Homossexualidade e Civilização: o Amor na Espanha Árabe

O livro Homossexuality and Civilization, de Louis Crompton, faz parte da pesquisa para o romance que estou escrevendo. Crompton, falecido em 2009, foi um acadêmico que se dedicou ao estudo da diversidade sexual (queer studies) desde a década de 1970, e há uma palestra dele sobre o tema no Youtube. A obra se refere principalmente à homossexualidade masculina, embora essa não seja, necessariamente, a intenção do autor: as fontes, afinal, se ocupam da história dos homens muito mais que da história das mulheres. Fala de diversas culturas e épocas, não se limitando ao Ocidente. Mas não expõe com o mesmo detalhismo a história da homossexualidade em todos os povos abordados (novamente, talvez por falta de fontes escritas). Mesmo assim, é uma leitura prazerosa e instrutiva, acessível para leigos como eu. Vejam o índice.

Peguei o livro no sossego do recesso de fim de ano, que dediquei às minhas pesquisas. Para assimilar melhor o conteúdo que me interessava diretamente, fui traduzindo alguns trechos. A seção Love in Arab Spain, de onze páginas, corresponde a cerca de 1,8% do livro, que tem 623 páginas. Como não há nenhuma previsão do seu lançamento em português, confio que estas linhas não vão ferir nem a memória do autor nem os direitos dos herdeiros. A intenção é meramente compartilhar com vocês algumas das coisas fascinantes que aprendi.

Já aviso que não fiz a tradução poética (com rimas e métrica) dos versos citados, limitando-me a traduzir o significado, que importava mais. Não incluí as notas de rodapé do original, que só podem ser consultadas no fim do livro, e inseri duas notas minhas, além de completar as datas de nascimento e morte dos principais personagens históricos. A intenção é orientar melhor a mim mesma e aos eventuais leitores.

É isso aí. Aproveitem. 🙂

Homossexuality and Civilization – Louis Crompton

O Amor na Espanha Árabe (páginas 161 a 172)

tradução: Camila Fernandes

 

Quais eram, poderíamos perguntar, as atitudes em relação à homossexualidade naquelas terras muçulmanas tão temidas no Ocidente cristão?

Um indício pode ser encontrado em sua literatura, que é pródiga em poesia amorosa homoerótica, principalmente na Espanha árabe. Seu florescimento aqui não foi único, mas deu-se em paralelo com o mundo islâmico em geral. Manifestações líricas semelhantes também agraciaram as cortes do Iraque e da Síria, os jardins da Pérsia, as montanhas do Afeganistão, as planícies do Império Mogol (Índia), os domínios dos turcos otomanos e os estados africanos do Egito, Tunísia e Marrocos. Antologias medievais islâmicas, compiladas em Bagdá, Damasco, Isfahan, Kabul, Délhi, Istambul, Cairo, Kairouan e Fez, revelam, com impressionante consistência e por mais de um milênio, a mesma tendência à paixão homoerótica que encontramos nos poemas de Córdoba, Sevilha e Granada.

A civilização governada pelos califas omíadas de Córdoba, entre os anos 756 e 1031, sobrepujou qualquer uma na Europa católica. A única rival de Córdoba entre as cidades europeias era Constantinopla, do outro lado do continente. Na verdade, os califas podem ter ultrapassado culturalmente os imperadores bizantinos contemporâneos, e é provável que mantivessem uma administração pública de nível mais elevado. Muitos de seus súditos cristãos (e certamente os judeus espanhóis) preferiam esses governantes infiéis no lugar dos visigodos. A arquitetura mourisca produziu, ao longo dos séculos, obras-primas como a Grande Mesquita de Córdoba, o Alcázar e a Giralda em Sevilha e a Alhambra em Granada. Os ibéricos nativos estudavam avidamente a poesia árabe para chegar a um estilo elegante e expressivo, e estudiosos da Europa cristã vinham a Sevilha, Toledo e Córdoba estudar medicina, astronomia e matemática. O erudito Silvestre II (946-1003), papa de Roma no ano 1000, foi estudante em Córdoba.

Para os moralistas do outro lado dos Pirineus, a cultura islâmica parecia um paraíso luxurioso e provocante, dotado de haréns, belas garotas escravas e sakis[1] de beleza suspeita. Mas, nas questões sexuais, o islã mantinha uma ambivalência paradoxal, inclusive em relação à homossexualidade, pois o rigor e a intolerância que caracterizavam o judaísmo e o cristianismo tradicionais reapareceram nas leis da terceira religião abraâmica, principalmente sob a influência das escrituras hebraicas.

