O caminho da mentira

Descobri que alguém a quem muito estimo mentiu para mim. Confesso: fiquei louca da vida.

Pior: descobri muito sem querer, a troco da minha curiosidade, só para reforçar o fato de que a internet é um lugar perigoso, onde expomos nossas vidas mais do que deveríamos e estimulamos os outros a nos espionar. Quem me mandou clicar lá? Bem feito. Podia ainda estar feliz da vida, acreditando no que ouvi, ou melhor, nem sequer pensando no assunto, pois não era importante. Agora, ele não me sai da cabeça. A pergunta não cala: por que ela mentiu?

Gostaria de estar distraída demais com meu universo particular para sequer notar que isso aconteceu. Mas notei, e me incomoda.

Por que esse drama?, você poderia perguntar. Todo mundo mente. De leve e sem maldade. Faz parte do contrato social. O Legião Urbana sabia bem disso:

Um dia pretendo tentar descobrir
Por que é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também.

Sim. Eu minto também. Raro, mas não impossível.

Há alguns anos li numa revista de psicologia que “as crianças mentem para concretizar seus objetivos”. Faltou explicar que adquirimos, sim, esse hábito na infância, mas não o perdemos na fase adulta. Na verdade, os laços sociais só reforçam a prática, depois de aprendermos que falar a verdade às vezes só conquista a antipatia.

Todos afirmamos odiar a falsidade. Paradoxalmente, todos a praticamos. Os níveis variam. Há gestos simples, como sorrir para alguém apenas por educação. Ou atitudes de maior peso, como aproximar-se de alguém e demonstrar uma amizade que não existe para obter benefícios – o célebre puxa-saquismo. Ouvimos falar tanto em mentirinhas do tipo white lies, supostamente são ditas para fazer o bem (as que contamos a uma criança quando seu bicho de estimação morre), como em mentiras deslavadas, usadas para nos fazer de bobos (ditas ao povo pelos políticos ou ouvidas pelos cornos de seus cônjuges). Mas qual é o limite entre uma e outra? Como separar a mentira inofensiva da maldosa?

O problema de toda mentira – boa ou má – é que, quando surge a verdade, o enganado sai ferido. SEMPRE. Passam-nos pela cabeça coisas como “fui idiota em acreditar nessa pessoa” ou “se fosse meu amigo, teria dito a verdade” ou ainda “mentiu porque é um sacana, falso, mau caráter”… Nessa hora é bom lembrar aquele velho slogan: Diga NÃO às drogas – e a paranoia é uma droga, porque envenena, corrói e, como todo mau hábito, vicia. Não somos idiotas por acreditar em alguém que nunca antes nos deu motivo para duvidar. Não necessariamente um amigo diz sempre a verdade – às vezes, você não quer que ele seja honesto, especialmente quando, numa hora de fragilidade, faz perguntas como “você acha mesmo que vai dar tudo certo?”. E uma pessoa não mente simplesmente porque é mau caráter – afinal, você e eu mentimos também. Nossas razões, só nós poderíamos dizer que são boas.

Anote aí que eu anoto aqui: quem faz uma coisa nunca a faz para você, por você, contra você ou mesmo por sua causa. Cada um só faz o que faz para si mesmo, ainda que acredite que é pelo outro. Mentimos para nós mesmos. Fazemos isso quando afirmamos que estamos mentindo para proteger alguém de uma dura realidade; na verdade, estamos só evitando lidar com essa pessoa caso se torne ciente dos fatos. O que os olhos não veem, o coração não sente, certo? Nem o coração do enganado, nem o do enganador.

Quem mente, mente para preservar a si mesmo. Mente para evitar o conflito, a mágoa, o chilique do outro. Mentir é, sobretudo, enganar a si mesmo. Na visão de quem engana, a mentira é um caminho para a harmonização, a estabilidade, a ausência de tensão. Para o enganado, o caminho da mentira conduz apenas à mágoa e à indignação.

Não quero lembrar que eu minto também. Ainda me sinto magoada demais para isso. Ainda questino a razão da pessoa que mentiu para mim. Digo a mim mesma que eu teria entendido, aceitado a verdade, respondido que tudo bem. Mas teria? Essa mesma dúvida criou a mentira.

Mas o pior é estar naquela situação do tipo: vizinha sem noção vem dizer que “fulana andou falando mal de você, mas não vá dizer isso a ela, senão ela vai saber que fui eu quem contou”. Eu me pergunto QUE utilidade tem esse tipo de informação: sei quem é meu inimigo, mas preciso fingir que não? Era melhor não saber.

OK, minta para mim.

