Quem nos representa?

Já faz um tempo que prometi a mim mesma um texto sobre representatividade feminina na cultura pop (livros, games, filmes, seriados, HQs etc.). Até entrevistei diversas mulheres que conheço, para as quais o tema também é caro, a fim de conhecer as personagens pelas quais elas se sentem representadas, se é que sentem. Bom, não vai ser desta vez. Hoje vim só compartilhar algumas impressões bem pessoais sobre o assunto.

É que li este ótimo texto do Lucas Rocha, do Nem um pouco épico, no qual ele traduziu uma pergunta importantíssima proposta pela JessDarb, usuária do GoodReads:

“Uma dúvida genuína para autores de fantasia no mundo: por que vocês conseguem imaginar magos voadores e controle de mentes e criaturas mitológicas e um sistema político completamente original, mas não uma cultura igualitária?”

Em uma cultura igualitária, basicamente, pessoas de todos os sexos, etnias, origens, orientações sexuais etc. teriam as mesmas oportunidades e direitos. Em um cenário que retratasse tal cultura, a história seria protagonizada não só por homens brancos heterossexuais, mas também por mulheres, negros e homossexuais, sem que o fato de serem mulheres, negros ou homossexuais as marginalizasse ou destacasse; o importante sobre esses personagens seria simplesmente o papel que desempenham na trama.

É importante propormos essa pergunta. Como escritores, pelo que decidimos escrever; como leitores, pela forma como escolhemos e avaliamos nossas leituras. Por quê? O Lucas explica:

Fato é que a Alta Fantasia – como diversos outros departamentos não só literários, mas de escala social em geral – ainda é dominada pelos homens brancos heterossexuais que escrevem seus livros sobre homens brancos heterossexuais. O cenário está mudando aos poucos, mas acho que nunca é demais deixar a mensagem de que sim, representatividade importa. Não há nenhum problema em um personagem homossexual ser um protagonista. Não há nenhum problema em uma mulher ser uma protagonista. Não há nenhum problema em imaginar um universo onde as mulheres não precisam se preocupar em sair sozinhas à noite porque podem ser estupradas, ou que existam mais mulheres em postos de poder do que homens. A fantasia não precisa ser um reflexo da nossa sociedade. Escritores têm criatividade o bastante para estruturar universos completamente diferentes, mas ainda pecam em criar estruturas sociais que saiam dos parâmetros da nossa.

Agora comento eu:

No que toca às personagens femininas (esse é o meu foco), deveria haver espaço para todas. Ou seja, haver várias mulheres em uma história, de preferência dispensando personagens-clichê como a donzela indefesa, a femme fatale e a guerreira fodona (que as pessoas confundem com a verdadeira “personagem feminina forte” apenas porque “ela faz tudo que os homens fazem” e “é diferente das meninas frescas”). Ora, personagens como essas podem, sim, existir. Mas precisam ser mais do que um estereótipo fácil, raso, sem vida nem história próprias, mais símbolo que pessoa, que não representa desafio nem para autores nem para leitores, apenas a confirmação de ideias velhas e gastas. Que haja mais de uma mulher importante na trama. Que elas sejam diferentes entre si. E que o mesmo valha para todo personagem negro, branco, hétero, gay. Eles não devem existir apenas em livros para mulheres, livros para gays e lésbicas ou livros para negros. Precisam existir em livros para leitores.
Como leitora, costumo dizer que não preciso desligar o senso crítico para me divertir; quem me conhece das redes sociais sabe que defendo essa ideia com frequência. Posso curtir um livro sem fechar os olhos para suas falhas. Posso admirar uma autora ou autor e ao mesmo tempo reconhecer seus vícios.
Como escritora, também tenho tendências inconscientes a combater. Também tenho um imenso caminho de amadurecimento pela frente, e espero que meu amadurecimento pessoal se reflita no profissional. 
E é nisso que textos sobre representatividade mais ajudam. Eles geram uma discussão interna. Botam a gente para pensar não só no que lê, mas no que escreve.
Em meu livro publicado, Reino das Névoas – contos de fadas para adultos, não há nenhuma mulher guerreira, mas quase todos os contos são protagonizados por mulheres, geralmente garotas mais ou menos normais que precisam se virar usando inteligência e astúcia. (Isso, inclusive, gerou algumas reclamações sobre os personagens masculinos do livro, mas disso a gente fala outra hora.)
Já em um dos meus romances em andamento há, sim, uma moça guerreira. Mas também uma rainha meio esnobe e inteligente que namora outra mulher; uma mãe sábia, porém meio amarga; uma deusa prepotente e solitária; e uma princesa avoada meio hippie, para citar as que aparecem mais.
Nenhuma delas é vilã. Nenhuma delas é heroína.
Todas são gente.
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Um comentário sobre “Quem nos representa?

  1. Preciso comentar a passagem onde você ressalta ” sem que o fato de serem mulheres, negros ou homossexuais as marginalizasse ou destacasse ”. Para muitos, e isso eu venho observando, incluir personagens negros, femininos e homossexuais causa ódio e revolta por eles almejarem o papel do protagonista. Bom, engano o seu. Não o seu, o deles. O protagonista, tendo sido mentalizado por seu autor, poderia ser até uma vaca voadora se assim o fosse de desejo. Não é porque estamos incluindo o real na fantasia que estes recém inclusos tem de tirar algum proveito sobre os demais, ou mesmo roubar-lhes os personagens. Isso é tão absurdo que chega a ser cômico. Mas infelizmente é verdade. Hoje mesmo eu estava discutindo esse tema com alguns amigos, achei muito bem feito a análise que você nos proporciona e incita. Parabéns.

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