O Alcorão demonstra tanto influência judaica quanto cristã na forma como interpreta a história de Sodoma. Embora Maomé (570-632) não mencione esta cidade pelo nome, ele estava bem familiarizado com a história de Ló e se refere ao episódio várias vezes. Apresenta Ló como um profeta de Deus (como o próprio Maomé) e interpreta o fogo que vem dos céus como prova da disposição de Deus para castigar aqueles que ignoram seus mensageiros. Maomé chama os homens de Sodoma simplesmente de “povo de Ló”, isto é, vizinhos de Ló. Por meio dessa curiosa associação, a palavra árabe comum para sodomia, liwat, deriva do nome de Ló, assim como a palavra para homossexual, luti, literalmente “lotita”. No Alcorão, Maomé faz Ló repreender “seu povo” por cobiçar outros homens, preferência que ele condena como “abominação”, e representa Deus punindo-os com tabletes de barro cozido que chovem do céu.

Ao assinalar castigos, porém, o Alcorão não chega à ferocidade do Levítico. Após confinar as mulheres adúlteras às suas casas, Maomé acrescenta: “E quando a vocês dois [homens], que são culpados disso, que ambos sejam castigados. Se eles se arrependerem e melhorarem, deixem-nos em paz. Vejam! Deus é Piedoso, Misericordioso”. Mas o Alcorão não era a única fonte de autoridade entre os muçulmanos ortodoxos. Também havia os hadith, uma série de ditos atribuídos a Maomé que apareceu em cinco enormes coletâneas no século IX. Incluem um decreto ditando que tanto o parceiro ativo quanto o passivo sejam apedrejados, visão que definitivamente influenciou a lei islâmica.

O teólogo Malik de Medina (711-795), cuja escola de jurisprudência acabou por tornar-se dominante na Espanha e no Norte da África, apoiava a pena de morte. Assim como o líder de outra importante escola, o literalista Ibn Hanbal (780-855). Outros, mais lenientes, reduziam a punição ao açoitamento, normalmente cem chibatadas. Sentenças cruéis foram distribuídas por sucessores imediatos de Maomé. Abu Bakr (573-634), amigo do Profeta e primeiro califa muçulmano (632-634), prescreveu a fogueira como penalidade e mandou soterrar um homem condenado sob os escombros de um muro. (No Afeganistão moderno, esse castigo foi revivido pelos governantes talibãs em versão atualizada: os muros foram derrubados por tratores de esteira. O cunhado de Maomé e quarto califa, Ali (601-661) — posteriormente considerado infalível e semidivino pelos muçulmanos xiitas —, mandou jogar um homem culpado do topo de um minarete; outros foram apedrejados.

Assim, no início da teoria e da prática judiciárias, a severidade do Velho Testamento veio, ao menos teoricamente, dominar o âmbito legal do islã.

Em outros pontos da cultura islâmica, porém, as evidências são visivelmente contraditórias. As atitudes populares eram mais acolhedoras que na Cristandade, e os visitantes europeus chocavam-se com frequência com a tolerância relaxada dos árabes, turcos e persas, que pareciam não ver nada de antinatural no amor entre homens e garotos.

Por trás dessa importante diferença cultural há uma veia romântica profundamente enraizada nos tratados árabes medievais de amor. Para os autores islâmicos, a intoxicação emocional pode surgir não só do amor das mulheres, como com os trovadores, mas também do amor masculino.

Entusiastas árabes sustentavam que o amor romântico era uma experiência importante e valiosa por si só. Mas como podiam conciliar essa visão com sua fé? Faziam isso apelando para outra hadith atribuída ao Profeta: “Aquele que ama e permanece casto e esconde seu segredo e morre, morre como mártir”. Esse amor não era limitado pelo gênero.

O escritor iraquiano Al-Jahiz (776-868), que escreveu amplamente sobre o amor, havia estabelecido a regra de que o ishq, ou amor apaixonado, só podia existir entre um homem e uma mulher. Mas Ibn Daud (868-909), que nasceu no ano da morte de Jahiz, reconheceu a possibilidade do amor entre homens em seu Livro da Flor (Kitab al-Zahra), e essa visão prevaleceu na cultura árabe tardia. Ibn Daud era tanto um jurista culto quando um literato; mas, de acordo com um relato citado diversas vezes, sua paixão por Muhammad ibn Jami (a quem dedicou o livro) fez dele um “mártir do amor”. Outro amigo contou a história dos dois:

“Fui ver Ibn Daud durante a doença da qual ele morreu e disse-lhe: ‘Como se sente?’. Ele me respondeu: ‘O amor de você-sabe-quem me causou o que você vê!’. Então eu disse a ele: ‘O que o impede de desfrutá-lo, já que você tem o poder de fazê-lo?’. Ele respondeu: ‘O desfrute tem dois aspectos: um é o olhar permitido e outro é o prazer proibido. Quanto ao olhar permitido,  causou-me a condição que você vê, e, quanto ao prazer proibido, algo que meu pai me disse afastou-me dele.’ Ele afirmou… ‘o Profeta disse: ‘Aquele que ama apaixonadamente e esconde seu segredo e permanece casto e paciente, Deus o perdoará e fará com que entre no Paraíso’… e morreu naquela mesma noite, ou talvez no dia seguinte.”

