Terry Pratchett e Patrick Rothfuss falam de fantasia

Patrick Rothfuss desenterrou uma entrevista que Terry Pratchett deu em 1995 ao jornal The Onion. Para quem não sabe, Rothfuss é um proeminente escritor de fantasia, autor da série A Crônica do Matador do Rei, cujos primeiros dois volumes, o premiado O Nome do Vento e O Temor do Sábio, foram publicados no Brasil pela Editora Sextante. Já Sir Terry Pratchett, que morreu em março deste ano, é considerado um dos maiores nomes da fantasia de todos os tempos. Foi autor de vasta obra, com destaque para os 40 livros da série Discworld, alguns dos quais foram lançados aqui pela Conrad e pela Bertrand Brasil.

Mas você nem precisa conhecer tais livros para se deliciar com a entrevista com Pratchett que Rothfuss desencavou (e que mudou a vida dele). Traduzi o trecho que mais me interessava e alguns comentários do próprio Rothfuss. Também tomei a liberdade de colocar as datas aproximadas das obras citadas por Pratchett para dar uma noção da sua importância histórica. Minha vontade é mandar essa resposta para todos aqueles que consideram a literatura fantástica como subliteratura.

O: Você é um bom escritor. Tem o dom da linguagem, é hábil na criação de tramas, e parece haver uma imensa atenção aos detalhes nos seus livros. Você é tão bom que poderia escrever qualquer coisa. Por que escrever fantasia?

Pratchett: Eu comi um almoço decente e estou me sentindo muito amável. É por isso que você ainda está vivo. Acho que vai ter que me explicar por que fez essa pergunta.

O: É um gênero muito “de gueto”.

P: Isso é verdade. Não posso falar sobre os EUA, onde apenas vendo bem. Mas no Reino Unido acho que cada livro — creio que fiz vinte da série —, desde o quarto livro, cada um esteve entre os dez maiores best-sellers nacionais, tanto os de capa dura como os paperbacks, e muitas vezes ambos. Doze ou treze estiveram no primeiro lugar. Escrevi seis juvenis, dentre os quais todos, mesmo assim, passaram para a lista de best-sellers adultos. Uma vez, fiquei com um livro na lista dos best-sellers adultos, outro como paperback mais vendido e um terceiro livro na lista de best-sellers juvenis. Agora, diga mais uma vez que esse é um gênero de gueto.

O: Com certeza é considerado como inferior à ficção séria.

P: (Suspiros) Sem sombra de dúvida, a primeira ficção já contada foi uma fantasia. Caras sentados em torno da fogueira — Foi você que escreveu a resenha? É, acho que reconheci —, caras sentados ao redor da fogueira contando uns aos outros histórias sobre os deuses que criaram o relâmpago, e coisas assim. Eles não contavam histórias literárias. Não se queixavam das dificuldades da menopausa masculina enquanto trabalhavam como professores assistentes em algum campus do Meio-Oeste. A fantasia é, sem sombra de dúvida, a literatura primordial, a fonte da qual saiu toda a literatura. Até algumas centenas de anos atrás, ninguém teria discordado disso, porque a maioria das histórias era, de certa forma, fantasia. Na Idade Média, ninguém pensaria duas vezes antes de usar a Morte como um personagem com um papel a desempenhar na história. Ecos disso podem ser vistos em O Peregrino (1678), por exemplo, que remete a um tipo muito anterior de narrativa. A Epopeia de Gilgamesh (séc. VII a.C.) é uma das primeiras obras de literatura, e, pela norma que se aplica agora — um cara grande e musculoso com espadas e certas ligações com os deuses —, isso é fantasia. A literatura nacional da Finlândia, a Kalevala (1835). Beowulf (dos séculos VIII a XI), na Inglaterra. Eu não sei pronunciar Bahaghvad-Gita (Bhagavad Gita, séc. IV a.C.), mas a indiana, você sabe o que quero dizer. A literatura de uma nação, que é o alicerce de todo o resto, é, pelos padrões que aplicamos agora, uma obra de fantasia.

