, aprendeu a lutar e pilotar todo tipo de veículo. Jinora tem dez anos, é inteligente, sensata e uma das maiores dominadoras (ou dobradoras) de ar da época. Lin é a chefe de polícia linha dura, uma dominadora. Sua irmã, Suyin, é uma ex-delinquente juvenil que se torna fundadora e líder de uma cidade. (SPOILERS LEVES) Na terceira temporada, há um grupo de dissidentes políticos com duas mulheres e dois homens, todos igualmente poderosos. E, na última, conhecemos Kuvira, a dobradora de metal que se torna ditadora! (FIM DOS SPOILERS) Os personagens bem desenvolvidos e o enredo complexo tornam o desenho muito atraente para adultos. (Antes de Korra, vale conferir Avatar: A Lenda de Aang, série na qual esse universo é explorado pela primeira vez e também conta com personagens femininas fantásticas. Pessoalmente, gosto mais de Aang, mas Korra tem mulheres mais diversificadas e em maior número. Ignore o longa-metragem.)

 

Séries de TV

The Fall, de Allan Curbitt

Stella Gibson (Gillian Anderson) é a investigadora da polícia encarregada de descobrir a identidade do assassino que anda matando mulheres em Belfast, Irlanda do Norte. Serial killer, mulheres mortas… nenhuma novidade, certo? Errado. The Fall, produção irlandesa e inglesa, é violenta e não economiza nas cenas de brutalidade contra mulheres (passa do ponto, aliás), mas inova não só no protagonismo como também nos questionamentos. Stella é inteligente, arrogante e solitária. Porém, longe de cair no estereótipo da profissional bem-sucedida que não tem sorte no amor, sua solidão parece muitas vezes uma escolha. Ela vive sua sexualidade livremente, transando quando quer. Não tem paciência com os homens: vai logo cortando o sentimento de posse que eles parecem nutrir ao criar intimidade com ela. A série adota um tom crítico ao machismo em muitos diálogos e coloca as mulheres não só como vítimas, mas em posições importantes, como médicas e policiais. Parece, na verdade, inverter o padrão: os personagens só são homens quando necessário; quando não, são mulheres. Não gostei de alguns rumos do roteiro e ainda não sei se quero ver a terceira temporada. Mas experimente, veja Stella em ação. Vale a pena.

 

Borgen, de Adam Price

A série acompanha a ascensão e a turbulenta carreira de Birgitte Nyborg, primeira-ministra (fictícia) da Dinamarca, casada e mãe de dois filhos. Na trama de intriga política, chamam atenção o tratamento muito humano dado à personagem — que parece uma pessoa de verdade, fazendo malabarismo com a vida pessoal e a carreira exigente — e o fato de que ninguém estranha o cargo mais importante do país ser ocupado por uma mulher. Também não se estranha a presença de muitas outras mulheres que, na trama, atuam na política e no jornalismo. Se em The Fall os homens parecem primitivos e tolos em comparação às mulheres, inteligentes e racionais, em Borgen os gêneros trabalham em pé de igualdade, sem que uns precisem ser ofuscados para que as outras brilhem — e vice-versa. A condição de Birgitte como mulher e mãe só é questionada uma vez, por um inimigo político cuja personalidade é feita sob medida para ser detestada pela audiência — mostrando que só gente muito tosca pode achar que mulher não serve para liderar. A série também aborda temas como maternidade, aborto e separação sob um olhar moderno. Da primeira à última temporada, uma das melhores séries que já vi.

 

Frisando o óbvio

O que todas as obras citadas têm em comum?

Simples: nelas, a mulher proeminente não é exceção.

Não há só uma mulher num grupo de pessoas importantes. Há muitas, e não existem na trama apenas para preencher papéis na vida de um personagem masculino. É claro que podem ser mães, esposas, filhas, irmãs, amigas, namoradas, colegas de trabalho ou inimigas de um homem. Mas existem para si mesmas, não só para ele. Têm qualidades e defeitos, sucessos e fracassos, objetivos diversos que não incluem apenas encontrar o amor. São gente como a gente.