Essas duas tradições, a punitiva e a romântica, figuram na literatura da Espanha Árabe, principalmente nos escritos do seu maior teórico do amor, Ibn Hazm (994-1064). Ibn Hazm nasceu em Córdoba durante os últimos dias da dinastia omíada. Seu pai ocupava um cargo político, mas foi forçado a fugir quando os omíadas foram destronados em 1013. Mais tarde, Ibn Hazm tornou-se famoso — e controverso — como teólogo e autor de um ensaio notável sobre religião comparada. Mas, em torno de 1022 ou 1027, escreveu um tratado sobre o amor chamado, no estilo poético preferido pelos escritores árabes, O Colar da Pomba. Morreu em 1064, sete anos antes do nascimento de Guilherme IX da Aquitânia, o primeiro trovador.

Ibn Hazm começa o livro com uma prece muçulmana convencional e apressa-se em dar uma justificativa religiosa à sua empreitada:

“O amor não é nem reprovado pela Religião nem proibido pela Lei; pois todo coração está nas mãos de Deus”, isto é, o amor é uma disposição inata “que os homens não podem controlar”. Depois, ele desenvolve o argumento: “Basta ao bom muçulmano abster-se das coisas que Deus proibiu, pelas quais, se escolher fazer, ele prestará contas no Dia da Ressurreição. Mas admirar a beleza, e ser dominado pelo amor — esta é uma coisa natural, e não faz parte do conjunto de mandamentos e proibições divinos”. Ibn Hazm nos garante que “dos santos e doutores cultos da fé que viveram nas eras há muito passadas, há alguns cujos poemas de amor são testemunho suficiente de sua paixão, de forma que não requerem explicação”. Como prova, ele menciona diversos imãs e juristas famosos de Medina.

Ibn Hazm, diferente dos gregos, não exalta o amor porque ele leva à coragem, à virtude e à sabedoria. Pode levar, mas também produzir simples transtorno. É o diagnóstico de Epicuro sem sua condenação. Na verdade, esse psicólogo árabe considera o amor “uma doença deliciosa, uma enfermidade muito desejável. Quem quer que dela esteja livre não gosta de ser imune, e quem quer que seja acometido por ela não deseja se recuperar”. Ibn Hazm enfatiza, e parece quase saborear, um elemento masoquista: um amigo que sofria o repreendeu quando ele expressou a esperança de se ver livre do sofrimento, e um homem importante que ele conhecia alegrou-se quando um jovem pagem notou seu fascínio dando-lhe um tapa.

O que o tratado de Ibn Hazm nos diz sobre as atitudes hispano-árabes quanto à homossexualidade? O Colar da Pomba é um misto de generalizações teóricas e anedotas, a maioria baseada nas observações pessoais do autor. Talvez nove décimos das anedotas se refiram ao amor de homens por mulheres, especialmente por belas escravas. Porém, Ibn Hazm mescla várias histórias sobre homens se apaixonando por outros homens e presume que o amor homossexual não é, psicologicamente, diferente do heterossexual. Aristóteles, Plutarco e Ovídio haviam separado nitidamente os dois tipos de amor. Mas Ibn Hazm vai do relato do fascínio de um homem por uma escrava a uma história de amor entre homens sem sugerir que uma experiência difere da outra.

Consideremos, por contraste, um autor cristão como Andreas Capellanus, que escreveu seu famoso ensaio sobre o amor cortês um século e meio depois, na corte da neta de Guilherme IX, Marie de Champagne. No segundo capítulo, Andreas declara categoricamente as ideias da Europa cristã medieval: “A principal questão a notar quanto ao amor é que ele só pode existir entre pessoas de sexo diferente. Entre dois machos ou duas fêmeas, não pode reivindicar um posto, pois duas pessoas do mesmo sexo não estão de forma alguma aptas a retribuir o amor uma da outra ou praticar seus atos naturais. O amor ruboriza ao aceitar o que a natureza nega”. Autores que posteriormente abordaram o amor ao norte dos Pirineus teriam concordado totalmente. O que poderíamos ter chamado de bissexualidade romântica de Ibn Hazm teria sido imcompreensível para eles.

