“Nós sempre lutamos”: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”

“As histórias nos dizem quem somos. Do que somos capazes. Quando saímos em busca de histórias, creio que estamos, de muitas formas, procurando por nós mesmos, tentando encontrar uma compreensão da nossa vida e das pessoas à nossa volta. As histórias e a linguagem nos dizem o que é importante.”
Kameron Hurley

Em 2013, a escritora Kameron Hurley publicou o ensaio “We Have Always Fought”: Challenging the “Women, Cattle and Slaves” Narrative no site A Dribble of Ink, de Aidan Moher. No ano seguinte, o texto levou o Prêmio Hugo na categoria Best Related Work, e a autora venceu na categoria Best Fan Writer.

Um tempo depois, eu a abordei perguntando se poderia traduzir o texto para o português de forma que chegasse a mais leitores. Ela disse sim.

 
Demorou, mas eis a tradução!
 

Recomendo a leitura para todo mundo que escreve e/ou consome ficção. Todos os links do texto foram escolhidos pela própria autora, exceto os que explicam ANC, Shaka Zulu e James Tiptree Jr., que achei por bem fornecer aos leitores brasileiros. Fiz com carinho, torço para que gostem!

 

Nós sempre lutamos: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”

por Kameron Hurley em 20/5/2013 
@kameronhurley

traduzido por Camila Fernandes em 27/1/2016

Vou lhe contar uma história sobre lhamas. Será como todas as outras histórias que você já ouviu sobre lhamas: o modo como elas são cobertas por escamas finas; como devoram os próprios filhotes se não forem criadas do jeito certo; e como, no fim da vida, se jogam de um penhasco, como lemingues, para se afogarem no mar bravio. No fundo, elas são criaturas marinhas, nascidas do mar, vinculadas a ele tal qual o pescador que dele tira seu sustento.

Toda história que você ouve sobre lhamas é a mesma. Você a vê nos livros: o pobre e desgraçado do bebê lhama mastigado pelo pai glutão. Na TV: a gigantesca onda de lhamas escamosas caindo majestosamente no mar. Nos filmes: lhamas duronas fumando cigarro e pintando as escamas com camuflagem de selva.

Por ter visto essa história tantas vezes, por já conhecer a natureza e a história das lhamas, às vezes, é claro, é chocante para você ver uma lhama fora desses espaços midiáticos. As lhamas que você vê não têm escamas. Então, você duvida do que vê e faz piadas com seus amigos sobre “aquelas lhamas escamosas”, e eles riem e dizem: “É, as lhamas são mesmo escamosas!”, e você esquece a experiência real.

Então, você esquece as lhamas que não se encaixam na narrativa vista nos filmes, nos livros, na TV — aquelas sobre as quais você ouviu nas histórias.

O que você lembra é a lhama que viu com sarna, o que depois de um tempo meio que pareceu escamas, e aquela outra lhama que foi meio agressiva com um bebê lhama, como se fosse comê-lo, quem sabe. Então, você esquece as lhamas que não se encaixam na narrativa vista nos filmes, nos livros, na TV — aquelas sobre as quais você ouviu nas histórias — e lembra aquelas que exibiam o comportamento do qual falavam as histórias. De repente, todas as lhamas de que se lembra se encaixam na narrativa que você vê e ouve a cada dia de todos à sua volta. Você faz piadas sobre isso com os amigos. Sente que ganhou alguma coisa. Você não é doido. Pensa exatamente como as outras pessoas.

Então, chegou o dia em que você começou a escrever sobre suas próprias lhamas. Sem surpresa, não decidiu escrever sobre as lhamas mansas, felpudas e nada canibais que conheceu, pois sabia que ninguém as acharia “realistas”. Pegou as lhamas das histórias. Criou lhamas canibais com desejo de matar e escamas manchadas de tinta.

É mais fácil contar as mesmas histórias que os outros contam. Não há nenhuma vergonha nisso.

Só que é coisa de preguiçoso, ou seja, a pior coisa que um escritor de ficção especulativa pode ser.

Ah, e, além disso, não é verdade.

***

Sou apaixonada pela verdade: a verdade é uma coisa que acontece quer a gente veja ou não, acredite ou não, escreva ou não sobre ela. A verdade simplesmente é.

Como alguém com um conhecimento mais que passável de História (todas as coisas que vieram antes de mim), sou apaixonada pela verdade: a verdade é uma coisa que acontece quer a gente veja ou não, acredite ou não, escreva ou não sobre ela. A verdade simplesmente é. Podemos chamá-la por outro nome, ou fingir que não aconteceu, mas suas repercussões vivem conosco, quer escolhamos ou não lembrá-la e admiti-la.