Quando eu era bem criança, ao ver um desenho animado ou ler um gibi, costumava pegar meus personagens preferidos — em geral, homens — e trocá-los mentalmente por mulheres. Embora não soubesse identificar isso, já na época eu sentia falta de ver mais figuras femininas interessantes na ficção que eu consumia. Queria ver aventuras vividas por mulheres, aventuras tão legais quanto as dos homens.

Então, hoje, este é o exercício que gosto de propor a quem quer trabalhar mais com personagens femininas: pegue sua história, troque o gênero de todos os personagens que existem nela e veja o que muda. Ou melhor, pergunte-se: muda alguma coisa? Os objetivos podem permanecer os mesmos? Se não podem, por quê? A interação dos personagens uns com os outros terá que mudar também? Por quê? Quando criou a primeira versão, você se apegou sem perceber a esterótipos de gênero? Está limitando seus personagens à toa?

As mulheres não são, é claro, homens de saia. Mas vale a pena refletir se as diferenças que acreditamos que estão lá são reais ou apenas imaginadas, passadas adiante pelo senso comum, que de bom senso não tem nada.

Agora, experimente pegar o personagem masculino padrão e mudar a cor da pele dele. A origem étnica. A orientação sexual. A vida dele será igual? Os outros personagens o verão da mesma forma?

Essas são perguntas divertidas e estimulantes. Mais que isso, são necessárias. Se vivemos num mundo cheio de pessoas de gêneros, origens, cores, tamanhos, capacidades, nacionalidades e formações diferentes, não é justo, nem realista, nem interessante que as obras de ficção contenham menos que isso. Não faz sentido concentrar-se num só tipo de ser humano como o único protagonista possível.

Ah, deixa disso, você pode dizer, é só ficção! Na verdade, a ficção é um espelho. Reflete nossas crenças, desejos e medos. Por meio dela, os autores se expressam e retratam os ideais da sociedade em que vivem, e os receptores — todos nós — absorvem, compreendem e replicam esses ideais. A obra de ficção não é um evento isolado. Não existe sem conexão com a cultura na qual é produzida. As histórias que consumimos nos dizem: a vida é assim. Então, nenhuma ficção é “só” ficção.

Mas, você ainda pode argumentar, em certos mundos não há espaço para mulheres como chefes de estado, cientistas, guerreiras! Eu lhe pergunto: por quê? Sério mesmo, por quê? Seu universo ficcional pode ter magos e elfos num cenário vagamente baseado na Idade Média europeia, mas não mulheres em posições de poder? Como é que imaginamos mundos onde a magia impera, mas não conseguimos imaginar mundos sem sexismo? Você quer que seu leitor aceite a existência de dragões, mas acha difícil convencê-lo de que existe uma sociedade com igualdade entre os gêneros?

Agora, talvez sua história não seja de fantasia. É uma história realista que se passa na nossa época? Melhor ainda! Há um sem-número de mulheres da vida real nas quais você pode se inspirar, se precisar. Sabe o investigador que caça o assassino? Pode ser uma mulher. Sabe o assassino? Ele também pode ser ela. O jornalista que descobre uma conspiração por trás das mortes? Também. O presidente da grande corporação que quer abafar o caso? Idem.

Meu pedido a você, pessoa que escreve, é que olhe mais para os lados. Não só para as pessoas próximas a você, mas para a diversidade de inspirações que o mundo tem a oferecer. Enriqueça seus personagens com características que não venham automaticamente. Não crie a equipe de homens brancos com só uma mulher e um “étnico” — como se gente branca também não pertencesse a alguma etnia. Explore a presença de um portador de deficiência física ou condição psiquiátrica no seu núcleo de personagens. As possibilidades são infinitas.

A ficção é capaz de abarcar tudo isso e mais. Não a limite. Expanda-a. Deixe que ela nos fale não só da sua vida, mas da vida daqueles que não são você. Saia do automático!

Escrever, ser o outro

Dia 1 de novembro, em pleno feriadão, conversei com um amigo, também escritor. O amigo, por acaso, é um homem branco, cissexual e heterossexual de classe média. Tal perfil de autor, segundo a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè (que se pode acessar neste link), tende a escrever sobre personagens que são igualmente homens brancos, cis e héteros de classe média, enquanto

“Sobre outros grupos, imperam os estereótipos. As mulheres brancas aparecem como donas-de-casa; as negras, como empregadas domésticas ou prostitutas; os homens negros, como bandidos. Assim, o campo literário, embora permaneça imune às críticas que outros meios de expressão simbólica costumam receber, reproduz os padrões de exclusão da sociedade brasileira.”

