Entrevista

Um ano atrás, recebi um e-mail da Ana Carolina Goldschmidt e do Rogério Badaró, estudantes de Letras — Inglês — Tradução e Interpretação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Tinham lido um livro que eu traduzi (Manuscritos do Mar Morto, de Adam Blake) e decidiram me entrevistar para um trabalho da faculdade. Confesso: cheguei a achar que fosse pegadinha (rs!). Mas não era. Ana e Rogério me mandaram perguntas bem sacadas e eu, que não sei falar pouco, tive o maior prazer em responder. Eles me autorizaram a publicar a entrevista no meu blog. Aí vai!

Em suas palavras, tradutora por persistência. Por que a tradução?

Sempre gostei de traduzir. O processo é interessante e instigante, com todas as escolhas que apresenta e a linha muito tênue entre certo e errado, adequado e inadequado. Sempre gostei de estudar e escrever, o que considero essencial nesse trabalho. Mas demorei para decidir que queria a tradução como profissão e demorei ainda mais para chegar lá. Tive as aulinhas básicas de inglês na rede pública; na adolescência, traduzi letras de músicas e textos de enciclopédias sobre temas que queria entender melhor e não encontrava em português. É claro que cometi toneladas de erros! Mas isso faz parte do processo de aprendizado e, mesmo aos tropeços, me ajudou a aprender muito. Só fui fazer um curso pago de inglês depois que consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, já adulta. Devido ao que tinha aprendido por conta própria, entrei direto no módulo avançado do curso e li tudo o que pude na biblioteca da escola de idiomas. A partir de 2003, comecei a revisar textos em português como freelancer, tarefa na qual caí meio que de paraquedas quando uma autora aceitou contratar uma revisora para seu livro sem pedir o currículo (que bom, porque eu ainda não tinha um). Depois veio outro trabalho, e mais outro. Nesse meio-tempo, tive outros empregos e investi numa carreira alternativa, a de ilustradora. Mas não estava me fazendo feliz. Então, passei a me dedicar com mais afinco ao trabalho textual, revisando e escrevendo ficção. Queria ser tradutora, mas não sabia por onde começar, nem se a falta de formação acadêmica na área barraria minha entrada, nem se estava preparada para isso. Em 2011, uma editora começou a me passar regularmente revisões e preparações com cotejo de originais em inglês. Corrigindo o trabalho alheio e analisando os originais, decidi que conseguiria, sim. Comecei a azucrinar meu cliente (risos), com quem já tinha uma relação de confiança. No ano seguinte, ele me passou uma tradução. Foi graças a essa oportunidade que pude mostrar meu trabalho como tradutora a este e outros clientes, montando um currículo. Hoje, alterno as três tarefas: tradução, preparação e revisão.

 

Como vê o mercado de trabalho para um tradutor no Brasil? 

O mercado é amplo, pois pode-se ser tradutor literário, técnico, juramentado… O tradutor literário normalmente é freelancer e presta serviços para editoras brasileiras. O técnico pode se especializar num tema, ou em vários, como medicina ou eletrônica; pode trabalhar como freelancer ou funcionário de uma agência de tradução, e seus clientes podem ser brasileiros ou estrangeiros. O tradutor juramentado, ou público, é um profissional que passou no concurso da Junta Comercial da sua região ou município e traduz documentos oficiais. Até hoje só trabalhei como tradutora literária, por isso, não sei muito sobre as subdivisões do ramo. A área de tradução parece estar um pouco saturada, por ser uma profissão atraente para muitas pessoas, preparadas ou não para ela. Na minha experiência, os clientes raramente contratam sem indicação. Por isso, é preciso investir na rede de contatos, marcar presença em eventos e, claro, estudar, seja por conta própria, seja fazendo cursos. Cursos e oficinas servem não só para ampliar suas habilidades, mas também para conhecer colegas de profissão. Para quem não mora nas grandes capitais, há cursos rápidos ou à distância. Por exemplo, em março deste ano [2016] fiz a oficina do Projeto TransMit. É totalmente online e se propõe a treinar tradutores para o trabalho nas agências, ensinando macetes do ramo e corrigindo erros comuns. É muito bom e me deu esperança de trabalhar também para a área técnica.

