Quem (se) ama (se) ampara

Não estranhem o título com cara de livro de autoajuda.

É que hoje decidi ver os comentários de leitores esperando aprovação no blog (que deixei às moscas…) e me deparei com uma mensagem tão sentida, tão sofrida, que precisei responder.

Uma moça comentava este texto, falando de como se sentia feia e de como pensava em fazer uma cirurgia plástica, mas não tinha grana. Falava de como o relacionamento com o companheiro era sofrido porque ele sempre a comparava com uma ex-namorada que era fabulosamente bonita. Que achava que teria uma autoestima muito melhor e seria muito mais feliz se fosse linda. E ela ainda está nessa situação, ou, pelo menos, estava quando me escreveu (eu demorei muito mais do que deveria para ver esse comentário).

Isso me doeu de uma forma que só pode doer em quem já se sentiu uma MERDA por NADA. Por ser simplesmente a pessoa que é.

Respondi com um nó na garganta e lágrimas nos olhos. E trago a resposta para cá porque talvez, quem sabe, tenha alguém aqui sentindo o mesmo que ela. E talvez, quem sabe, isso possa ajudar essa pessoa, nem que seja um tiquinho de nada.

M., veja você como são as coisas. Você me diz que sou linda e não tenho motivo nenhum para me achar feia. Sabe, aposto que muita gente te acha bonita também, mas ainda assim você se sente mal. Muita gente já me disse que eu era bonita e isso não me fez sentir bem, simplesmente porque eu não me curtia. Achava que as pessoas estavam apenas sendo educadas, que elas não diriam na minha cara que eu sou feia porque amigos não fazem essas coisas.

Talvez algumas delas só estivessem sendo legais mesmo. Mas acho que outras estavam sendo 100% honestas. Pois vejo fotos minhas de alguns anos atrás e penso: que menina simpática, sério que eu era assim e me achava pavorosa?

Hoje sou menos bonita… mas sou MUITO mais feliz, porque me curto, me aprecio, cuido de mim como cuido das pessoas que eu amo. Meus amigos não precisam ser fisicamente lindos para que eu os ame. Eles também me amam sem que eu seja perfeita. Então, por que eu deveria ME amar menos só por não me achar linda?

Saiba, M., que muitas meninas e mulheres infinitamente mais lindas do que você e eu se consideram horrorosas, sofrem com encucações, acham que nunca serão tão bonitas quanto X ou Y e que, sendo feias, só podem mesmo ser infelizes.

Você diz que, se fosse linda, sua autoestima seria mais elevada.

Engano seu.

Você poderia ser a (complete a lacuna com o nome de uma mulher que você ache incrivelmente linda) e ainda assim sofrer com a sensação de inadequação, de feiura, de não merecimento. Já viu pessoas viciadas em cirurgia plástica? Isso não melhorou a autoestima delas. Não sou contra cirurgia plástica, só acho que a questão da autoestima vai muito além de um detalhe “errado” no corpo da gente.

M., não é a beleza que cria uma boa autoestima. Ao contrário, uma boa autoestima é que cria a beleza. Há mulheres que estão fora do padrão vigente de beleza e se acham lindas, se sentem lindas, por isso SÃO lindas. Outras pessoas podem até achá-las feias, mas isso não importa, sabe? Porque elas vivem como quem tem direito à felicidade. Sabem que merecem o que há de melhor na vida e que isso não tem nada a ver com ser gorda ou magra, baixa ou alta, loura ou morena, de cabelo crespo ou liso, de queixo grande ou pequeno, de olhos redondos ou puxados. Elas sorriem para si mesmas, tratam a si mesmas com o mesmo carinho que oferecem aos entes queridos.

E, acima de tudo, elas não dão ouvidos a ninguém que diga que elas são “menos”.

Menos bonitas do que a ex-namorada, por exemplo. Quem diz isso a uma mulher não se importa com os sentimentos dela. Quem diz isso enxerga a mulher como uma conquista, não como uma pessoa. Por isso, está sempre pensando naquela que ele poderia exibir para os amigos. Para ele, isso é mais importante do que ter uma companheira e mais importante do que fazer com que a companheira se sinta bem.

M., quem ama não compara, ampara. E a primeira pessoa que precisa te amparar é você mesma.

