Escrever, ser o outro

Dia 1 de novembro, em pleno feriadão, conversei com um amigo, também escritor. O amigo, por acaso, é um homem branco, cissexual e heterossexual de classe média. Tal perfil de autor, segundo a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè (que se pode acessar neste link), tende a escrever sobre personagens que são igualmente homens brancos, cis e héteros de classe média, enquanto

“Sobre outros grupos, imperam os estereótipos. As mulheres brancas aparecem como donas-de-casa; as negras, como empregadas domésticas ou prostitutas; os homens negros, como bandidos. Assim, o campo literário, embora permaneça imune às críticas que outros meios de expressão simbólica costumam receber, reproduz os padrões de exclusão da sociedade brasileira.”

O cenário descrito pela pesquisa, aliás, parece estar mudando, pelo menos no meu círculo de contatos literários. É o que se vê na entrevista tripla feita pelo jornalista Andrio Santos com os escritores Christopher Kastensmidt, Enéias Tavares e Felipe Castilho.

Acontece que meu amigo decidiu fazer justamente isto: escrever sobre personagens diferentes dele. Um dos protagonistas do seu romance em vias de terminar é um jovem negro de origem humilde. E é aí que a insegurança dá as caras.

Faz sentido pensar que todo autor tem alguma insegurança, seja com a qualidade intrínseca da obra, seja com a recepção que espera por parte dos leitores (qualquer dia eu conto as minhas…). Meu amigo vem se preocupando justamente com o fato de ter um perfil diferente da maioria dos personagens com os quais decidiu trabalhar. Suas dúvidas: uma pessoa como ele, privilegiada em diversos pontos, deveria se meter a falar de realidades menos favorecidas? Não seria pior se um livro assim fizesse sucesso, pois o autor poderia sair como pretenso porta-voz (ou rouba-voz…) de um movimento social, coisa que nunca quis? Mais um homem branco sendo ouvido enquanto as minorias continuam sem voz?

Por um lado, é importante fazer a si mesmo essas perguntas. Boa parte das minhas amizades no mundo da escrita é do sexo masculino, cissexual, hétero e branca. Outra parte é do sexo feminino, com as mesmas características. Um grupo bem pequeno é declaradamente bissexual, um grupo menor é homo e outro ainda menor é negro, o que por si só já me dá motivo para pensar. Só tenho uma colega que é pessoa trans, não binária. Outras, conheço de nome, de vista, da web… Percebo, assim, que meu universo social é assombrosamente limitado.

Por outro lado, quando um autor que está em um ponto de vista privilegiado experimenta esse incômodo e fala das questões do mundo em que vive, demonstra empatia, principalmente quando tais questões não o atingem diretamente. E essa empatia é justo aquilo de que ele e seus leitores mais precisam.

Escrever, assim como ler, é, entre outras coisas, um exercício de empatia. Que prazer extrairíamos de uma história se não nos importássemos com os personagens? Se não entendêssemos sua motivação? Se não déssemos a mínima para os conflitos internos e externos que enfrentam, para seu destino? É na pele de nossos personagens preferidos que vivemos momentos marcantes, que nos levam às lágrimas, ao riso e ao encantamento. É deles que, ao final de um grande livro, nós nos tornamos órfãos, viúvos e melhores amigos de luto. Sentimos o que é habitar a pele do outro, mas na segurança do sofá, cama, banco de ônibus.

Ora, se parte da graça é vestir a pele do outro, que graça tem se esse outro for sempre mais do mesmo eu?

É o seguinte, pessoas queridas: somos escritores. “O poeta é um fingidor”, disse Pessoa, e com razão. Isso é verdade também para os autores de prosa. A escrita permite, aliás, exige que a gente vista essas máscaras, habite o corpo e a mente do outro, e tente, mesmo que de uma posição privilegiada, entender onde lhe dói o calo.

De que adiantaria escrevermos só sobre aquilo que conhecemos de perto e em primeira mão? Que graça teria passar toda a minha vida escrevendo sobre uma escritora brasileira, branca e bissexual com um casamento sólido, um problema recorrente de acne e uma vida, em geral, feliz? Eu passaria a eternidade circulando em torno do umbigo. Não quero isso para mim, nem como leitora, nem como autora. 

Vestir a pele do outro exige que a gente enxergue o outro. Antes, durante e depois do processo. Temos que aprender a ser o outro: pobre, gay, lésbica, negra, estrangeira, transexual, deficiente físico. Ou aquela pessoa que exerce uma profissão muito diversa da nossa, ou nasceu numa época diferente.

Sua visão dentro dessa pele nunca vai se equiparar à visão de quem vive essa realidade diária. Mas cabe ao escritor fazer toda a pesquisa necessária para poder, no mínimo, envergar as vestes do outro de forma dignaCabe ler, observar, escutar, sentir e entender.