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12 comentários sobre “O caminho da mentira

  1. Muito legal Mila!!

    Concordo muito com tudo o que você disse… A mentira é realmente um campo minado. Às vezes mentimos para poupar aqueles que amamos, às vezes mentimos para poupar a nós mesmos, como você disse…

    O pior da mentira, não é a mentira em si, mas a mentira mal feita. Afinal,se vamos mentir, precisamos nos cercar de certezas que impedirão que aquela pessoa para quem mentimos acabe descobrindo a verdade e se machucando.

    Mentiras mal feitas são ervas daninhas, que intoxicam as relações, seja por serem descobertas e mantidas em segredo, seja por que chegam com os dois pés no peito querendo entender o por quê do engano.

    Não querendo lembrar, mas lembrando que eu minto também quando julgo necessário, acho que a mentira deve ser consciente e bem escondida… É uma forma de respeitar aquele que já de certa forma desrespeitamos ao mentir… Uma forma de trazer consciência ao ato e à mentira e suas conseqüências…

    A pior mentira é aquela inconsciente, que já virou compulsão pra o mentiroso, que machuca a todos com suas falsas flechadas, e ainda gera a compaixão de quem o ouve proferir tantas inverdades a respeito do universo a de si próprio também…

    No final, acho que a melhor coisa é ter pena de quem mentiu e não fez direito, seja por compulsão ou distração. Perdeu pontos sinceros de consideração, pelo menos em relação a quem foi enganado…

    • Marilia, o foda é que não acredito em mentiras bem escondidas. Acho que seus alicerces são sempre tão frágeis que cedo ou tarde acabam desmoronando. Como nesse caso em que descobri sem querer uma da qual sequer suspeitava, rs… Quem mente vive sob o peso das mentiras que já disse, só esperando o dia em que vão desmoronar. E eu me incluo nisso.
      O pior é que, como você disse, a pessoa perde pontos, perde um tanto do encanto que exercia. Isso me entristece.

  2. Cheio de verdades o seu texto, Mila, e… de um pouco de mágoa, também, mais do que justificável. Mas sinto que o tempo e a reflexão já começaram a curar essa ferida.

    Também achei muito bom o texto sobre a opinião dos outros. É verdade, comigo acontece muito o n. 2… tenho a impressão de que alguém está me ignorando e/ou sacaneando quando na verdade essa pessoa trata todo mundo desse jeito. Como sou um dos poucos seres que conheço que detesta sarcasmo (embora tolere bem uma leve implicância), minha tendência cada vez mais é me afastar.

    Mas o que me chamou a atenção aqui foram as fotos e comentários da Europa. Sou apaixonada pelo Velho Mundo… morei em Portugal e, às vezes, gostaria de ter ficado por lá. Agora, voltei da Itália com a mesma sensação. Não sei o que aquelas terras fazem com a gente.

    Enfim… estou de volta e respirando fundo a fim de encarar um semestre de muito trabalho. Imagino que você também, então… tudo de bom e grande abraço!

    Ana

  3. Camila, acho legal esse espaço que voce nos dispõe para dividir seu trabalho, informações, etc…Parece com aquele intuito de em alguma coisa contribuir com os que o acessam, parabéns por isso.

    • Oi, Isaac, eu que agradeço. Os comentários são importantes, pois muitas vezes adicionam observações e informações valiosas ao tema da vez.

  4. Aroveitando o tema, apesar de fugir um pouco dele, queria falar sobre essa questão de se dizer ou não alguma coisa, e lembro-me que em casa alguém me falou de um comentário não sei ao certo se de Sócrates ou Platão, que o que se vai dizer deve passar por três crivos:1º:é verdade?2ºnão vai causar mal a ninguem?3º:vai ser útil a alguem?Achei interessante essa abordagem.

    • Eu também não sei quem postulou essas três perguntas, mas já as ouvi em algum lugar e sou obrigada a concordar que fazem sentido. Só que aí a gente cai na tal da “racionalização”: a mentira que eu conto a mim mesma pra me sentir melhor. O famoso “assim foi melhor pra todo mundo”, que, na verdade, significa que foi melhor pra mim, rs…

      • Aproveito para dar uma de filósofo e dizer, ninquem está mais enganado que aquele que a si mesmo se engana.

  5. Noooosssaaa!! A verdade, sobre nós que mentimos (seres humanos), jogada na cara assim, sem dó nem piedade.
    Certo, nega! É disso que eu estou falando. Tem verdades que temos que ouvir pra nos tocar que somos frágeis e falhos. Uma mentirinha aqui e outra ali todo mundo conta, seja lá porque motivo for.
    Já pensou se todo mundo fosse sincero, extremamente sincero, como seria esse mundo???

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