Tchau, pai

Hoje, faz 11 dias que meu pai se foi. Ataque cardíaco fulminante. E ele nem sofria do coração. Ninguém esperava, nem podia esperar.

Sinto uma saudade desgraçada do cara chato e rabugento, mas também generoso, inteligente e íntegro, que me ensinou o valor da honestidade, o prazer da leitura, a curtir rock clássico e História, a gostar de aprender, a ser exigente comigo mesma. Aos poucos, vou preenchendo meus dias com novas prioridades, mas nunca deixarei de sentir sua falta, das muitas conversas que tivemos sobre livros e gente e, principalmente, daquelas que nunca teremos.

Muita gente não tem oportunidade de conhecer o próprio pai. Outras pessoas tiveram de conviver com pais monstruosos. Aqueles privilegiados como eu, que tiveram pais humanos, sempre sabem que vão perdê-los um dia. Que é a vida. Que é um ciclo. Mas a gente nunca está preparado de verdade.

Pai, ao perder você não perdemos apenas alguém amado. Perdemos aquele que era nossa referência em quase tudo. O cara a quem fazíamos todo tipo de pergunta e que quase sempre tinha as respostas. São tantas coisas que eu queria dizer e tão insuficientes as palavras! Nesta hora, me pego sem vocabulário, sem direção, sem guia. Anestesiada. Bestificada. Revoltada. Pois você teve que morrer com apenas 62 anos enquanto muita gente sacana continua viva e bem, ferrando com a vida dos outros.

Para algumas pessoas, é reconfortante acreditar que há algo além, que não existe acaso, que há um sentido, uma razão para tudo, uma lição. Eu respeito isso, pois cada um sabe o que funciona para si, o que o consola, o que o mantém acreditando em dias melhores. Mas essas crenças são pessoais e intransferíveis. Não as rejeito, apenas não as ouço nem no meu coração nem na minha mente. Não vislumbro nenhuma lógica maior, nenhum grande plano oculto, de Deus, do Universo ou de quem quer que seja. É claro que sei muito pouco do universo e posso perfeitamente estar errada, como qualquer outro ser humano. Mas não posso pensar, sentir ou viver de acordo com um conceito que não tem sentido algum para mim. Seria auto-enganação.

Por isso, peço aos amigos, encarecidamente: não me falem em Deus. Não me digam que ele me dará forças. Não me digam que ele escreve certo por linhas tortas. Pois não pode haver nada de “certo” em meu pai ter de partir tão cedo. Um grande esquema divino mirabolante que não nos é revelado mas do qual temos que participar na marra e engolir todas as injustiças porque no fundo há um significado maior e um Deus/Universo/Força Maior/Natureza sabe o que faz? Desculpem, mas isso não cola. Muito menos consola. Não é lógico, não é belo e não é justo. Não faz sentido algum para mim. Eu já não acreditava antes. Agora, tenho cada vez menos chance de acreditar.

Coisas ruins não acontecem em nossa vida para que aprendamos lições. Nós aprendemos lições porque coisas ruins acontecem na nossa vida e só há duas opções nessas horas: superar e viver ou desistir e morrer. Para mim, há apenas a sobrevivência, simplesmente porque a outra alternativa não é aceitável. Superar é a única coisa a fazer.

O significado que um evento tem em nossas vidas, somos nós que definimos. Peço que me desculpem os amigos que têm fé no que quer que seja, pois cada um conhece a sua verdade e eu não peço que ninguém viva pela minha (como espero que não me peçam para viver pela dos outros). Mas não tem lógica alguma para mim acreditar que os seres vivos sofrem para aprender alguma coisa e evoluir espiritualmente. Não tem lógica achar que pessoas têm câncer e suas sequelas para aprender algo. Não tem lógica achar que crianças são espancadas para aprender algo. Não tem lógica achar que homens são mutilados nas guerras para aprender algo. Não tem lógica achar que mulheres são violentadas para aprender algo. Não tem lógica achar que gatinhos têm seus olhos furados e cachorrinhos são queimados vivos para que alguém aprenda alguma coisa! Isso não é lição, não é justiça, não é harmonia. É a vida acontecendo sem que a gente tenha dado licença, e só o que podemos fazer é o melhor com o que temos. O único caminho para a evolução pessoal é o amor – ao próximo, à vida, a si mesmo. E ninguém precisa sofrer para saber amar.

O que aconteceu com meu pai não foi para mim, nem por minha causa, nem para me mostrar algo sobre a vida. Não é sobre mim. Mas tenho de lidar com a situação e vou fazê-lo da melhor forma. Não tem metafísica. É muito simples: o mundo não parou e eu tenho que prosseguir.

Cada um escolhe o seu consolo. O meu? Pai, você morreu como sempre disse que queria: de repente. Com o mínimo de dor. Sem uma longa doença, sem hospital, sem choradeira, sem invalidez. Morreu no seu sofá, dentro da sua casa, num dia normal da sua vida. Mas precisava ter sido tão cedo?

