A importância das pequenas coisas

Ou: Sobre a morte, para quem fica.

Ontem, uma grande amiga perdeu alguém muito querido. Alguém que partiu de repente, contra todas as expectativas, contra todos os tratamentos.

Isso me fez pensar na minha própria perda, que não ocorreu há nem mesmo um ano completo. Eu me espantei comigo mesma por, nos últimos tempos, ter pensado tão pouco no que perdi, mas sempre, e muito, no que eu tinha – não como algo que se foi da minha vida, mas como algo que ficou em mim.

Para quem não sabe, não estava aqui ou não se lembra, no dia 10 de dezembro de 2010 meu pai faleceu de supetão. Não era cardíaco, mas teve um ataque cardíaco fulminante, e foi-se em questão de segundos. Que sorte a dele; se sofreu, foi rapidamente. Que azar o nosso; sua vida ficou como uma tarefa por terminar com a esposa, as filhas, os animais dos quais cuidava e os muitos amigos e parentes que o admiravam desde sempre.

Para muita gente o consolo é a religião, é um deus, é um conceito de uma vida melhor em outra ocasião ou de céu para os que o merecem. Para mim, não. Meu consolo tem dois nomes: Tempo e Consciência. O Tempo que eu levei para me acostumar à ausência dele, para preencher a lacuna que ele deixou com outras gentes, outros deveres, outras alegrias. E a Consciência que tenho de ter sido a melhor filha que eu poderia ser, ainda que não a melhor filha possível. Essa consciência me exime da culpa que muitos experimentam face à morte de um ente querido, porém negligenciado. Eu nunca o negligenciei, nunca lhe dei menos atenção do que merecia, nunca o visitei menos do que o devido. E fiz tudo isso com o verdadeiro prazer de quem ama a companhia da própria família. Assim, sem nenhuma culpa voejando feito abutre sobre a saudade, o Tempo teve chance de operar.

Perder alguém tão essencial é uma dor indizível. Um pai ou mãe, um irmão ou irmã, um gato. Sim, um gato. Minha amiga perdeu seu gato, o primeiro de muitos, o rei da casa, a criatura que lhe ensinou uma nova forma de amar, de um tipo que raramente aprendemos com seres humanos. E não importa se ele foi humano, felino, canino ou alienígena: esse gato foi mais querido por ela do que muita gente jamais será. Minha amiga perdeu alguém que ela ama não menos do que eu amo meu pai. Ama e amo, no presente: a ausência não impede o amor.

Não sei como descrever algo assim senão como um buraco. Um buraco sem fundo, cavado na alma da gente. Na rotina da qual aquele ser não fará mais parte a não ser como uma lembrança. Nos planos que fizemos, dos quais ele não poderá mais participar. Simplesmente não há palavras. Há apenas o tal Tempo. O duro é que ele cisma em passar muito devagar nessas horas, e cada minuto de ausência é uma tortura.

Aos poucos, nós nos acostumamos a essa falta, a essa dor. E a rotina nos vai forçando a voltar aos eixos, roubando nossa atenção para o trabalho, para o que vamos comer à noite, para o que vamos fazer no final de semana.

Não há remédio melhor para o luto do que a teimosia das pequenas coisas, que insistem em roubar nossa atenção. São elas que nos colocam de volta nos trilhos e nos forçam a continuar a jornada, porque o mundo não cessa de girar por nós.

Chore o que tiver de chorar, amiga, nem uma gota a menos. E fique bem a seu tempo.

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13 comentários sobre “A importância das pequenas coisas