 

Você menciona em seu website que sua primeira tradução profissional foi em 2012. Qual foi a obra e o que te levou a traduzi-la? Ficou satisfeita com o resultado?

A obra foi The Chase, ou A Caçada, de Clive Cussler, um thriller/aventura histórica. E o que me levou a traduzi-la foi, muito simplesmente, a proposta da editora (risos). Pela minha experiência, o tradutor raramente escolhe o que traduz; o que ele escolhe é dizer sim ou não à proposta de um cliente, que já tem um material a publicar. É claro que podemos rejeitar um livro por indisponibilidade ou por motivos ideológicos. Também podemos sugerir a uma editora que compre os direitos de publicação de uma obra específica. Mas, na maior parte do tempo, é o cliente quem bate à porta, e a gente diz sim. Voltando a The Chase, foi um baita desafio. Primeiro, por ser minha primeira tradução profissional; segundo, porque não foi o livro mais fácil que já traduzi. A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX e é recheada de referências à época, detalhes sobre locomotivas e motocicletas. Então, apanhei bastante desse livro. E, claro, aprendi muito.

 

Como é o seu processo de preparação para suas traduções de obras literárias mais complexas, como as do Adam Blake, por exemplo?

Num mundo ideal, eu teria tempo para ler um livro inteiro, sossegadamente, fazendo anotações sobre pontos a pesquisar, trechos a ponderar, nomes a traduzir… No mundo real, a gente tem prazos e não dá para fazer isso. Então, com qualquer obra, simples ou complexa, o que faço primeiro é ler a sinopse e alguma coisa sobre o autor, para ter ideia do que me espera; se tiver tempo, leio algumas resenhas; depois, folheio a obra, verifico se tem pontos de vista múltiplos (o que resulta em tons de voz diferentes) e leio alguns parágrafos para entender o tom predominante. Isso é rápido, coisa de uma tarde. Depois, já começo a traduzir. Os desafios vão se apresentando ao longo do processo. Trabalho sempre conectada à internet para poder pesquisar expressões que ainda não conheça, jargões de uma área profissional, dados sobre um período histórico ou sobre o universo em que se passa a história, quando ela é derivada de um filme ou série de TV, por exemplo. Vale consultar os colegas também: há comunidades de tradutores dedicadas a isso nas redes sociais. Às vezes, é preciso montar um glossário do universo da obra. Noutras vezes, é preciso voltar a capítulos anteriores e mudar todas as decisões que já se tomou (risos!) em nome da coerência. Manuscritos do Mar Morto, no original The Dead Sea Deception, foi minha segunda tradução e me fez pesquisar termos usados pela polícia, armas de fogo, história e geografia. Dos livros em que trabalhei, é um dos meus favoritos. Mas, como acontece com toda tradução de principiante, ele saiu com vários erros que hoje eu adoraria corrigir, se pudesse.

 

Você faz traduções do inglês para o português brasileiro. Não se arriscaria no caminho inverso? Por quê?

Já fiz uma versão, que é como chamamos as traduções do português para outra língua. Era um texto muito curto e simples, que pude ler inteiro para avaliar se meus conhecimentos estavam à altura do trabalho. Mas, neste momento, não me arriscaria com versões de textos mais complexos. Como muitos tradutores, eu me sinto mais confortável para trabalhar com minha língua nativa como língua de chegada, ou seja, para trazer textos de outra língua para o português, mas não o oposto. Faltam-me naturalidade e aprofundamento na gramática do inglês. Isso faz toda a diferença entre um texto fluido e um texto trôpego, pouco espontâneo. Afinal, o ideal é que uma tradução não tenha cara de tradução. Ela deve parecer um texto escrito originalmente na língua de chegada.

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