Nós, os arrogantes

Há muitos anos alguém me convenceu de que eu era arrogante.

Não foi uma pessoa só, nem uma vez só. É o tipo de ideia martelada na sua cabeça tantas vezes, de forma sutil, que você não lembra mais quando foi a primeira — nem imagina quando será a última.

Pois bem. Assumi o rótulo. Arrogante com A maiúscula. E saí por aí arrogando de tudo.

Na idade adulta, topei com outras pessoas que — pasme! — eu mesma achei arrogantíssimas. Eram pessoas que defendiam aquilo em que acreditavam e insistiam em não agir como os outros exigiam, mas como lhes era mais natural. Gente que nunca fazia nem dizia nada “só por educação”. Gente que não se calava, que não se omitia, que não se furtava ao conflito. Gente sincera e dona de si.

Exatamente como eu. Achei lindo!

Mas também era gente que, mais do que não fugir ao conflito, buscava o conflito. Mais do que bater o pé, metia os dois pés no peito do outro. Mais do que não fazer só por educação, arrogava-se (olha o gracioso verbinho aqui de novo) o direito de agir sem um nada de educação porque, afinal, tinha sempre razão. Não precisava dessas frescuras.

Exatamente como eu! E essa constatação eu não achei tão linda…

Uma vez, ouvi dizer que o que mais nos incomoda nos outros é aquilo que temos dificuldade de encarar em nós mesmos. Não sei se procede, mas o fato é que isso não me saiu da cabeça. Desde então, sempre que o comportamento do outro me incomoda, eu me pergunto por que me deixo incomodar. Por que estou zangada? Por que aquilo me afeta? Ao menos no caso dos arrogantes está claro que é porque sou uma deles.

Percebi que os arrogantes — como eu — têm o desejo de prevalecer. Que todo aquele que age como dono da razão, na verdade, tem é muito medo de que os outros percebam que ele nem sempre tem razão. Mais que isso: tem medo de perceber a si próprio como alguém que nem sempre tem razão. Nada o deixa mais vulnerável do que reconhecer o próprio erro. O arrogante não sabe escolher suas batalhas. Se há uma guerra, ele está nela, e vai vencer. Prevalecer. Não lhe basta reinar no próprio castelo; precisa reinar no país. Mas não por imposição. A aprovação popular lhe é fundamental. Afinal, alguém precisa lhe dar a razão que, lá no fundo, ele sabe não ter.

Mas, quem sou eu para dizer tudo isso? Sou uma arrogante, ora! Sei o que digo! Esse assunto, pelo menos, conheço bem o suficiente para ter razão quando dele falo.

Ah, a razão! Por que precisamos tê-la sempre? Percebi que estar errada às vezes — e reconhecer isso — é muito saudável para mim. Pois me devolve um poder que muito prezo: o de questionar. A mim mesma e ao resto do mundo. A certeza só serve para engessar. Continuo arrogante. Ainda quero prevalecer. Mas aos tropeços vou aprendendo a calcular quando realmente preciso disso e quando eu faria melhor — para mim e para o outro — em seguir calada. É preciso escolher a briga a dedo. Entender quando prevalecer faz a diferença entre mudar de fato uma situação e quando é apenas questão de ego. Por que é importante ter razão? Sua razão reconhecida pelo mundo vai mudar uma realidade? Ou vai apenas lhe dar o prazer efêmero do aplauso?

Eu me pergunto isso diariamente. E quando obtenho a resposta posso bater em retirada sem nenhum gostinho de sapo na boca. E vocês? 

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3 comentários sobre “Nós, os arrogantes

  1. ADOREI isso. Sou arrogante desde sempre… E sempre me reconheci assim. Para me manter arrogante eu busco o tempo todo: conhecimento, evolução,embasamento… Se eu fosse uma legítima humilde, certamente eu seria uma legítima idiota (no meu caso, seria assim, sim!).
    E como pensa meu querido inconstante Nietzsche: “humildade é para os fracos”…

    Curti muito o post! Beijo Camila-sumida-reaparecida.

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