  1. O ano passado passei por uma experiência difícil. Deixei a casa para dar uma palestra em outro estado, deixando para trás duas cadelas companheiras de estrada de mais de década. Despedi-me ao meu modo delas e parti.Cheguei ao destino, revi amizades, fiz outras e passei o dia examinando a situação do local onde a leishmaniose se instalou, tentando entender aquilo. No dia seguinte, menos de 10 minutos antes de começar minha palestra a inquietude lancinante como uma adaga cortando meu peito, fez com que eu ligasse para a Tereza minha esposa. Meu celular não completou a ligação. Ansioso e inquieto, pedi um celular emprestado e insisti na ligação. Tereza atende e pergunta se já havia feito minha palestra, Disse que não e ela informa que a Menina estava e-xa-ta-men-te naquele instante sendo eutanasiada. Desabei, chorei e me controlei. Dei minha palestra e,ao final dela, estava ela lá enchendo a tela com sua pose de suricato, com uma das patas pela metade, pois era trípede. Havia decidido homenageá-la antes mesmo do desenlace que viera a ocorrer. Aí choramos. Eu e a platéia solidária que,como eu, é amante e defensora dos animais.
    Uma hora depois Tereza liga e informa que, no momento em que liguei minha Xuxa a companheira mais antiga de quase 23 anos havia partido também, junto com a Menina. Isto completa um ano o mês que vem. Já consigo falar nisto sem deixar a lágrima correr, mesmo ela insistindo e ficar flutuando nas pálpebras, como se nelas surfasse.
    O luto, para mim, é com aquela carta antiga que a gente costumava escrever com tinta ( não esferográfica). Quando chega, ela está lá firme,clara e totalmente compreensiva ao olhar. E dói muito. Aí o Tempo, esta entidade que ninguém vence, vai esmaecendo as letras no papel, que vai amarelando e as letras sumindo. E tal qual aquela carta antiga, amarela e guardada no fundo da gaveta, de vez em quando precisa ser relida.Chega o dia em que não dói mais.Mas que precisamos reler para lembrar de tudo que aquilo representou em nossa vida, e ao dobrar para guardar novamente, se despedir com um meio sorriso no rosto agradecendo a oportunidade de ter vivido esta sensação…

    Desculpe ocupar tanto espaço Mila, minha amiga maga das letras.

    • Fowler, estou nesse quase-choro contigo, lendo as suas linhas. A única coisa que consigo dizer, nesses casos, é que espero que te console saber que a vida que elas tiveram contigo foi a melhor que poderia ter tido, e que eu gostaria que todo cachorro pudesse ter companheiros humanos como você e a Tereza.

      “E tal qual aquela carta antiga, amarela e guardada no fundo da gaveta, de vez em quando precisa ser relida.”

  2. Também perdi meu pai há pouco mais de um ano. Os contornos das lembranças já estão borrados, fazendo com que eu perca a noção exata do tempo que se passou. Mas o buraco continua lá, oculto por uma camada fina de entulho, esperando apenas um vacilo da minha parte para lembrar-me de sua existência. Viver é assim. A gente acaba por aprender a dançar em volta da borda sem pisar em falso. E descobrimos que é preciso, de quando em quando, sentar à beira do buraco e admirar a escuridão.

    • Paulo, na ocasião em que perdi meu pai, foi estranho notar como uma imensa parte dos meus amigos e colegas veio falar comigo, contando que já não tinha o pai ou, menos comumente, a mãe. Acho que pais morrem mais do que deveriam. Sei que é parte da vida. Mas nunca deixa de revoltar. Especialmente quando a gente assiste ao noticiário e vê certos indivíduos chegando aos 70, 80 anos… Toda vez que ouço falar em aniversário de algum sujeito sacana, comento: “E o meu pai, morto!”
      Não, a gente nunca esquece de verdade. Estamos sempre sentados à beira do buraco.