As anedotas e poemas de Ibn Hazm podem nos ajudar a inferir como ele e seus colegas de fé viam o amor entre homens. A delicadeza e a discrição árabes são amplamente ilustradas pelos contos de Ibn Hazm sobre homens que guardavam segredo quanto ao amor. Não era considerado apropriado, na sociedade árabe, que dois homens declarassem seu amor publicamente — em contraste, digamos, com a Grécia Antiga ou com o Japão do Período Tokugawa —, mas era percebido como imensamente romântico nutrir tais sentimentos sem nomear o amado. Eis aqui um platonismo mais platônico que o próprio Platão. Num capítulo sobre os “mártires do amor”, Ibn Hazm menciona seis amantes que morreram, ou quase morreram — duas mulheres que amavam homens, dois homens que amavam mulheres, e dois homens que amavam homens. As histórias estão dispersas pela obra, não agrupadas por gênero. Uma delas conta de um amigo, Ibn al-Tubni, a quem ele enaltece por sua erudição, qualidades pessoais e beleza: “Poder-se-ia dizer que a própria beleza foi criada à sua semelhança, ou moldada pelos suspiros daqueles que olharam para ele”. Foram separados quando as tropas berberes invadiram Córdoba. Exilado em Valência, Ibn Hazm ficou triste pela notícia da morte de Ibn al-Tubni. Quando um conhecido havia perguntado a Ibn al-Tubni por que estava tão abatido, ele havia respondido:

“‘Sim, eu lhe direi. Estava parado à porta da minha casa em Ghadir Ibn al-Shammas na hora em que Ali ibn Hammud adentrou Córdoba, e seus exércitos invadiam a cidade vindos de todas as direções. Vi entre eles um hovem de aparência tão formidável, que eu nunca poderia ter acreditado, até aquele momento, que a beleza poderia ser personificada desse modo na forma de um ser vivo. Perguntei sobre ele e disseram-me que era Fulano de Tal, filho de Fulano de Tal, e que habitava tal e tal distrito — uma província muito distante de Córdoba, praticamente inacessível. Perdi a esperança de jamais voltar a vê-lo; e juro por minha vida… nunca deixarei de amá-lo, até deitar em meu túmulo.’ E assim aconteceu.”

Tanto as anedotas quanto os poemas de Ibn Hazm, os quais ele cita descaradamente em O Colar da Pomba, revelam algo da sensibilidade erótica do próprio autor. Sua grande paixão parece ter sido a que ele experimentou aos dezesseis anos por uma escrava. Mas vários poemas falam de seus sentimentos por outros homens. Embora a poesia de Ibn Hazm raramente esteja acima da mediocridade, mesmo suas banalidades são instrutivas:

“Caso ele fale, entre aqueles que se sentam em minha companhia, ouço apenas as palavras desse maravilhoso encantador.

Mesmo que o Príncipe dos Fiéis estivesse comigo, eu não deixaria de lado meu amor pelo primeiro.

Se sou obrigado a deixá-lo, olho para trás constantemente, e caminho como um animal ferido no casco.

Meus olhos mantêm-se fixos nele, embora meu corpo tenha partido, assim como o homem que se afoga no mar insondável olha a praia.”

Atestando a própria pureza, Ibn Hazm garante, com ingênua franqueza, que “sou completamente inocente, íntegro, irrepreensível…  e juro por Deus, pelo voto mais solene, que nunca tirei minha roupa íntima para ter relações sexuais ilícitas”. Ainda assim, admite ser tentado pela beleza dos homens: para evitar o pecado, faltou a uma festa na qual encontraria um homem bonito pelo qual se sentia atraído.

Nos capítulos finais, Ibn Hazm analisa os aspectos morais, religiosos e legais do amor, que na cultura muçulmana são, claro, um só. Várias das transgressões que ele descreve em A Vileza do Pecado são homossexuais. Um distinto estudioso da religião, conta ele, arruinou a reputação por causa de sua ligação pública com um garoto. Outro estudioso, ex-líder de uma importante seita muçulmana, apaixonou-se tão loucamente por um rapaz cristão que cometeu a atrocidade suprema — escreveu um tratado a favor da Trindade. Mas nem todo árabe era tão crítico quanto Ibn Hazm. Na casa de um rico homem de negócios, dois hóspedes se retiravam várias vezes para uma câmara particular. Quando Ibn Hazm demonstrou sua reprovação — tipicamente, recitando um poema —, o anfitrião o ignorou.

