Tradução, preparação, atitude

Vim compartilhar um relato positivo do ponto de vista de uma principiante em tradução literária.

Antes de ser tradutora, eu já era preparadora e revisora de textos, principalmente traduzidos do inglês. Ainda presto esse tipo de serviço. Assim, hoje entreguei a preparação com cotejo de uma tradução um tanto problemática e me deparei com uma dúvida: explicar à cliente, tintim por tintim, por que acho que vale a pena chamar a atenção da tradutora/tradutor ou fazer meu serviço bem quieta e deixar que ela tire suas próprias conclusões?

Isso é um dilema para mim porque sou muito cricri como preparadora e revisora (e, sim, esse muito precisa de itálico). Vivo devolvendo revisão com uma notinha do tipo “este livro parece não ter passado por cotejo”. Sabendo dessa minha característica, tento me refrear para não cruzar a linha do bom senso ao interferir no trabalho de outrem. Por isso, ao criticar uma tradução, receio parecer uma sabotadora, como quem diz “bom mesmo é o meu trabalho, o resto é tranqueira”. É uma pena, mas soube da existência de algumas pessoas no ramo que fazem isso e detestaria ser confundida com uma delas. Tradutor é autor, e criticar a obra alheia pode ser um belo jeito de pisar em calos. Nunca se sabe quão sensível é a pessoa por trás do profissional. Na vida, já tive minha cota de mal-entendidos e dispenso encrenca desnecessária.

(Nunca sei, tampouco, quando eu é que verei a qualidade do meu texto ser criticada. Afinal, ao escrever e traduzir, também preciso que outra pessoa revise minhas palavras.)

Então, pensei: se tenho certeza do que estou falando e das minhas razões, não devo recear a reação da cliente. Se estou agindo por motivos profissionais e não pessoais; se eu aceitaria críticas bem fundamentadas em minhas próprias traduções; se meu compromisso é antes de tudo com a qualidade do material que passa por mim, portanto com a cliente e o leitor, então, o melhor é ser franca.

Assim fiz. Escolhi com cuidado o vocabulário. Enfatizei que não questionava nem a qualidade nem a experiência de quem quer que tenha traduzido o texto, pois desconheço quem seja, mas os pontos negativos eram estes e aqueles; e quem sabe um toque relativo a prazo e atenção pudesse proporcionar uma tradução mais limpa no futuro. Em suma, tentei dizer a verdade com jeitinho, mas sem firula, e propor uma solução.

O resultado foi que minha cliente agradeceu pela atenção que dei ao texto. E eu me senti recompensada (além de feliz da vida!) por seguir minha consciência e manter uma relação transparente com quem me contrata.

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