Agora, não sei o que você consideraria como a literatura nacional da América, mas, se as palavras Moby Dick (1851) estão prestes a entrar nesta conversa, não importa o que mais seja, essa também é uma obra de fantasia. Fantasia é uma espécie de plasma no qual outras coisas podem ser realizadas. Não acho que seja um gueto. Isto é, a fantasia é quase um mar no qual outros gêneros podem nadar. Agora, pode ser que nos últimos duzentos anos tenha se desenvolvido um subconjunto da fantasia que apenas usa uma iconografia diferente, e esta é, se você preferir, a literatura séria, candidata ao Booker Prize. A fantasia pode ser literatura séria. Ela é literatura séria muitas vezes. Você tem que pensar de um jeito muito fechado para achar que As Viagens de Gulliver (1726) é só uma história sobre um cara que se diverte pra caramba entre pessoas grandes e pessoas pequenas e cavalos e coisas assim. Esse livro é sobre outra coisa. A fantasia pode carregar um fardo muito sério, assim como o humor. Então, o que você está dizendo é que é só tirar os trolls e anões e coisas assim e colocar todos em roupas modernas, fazê-los a agonizar um pouco, mencionar Virginia Woolf algumas vezes e pronto! Ei, eu tenho um romance sério. Mas na verdade você não tem que fazer isso.

Se você, jovem pessoa que escreve fantasia, sente que seu trabalho é discriminado nos dias de hoje, vale a pena ler também os comentários de Rothfuss sobre o impacto que as palavras de Pratchett tiveram nele, e sobre como era ser um autor do gênero 20 anos atrás. Deixe-se inspirar:

Eu não vou ser clichê e dizer que [essa entrevista] mudou minha vida.

Quer saber? Vou, sim. Vou dizer. Mudou minha vida.

Lembre-se do ano em que isso aconteceu. Foi em 1995. Antes de Harry Potter ser escrito. Antes de Neil Gaiman escrever Neverwhere.

A Pixar acabava de lançar seu primeiro filme. Não havia Matrix. Não havia O Sexto Sentido. Nenhum filme de O Senhor dos Anéis. O Labirinto do Fauno e Hellboy estavam a uma década de distância.

Não havia Game of Thrones na HBO. Diabo, não havia sequer Legend of the Seeker. Buffy the Vampire Slayer só estrearia dali a dois anos, e demoraria muito mais anos até ser reconhecida como uma série brilhante, em vez de uma besteirinha com vampiros.

Eu estava escrevendo meu romance de fantasia havia uns dois anos e, embora adorasse o gênero, sabia que, no fundo, era algo de que eu deveria me envergonhar. Romances de fantasia eram os livros que eu lia quando criança, e as pessoas pegavam no meu pé por isso. Não havia aulas sobre o assunto nas universidades. Eu sabia no fundo do meu ser que não importava o quanto eu adorasse fantasia, era tudo uma grande bobagem.

Mesmo nos dias de hoje, as pessoas desprezam esse gênero. Acham que é coisa de criança. Rejeitam-no como algo inútil. Dizem que não é literatura de verdade. Dizem isso AINDA HOJE, apesar do fato de que Game of Thrones e O Hobbit e Os Vingadores e Harry Potter são maiores do que os Beatles.

Isso é AGORA. Se você ainda não tinha nascido naquela época, não poderá nem começar a entender como era muito pior. Quando eu contava que estava trabalhando num livro de fantasia, um monte de gente nem sequer sabia do que eu estava falando.

Eu dizia: “Estou escrevendo um romance de fantasia” e as pessoas olhavam para mim confusas, com sincera preocupação no olhar, e perguntavam: “Por quê?”.

Daí eu li esse artigo, e ele me encheu de esperança. De orgulho.

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4 comentários sobre “Terry Pratchett e Patrick Rothfuss falam de fantasia

  1. Obrigado pela tradução. Meu tradutor está desligado enquanto estiver ensinando matemática para o concurso da mais nova … Afinal, essa parte do meu cérebro não é muiti processada…

  2. Republicou isso em serorie comentado:
    A linda da Camila Fernandes nos fez a todos o grande favor de traduzir parte de uma belíssima entrevista dada pelo Terry Pratchett, e eu me sinto no dever de republicar e dividir mais um pouquinho com o mundo.
    Eu escrevo fantasia. Minha mente revolve em fantasia – urbana e de terror, algumas um pouco psicológicas; mas tudo é fantasia – e não há nada que me complete mais que isso. Meus livros favoritos são deste gênero. Meu sonho, a Musa e a minha diligência permitindo, é um dia publicar um romance de fantasia. E Terry Pratchett é meu pastor – junto com vários outros. Sim, nós somos Legião.

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