  3. Incrível texto, como sempre.
    É pra se pensar mesmo….mas como eu estava comentando pelo face, além da dor da perda, muitas pessoas colocam a morte como algo ruim, e isso dificulta tanto as coisas. É um ciclo, que podemos ou não entender, mas ela está ali, no final/começo dele.
    A natureza e o tempo me ensinaram a ver de outra maneira isso tudo. Até o budismo (que, como filosofia/religião, me agrada muito) tem um espécie de “festa fúnebre” interessante e que me acompanhou na morte (recente) de minha última avó. Funciona assim, ao invés daquela cerimonia de velar o corpo, enterrar e chorar, eles acreditam que a pessoa “passou para o próximo estágio” e que portanto, tal fato não deva ser lamentado. Eles fazem então uma festa (sim, festa) em homenagem àquele que morreu, com comida e bebidas que ele gostava, histórias boas e engraçadas e até presentes póstumos.
    Em relação à minha avó, como te comentei, não tínhamos um relação muito próxima, pois somos bem diferentes (como a maioria da minha família…), e ela já estava sofrendo com doenças da idade avançada dela. Foi um alívio, pois ela estava há alguns anos sofrendo, e mais ainda nestas últimas semanas em que esteve internada na UTI.
    Quando eu soube da notícia fiquei triste pela sensação de perda, mas aliviada por ela, pelo sessar da dor física e mental.
    E comecei a me lembrar de pequenos detalhes que eram só dela, que estavam guardados nas minhas lembranças da infância (época em que eu morei com ela). E isso foi muito bom, resgatei seus sorrisos e características pessoais.
    Ela imitava o Bem-te-vi. Ela amava rapadura (como boa baiana). Ela me ensinou a cuidar do jardim, à cozinhar com mto alho e à comer feijão com arroz, farinha, ovo e uma banana.
    Nem vou entrar em questões espirituais em que acredito. Mas sinto que a morte nos traz a revelação de que fazemos parte de um grande jardim, onde sementes são plantadas, crescem e murcham, para então, se transmutarem em algo além da nossa compreensão.

    • Nath, isso é o que chamam, aí pelos interiores deste Brasilzão, de “beber o morto”… honrar a partida dele com uma festa, como se ele tivesse acabado de chegar aonde merece.

      Como você sabe, amiga, eu não acredito num além-vida. Não é algo que eu discuta com ninguém, pois quem crê o faz com a certeza da fé, e quem não crê simplesmente não experimenta dentro de si essa certeza – enfim, eu sempre digo que fé é artigo impessoal e transferível… A morte, quando inesperada, revolta, faz a gente pensar que a vida não é justa nem mesmo quando acaba; mas depois de um tempo vem a serenidade, o conhecimento de que tudo tem o seu tempo. Talvez seja apenas resignação. No meu caso, precisei de tempo para chegar a isso… No seu, o alívio veio de pronto e, olha, acho perfeitamente compreensível que seja assim. Sua avó não merecia sofrer, nem você e seus familiares mereciam presenciar esse sofrimento sem nada poder fazer para amenizá-lo. Assim você pôde partir direto para a parte boa da saudade: as lembranças alegres, os detalhes da convivência, os gestos que pertenciam somente a ela. 🙂

      Vou chover no molhado agora, apenas para registro…

      Sentir uma dor sem possibilidade de melhora não é bom. Assistir a alguém querido experimentando essa dor e nada poder fazer também não é. Antes descansar que sofrer sem remédio…

      Como você sabe, meu pai morreu de uma só vez – estava (ou parecia) saudável, e, de repente, puff!, morreu. Ele morreu como sempre quis. Teria sido a pior dor do mundo, pra ele e pra nós que o amávamos, se ele ficasse debilitado, dependente. Então, se essa fosse a alternativa, a única forma de tê-lo aqui conosco, eu também consideraria sua morte um alívio.

      Estou MUITO feliz que você esteja bem, encarando essa situação não como uma perda para você, mas como uma conquista para sua vóvies… A conquista da liberdade. Nenhum bem-te-vi merece gaiola.

      Quisera que a morte pudesse vir sempre assim, serena – tanto para quem vai como para quem fica.

      Achei belíssima e totalmente apropriada a sua metáfora do jardim.

      🙂

  4. Excelente texto, amiga. Meu pai se foi a cerca de onze anos. E ontem mesmo me lembrei dele, ao concertar o chuveiro. Perguntei a mim mesmo: “como eu sei fazer isso?” E lembrei: “Meu pai me ensinou”. uma ponta de saudade, seguida por um agradecimento. Tempo e Consciência. Ele fez um bom papel.

  5. Perda é sempre perda… não há medida, não há “mais” ou “menos”. Fica só o sentir. Chora-se sempre de saudade, independente de religião ou não religião… a ausência é a mesma. Não há conforto que nos acalente. Pai, mãe, cachorro, amigo, gato, ídolo… a ausência é muito presente – já disse o poeta.

  6. Me emocionei muito ao ler o texto, pq me veio em mente duas perdas. Um gatinho de qdo eu era criança e meu pai que também faleceu qdo eu era criança.
    Lindo texto!
    Beijos

    Aline Loureiro

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