Quando sentei com um dos meus professores em Durban, África do Sul, para conversar sobre minha tese de mestrado, ele perguntou por que eu queria escrever sobre as mulheres combatentes da resistência.

“Porque as mulheres compunham mais de vinte por cento da ala militante do ANC!”, respondi de uma vez. “Vinte por cento! Quando descobri, não consegui acreditar. E você sabe, as mulheres nunca fizeram parte das forças combatentes…”

Ele me interrompeu, dizendo:

“As mulheres sempre lutaram.”

“Quê?”

“As mulheres sempre lutaram”, repetiu ele. “Shaka Zulu tinha uma força de combatentes composta só por mulheres. As mulheres foram parte de todos os movimentos de resistência. Vestiram-se como homens e foram para a guerra, para o mar, e participaram ativamente das lutas desde que o mundo é mundo.”

Eu não tinha ideia do que responder. Tinha sido educada no sistema escolar norte-americano com uma dieta regular de teoria sobre os Grandes Homens da História. A História está cheia de Grandes Homens. Tive que fazer cursos separados de História das Mulheres só para aprender sobre o que elas estavam fazendo enquanto os homens se matavam. Entendi que muitas delas estavam governando países e descobrindo métodos mais eficazes de controle da natalidade que tiveram amplas consequências na criação de estados específicos, especialmente a Grécia e Roma.

Metade do mundo é feito de mulheres, mas é raro ouvir uma narrativa que não fale delas como as pessoas às quais se faz alguma coisa, em vez das pessoas que fazem as coisas. O mais frequente é que a mulher seja retratada como a filha ou a esposa de um homem.

Eu tinha acabado de ver um reality show sobre pilotos de ultraleve no Alaska, no qual todos os participantes faziam pequenas apresentações falando da família e de suas paixões, mas a única piloto feminina dizia uma frase só, aparecendo como “namorada do Piloto X”. Só na segunda temporada, quando eles terminaram o namoro, ela ganhou sua própria apresentação. Aí soubemos que ela estava no Alaska havia quatro vezes mais tempo do que todos os outros pilotos, e caçava, pescava e escalava paredões de gelo, além de ser um ás da aviação.

Mas era a narrativa da “lhama canibal”, e nós nos distraímos, deixando de ver essa mulher como qualquer outra coisa.

***

A linguagem é uma coisa poderosa, que muda a forma como vemos a nós mesmos, e às outras pessoas, de maneiras deliciosas e horripilantes. Qualquer um que saiba alguma coisa sobre o exército, ou que preste atenção à forma como a mídia fala da guerra, provavelmente já notou isso.

Nós não matamos “pessoas”. Matamos “alvos”. (Ou japs ou gooks ou ragheads [termos pejorativos usados, respectivamente, para japoneses, coreanos e pessoas de qualquer grupo social que tradicionalmente use turbante].) Não matamos “meninos de quinze anos”, mas “combatentes inimigos” (sim, cada menino de quinze anos ou mais morto num ataque de drone agora é automaticamente registrado como combatente inimigo. Não menino. Não criança.).

E, quando falamos de “pessoas”, não queremos dizer “homens e mulheres”. Queremos dizer “pessoas e pessoas do sexo feminino”. Falamos de “escritores americanos” e “mulheres escritoras americanas”. Falamos de “programadores adolescentes” e “meninas programadoras adolescentes”.

E, quando falamos de guerra, falamos de soldados e mulheres soldados.

Por ser esse o nosso jeito de falar, quando falamos de história e usamos a palavra “soldado”, ela imediatamente apaga as mulheres da luta. Por isso, não admira que o pessoal que escavou os túmulos vikings não tenha se dado ao trabalho de verificar se os túmulos escavados eram de homens ou mulheres. Eram túmulos com espadas dentro. As espadas são para os soldados. Os soldados são homens.

Eles levaram anos para pensar em ao menos analisar os ossos, em vez de dizer: “Se tem espada, é um cara!”, e perceber o erro.

Vamos explicar assim: se você acha que tem alguma coisa — qualquer coisa — que as mulheres não tenham feito no passado, está errado.

As mulheres lutaram também.