E sabe o que mais? Essas mulheres que se amam não são melhores do que você. São iguaizinhas a você. Algumas delas receberam desde a infância os estímulos certos para construir uma autoestima sólida. Outras precisaram ralar muito até aprenderem a se aceitar e se amar tanto quanto elas queriam que os outros as aceitassem e amassem. Até o ponto em que a aceitação e o amor dos outros não importasse muito, porque elas já haviam conquistado o principal: amor próprio.

Escrevo isso para você chorando, M., porque me vejo em você. Sou uma dessas mulheres que levaram muito tempo para gostarem de si mesmas. Mas eu consegui. E não consegui sozinha. Tive companheiro, família, amigas e terapia para me ajudar. Hoje eu não me acho bonita, sabe? O que eu me acho é digna. A beleza ficou em segundo plano quando reconheci as coisas que realmente importavam, e que a beleza nunca conquistaria para mim, mas eu conquistei sem ela. Eu não sou bonita. Sou livre. Menos do que amanhã, mas mais do que ontem. Libertar-se é um trabalho diário.

Não sei se tudo o que serve para mim servirá para você. Só posso esperar que sim e te deixar com 4 sugestões de coração:

1. Afaste-se de quem lhe faz mal.

2. Cerque-se de quem lhe faz bem.

3. Trate a si mesma como gostaria que os outros a tratassem: se abrace, se aprecie, se ame, e não exija de si mesma algo que você nunca exigiria dos outros: perfeição.

4. Procure uma boa psicoterapeuta. Provavelmente custará menos do que uma cirurgia plástica e fará um bem infinitamente maior a você!

Torço por você, de verdade.

Beijos.

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5 comentários sobre “Quem (se) ama (se) ampara

  1. camila, que fantástico! sou daquele time do “nada é por acaso”, e esse assunto em especial gritou na minha mente nestas duas últimas semanas, meu eu cobrando respostas: “e aí? vai me amar ou não? vai ficar nessa bad eterna ou vai me deixar conquistar coisas e pessoas e lugares?”… eu sempre fugindo da resposta, é claro.
    suas palavras me fizeram pensar num outro aspecto: não vou me agradar em tudo, vou buscar e valorizar aquilo que me faz bem! adorei, adorei e adorei. beijos!

  2. “Isso me doeu de uma forma que só pode doer em quem já se sentiu uma MERDA por NADA. Por ser simplesmente a pessoa que é.”

    Tudo na vida tem um preço. Mas num mundo de valores invertidos como o nosso, nada parece custar mais caro do que “ser simplesmente a pessoa que é”. Pessoas infelizes e equivocadas em suas crenças passam muito tempo de suas vidas apontando o dedo na nossa cara pra dizer “você é inadequado”, “você não serve”. Como se fosse possível alguém “não dever existir”, tal qual uma peça com defeito que jamais deveria ter sido fabricada. Como se algum ser vivente fosse um erro de Deus e que o Homem (a raça humana) precisasse corrigir. Fazer a pressão psicológica necessária para que essa pessoa se adeque. Espremer essa pessoa numa caixa de fósforos – nem que para isso seja preciso quebrar todos os seus ossos – para que ela caiba naquele padrão estreito e limitado.

    A pergunta que toda pessoa que já passou por isso deveria fazer é: Isso é JUSTO? É o que devemos cobrar e exigir dos outros também? Que sejam mais bonitos, mais ricos, mais magros, mais viajados, mais descolados, mais “qualquer coisa que preencha os quesitos adequados para ser aceito”? Aceito por quem?

    Há muitas coisas que eu gostaria de ter ou ser. Há muitas pessoas que eu gostaria que ainda estivessem na minha vida. Há muitas coisas que eu gostaria que as pessoas que eu amo mudassem em suas vidas. Mas uma das grandes lições da vida é que ela não é uma mãe cega, distribuindo mimos ao bel-prazer de seus filhos birrentos. A vida me dá coisas diversas, algumas boas, outras nem um pouco boas, mas sempre dizendo: Aproveite o que é bom e aprenda com o que não é.