A sugestão que deixo aos amigos, se posso ter essa pretensão, é: curtam seus pais enquanto eles estão aqui. Mesmo caso vocês achem que na maior parte do tempo eles são pessoas chatas que não têm nada em comum com você além da genética. Atenham-se às suas qualidades e não aos seus defeitos, porque a esta altura da vida é pouco provável que eles decidam mudar. Não pensem nas broncas, nas chatices, nas crises de raiva. Pensem nos sorrisos, nos abraços, nas boas influências, naqueles momentos em que sentiram orgulho de ter essas pessoas como seus pais. Para que, ao perdê-los, apesar da dor inevitável, vocês tenham, assim como eu tenho, a certeza de que foram bons filhos, de que curtiram pra caramba os velhos e se dedicaram a eles até o fim.

Pai, para mim não há alma imortal, mas há e sempre haverá tudo aquilo que você foi. Enxergarei sua presença em cada um dos meus atos, porque a pessoa que sou é, em grande parte, uma consequência da pessoa que você foi. Pensarei em você sempre que abrir um livro e vir a coisa certa sendo feita. Você viverá para sempre na memória e no coração de sua família, por todo o amor que lhe temos e por tudo o que aprendemos com você.

Obrigada por ter existido.

Anúncios

8 comentários sobre “Tchau, pai

  1. Eu não passei por isso, não faço ideia, e nem me sinto no direito de dizer nada, e acho que não acredito em consolo nesses casos. Só acredito nisso: carpe diem.

    Gostaria de ter conhecido seu pai, Mi. Meu único contato com ele foi através do livro, e lembro que fiquei contente e honrada quando você me contou que ele leu. Obrigada por compartilhar os seus sentimentos, com certeza me faz valorizar mais minha família e o dia de hoje.

    Beijo
    Cris

    • Cris, não tem jeito, a gente só sabe mesmo como é quando passa por isso. Eu não tinha nem ideia do tamanho do buraco que ia ficar no meu coração. Mas a gente supera.
      Eu também gostaria de que você e meu pai tivessem se conhecido. Vocês teriam tido um bom papo sobre ficção científica.
      Obrigada pelas suas palavras, pelo seu telefonema e principalmente pela sua amizade.
      Beijão…

  2. Meus pêsames, querida.
    Vi que temos em comum o fato de ter passado por tal dor e ter essa saudade. A única coisa que eu posso dizer é que você está certíssíma quando afirma que com o tempo a ferida se tornará uma cicatriz. E essa cicatriz se expressará por meio de belas lembranças. Minha mãe também se foi de maneira repentina, só que há 11 anos. Tínhamos grande cumplicidade, mas nem por isso ela deixava de “puxar a orelha” do filho já adulto. Me identifiquei muito com seu texto, por sinal lindo. “Obrigado por ter existido” é algo que eu penso todos os dias, sempre que me lembro dela.
    Beijos

    • Querido Átila, sinto muito que tenha perdido sua mãe. Perder os pais é aquele tipo de coisa que a gente SABE que vai rolar um dia, mas ninguém nunca está preparado pra isso. Nunca. Uma longa doença pode até gerar um certo pré-conformismo com o inevitável e até um certo alívio com o fim do sofrimento daquele ser querido. Mas nunca é fácil. O meu pai não sofreu – ou, se sofreu, foi uma dor enorme, mas de uma única vez, e mais nada. Isso para nós foi um choque. Para ele, uma sorte. E eu agradeço por isso. De resto, a gente aprende a administrar a dor…
      Obrigada pelas suas palavras.
      Grande beijo.

  3. Chorei novamente hoje ao ler seu texto, nega.
    Já tínhamos conversado tudo isso, já tínhamos falado tudo isso uma pra outra. Já sabemos e mesmo assim nos dói, nos traz lágrimas. E volta e meia isso vai acontecer, porque sentimos a falta que ele faz… mas como você disse:
    “Enxergarei sua presença em cada um dos meus atos, porque a pessoa que sou é, em grande parte, uma consequência da pessoa que você foi. Pensarei em você sempre que abrir um livro e vir a coisa certa sendo feita. Você viverá para sempre na memória e no coração de sua família, por todo o amor que lhe temos e por tudo o que aprendemos com você.”
    Ele estará em tudo que fazemos, em tudo o que ainda aprenderemos e em nossas realizações.
    Obrigada demais, pai, por você ter sido o NOSSO pai. O melhor que poderíamos ter tido.
    beijos

  4. Fazia tempo que não vinha aqui, fazia tempo que não vivia de blogs pra me animar.

    Sabe, faz pouco tempo (leia-se: parece que foi ontem) que o meu tbm se foi, da mesma forma que o seu! De repente, sem dar tempo de dramatizar ou perder a ação.

    E quer saber? Me faltaram todas as palavras, a maioria das lágrimas e tudo aquilo que eu imaginava que sentiria.
    Petrifiquei, absorvi e agora sinto o mesmo que você quando diz “obrigada por existir”.

    Sinceramente? Só hoje que eu sei que amor e eternidade existem e que mrrer é uma coisa tão relativa…

    Força pra nós, preencher os espaços com o que der…

    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s