Na verdade, elas fizeram todo tipo de coisas que achamos que não. Na Idade Média, foram médicas e xerifes. Na Grécia, eras foram… ah, que se dane. Escuta. Para quem quiser “provas”, a Foz Meadows faz um trabalho melhor com todos estes links legais. Vamos explicar assim: se você acha que tem alguma coisa — qualquer coisa — que as mulheres não tenham feito no passado, está errado. As mulheres, agora e antes, até adotaram o hábito de fazer xixi em pé. E usaram dildos. Então, até mesmo as coisas sobre as quais os caras da zoeira imediatamente levantam a mão e dizem: “É impossível uma mulher fazer isso!”. Bom, elas fizeram. As mulheres intersexuais e transexuais também lutaram e morreram, muitas vezes vistas como homens e esquecidas, nas fileiras da história. E devemos lembrar, quando falamos de mulheres e homens como se esses conceitos fossem imutáveis, categorias de algum modo “históricas”, que sempre houve pessoas que viveram e lutaram transitando entre os gêneros.

Mas nenhuma dessas coisas se encaixa na nossa narrativa. O que queremos é falar da mulher numa qualidade: a qualidade de esposa, mãe, irmã e filha de um homem. Vejo isso o tempo todo na ficção. Vejo nos livros e na TV. Ouço na forma como as pessoas falam.

Todas aquelas lhamas canibais.

Isso torna muito difícil para mim escrever sobre lhamas que não sejam canibais.

***

James Tiptree Jr. tem uma história muito interessante chamada “As mulheres que os homens não veem”. Eu li aos vinte anos e admito que tive dificuldade para entender o que tinha de tão importante. Era essa a história? Mas… essa não era a história! Passamos a narrativa toda presos dentro da cabeça de um homem que faz muito pouca coisa e que está viajando com uma mulher e a filha dela. Assim como o homem, é claro, nós, leitores, não “vemos” essas mulheres. Até a história terminar, não percebemos que elas são, na verdade, as heroínas da trama.

Afinal, essa era a história do homem. Era a narrativa dele. Foi da história dele que fizemos parte. As mulheres eram só objetos no cenário, personagens não jogáveis na paisagem limitada do homem.

Nós não as vimos.

***

Quando tinha dezesseis anos, escrevi uma dissertação sobre por que as mulheres do exército americano deveriam continuar sendo impedidas de participar de combates. Encontrei esse texto há pouco tempo enquanto mexia em velhos documentos. Meu argumento defendendo a ideia de que as mulheres não deveriam travar combate era que a guerra é terrível, e as famílias, importantes, e, com todos aqueles homens morrendo na guerra, por que as mulheres deveriam morrer também?

Era esse o meu argumento, pronto.

“As mulheres não deveriam ir para a guerra porque, assim como os homens, elas morreriam.”

Tirei nota A.

***

Muitas vezes digo às pessoas que sou a maior misógina autocrítica que conheço.

Estava escrevendo uma cena noite passada entre uma mulher general e o homem que ela ajudou a colocar no trono. Comecei colocando um pouco de tensão romântica e percebi como essa atitude era preguiçosa. Há outros tipos de tensão.

Fiz uma referência breve à escravidão sexual, que precisei cortar. Quase fiz o homem lançar um insulto sexista à mulher. Rosnei para a tela. Ele queria ajudar a salvar o filho dela… não. O irmão dela? Tá. Ela pretendia traí-lo. Tá. Ele tinha umas esposas que haviam morrido… argh. Não. Conselheiras? Amigas? Talvez alguém simplesmente o tivesse… abandonado?

Mesmo ao escrever sobre sociedades onde há muito pouca violência sexual, ou nenhuma, contra as mulheres, eu me pego escrevendo nos mesmos moldes e motivações gastas. “Bom, esse é um cara malvado, e preciso que uma coisa traumática aconteça com essa heroína, então vou fazer o cara estuprá-la.” Foi isso que fiz na primeira versão do meu primeiro livro, que retrata uma sociedade violenta na qual as mulheres superam os homens em 25 para 1. Pois, claro, é isso que a gente faz.

Há pouco tempo, vi um programa de TV que supostamente era sobre a experiência traumática pela qual uma menina passou, mas essa experiência, na verdade, foi jogada ali só para que dois personagens masculinos pudessem brigar por causa disso e discutir de quem era a culpa pelo que aconteceu com a garota. Foi o mais escandaloso apagamento de uma personagem feminina e de suas experiências que eu vi em muito tempo. Ela estava literalmente na mesma sala que eles enquanto os dois brigavam, revelando vários traços da personalidade deles enquanto ela meio que desaparecia, misturada ao cenário.

Esquecemos sobre que é a história. Nas nossas histórias, na nossa própria vida, apagamos as mulheres poderosas, decididas, inteligentes e aterrorizantes. As mulheres atacam e mutilam e matam e lideram e gerenciam e conquistam e fogem. Nós sabemos. Presenciamos isso todo dia. Vemos isso.