O cenário descrito pela pesquisa, aliás, parece estar mudando, pelo menos no meu círculo de contatos literários. É o que se vê na entrevista tripla feita pelo jornalista Andrio Santos com os escritores Christopher Kastensmidt, Enéias Tavares e Felipe Castilho.

Acontece que meu amigo decidiu fazer justamente isto: escrever sobre personagens diferentes dele. Um dos protagonistas do seu romance em vias de terminar é um jovem negro de origem humilde. E é aí que a insegurança dá as caras.

Faz sentido pensar que todo autor tem alguma insegurança, seja com a qualidade intrínseca da obra, seja com a recepção que espera por parte dos leitores (qualquer dia eu conto as minhas…). Meu amigo vem se preocupando justamente com o fato de ter um perfil diferente da maioria dos personagens com os quais decidiu trabalhar. Suas dúvidas: uma pessoa como ele, privilegiada em diversos pontos, deveria se meter a falar de realidades menos favorecidas? Não seria pior se um livro assim fizesse sucesso, pois o autor poderia sair como pretenso porta-voz (ou rouba-voz…) de um movimento social, coisa que nunca quis? Mais um homem branco sendo ouvido enquanto as minorias continuam sem voz?

Por um lado, é importante fazer a si mesmo essas perguntas. Boa parte das minhas amizades no mundo da escrita é do sexo masculino, cissexual, hétero e branca. Outra parte é do sexo feminino, com as mesmas características. Um grupo bem pequeno é declaradamente bissexual, um grupo menor é homo e outro ainda menor é negro, o que por si só já me dá motivo para pensar. Só tenho uma colega que é pessoa trans, não binária. Outras, conheço de nome, de vista, da web… Percebo, assim, que meu universo social é assombrosamente limitado.

Por outro lado, quando um autor que está em um ponto de vista privilegiado experimenta esse incômodo e fala das questões do mundo em que vive, demonstra empatia, principalmente quando tais questões não o atingem diretamente. E essa empatia é justo aquilo de que ele e seus leitores mais precisam.

Escrever, assim como ler, é, entre outras coisas, um exercício de empatia. Que prazer extrairíamos de uma história se não nos importássemos com os personagens? Se não entendêssemos sua motivação? Se não déssemos a mínima para os conflitos internos e externos que enfrentam, para seu destino? É na pele de nossos personagens preferidos que vivemos momentos marcantes, que nos levam às lágrimas, ao riso e ao encantamento. É deles que, ao final de um grande livro, nós nos tornamos órfãos, viúvos e melhores amigos de luto. Sentimos o que é habitar a pele do outro, mas na segurança do sofá, cama, banco de ônibus.

Ora, se parte da graça é vestir a pele do outro, que graça tem se esse outro for sempre mais do mesmo eu?

É o seguinte, pessoas queridas: somos escritores. “O poeta é um fingidor”, disse Pessoa, e com razão. Isso é verdade também para os autores de prosa. A escrita permite, aliás, exige que a gente vista essas máscaras, habite o corpo e a mente do outro, e tente, mesmo que de uma posição privilegiada, entender onde lhe dói o calo.

De que adiantaria escrevermos só sobre aquilo que conhecemos de perto e em primeira mão? Que graça teria passar toda a minha vida escrevendo sobre uma escritora brasileira, branca e bissexual com um casamento sólido, um problema recorrente de acne e uma vida, em geral, feliz? Eu passaria a eternidade circulando em torno do umbigo. Não quero isso para mim, nem como leitora, nem como autora. 

Vestir a pele do outro exige que a gente enxergue o outro. Antes, durante e depois do processo. Temos que aprender a ser o outro: pobre, gay, lésbica, negra, estrangeira, transexual, deficiente físico. Ou aquela pessoa que exerce uma profissão muito diversa da nossa, ou nasceu numa época diferente.