Esse capítulo também contém a única referência de Ibn Hazm ao lesbianismo. “Uma vez vi uma mulher”, conta ele, “que havia concedido seus afetos de maneiras que não agradavam ao Deus Todo-Poderoso”. Mas seu amor mudou para uma “inimizade do tipo que não é causada pelo ódio, nem pela vingança, nem pelo assassinato de um pai ou pela tomada de uma mãe como cativa. Esta é a reação de Deus a todos aqueles que praticam abominações”. Mas, ao que parece, as referências islâmicas ao lesbianismo nem sempre eram tão condenatórias. Pelo menos uma dúzia de romances de amor nos quais os amantes são mulheres é mencionada em O Livro de Hind, que também era lésbica. O século IX produziu um Tratado do Lesbianismo (Kitab al-Sahhakat), hoje perdido, e obras árabes eróticas posteriores continham capítulos sobre o tema. Eis aqui um desafio à pesquisa.

No islã, as questões da moralidade eram também, inevitavelmente, questões legais. Assim, o capítulo de Ibn Hazm sobre pecados sexuais também expõe as várias penalidades recomendadas pela tradição religiosa. Ele reconta a história de quando Abu Bakr queimou um homem vivo por fazer o papel passivo. O primeiro califa, conta-nos, atacou e matou um homem “que havia [meramente] se encostado a um jovem até ter o orgasmo”. O jurista Malik, nota ele, elogiou um emir que espancou até a morte um jovem por permitir que outro homem o abraçasse de maneira semelhante. Mas para Ibn Hazm isso era excessivo; ele afirma que dez chibatadas teriam bastado, embora admita que isso seria heterodoxo. Quanto ao ato completo da sodomia, cita apenas a opinião de Malik de que ambas as partes devem ser apedrejadas, mas não chega a dizer se concorda ou não.

Nessa atmosfera de leis religiosas severas e exagerado romantismo, os homens amavam, expressavam os sentimentos abertamente em versos fervorosos e declaravam em voz alta sua castidade. Talvez parte do fervor poético tenha sido somente literário. Talvez algumas das declarações tenham sido sinceras. Às vezes, esses casos de amor envolviam governantes famosos. O Califa Abd ar-Rahman III, que reinou em Córdoba no seu ápice político e cultural (929-961), sentiu-se atraído por um jovem refém cristão, foi rejeitado e mandou executá-lo brutalmente. O rapaz, canonizado como São Pelágio, tornou-se o herói-mártir de um poema narrativo escrito pela freira alemã Hrosvitha (935-1002), que criticou a luxúria árabe e glorificou a castidade cristã.

A arquitetura, a literatura e a erudição floresceram em Córdoba sob o filho de Abd ar-Rahman, al-Hakam II (915-976), um patrono ávido e exigente. Na juventude, seus amores parecem ter sido inteiramente homossexuais. Tal exclusividade era um problema, já que era incumbência do novo califa produzir um herdeiro. O impasse, conta-se, foi resolvido quando o califa arranjou uma concubina que vestiu roupas de menino e ganhou o nome masculino de Jafar.

O amor de al-Mutamid (1040-1095), emir de Sevilha e poeta andaluz proeminente de sua época, por outro poeta, Ibn Ammar (1031-1086), acabou de forma violenta após uma longa amizade. Al-Mutamid era um amante apaixonado das mulheres, mas também amava homens. Sobre um copeiro, escreveu: “Deram-lhe o nome de Espada; duas outras espadas: seus olhos!/… agora somos ambos mestres, ambos escravos!”. Seu amor por Ibn Ammar é o romance mais famoso, e o mais trágico, da história de al-Andalus. Em 1053, al-Mutamid, com treze anos, foi nomeado governador titular de Silves por seu pai, que fez de Ibn Ammar, nove anos mais velho, seu vizir. Uma história conta como, após uma noite de vinho e poesia, seu afeto o levou a se declarar para Ibn Ammar: “Esta noite você dormirá comigo no mesmo travesseiro!”. Num poema que enviou para o pai de al-Mutamid, Ibn Ammar declarou:

“Na noite da união veio voando até mim,

Nas suas carícias, o perfume da alvorada,

Minhas lágrimas percorreram o lindo jardim

De suas faces para umedecer-lhe as murtas e lírios.”

Parece que o pai do príncipe veio a reprovar o relacionamento com o plebeu, pois exilou o poeta de forma a separá-los. Ao subir ao trono, al-Mutamid deu a Ibn Ammar grande poder político e militar. Um relato famoso, no qual não se espera que acreditemos, conta como, quando dormiram juntos na mesma cama, o poeta sonhou que seu amante o mataria, e fugiu; o rei o convenceu a voltar, garantindo-lhe que isso nunca aconteceria. Mas depois os dois homens brigaram amargamente. Por fim, quando Ibn Ammar caiu nas mãos de al-Mutamid, este governante, em geral humano e generoso, primeiro o perdoou; depois, quando Ibn Ammar gabou-se triunfalmente desse indulto, al-Mutamid se enfureceu e o partiu em pedaços com as próprias mãos. “Depois, ele chorou, assim como há muito tempo Alexandre chorou por Heféstion, e deu-lhe um funeral suntuoso.”

