Uma história do meu pai

No último domingo, 14 de julho, minha mãe me presenteou com uma história do meu pai. Contou-a como se não fosse nada. Para mim, teve a conotação mágica do reencontro com as coisas há muito perdidas, quando já abrimos mão de encontrá-las — muito embora eu não soubesse que a coisa em questão sequer existia.

Disse minha mãe:

— Eu queria doar uns livros do seu pai, mas sua irmã não deixou. Estão aí juntando poeira. Mas tem um aqui que eu até concordo que não se deve dar. Ele escreveu umas coisas na primeira página.

Meu pai sempre foi um grande leitor, principalmente de ficção científica e aventuras históricas. O tal livro se encaixava na última categoria. Era “O Renegado”, do finlandês Mika Waltari, de quem só li até hoje “O Egípcio”.

Peço que façam vista grossa à má qualidade das fotografias e concentrem o olhar na bela edição de capa dura cor de mostarda, que na frente traz apenas uma vinheta, legando autor e título à lombada. Saiu no Brasil pela Editora Mérito S.A. em 1954, com tradução de José Geraldo Vieira.

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A capa.

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A lombada.

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A folha de rosto.

O recado.

Transcrevo aqui a mensagem do seu último leitor:

“Este livro foi adquirido em um sebo na cidade de Botucatu/SP, no mês de maio de 2008, por um preço baixo, porque o conteúdo do mesmo é bastante interessante; trata-se de ficção histórica ambientada nos primeiros séculos do domínio otomano sobre os árabes, gregos, búlgaros, etc., e a investida contra o Império Teutônico; narra o cerco da cidade de Viena (Áustria), onde os exércitos do sultão Suleimã foram contidos e cuja expansão parou nessas fronteiras.

Ollie

2008”

A não ser por esse uso de “o mesmo”, digo que meu pai escrevia muito bem. Isso era de se esperar de alguém que passou mais de 50 anos lendo livros.

Na contracapa ele fez uma lista de países — os lugares onde se passa a história ou um código que nunca vou decifrar?

“França, Espanha, Alemanha, Suécia, Suíça, Portugal, Romênia, Grécia, Turquia, Rumânia (Romênia), Croácia, Áustria.”

Eu teria ficado feliz em tirar sarro de “o mesmo” — aquele cuja presença devemos observar no hall de todo elevador. Era algo que meu pai e eu fazíamos: nunca deixar passar os deslizes um do outro. Infelizmente, ele morreu em 2010, aos 62 anos, e essa sinopse é o mais próximo que deixou de uma carta.

Pode parecer extremamente impessoal, considerando que sua análise do livro limitou-se a “bastante interessante”. O que me chama a atenção, porém, é a assinatura.

“Ollie” era um apelido pelo qual só minhas irmãs e eu chamávamos meu pai.

E eu, que normalmente defendo a doação, venda e escambo de livros usados, que merecem mais as mãos do próximo leitor ávido que a poeira de um armário, devo concordar com minha irmã desta vez.

Esse livro não sai da família nem por decreto.

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2 comentários sobre “Uma história do meu pai

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