Sua visão dentro dessa pele nunca vai se equiparar à visão de quem vive essa realidade diária. Mas cabe ao escritor fazer toda a pesquisa necessária para poder, no mínimo, envergar as vestes do outro de forma dignaCabe ler, observar, escutar, sentir e entender.

Só o autor será capaz de avaliar quão profunda deve ser a pesquisa para o que ele tem em mente. Mas não se pode entrar nessa sem um mínimo de informação. Olhe para os lados. Fale com pessoas que pertençam ao mesmo grupo que o seu personagem. (De vez em quando, amigos escritores vêm trocar meio dedo de prosa comigo sobre o que fazer com uma personagem feminina. Acho ótima essa troca. Tento entendê-los também.)

Não tem com quem falar? Não é de conversar muito? Felizmente, a internet é sua aliada. Graças ao Google, ao Youtube, ao Facebook, ao Twitter e outras maravilhosas ferramentas online, você pode acompanhar blogueiras feministas, escritoras negras, artistas da periferia, grupos de combate ao racismo e à homofobia, acessar relatos pessoais, entrevistas, artigos acadêmicos, documentários históricos… Fonte não falta.

Com tudo isso, tenha certeza de duas coisas.

A primeira: sua pesquisa jamais estará completa. Nunquinha. Novos conteúdos serão produzidos a todo instante, será impossível acompanhar tudo. Então, tente se munir de informações, mas defina um limite para sua estadia no labirinto que da pesquisa.

A segunda: você vai receber críticas. Algumas serão certeiras, partindo de pessoas que entendem mais de determinado assunto que você. Outras serão pura avacalhação. Não se blinde. Ao contrário, aprenda a filtrá-las e aprender com elas.

Muito por acaso, no mesmo final de semana em que tive essa conversa com meu amigo, fui à Santos Comic Expo 2015 e assisti ao painel A visão criativa das mulheres nos quadrinhos, com as quadrinistas Ana Jaber, Camila Torrano, Cristina Eiko e Germana Viana, e mediação da jornalista Gabriela Franco. Entre outras coisas, o painel tocou nesse assunto. Como criar histórias nas quais os personagens são totalmente diferentes de você? Como ser branco e escrever o negro? Como ser homem e escrever a mulher? Como ser privilegiado e escrever o destituído? Pode?

A resposta, quase um uníssono de opiniões, foi: pode, sim, mas prepare-se para a tarefa com ampla dose de empatia e pesquisa. E, principalmente, receba bem as críticas feitas pelas pessoas que vivem uma vida muito próxima da que você descreve. Cabe a você extrair o melhor delas.

Aqui chegamos à terceira certeza. (Ué, Mila, não eram duas? Sou ruim de conta, gente, relevem.) Você vai errar. Vai errar e pensar “da próxima, faço melhor”. Criar é um aprendizado constante, entre acertos e mancadas. Você pode não acertar tudo de primeira, mas faça o melhor que pode hoje, com o que tem, e com a melhor das intenções. Pode não explorar todas as milhares de condições que existem, aliás, não conseguirá mesmo. Mas o simples fato de considerar a realidade de outrem já é uma coisa pela qual eu, pessoalmente, lhe agradeço. Grande chance de eu querer ler o seu livro.

Um último recado: lésbica, gay, negro, trans, pobre, deficiente, etc. Essas são características reais, de pessoas reais, do mundo real. Por que deveriam ser excluídas da ficção? Existe alguma razão para que seus personagens sejam um só tipo de pessoa, e sempre o mesmo?  Viver (e ler, e escrever) como se essas pessoas habitassem um planeta diferente do seu é pura e simples alienação.

Mas, Mila, eu sou um homem branco cis-heterossexual de classe média e não quero escrever essa literatura politicamente correta aí que vocês ficam falando, não. Colega… se você leu o texto até aqui, sinto muito: algum interesse no tema você tem. Prefiro pensar que é uma saudável curiosidade, o começo de uma consciência mais ampla. Se quer continuar orbitando o próprio umbigo, o problema é seu. 🙂

Estou no Wattpad!

O conto O chifre negro, publicado em meu livro Reino das Névoascontos de fadas para adultos, foi vertido para o inglês pela Daniela Fernandes e revisado pelo Darryn Smith. Fiz poucas intervenções no trabalho deles, pois gostei muito do resultado.