Praticamente toda coletânea de poesia hispano-árabe contém farta quantidade de poemas amorosos escritos por homens para ou sobre outros homens. A poesia erótica floresceu primeiramente na Andalusia em Córdoba sob Abd ar-Rahman II (822-852). Seu neto, Abdallah (888-912), dedicou versos de amor a um “cervo de olhos negros”. Ibn Abd Rabbihi (860-940), um poeta liberto da corte de Abdallah, escreveu sobre outro rapaz em um tom típico de sujeição. “Dei a ele o que pediu, fiz dele meu mestre…/O amor acorrentou meu coração/Como um pastor acorrenta um camelo”. Al-Ramadi (m. 1022), o maior poeta de Córdoba no século X, apaixonou-se por um escravo negro. Novamente vemos a inversão consciente de papéis: “Olhei nos olhos dele e fiquei embriagado…/Sou seu escravo, ele é o senhor”. Poetas latinos na Roma de Augusto também haviam dirigido poemas amorosos a jovens escravos, mas nunca nesse estilo; a autodegradação desses andaluzes prenuncia ainda mais o romantismo cavaleiresco da França medieval.

Após a queda dos omíadas em Córdoba, a Espanha Árabe — fatalmente enfraquecida — se desintegrou numa série de estados menores. Mas, apesar da desordem política, o século XI foi uma era de ouro para a poesia árabe na Península Ibérica. Canções de amor continuaram a se derramar sob os governantes almorávidas (1090-1145) e almóadas (1145-1223), e, com elas, os versos homoeróticos. O mais aclamado autor dessa era brilhante, Ibn Quzman (c. 1080-1160), foi considerado o maior dos poetas medievais. Um boêmio irreverente nos moldes de François Villon, compôs zajals[2] coloquiais e atrevidos, em estilo muito diverso dos cânones do verso árabe clássico. Alto, loiro e de olhos azuis, Ibn Quzman levava uma vida libertina que lembrava a do companheiro inseparável do califa Harun al-Rashid (763-809) em Bagdá, o poeta Abu Nuwas (756-814), que também era descaradamente aberto quanto à sua homossexualidade. Em versos curtos, concisos e estrofes elípticas, quase intraduzíveis, ele celebra “o vinho, o adultério e a sodomia”. Como os trovadores da Provença, queixa-se da arrogância e do desprezo de seus amantes, que com frequência são homens, mas ri dos escrúpulos do amor ideal: “O que você diz de um amado, quando vocês dois estão totalmente sozinhos, e a porta da casa está trancada?”. Empobrecido, ele terminou a vida como imã, ensinando numa mesquita.

O filósofo Ibn Bajja (1080-1138), mais conhecido na Europa latina como Avempace, era em todos os aspectos uma figura mais respeitável. Foi ele quem introduziu o aristotelismo na Espanha e abriu caminho para Averroes. Ibn Bajja, informa um antologista, escreveu versos em memória de “um escravo negro com o qual estava encantado e que… morreu em Barcelona, para sua grande tristeza”. Várias antologias andaluzas surgiram nos séculos XII e XIII, sendo a mais importante O Livro das Bandeiras dos Campeões (1243), de Ibn Said (1213-1286). Uma seleção desses poemas foi traduzida para a língua inglesa pelo poeta e estudioso A. J. Arberry. O cauteloso inglês parece ter evitado versos cujos detalhes sexuais fossem explícitos, mas sua seleção ainda revela uma ampla gama de poemas de amor entre homens entremeados a outras líricas. Ibn Said, que nasceu em Alcalá la Real, perto de Granada, organizou a antologia de acordo com os locais de nascimento e ocupações dos poetas. Versos que celebram rapazes aparecem em Sevilha, Lisboa, Córdoba, Toledo, Granada, Alcalá, Múrcia, Valência e Saragoça, da autoria de reis, ministros de estado, acadêmicos, intelectuais e funcionários públicos, bem como poetas profissionais. A tradução dessa poesia sofisticada representa um desafio formidável. Marcada por jogos de palavras elaborados, alusões compactas com conotações sutis acumuladas ao longo dos séculos, rimas complexas e muita aliteração, esses poemas — para a mente ocidental — beiram o fantástico, até o surreal. A face delicada de um saki é tão embriagante quanto o vinho que ele serve, os dedos de outro estão manchados de vinho dourado assim como os lábios do boi estão sujos do pólen do narciso que ele come. Uma verruga na bochecha de Ahmad é como um jardineiro abissínio num canteiro de rosas. Um garoto é elogiado porque nenhum traço de penugem eclipsa o sol de seu semblante. Outro recebe agradecimentos por sua barba, já que ela é uma bainha que protege o poeta contra “o sabre de seu sorriso”. Um poeta de Córdoba, do século XIII, transforma os equipamentos de trabalho de um rapaz em símbolos de cavalaria:

“Seu banquinho de trabalho (como se fosse um cavalo)

o carrega orgulhosamente (como se ele fosse um herói).