Só o autor será capaz de avaliar quão profunda deve ser a pesquisa para o que ele tem em mente. Mas não se pode entrar nessa sem um mínimo de informação. Olhe para os lados. Fale com pessoas que pertençam ao mesmo grupo que o seu personagem. (De vez em quando, amigos escritores vêm trocar meio dedo de prosa comigo sobre o que fazer com uma personagem feminina. Acho ótima essa troca. Tento entendê-los também.)

Não tem com quem falar? Não é de conversar muito? Felizmente, a internet é sua aliada. Graças ao Google, ao Youtube, ao Facebook, ao Twitter e outras maravilhosas ferramentas online, você pode acompanhar blogueiras feministas, escritoras negras, artistas da periferia, grupos de combate ao racismo e à homofobia, acessar relatos pessoais, entrevistas, artigos acadêmicos, documentários históricos… Fonte não falta.

Com tudo isso, tenha certeza de duas coisas.

A primeira: sua pesquisa jamais estará completa. Nunquinha. Novos conteúdos serão produzidos a todo instante, será impossível acompanhar tudo. Então, tente se munir de informações, mas defina um limite para sua estadia no labirinto que da pesquisa.

A segunda: você vai receber críticas. Algumas serão certeiras, partindo de pessoas que entendem mais de determinado assunto que você. Outras serão pura avacalhação. Não se blinde. Ao contrário, aprenda a filtrá-las e aprender com elas.

Muito por acaso, no mesmo final de semana em que tive essa conversa com meu amigo, fui à Santos Comic Expo 2015 e assisti ao painel A visão criativa das mulheres nos quadrinhos, com as quadrinistas Ana Jaber, Camila Torrano, Cristina Eiko e Germana Viana, e mediação da jornalista Gabriela Franco. Entre outras coisas, o painel tocou nesse assunto. Como criar histórias nas quais os personagens são totalmente diferentes de você? Como ser branco e escrever o negro? Como ser homem e escrever a mulher? Como ser privilegiado e escrever o destituído? Pode?

A resposta, quase um uníssono de opiniões, foi: pode, sim, mas prepare-se para a tarefa com ampla dose de empatia e pesquisa. E, principalmente, receba bem as críticas feitas pelas pessoas que vivem uma vida muito próxima da que você descreve. Cabe a você extrair o melhor delas.

Aqui chegamos à terceira certeza. (Ué, Mila, não eram duas? Sou ruim de conta, gente, relevem.) Você vai errar. Vai errar e pensar “da próxima, faço melhor”. Criar é um aprendizado constante, entre acertos e mancadas. Você pode não acertar tudo de primeira, mas faça o melhor que pode hoje, com o que tem, e com a melhor das intenções. Pode não explorar todas as milhares de condições que existem, aliás, não conseguirá mesmo. Mas o simples fato de considerar a realidade de outrem já é uma coisa pela qual eu, pessoalmente, lhe agradeço. Grande chance de eu querer ler o seu livro.

Um último recado: lésbica, gay, negro, trans, pobre, deficiente, etc. Essas são características reais, de pessoas reais, do mundo real. Por que deveriam ser excluídas da ficção? Existe alguma razão para que seus personagens sejam um só tipo de pessoa, e sempre o mesmo?  Viver (e ler, e escrever) como se essas pessoas habitassem um planeta diferente do seu é pura e simples alienação.

Mas, Mila, eu sou um homem branco cis-heterossexual de classe média e não quero escrever essa literatura politicamente correta aí que vocês ficam falando, não. Colega… se você leu o texto até aqui, sinto muito: algum interesse no tema você tem. Prefiro pensar que é uma saudável curiosidade, o começo de uma consciência mais ampla. Se quer continuar orbitando o próprio umbigo, o problema é seu. 🙂

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Um comentário sobre “Escrever, ser o outro

  1. Oi Mila!
    Então, não sei se foi você mesma que postou algo a respeito ou se li em algum outro lugar, mas estava vendo algumas coisas sobre essa discussão, não sei se partiu de alguma “denúncia” ou foi uma discussão generalizada que escritores não “poderiam” falar sobre o que não “vivem”, no caso era sobre uma escritora branca que falava de um personagem negro de condições e experiências diferentes da dela. Acho isso tão triste, porque o tal “politicamente correto” deixou as pessoas chatas de ambos os lados, por exemplo, poderia falar que é politicamente eu falar apenas do que eu sei – para não ofender ou deturpar a condição alheia – e o outro lado que é o poder falar sobre o que eu quiser e expressar meu direito à escrita e liberdade artística. De verdade, as pessoas precisam parar de analisar tanto e se entregarem um pouco mais às diferenças, à fantasia … onde ficamos tão chatos? Enfim, posso ter viajado um pouco no tema, mas seu texto está ótimo, como sempre =) e espero que escritores como você e todos os outros ainda se deixem levar pela fantasia e vivam muito outras experiências, para que a gente possa viajar com vocês também! Beijão =*

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