Decidi publicar essa versão no Wattpad como The black horn. Corram lá que já tem três capítulos à sua espera, e só faltam mais dois.

Eis a sinopse:

A fairy tale about a princess on a hunt for a unicorn and its healing powers. She’ll go to any length to save her father from death, endangering her life and that of those who serve her.

A story about love, pride and self-knowledge.

Cadê as mulheres na literatura fantástica brasileira?

Estão bem debaixo do seu nariz, colega!

Toda vez que algum grande site, podcast, evento, etc. resolve falar de literatura fantástica brasileira, chama sempre os mesmos autores e entendidos. Estas pessoas quase sempre são homens (nem vou afirmar que são brancos e heterossexuais, pois não tenho todos esses detalhes).

Aí, sempre tem alguém que pergunta “mas e as mulheres?”, e alguém que responde “ah, tem a Carolina Munhóz”, e alguém que diz “é, mas só ela, né?”.

Não, gente. NÃO.

Além da Carolina, há muitas escritoras brasileiras de fantasia. MUITAS. Com obras variadas, que vão do infanto-juvenil ao terror, do realismo mágico à ficção científica hard, passando por contos de fadas, YA, romance sobrenatural, distopia, steampunk, new weird, etc.

Para citar só aquelas das quais já li um livro ou, pelo menos, um conto em coletânea ou site:

Cristina LasaitisNikelen WitterGeorgette SilenAna Lúcia MeregeMartha ArgelGiulia MoonRosana RiosHelena GomesBianca Sousa, Sarah Helena, Roberta NunesLudimila Hashimoto, Paco Steinberg, Nazarethe FonsecaRita Maria Félix da SilvaLuciana Muniz, Maria Helena Bandeira (in memoriam), Érica BombardiCarol ChiovattoAna Cristina Rodrigues.

Para citar algumas que ainda não li, mas lerei: Roberta Spindler, Simone Saueressig, Clara Madrigano, Bárbara Morais, Finisia Fideli, Má Matiazi, Renata Cezimbra, Debora Gimenes, Lady Sybylla,  Celly Borges, Amanda Reznor, Kamile Girão, Carolina Mancini, Claudia Dugim, Laísa Couto

Muitas dessas escritoras não escrevem com frequência, e nem todas escrevem apenas fantasia. Mas todas são autoras de fantasia já publicadas, em papel ou e-book, e são brasileiras. E ainda há aquelas que eu não conheço nem por nome, pois certamente esta não é uma lista exaustiva.

Achou pouco? Pois pedi sugestões ao pessoal da minha timeline no Facebook!

A Luciana Minuzzi (que também é escritora e deve publicar sua primeira obra de ficção em breve!), falou da Paco Steinberg, da Mariana Portella e da Amanda Leonardi.

A Valentina Silva Ferreira (que, aliás, é autora lusófona da Ilha da Madeira e já publicou no Brasil) sugeriu Celly Monteiro, Tânia Souza e Verônica S. Freitas.

A Rosana Rios (prolífica autora de fantasia infanto-juvenil) ofereceu os nomes de Helena Gomes, Laura Bergallo, Anna Claudia Ramos, Nilza Amaral, Lia Neiva e Regina Drummond.

O Cesar Alcázar (escritor e editor da Argonautas Editora) lembrou Alícia Azevedo, Beatrice Santos Witt, Graciele Ruiz, Suzy Hekamiah, Mariana Albuquerque, Luciana Fátima, Anna Franskowiak, Jéssica Lang, Jacira Fagundes, Patrícia Langlois, Flávia Côrtes.

A Celly Monteiro recomendou Sóira Celestino, Pat Kovacs, Jossi Borges, Yane Faria e Maya Blanco.

A Camila Villalba (dona do blog de resenhas My Nerd Bubble) acrescentou Janayna Bianchi Bruscagin Pin, Marcella Rossetti, Denise Flaibam, Thais Lopes, Jéssica Macedo, Camila M. Guerra, Francélia Pereira e Luana Minéia.