Mas este meu herói está armado com apenas uma agulha,

longa como seus cílios e, como eles, brilhante.

Vendo-o costurar as juntas de um casaco,

Penso numa estrela cadente seguida por um fio sedoso de luz.

Ele torce o fio e o fio dá voltas em meu coração.

Oh, se meu coração pudesse segui-lo, próximo como o fio atrás da agulha!”

Uma consequência surpreendente dessa profusão de poesia amorosa andaluza foi sua imitação por parte dos poetas judeus que escreviam em hebraico clássico. Como língua falada, o hebraico havia desaparecido muitos séculos antes, mas na Espanha mourisca a linguagem literária ressuscitou, e seguiu-se um renascimento da poesia judaica. Embora a poesia religiosa medieval judaica tenha sido largamente estudada, pouca atenção se havia dedicado, até pouco tempo atrás, ao verso secular, que demonstra forte influência árabe em sua imagística e temas. Esses poetas parecem ter emulado com entusiasmo os poemas árabes para garotos e rapazes, apesar dos tabus religiosos do judaísmo. Essa revelação inesperada alvoroçou alguns estudiosos judaicos conservadores, mas a prova de um conjunto sólido de poesia hispano-hebraica sobre o amor entre homens parece, agora, incontestável.

Os mais distintos poetas hebreus do período árabe foram Solomão ibn Gabirol (c. 1021-1057), Moisés ibn Ezra (1055-1140) e Judá Halevi (1075-1141), e todos mereceram artigos elogiosos na Encyclopaedia Judaica. Ibn Ezra é considerado com frequência o maior dos poetas religiosos judeus da Espanha. Os três imitaram os assuntos, métricas e imagens dos contemporâneos árabes e, inspirados na Bíblica hebraica, usaram conceitos eróticos do Cântico dos Cânticos em poemas que escreveram para rapazes. Os poetas árabes, às vezes, escreviam poemas de amor para jovens judeus; os poetas hebreus retribuíram professando seu amor por muçulmanos jovens e belos, embora só falem em beijos e abraços e não cheguem à objetividade árabe nas questões sexuais. Como seus pares árabes, retratam os rapazes como cervos ou lindas gazelas de face radiante e cabelo negro, que arrasam corações, rendem noites em claro e traem cruelmente seus admiradores. Um registro deve servir como exemplo:

“Gazela desejada na Espanha, de formas maravilhosas,

Recebeu o poder e o domínio sobre todos os seres vivos;

Formosa como a lua, de bela estatura:

Cachos púrpura sobre a testa luminosa,

Sua aparência é como a de José, seu cabelo, como o de Adionah (Absalão).

De olhos adoráveis como os de Davi, ele me matou como Urias.

Inflamou minhas paixões e consumiu meu coração em chamas.”

Não devemos imaginar que os teólogos judeus toleravam tais casos. O maior de todos os estudiosos judeus medievais, Moshe ben Maimon, conhecido como Maimônides (1135-1204), nasceu em Córdoba, mas fugiu com a família para o Norte da África aos vinte e quatro anos para escapar aos rebeldes berberes. Maimônides surpreendeu a ortodoxia ao explicar os milagres das escrituras como fenômenos naturais e ao argumentar que a fé não deveria contradizer a razão. Mas, como moralista, ele era severamente ortodoxo, e sua interpretação do Pentateuco era que “devemos limitar a relação sexual completamente, considerá-la com desdém, e só desejá-la muito raramente. A proibição à pederastia (Lev. 18:22) e ao relacionamento carnal com animais (ibid. 23) é muito clara. Se da maneira natural o ato é baixo demais para ser realizado exceto quando necessário, é ainda pior se realizado de modo antinatural, e apenas em nome do prazer”. O quinto livro da enorme série de comentários de Maimônides sobre a lei judaica, famoso como Mishné Torá ou Código de Maimônides, ensina que a lei judaica exige que tanto o parceiro ativo quanto o passivo na relação homossexual devem ser apedrejados até a morte.

Do século XIII em diante, o poder árabe declinou na Espanha, até entregar seu último baluarte, Granada, em 1492. Até o fim, seus poetas cantaram o amor dos rapazes, como no caso de Yusuf III, que reinou na Alhambra de 1408 a 1417 e compôs estes versos:

“Oh, você que mirou em meu coração o dardo de um olhar penetrante:

Conheça aquele que está morrendo, cujos olhos derramam lágrimas velozes!