    Daí temos uma escolha importante pra fazer: passar a vida se sentindo uma MERDA por causa de coisas ruins que nos acontecem e pessoas cretinas que nos dizem coisas cretinas OU aprender alguma coisa com tudo isso. Aprender que podemos nos amar e nos aceitar, do jeito que somos, com nossas qualidades e defeitos. Aprender que todo ser humano tem suas limitações, problemas e frustrações e que às vezes usa outras pessoas para descontar tudo isso. Todos nós já fizemos isso pelo menos uma vez na vida.

    Se eu pudesse deixar uma mensagem para a moça citada no post, eu diria o seguinte a ela: Você não tem que ser o que outra pessoa quer para preencher o vazio da alma dela. Você não tem que ser ninguém além de quem você é, e o único compromisso que você tem é com você mesma. Se você quer melhorar algo, melhore sua mente, seus pensamentos, seus conceitos, sua alma. Ame-se e liberte-se. Respeite-se. Se você não se acha bonita, é porque está procurando no lugar errado. Procure num jeito seu de olhar, num movimento que às vezes o seu cabelo faz. Num determinado jeito de sorrir. Num gesto que te agrada, no desenho da parte preferida do seu corpo. Procure sua beleza naquilo que você acha belo, um pensamento seu, uma ideia. Sua beleza mora em tudo aquilo que você ama. Mora na sua capacidade de amar, de respeitar, a si mesma e aos outros. A vida parece mais fácil para as modelos, as belas atrizes, até mesmo para as mulheres-fruta. Mas por trás dos holofotes a conta da vida também chega para ser paga.

    E, desculpe-me, querida, mas seu companheiro é horroroso. Eu nunca o vi, não tenho a mínima ideia de quem ele seja, mas eu SEI que ele é feio. Se ele tiver uma carinha e um corpo bonito, pior ainda, porque não há nada pior do que um belo frasco contendo perfume ruim, pura propaganda enganosa. E isso que ele faz com você é um tipo cruel de tortura psicológica. Abuso moral, que é pior do que abuso físico e também é CRIME.

    Acredite, há uma força e beleza dentro de nós que às vezes fica escondida, sufocada. Mas ela não morre nunca. Procure-a, chame por ela. Afaste-se de tudo que te é prejudicial. Ficar sozinha NUNCA é pior do estar mal acompanhada. Até porque há um mundo imenso lá fora, cheio de coisas e pessoas adoráveis – e um mundo imenso aí dentro de você, onde você pode encontrar sua liberdade e sua tão sonhada beleza. Quando a gente se encontra, o mundo também nos encontra.

    Por isso gosto de envelhecer, ao contrário da maioria das pessoas. Quanto mais os anos passam, mais minha alma ganha aprendizado, mais meu corpo me mostra o quanto ele não vale nada – a minha beleza física um dia será comida pelos vermes ou virará cinzas. Se ela atrai agora algumas pessoas que só se interessam por isso, por beleza física, então essas pessoas estão fadadas a viverem pó na minha vida, porque eu não as quero do meu lado. Se por diversas vezes eu não fui adequada para alguém – amores, familiares, amigos – pelos mais diversos motivos (fúteis ou não), também tenho o direito de escolher quem não é adequado para mim. Gente que me desrespeita não é adequada para mim. Gente que desrespeita covardemente quem quer que seja não é adequada para mim.

    Não te conheço, moça, mas torço por você. Torço para que você encontre aquilo que verdadeiramente possa aquecer o seu coração.

    (Camila, perdão pela mensagem imensa. Apesar do meu pseudônimo, acho que você não vai ter dificuldade de saber quem eu sou, rs.)

    • “Há muitas coisas que eu gostaria de ter ou ser. Há muitas pessoas que eu gostaria que ainda estivessem na minha vida. Há muitas coisas que eu gostaria que as pessoas que eu amo mudassem em suas vidas. Mas uma das grandes lições da vida é que ela não é uma mãe cega, distribuindo mimos ao bel-prazer de seus filhos birrentos. A vida me dá coisas diversas, algumas boas, outras nem um pouco boas, mas sempre dizendo: Aproveite o que é bom e aprenda com o que não é.”

      Caramba… que mensagem linda. Muito obrigada por escrevê-la aqui, porque serve para mim também, e espero que sirva para muitas outras pessoas.
      Eu não sei se a leitora voltará aqui e verá algo disso. Mas torço para que sim.

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