A Gabriela Colicigno sugeriu a Vivi Maurey; a Val Ivonica lembrou a Raphaela Ximenes; o Flavio Moutinho citou a Valéria do Val; a Lívia Stevaux pensou na Paola Giometti; a Thaís Jussim falou da Ana Macedo.

Nos comentários a este texto, a Karin Poetisa mencionou a si mesma e a Susy Ramone. A Kássia Monteiro e a Mel Cavichini também vieram contar que são escritoras de fantasias. A Laís Helena, também autora, acrescentou Jana P. Bianchi, Thais Rocha, Thais Lopes, Francine Porfirio e Lhaisa Andria. O Jeferson Sigales lembrou a Ju Lund. A Vanessa Straioto recomendou enfaticamente o trabalho da Simone O. Marques.

No Twitter, o Antonio Luiz Costa falou da Jarid Arraes e da Mary C. Müller, e a Gloria Azevedo lembrou que a Lygia Fagundes Telles, uma das nossas maiores autoras, já escreveu contos de fantasia. Também é justo que se mencione a Marina Colasanti, porque contos de fadas são fantasia, e ela escreveu vários (que eu adoro!).

Atualizando esta postagem, roubei descaradamente vários nomes que eu ainda não conhecia do ótimo texto da Tatiana Inda, que ainda fez a gentileza de incluir fotos e dados biográficos das escritoras: Bianca Carvalho, Cristina Aguiar, Fernanda Wolf, Flávia Côrtes, Jana P. Bianchi, Jéssica Anitelli, Karen Soarele, Kássia Monteiro, Kel Costa, Lidia Zuin, Lu Piras, Luiza Salazar, Martha Ricas, Priscilla Matsumoto, Renata Ventura, Socorro Acioli, Tatiana Mareto e Viviane Fair.

Enfim, não faltam autoras, nem talento, nem ralação. Talvez falte, neste momento, um número maior de grandes editoras dispostas a apostar nesses nomes e levá-los ao público. Editoras que apostem na escritora como uma marca, assim como apostam no escritor. Mas tenho para mim que esse cenário há de mudar.

Além do mais, as moças não são de reclamar; o negócio delas é escrever. Por isso, continuam na luta. Seguem escrevendo, enviando originais às editoras, publicando por conta própria em papel ou na web…E, sim, tem euzinha também. 🙂

Nós existimos! Procure nossos livros, sites, blogs, páginas na Amazon, no Wattpad, etc.!

E fique à vontade para sugerir suas autoras favoritas. 😉

Adendo 1: Se deixei de colocar links nos nomes de algumas das autoras, é porque não encontrei suas páginas. Escritoras, tenham sites! Isso facilitará a busca por vocês. 🙂

Adendo 2: Pesquisando um pouco mais, descobri que algumas dessas escritoras já lançaram por editoras de renome como L&PM e Globo. Algumas já receberam prêmios literários. Por que mal as conhecemos?

Adendo 3: Alguém comentou (e eu juro que não reprovei o comentário, mas não sei onde ele foi parar!) que prefere escolher seus livros dando uma lida na orelha, vendo se a sinopse é interessante, etc. Isto é: não quer saber se o livro foi escrito por uma mulher ou não. É muito justo. Mas ficam algumas perguntas: quem escolhe os livros que vão parar na livraria para que você possa escolhê-los pela sinopse? Quem faz com que você saiba que seus autores existem? 🙂

Adendo 4: O Rodrigo Van Kampen, editor da Revista Trasgo, disse que se inspirou nesta postagem e compilou uma lista de todas as escritoras que já publicaram contos na Trasgo. Isso inclui algumas das autoras já citadas. O melhor de tudo é que os contos estão online para você ler de graça! Agora, não tem mais desculpa para dizer que não conhece as minas da lit fan. Clique aqui e leia.

Adendo 5: Esta postagem está em constante atualização, pois a galera não para de acrescentar nomes de mulheres que vêm escrevendo literatura fantástica neste nosso Brasil feminil. Não é lindo?

Coleção Óleo e Carvão – vol. I

Tá, não era para eu comprar mais nenhum livro este ano por motivos de:

E esta é só a pilha que juntei de outubro a dezembro...

