Morte, luto e episódios depressivos: a normalidade da vida

Hoje faz 5 anos que meu pai morreu. Normalmente, não me lembro da data até que minha mãe comente ou minhas irmãs escrevam sobre isso no Facebook, porque a tristeza bate forte, e eu entendo.

Quando ele morreu, eu estava em meio a um tratamento para distimia/episódios depressivos. Tomava remédio controlado e fazia psicoterapia. O medicamento ganhou até um apelido carinhoso, anagrama do verdadeiro nome: Lina Sartre.

Hoje não ando mais com a Lina, pois, felizmente, meu quadro não era crônico. Mas não terei o menor problema em voltar para ela se o cerco da angústia me encurralar de novo numa existência que tem tudo para ser bela e feliz. De vez em quando a Deprê ainda acena para mim dos cantinhos da vida. Por enquanto, estou firme.

O caso é que, na época, o tratamento, já perto do fim, me ajudou a lidar com a perda. Não me anestesiou, mas me fortaleceu. No funeral, cheguei a consolar pessoas queridas que conheciam meu pai há mais tempo do que eu, e para as quais ele foi uma referência tão grande quanto foi para mim. Experimentei o luto com toda a intensidade de quem ama. Mas, em lugar de afundar na tristeza, pude pairar acima dela.

A ciência e a competência dos profissionais da saúde fizeram isso por mim. Conheci também a sorte de ter um organismo que recebeu muito bem a medicação. Sim, o nome disso é sorte. Poderia ter sofrido o azar de ver minha criatividade anulada e meu tesão pela vida embotado, como sei que acontece a muitos pacientes.

Conto isso sem medo de parecer “fraca” ou “esquisita”. É que aprendi com a vida que doenças mentais são muito mais comuns do que eu imaginava, e algumas das pessoas mais interessantes que conheço sofrem de alguma. E aprendi com a Daniela Veríssimo​ que falar dessa condição é mais que um desabafo: é um ato político. Um ato contra o preconceito que cerca a depressão, a ansiedade e tantas outras condições que a sociedade ainda encara como tabu. Gente normal, que trabalha, ama o que faz, curte a família e toma atitudes coerentes, tem depressão, ansiedade, fobia social, pânico. Não é frescura, nem coisa de artista, nem doença de rico.

Mas espera aí… onde já se viu uma dita filha amorosa não lembrar o dia da morte do próprio pai?

Em minha defesa, mal lembro o aniversário das pessoas que amo. Meu relacionamento com datas se resume a compromissos com os prazos dos clientes e as contas da casa. Mas, meio apreensiva com essa aparente insensibilidade, conversei com maridoffmann:

“Eu nunca lembro o dia da morte dele, nem procuro fotos daquele tempo pra ficar olhando e sentindo saudade. Lembro o aniversário dele, e sinto falta quando leio um livro e penso ‘ah, meu pai teria gostado’ ou assisto a um filme e penso ‘esse eu poderia ver de novo com ele’. É claro que eu queria que meu pai estivesse vivo. Ele deixou um buraco na vida da gente, principalmente na da minha mãe. Penso nele dia e noite, penso até nas brigas que teríamos hoje, depois que me afastei da influência pseudopolítica dele. Mas não penso na morte dele.”

Maridoffmann respondeu:

“Que bom, quer dizer que você pensa na vida dele. Não é insensível. É só o melhor pra você.”

De fato. Porque, se parar para pensar na morte, a tentação do choro será grande; sempre será. E eu simplesmente não quero mais chorar. Haverá momentos na vida em que só restará o choro, em que só ele me transbordará quando eu não puder mais me aguentar.

Mas, até esse dia chegar, farei um esforço para sorrir.

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