Mas esta é a nossa narrativa: dois homens brigando aos berros numa sala, e uma mulher fungando num cantinho.

***

O problema é que, às vezes, é difícil distinguir o que presenciamos mesmo daquilo que nos disseram que presenciamos, ou que deveríamos ter presenciado.

O que é “realismo”? O que é “verdade”? As pessoas me dizem que a verdade é o que elas presenciaram. Mas o problema é que, às vezes, é difícil distinguir aquilo que presenciamos mesmo daquilo que nos disseram que presenciamos, ou que deveríamos ter presenciado. Somos criaturas sociais e falíveis.

Em situações de desastre, a pessoa mediana pedirá cerca de quatro outras opiniões antes de formar a sua, antes de agir. Pode-se ensinar as pessoas a reagirem rapidamente nesse tipo de situação por meio de treinamento intenso (como no exército), mas, em geral, aproximadamente 70% dos seres humanos gostam de seguir com sua rotina diária. Gostamos da nossa narrativa. São necessárias evidências esmagadoras e — mais importante ainda — as palavras de muitas, muitas, muitas pessoas à nossa volta para que tomemos uma atitude.

A gente vê isso o tempo todo nas grandes cidades. É por isso que as pessoas se metem em brigas e atacam as outras em calçadas lotadas. É por isso que elas são assassinadas em plena luz do dia, e casas são invadidas mesmo em áreas com muito tráfego de pedestres. Porque a maioria das pessoas simplesmente ignoram as coisas fora do comum. Ou, pior, esperam que alguém, não elas, cuide disso.

Lembro-me de estar no trem em Chicago, num vagão com umas doze pessoas. Do outro lado do vagão, um homem, de repente, caiu do assento. Simplesmente… caiu de cara no corredor. Começou a convulsionar. Havia três pessoas entre mim e ele. Mas ninguém disse nada. Ninguém fez nada.

Eu me levantei.

“Senhor?”, chamei, e fui na direção dele.

Foi aí que todo mundo começou a se mexer. Gritei para alguém nos fundos apertar o botão de emergência, para pedir ao maquinista que chamasse uma ambulância na próxima parada. Depois que me mexi, de repente, havia três ou quatro pessoas comigo, vindo socorrer o homem.

Mas alguém teve que agir primeiro.

Estava de pé num outro trem lotado, outro dia, e vi uma moça parada perto da porta fechar os olhos e derrubar no chão os papéis e a pasta que trazia. Ela estava espremida na multidão, cercada de pessoas, e ninguém disse nada.

O corpo dela começou a ficar frouxo.

“Você está bem?!”, perguntei alto, inclinando-me na direção dela, e aí outras pessoas passaram a olhar, e ela estava caindo, e começou o burburinho, e alguém na frente do vagão gritou que era médico, e alguém cedeu um lugar para ela sentar, e as pessoas agiram, agiram, agiram.

Alguém precisa ser aquele que diz: tem algo errado. Não podemos fingir que não vemos. Porque as pessoas foram assassinadas e assaltadas nas esquinas onde centenas de transeuntes passavam, fingindo que tudo estava normal.

Mas fingir que estava tudo normal não tornou nada normal.

Alguém precisa apontar o dedo. Alguém precisa fazer os outros se mexerem.

Alguém precisa agir.

***

Dei meu primeiro tiro na casa do meu namorado do ensino médio: primeiro, um fuzil, depois, uma escopeta de cano curto. Desde então me tornei bastante boa com uma Glock, ainda sou péssima com um fuzil e tive a oportunidade de disparar uma AK-47, a arma preferida dos exércitos revolucionários de todo o mundo, principalmente nos anos 1980.

Derrubei a socos meu primeiro saco de pancadas de 90 quilos quando tinha 24 anos.

Os socos significaram mais. Qualquer um pode disparar uma arma. Mas agora eu sabia como socar as coisas no meio da cara. Com força.

As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até mesmo nos livros diziam que elas eram anomalias.

Ao crescer, aprendi que as mulheres cumpriam certos tipos de papel e faziam certos tipos de coisas. Não é que eu não tivesse ótimos modelos de comportamento. As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até nos livros diziam que elas eram anomalias. Elas eram lhamas peludinhas e não canibais. Muito raras.

Só que as histórias estavam todas erradas.

Passei dois anos na África do Sul e, depois de voltar aos Estados Unidos, mais uma década pesquisando tudo sobre as mulheres que lutaram. Elas lutaram em todos os exércitos revolucionários, descobri, e estes eram, com frequência, compostos por unidades nas quais as mulheres correspondiam a 20-30%. Mas, quando dizemos “exército revolucionário”, no que pensamos? Que imagem se conjura? Na sua mente, essa unidade inclui três mulheres e sete homens? Seis mulheres e catorze homens?