E esta é só a pilha que juntei de outubro a dezembro…

Mas não deu para resistir ao preço camarada do volume I da Coleção Óleo e Carvão (Editora Estronho, 2014). Pequeno e leve, tem dois contos da Nikelen Witter e do André Zanki Cordenonsi, autores do núcleo gaúcho steampunk. Já conhecia o trabalho da Nikelen no excelente Territórios Invisíveis, uma aventura com um pé bem fincado na riqueza mitológica de diversas culturas e uma obra juvenil pra ninguém botar defeito (mas sobre a qual ainda não escrevi por aqui, shame on me). É meu primeiro contato com o texto do Andre e descobri nele, assim como na colega de volume, um autor capaz de uma narrativa ágil, sem ser corrida demais.

No primeiro conto, “O Pena e o Imperador”, Nikelen apresenta um cientista que se digladia com questões morais e científicas enquanto procura ajudar Dom Pedro II, mas este não é bem o imperador do qual falam os livros de História… No segundo, “A Insurreição de Sorland”, Andre nos leva a uma Inconfidência Mineira na qual o inimigo não é a coroa portuguesa, mas a norueguesa: nesta linha histórica, os escandinavos colonizaram as Américas, controlando até mesmo o território brasileiro.

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Leitura rápida, ótima para uma viagem de ônibus, trem ou dirigível. São contos divertidos; um, mais contemplativo, outro, mais voltado à ação. O projeto gráfico do Marcelo Amado ficou muito bonito.

Comprei meu exemplar direto da Nikelen, valendo um autógrafo tão fofo que nem vou mostrar aqui, mas guardar só pra mim. XD

Você pode adquirir o livro pela loja virtual da Editora Estronho por R$ 9,00, nas livrarias físicas listadas aqui ou direto com os autores. Fale com eles aqui ou aqui.

P.S.: Anderson, seu livro continua no topo da lista, como pode ver na foto. Só não terminei ainda porque precisei guardar essa pilha em uma mala. Época de mudança. 😛

Resenha: “Nômade” de Carlos Orsi

Há vários meses (!!!) a Érica Bombardi, da Ofício Editorial, me presenteou com um exemplar de Nômade, Uma Aventura no Espaço, primeira incursão de Carlos Orsi no gênero infanto-juvenil pela Editora Autores Associados, inaugurando a coleção Jovem Leitor. Li imediatamente, mas só agora reuni tempo & foco para escrever a resenha que havia prometido. Não bastasse o texto ser de Orsi, a quem considero um dos melhores autores nacionais de FC, o livro é ilustrado por ninguém menos que Renato Alarcão, ilustrador todo-poderoso do qual sou fã de longa data. Babei duplamente.

Lançada ano passado na Bienal do Livro, a obra conta a história da espaçonave Nômade, carregando gerações de humanos em direção ao planeta que devem colonizar. Durante a jornada, adolescentes nascidos a bordo são treinados para sobreviver no novo mundo, primeiro por meio de jogos de realidade virtual, depois num acampamento cujo ambiente reproduz em cada detalhe a atmosfera, a flora e a fauna da colônia. Tudo vai bem até que animais antes inofensivos começam a atacar, acidentes acontecem e tanto o computador central quanto todos os adultos da nave deixam de responder aos apelos dos jovens. Eles precisam, então, driblar todo o sistema de segurança do próprio ambiente para descobrir o problema e sua solução.

Em Nômade, Orsi produz um texto acessível sem emburrecer. É palatável tanto para leitores juvenis como para adultos experimentados. Também não deixa de lado o gosto do autor pelas tramas detetivescas que misturam ficção científica e mistério, já percebidas em seu Dias de Fúria.

O escritor também dribla um problema corriqueiro na literatura fantástica brasileira: se seus personagens tiverem nomes “americanizados”, vão dizer que você é aculturado e antipatriótico; se os nomes forem brasileiros, ninguém vai acreditar na história (haja pessimismo). Simples: os colonos da Nômade possuem apenas nomes gregos. Peleu, Helena, Perséfone, Nestor, Nausícaa e outros fazem forte referência à mitologia e às grandes epopeias da antiguidade clássica, presentes na formação de toda a cultura ocidental. Solução que, pela criatividade, dispensa explicações. 🙂