A maluquice de abraçar gente estranha

Tive uma amiga que, quando via gente estranha chorando na rua, fazia questão de se aproximar e perguntar por quê. Eu achava maluquice. Uma maluquice do bem, mas ainda assim maluquice. Sempre pensei que se eu estivesse chorando na rua preferiria ser deixada em paz (como já aconteceu). E tinha receio de que a pessoa, alterada, pudesse gritar comigo ou me apresentar um problema que eu não poderia solucionar (como se a gente devesse esperar que alguém resolvesse nossos problemas; às vezes, só precisa falar deles ou ser respeitada em silêncio por alguém que se importa…). Essa impotência, com um quê de arrogância, me paralisa às vezes. Em geral, eu evito gente estranha e seus problemas.

Mas ontem, começo da tarde, quando eu estava no metrô indo à casa de uma amiga, sentou ao meu lado um jovem que olhava o celular e estremecia. Primeiro pensei que estivesse rindo, logo vi que soluçava. Aí fiz uma maluquice: perguntei por quê. Não entendi a resposta, o choro era intenso. Aí fiz outra maluquice: abracei o menino. Abracei forte, e ele chorou no meu ombro um tempão. Explicou que tinha saído com um amigo na noite anterior e de manhã vira no Facebook a notícia da morte dele. Ao que parecia, um acidente. Ele estava indo para a casa da família do amigo a fim de entender o que tinha acontecido. Chorou mais um pouco, abracei mais um pouco. Desceu mais calmo na sua estação. Espero que ele e a família estejam bem, na medida do possível.

Apesar da situação muito triste, vi beleza no fato de ele se deixar abraçar sem reservas por uma estranha. Não sei se eu me permitiria essa vulnerabilidade. Depois do exemplo dele, gostaria de pensar que sim.

Não sei em quem ele votou. Confesso que não me importa. Só sei que o mundo já é violento demais, e precisamos ser mais gentis com as pessoas, mesmo sob o risco de elas gritarem conosco ou contarem problemas que não podemos resolver. Vale a pena, e eu vou tentar.

Edit.: A quem interessar possa, sim, já rompi amizade em razão de posicionamento político inaceitável. Romperia de novo. Praticar empatia não faz de mim uma flor apolítica.

Um comentário sobre “A maluquice de abraçar gente estranha

  1. Gosto destas maluquices. Treinei muito contatos com todo tipo de pessoa quando morei no Rio. Mendigos, meninos de rua, gente da pesada. Vale a pena a aventura de conhecer pessoas assim! 🙂

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