“Se queres glamour, mostre a bunda na TV”

Essa frase marcante é do ilustrador Kako, que, em entrevista à revista Zupi, falou tantas verdades sobre a profissão de ilustrador, a falta de informação e (e às vezes de vergonha na cara) que nos últimos tempos tem dado as cartas nesse ramo que eu, como profissional da área, não pude deixar de aplaudir – e reproduzir aqui, pelo menos em parte, o trecho que me acertou o cucuruto:

“Acredito que a profissão de ilustrador tem seu devido reconhecimento entre aqueles com quem temos contato diário, sejam eles clientes, colegas ou admiradores. Se faço um trabalho bem feito, tenho o reconhecimento necessário de quem me interessa. Mas creio que por ser uma profissão que não gera muita exposição na mídia, tem-se esta impressão de que não há reconhecimento, mas pergunto: reconhecimento de quem mais?

Vivemos num pais onde a bunda fala mais alto. A exposição bem trabalhada da retaguarda pode se tornar milionária e essa cultura da busca pela fama se espalhou de forma inconseqüente, tornando-se hoje uma realidade triste. Um reality show triste, melhor dizendo.

O que falta hoje é respeito. E não só com os ilustradores, como com todos os outros profissionais da criação: fotógrafos, redatores, jornalistas, designers… está todo mundo levando uma rasteira atrás da outra por causa desta mentalidade burra da busca pela fama instantânea. Que fama?

A fama virou a moeda do século 21. Já não bastasse o achatamento excessivo dos valores propostos pelo nosso trabalho, hoje está se enraizando nos meios de comunicação um concursismo servil de más intenções. Os marketeiros descobriram uma fonte milagrosa para seus clientes, uma forma vergonhosa de se tirar vantagem de uma geração zumbi que corre atrás do topo sem se dar conta do tamanho do estrago que isso está causando. O que antes chegava tímido agora é escarrado em nossa cara por empresas que facilmente poderiam garantir um bom pagamento por uma campanha de qualidade.

Profissionais que trabalharam por muito tempo, que tem experiência, conhecimento e talento estão sendo trocados por concursos abertos que prometem “divulgar o trabalho” a troco de nada. Divulgar pra quem, meu querido? Pra dona de casa que viu o comercial na TV? Me diga onde estão os créditos? No hot site da campanha que vai sair do ar logo após o fim do concurso? Quem se lembra dos vencedores dos concursos do ano passado e do ano anterior?

Fiz essa pergunta pra alguns de meus clientes e nenhum deles soube responder; alguns nem sabiam sobre os próprios concursos, quem diria o vencedor. E estão certos em não saber, pois para eles este tipo de concurso não quer dizer qualidade de trabalho ou sequer prova de profissionalismo; estes caras buscam profissionais em que possam confiar no dia-a-dia. Quem trabalha sabe o sufoco que é essa rotina, o pega de uma criação de campanha, a entrega de uma capa que tem que ser feita de uma hora pra outra, o conhecimento necessário pra se criar uma matéria de cunho histórico ou um infográfico da maneira mais clara e criativa possível. Se eu fosse o diretor de uma agência e alguém me mostrasse no currículo que ganhou qualquer um desses concursinhos eu botava pra correr, pois isso pra mim não prova nada.

Não sou totalmente contra concursos. Como disse o Alarcão, existe o “bom grátis” e o “mal grátis”, mas parece que uma geração inteira perdeu a noção disso e é atraída por essa luz como mariposa. Existem SIM concursos e outros tipos de oportunidades de mostrar seu trabalho que tem boas intenções, corretas no regulamento e justas nas premiações, basta tirar dez minutos de seu dia e ler as regras do jogo. Mas se o cara promete o ar que você respira, cai fora por que isso já é teu.

Não podemos dar de graça a única coisa que temos pra vender. Não podemos perder esse tempo, devemos usar cada minuto precioso pra investir em nós mesmo. Não está conseguindo trabalho? Crie projetos pessoais, estude, treine, troque figurinhas. Cada um tem que acreditar no próprio talento, naquilo que te faz criar e ir enfim batalhar pela tua voz sem precisar se vender por pouco. Ou pior, por nada. A última campanha imbecil prometia literalmente ao vencedor 15 minutos de fama em sua chamada e regulamento… e nada mais! Assim, descaradamente! Se continuar assim a único reconhecimento que teremos será o de inadimplentes.

Reconhecimento se ganha trabalhando bem, investindo conscientemente na carreira. Se queres glamour, mostre a bunda na TV.”

Para babar no trabalho dele, aqui.
Clap clap clap.

Para ler a entrevista completa e saber um pouco mais sobre a trajetória do Kako, clique aqui.

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2 comentários sobre ““Se queres glamour, mostre a bunda na TV”

  1. Pois é Mila… reconhecimento é cada dia mais difícil nesta área.
    Fico imaginando o quão estéril seria um livro infantil sem o trabalho do ilustrador. Como iria passar a mensagem ?
    Ou então, um folheto técnico de um novo produto onde se usa a ilustração como algo “instigante” sem revelar a verdadeira face do produto.
    O século XXI vai ser conhecido como o século do TER, disto eu infelizmente não tenho dúvida. O valor do SER está tão decrépito que chegamos a ser rotulados como “extraterrestres” ao querer discutir o tema.
    Só nos resta continuar brigando e mostrar que o SER é mais importante, mesmo sabendo da dificuldade em ser ouvido.

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