Quem exigirá justiça de um cervo encantador

De corpo delgado como o ramo verde e fresco,

Que insistiu na distância e na rejeição?…

Ele me seduziu com o feitiço de suas pálpebras.

Se fosse possível — mas ele sempre me evita —,

Eu teria conquistado meu desejo ao abrir seu cinturão.”

Como podemos explicar essa esquizofrenia lírico-legal, na qual uma religião poderosa e uma cultura secular florescente parecem entrar em conflito? Os árabes alegavam ser os descendentes de Ismael, filho de Abraão, e portanto consideravam a Bíblia hebraica um livro sagrado, mesmo que suplantado pelo Alcorão. Essa afiliação racial-religiosa garantiu que o islã compartilhasse muitos dos preconceitos do judaísmo e do cristianismo. Comparativamente, a homossexualidade parece não ter estado em evidência entre os beduínos da Arábia nos tempos pré-islâmicos. Sugeriu-se que as atitudes árabes em relação ao sexo passaram por uma mudança à medida que eles tomavam territórios mais avançados e sofisticados, especialmente o Império Sassânida. Culturalmente, a conquista da Pérsia fez pelos árabes o que a conquista da Grécia fez por Roma — apresentou uma sociedade um tanto primitiva a outra muito mais avançada e exuberante. Infelizmente, embora saibamos que o amor por rapazes floresceu de modo espetacular na Pérsia islâmica, inspirando uma literatura de peso, sabemos pouco sobre os costumes persas antes da conquista árabe, e o que sabemos é contraditório. O Zend Avesta (c. 550), o livro sagrado dos zoroastrianos, proibia a prática e decretava a pena de morte, mas cem anos depois Heródoto contou que os persas haviam adotado a visão grega do assunto.

Porém, uma coisa a conquista sem dúvida conseguiu: forneceu um grande suprimento de jovens escravos. Uma diferença crucial entre o islã e o cristianismo era seu relacionamento com a escravidão. O cristianismo proibia relações sexuais com escravos. Ao contrário dessa religião, que durante seus primeiros três séculos de existência não teve poder político, o islã, desde o começo, teve enorme sucesso militar, conquistando nação após nação. Nessa atmosfera triunfal, poucos moralistas estavam preparados para desafiar as prerrogativas do vencedor, que incluíam o direito sexual às mulheres, casadas ou solteiras, que pertencessem a homens derrotados em batalha. Para esses governantes todo-poderosos, na crista da onda de boa sorte, deve ter parecido muito razoável que jovens cativos do sexo masculino que não fossem muçulmanos também fossem vistos como parceiros sexuais legítimos. Algumas autoridades parecem ter aprovado tais relações.

O paralelo com Roma é claro. Mas essa não é a história completa, pois, apesar de inúmeros casos de amor com escravos do sexo masculino terem sido registrados e a poesia sobre esse tema ser abundante, notamos que nos círculos de Ibn Daud e Ibn Hazm, e nas cortes reais, os homens se apaixonavam várias vezes por amigos, conhecidos e às vezes estranhos do mesmo nível. Aqui, temos um padrão semelhante ao dos antigos gregos. A ênfase em tais casos de amor, contudo, não está na relação mentor-pupilo, como em Esparta e Atenas, mas na experiência emocional por si só, que era permitida sob o pretexto de um platonismo semirreligioso.

Acima de tudo, foi a hadith do mártir amoroso que conferiu e exaltou o status do amor no islã, fornecendo sanção religiosa a um romantismo extravagante que, mais tarde, cruzou os Pirineus e abriu caminho pela Provença medieval. O mais impressionante, do ponto de vista cristão, era que essa glorificação do amor não dependia do gênero. Vinculada a uma castidade teoricamente perfeita, podia escapar à condenação moral. Na literatura mística sufi, a poesia arrebatadora dirigida aos amantes do sexo masculino podia até simbolizar a união com o divino. Então, a religião muçulmana paradoxalmente proibia, permitia e exaltava o desejo homoerótico. Na esfera legal, apresentava semelhanças impressionantes com o judaísmo e o cristianismo, mas estimulava uma atmosfera literária, social e afetiva radicalmente diferente, e muito mais tolerante. O contato sexual era proibido, mas o homem que admitisse o amor por outro homem ainda poderia ser respeitado e admirado. Ele não era, na cultura islâmica, um monstro imoral, um traidor do criador ou um pária que poderia expor uma nação à destruição nas mãos de uma divindade furiosa.

[1] Saki: transliteração da palavra persa para copeiro ou servidor de vinho.
[2] Zajal é uma forma tradicional de poesia declamada num dos vários dialetos árabes, semi-improvisada e semicantada.
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