As mulheres não fizeram só bombas e armas na Segunda Guerra Mundial — elas tomaram armas, dirigiram tanques e pilotaram aviões. A Guerra da Secessão, a Revolução Americana — cite uma guerra e posso mencionar uma ocasião durante esse conflito na qual uma mulher pegou um chapéu, uma arma e foi lutar. E, sim, Shaka Zulu empregava mulheres guerreiras. Mas, quando dizemos “mulheres guerreiras de Shaka Zulu”, que imagem nos surge na mente? Nós pensamos nessas mulheres? Ou elas são aquelas que não vemos? Aquelas que, se fossem incluídas nas nossas histórias, as pessoas diriam que não são “realistas”?

É claro que falamos sobre as mulheres que lutaram ao lado de Shaka Zulu. Quando eu jogo no Google “women who fought for Shaka Zulu”, aprendo tudo sobre seu “harém de 1.200 mulheres”. E sua mãe, claro. E esta frase, muito popular: “mulheres, gado e escravos”. Tudo junto.

É fácil pensar que as mulheres nunca lutaram, nem lideraram, quando nunca somos vistas.

***

De que importa se contarmos as mesmas velhas histórias? Se espalharmos as mesmas velhas mentiras? Se as mulheres lutam, lideram e sustentam metade do céu, de que importam as histórias para a verdade? Não vamos mudar a verdade ao excluir as pessoas das histórias.

Vamos?

As histórias nos dizem quem somos. Do que somos capazes. Quando saímos em busca de histórias, creio que estamos, de muitas formas, procurando por nós mesmos, tentando encontrar uma compreensão da nossa vida e das pessoas à nossa volta. As histórias e a linguagem nos dizem o que é importante.

Se as mulheres são “vadias” e “vagabundas” e “putas”, e se as pessoas que estamos matando são “gooks” e “japs” e “ragheads”, então, não são pessoas de verdade, são? Assim, elas ficam mais fáceis de apagar. Mais fáceis de matar. De desconsiderar. De des-ver.

Mas, no momento em que reimaginamos o mundo como um grupo vibrante de indivíduos com uma variedade de gêneros e sexos complicados e narrativas únicas, apaixonantes, que ainda não foram contadas — isso as torna mais difíceis de ignorar. Não são mais “mulheres, gado e escravos”, mas participantes ativos das suas próprias histórias.

E da nossa.

Pois, quando escolhemos escrever uma história, não é só uma história individual que estamos contando. É a delas. E a sua. E a nossa. Todos existimos juntos. Tudo acontece aqui. É confuso, complexo, muitas vezes trágico e aterrorizante. Mas ignorar metade disso e fingir que só existe um jeito de uma mulher viver ou já ter vivido — isto é, em relação aos homens que a cercam — não é um ato isolado de apagamento, e sim um apagamento político.

Povoar um mundo com homens, com heróis masculinos, pessoas masculinas e seu lote de “mulheres, gado e escravos” é um ato político. Você está fazendo a escolha consciente de apagar metade do mundo.

Como contadores de histórias, podemos fazer escolhas mais interessantes.

Eu posso lhe dizer todo dia que lhamas têm escamas. Posso fazer desenhos. Posso reescrever a história. Porém, sou uma única contadora de histórias, e minhas mentiras não se tornam uma narrativa a não ser que você concorde comigo. A não ser que você escreva exatamente como eu. A não ser que você também aceite minha narrativa preguiçosa e a perpetue.

Você deve ser conivente com esse apagamento para que ele aconteça. Você, eu, todos nós.

Não deixe isso acontecer.

Não tenha preguiça.

As lhamas vão lhe agradecer.

Os seres humanos de verdade, também.


Kameron Hurley é autora de The Mirror Empire e da trilogia premiada God’s War, incluindo os livros God’s War, Infidel e Rapture. Ganhou os prêmios Hugo, Kitschy e Sydney J. Bounds de Melhor Estreante. Também foi finalista dos prêmios Arthur C. Clarke, Nebula, Locus, BFS e BSFA de Melhor Romance. Seus contos foram publicados na revista Lightspeed Magazine, no podcast EscapePod e nas coletâneas Year’s Best SF, The Lowest Heaven e Mammoth Book of SF Stories by Women.

http://kameronhurley.com     @kameronhurley

 

 

 

 

 

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  1. Pingback: Trazendo as mulheres de volta para as histórias – Grifo Negro

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