Resenha: O Centésimo em Roma, de Max Mallmann

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O Centésimo em Roma. Max Mallmann, Editora Rocco, 424 páginas, 2010.

Li quatro livros do Max Mallmann: Síndrome de Quimera, Zigurate — Uma fábula babélica, O Centésimo em Roma e As Mil Mortes de César, todos ótimos, cada um a seu modo. Centésimo estava na minha fila de leitura desde 2011, quando o comprei no Fantasticon. Como fila de leitura é que nem capim — se você não aparar, vira matagal —, só este ano consegui pegar o livro!

Trata-se de uma boa e velha trama de quem matou?. Mais que isso, é um delicioso mergulho na sociedade romana dos tempos de Nero, imperador de Roma de 54 a 68 a.C.: politicamente turbulenta, bizarra, dominada por uma elite cruel e habitada por uma plebe que rala e sonha em subir na vida; por tudo isso, um ambiente muito familiar. Mallmann consegue aliar uma escrita hábil, gostosa, até lírica em alguns pontos, com uma história de ação, mistério e altas doses de bom humor. A pesquisa histórica primorosa divide espaço com os anacronismos, muitos e plenamente propositais, que dão efeito cômico. Eu me senti em Roma, mas me senti também numa grande cidade brasileira dos dias de hoje, e tudo indica que a intenção do autor era essa mesma.

O protagonista, Publius Desiderius Dolens, é um centurião. Plebeu, inteligente e sem vergonha, tenta fazer a escalada social num mundo corrupto, onde nada se obtém sem troca de favores, adulação, suborno ou ameaça. A cada tentativa, parece afundar mais em cargos de pouco prestígio, funções desagradáveis e ganhos que não pagam nem o estilo de vida que ele busca nem as dívidas que já acumula — além de colocar sua vida em risco. A chance de ascensão surge quando o romano é encarregado de investigar o assassinato de um senador — desde que consiga provas para incriminar a pessoa certa…

A história é contada por Mallmann como a recriação da biografia de um personagem “verídico” narrada pelo senador Quintus Trebellius Nepos, que na juventude teria sido legionário sob o comando de Dolens. Adepto do estoicismo, o rico Nepos recusou a posição de prestígio que sua família e fortuna lhe garantiriam no exército e teimou em servir Roma como simples soldado, subindo de posto apenas por merecimento. Para completar, sofreu um acidente em serviço e tornou-se manco para o resto da vida. Com a trama de mistério, o protagonismo de Dolens e o ponto de vista de Nepos, a dupla é quase uma espécie de Sherlock & Watson da Antiguidade. O relacionamento dos dois é uma mescla curiosa de amizade e antipatia.

A alternância entre a narrativa do próprio Mallmann e o relato de Nepos, cujos estilos são bastante distintos, imprime à obra um ritmo constante e ágil. A combinação de detalhismo histórico, inventividade, crítica social, senso de humor e reviravoltas resulta em um desses livros que a gente não quer largar — e tem um faniquito quando acaba. Para nossa alegria, há uma continuação, As Mil Mortes de César, que li logo a seguir (e também pode ser lido de forma independente). Ouvi dizer que ainda haverá um terceiro livro. Quem sabe um quarto?

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As Mil Mortes de César. Max Mallmann, Editora Rocco, 336 páginas, 2014.

Os coadjuvantes, entre fictícios e históricos, são numerosos e pitorescos, temperando a história com bom humor, um toque de filosofia e muita encrenca. Mas faltam personagens femininas realmente interessantes (vocês não acharam que eu deixaria de falar sobre isso, né?). Embora sejam muitas, e importantes para a trama, sua personalidade é apenas esboçada. Falta-lhes complexidade, vida própria, e sua presença funciona mais como motivação ou contraponto para o protagonista. A exceção é a curandeira Eutrópia, inteligente, estranha e subversiva. Fica aquele engasgo lá no fundo da alma de quem sabe que o autor consegue fazer melhor — coisa que ele já fez em Zigurate, com a fascinante Nin. Os demais méritos do livro me pedem vista grossa, e minha admiração pelo conjunto da obra de Mallmann me dá esperança de que os próximos livros da série me surpreendam nesse aspecto.

Um desses méritos é o próprio Dolens. Movido por paixões mundanas, ele gasta o que tem e o que não tem com comida, bebida e sexo, mas tropeça na própria ética, que invariavelmente estraga seus planos. Tem um senso de justiça próprio, mas não é exatamente bom, nem exatamente mau, o que só contribui para torná-lo verdadeiro. A gente quer bater nele, depois consolar. Depois, bater de novo! Ele se esmera em tudo o que faz, o que lhe angaria fama e favores, mas isso ainda não basta para suprir seu desejo de ascensão — e, mais que o desejo, a necessidade de ascensão, gerada pela origem humilde, pelas bocas a alimentar em casa e pela dívida que só faz crescer. O personagem tem um senso de humor levemente sádico, que o torna divertido, e é assombrado pelo medo de ser igual ao pai lunático, o que o torna profundo.

Mas passei a gostar mesmo dele quando o descobri invejoso. Estranho? Sim e não. É que com frequência os vilões são pintados como invejosos, quando não realmente motivados pela inveja; já os heróis são tentados pelo desejo, pelo ódio, pelo medo e até pela vaidade, mas nunca pela inveja, esse sentimento-mais-baixo-que-tudo, ainda que tão humano.

Bem, Dolens não é herói. Também não é vilão. Gera sentimentos dúbios no leitor, e é isso que faz dele um personagem tão interessante. Ele se ressente não só da aristocracia, por gozar dos luxos que lhe são negados, mas também dos outros plebeus que ascendem à condição que ele almeja. Dolens não é apenas invejoso, mas consciente da própria inveja, e a usa como motor, doa a quem doer. Ele é ótimo e péssimo. O autor foi atrevido nas escolhas. Aplausos!

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