Madrugada dos famintos

Não. Isto não é um conto de zumbi. Nem é um conto de terror. Nem sequer, aliás, um conto. Isto sou eu. E esta é a sua chance de parar de ler ou respirar fundo e prosseguir. Ficou? Obrigada. Vamos lá.

São 5:35 no mostrador digital do laptop. Galos cantam – sim, ainda há galos no cosmopolita bairro da Mooca. Soneca de meia hora diante de um documentário sobre a decadência do Império Romano. Depois disso, insônia. Foram 2 horas tentando dormir. Então, veio a inquietação. A fome.

Sempre a fome.

Parece piada. Não é só o estômago que ronca porque o meu corpo se recusou a se desligar. Algo mais ronca na mente que tampouco dorme. Não há repouso. Primeiro a chuva. Ruído branco. Mesmo assim, nenhum sono. A chuva pára. Vem o calor. Fica a inquietação. A fome.

Geladeira e armário vazios. Mas e a mente, desgraça? E o coração?

Cheios de um vasto nada. Um nada faminto, que mastiga pedaços de mim mesma e os cospe na minha cara.

A inteligência, nunca suficiente.

O talento, sempre ofuscado pela raiva.

Os amigos, a quem meu egoísmo miraculosamente ainda não afugentou.

A boa amiga que eu pretensamente imagino ser, esquecida a um canto.

A meiguice que eu já tive e não sei onde guardei.

Olho pra mim. Mulher? Mal sou menina. Tento resgatar uma doçura que não sei se ainda tenho. Sinto meus olhos arderem. Não é a luz do monitor. São as filhas das putas das lágrimas que por puro orgulho eu sufoco. Nem chorar diante de mim mesma eu admito. Espetáculo bizarro, esse de me ver chorar. Quem viu, sabe. Coitados.

Ofereço o que tenho de melhor, mas não sei o que querem de mim. Essa ignorância sufoca. Pior que isso: talvez eles não queiram coisa alguma.

Sempre fui esquisita. Estranha mesmo entre os estranhos. Nada de errado nisso. O problema sempre foi a esperança. Acreditar que um dia eu não seria estranha. Que um dia seria aceita. Que um dia seria amada. Que um dia, ainda que tivesse insônia, eu poderia simplesmente ligar a TV e cochilar de novo ou dar risada de qualquer besteira no Youtube, em vez de me enfrentar diante de um espelho digital.

Este blog era para ser um espaço profissional, não um confessionário, um antro de auto-piedade. Divulgação dos meus contos e poemas, opiniões e interesses. Só o que eu tinha de melhor. Mas, assim como faço com meus relacionamentos, eu tive o dom de transformar o ouro em lodo. Tomei do belo, meti-o num caldeirão e fi-lo exalar um cheiro ruim. E, não bastasse, abri as cortinas e gritei:

– Vejam! Isto sou eu em carne viva.

Juro que morro de medo de mim. Mas não se preocupem, sou inofensiva. Posso latir e rosnar, mas não mordo mais do que meu próprio rabo. Faminta. Sempre. Faminta de um espelho mais amigo, de ouvir o que eu precisava e ninguém me disse. Mas do que estou me queixando? Também nunca digo a coisa certa.

Tentei ser bela. Tentei ser doce. Tentei ser esperta. Até calada eu tentei ser. Mas tudo o que consegui foi cair de novo em mim. Joguei uma corda no fundo do poço e ninguém subiu de lá. Senti medo de descer. Mas estou sempre a um palmo do chão, sem coragem de pôr os pés nele.

Faltam 4 minutos para as 6. O sono não vem. A fome não vai. Lá fora ouço a moto do entregador de jornais. Aqui dentro, estou em fuga. Estou em pranto. Estou em plena madrugada, entre os insones e famintos. Tento vender uma imagem de perfeição. Minhas palavras traem minha máscara. Meus sorrisos camuflam minha angústia. Minhas fotos sugerem uma vida bem mais emocionante do que a que eu realmente levo. Assim como as suas. Isso mesmo, as suas.

Você não vive rodeado de grandes e belos amigos. São só pessoas que você teve a sorte de fotografar, mas que não sentem a sua falta no final de semana. São só pessoas cuja existência você passará a ignorar quando se apaixonar por alguém. Você lhes diz “te amo”, mas pelas costas fala delas com desprezo. Você sorri, mas bufa de impaciência quando se afastam. Você enxuga suas lágrimas, mas zomba da sua fragilidade. Sua mansidão é uma farsa. Sua autossuficiência, um delírio. Sua doçura, uma máscara. Empresta pra mim?

Sério. Me empresta. Eu sempre quis ser amada assim. Não ligo que não seja de verdade. Quantas pessoas são amadas pelo que são de verdade? A maioria só o é pelo que aparenta ser.

Para que se encontrar? A gente passa a vida fugindo de si mesma, torcendo para trombar com alguém. E o maior medo é nunca sermos encontradas.

Doutor Lecter, por favor, devore o meu cérebro. Quem sabe, assim, devore também a minha fome.

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17 comentários sobre “Madrugada dos famintos

  1. Muito bom o que tu escreveu. Na verdade eu cliquei no blogue por causa do título deste post, claro que por praticamente nunca dormir antes das 5 e acabar ocasionalmente morrendo de fome de madrugada. hahaha. Mas o teu texto é bem mais profundo. Geralmente essas “reflexões” também acontecem comigo de madrugada. Parece ser inevitável.

    Abraço!

  2. Hãã, eu faço do meu blog um confessionário… rsrs… será que isso é ruim? =DDDDD

    “Ofereço o que tenho de melhor…”
    Será que a gente devia mesmo oferecer alguma coisa?
    O ser humano é tão ingrato…
    Sobre a “estranheza”, acho que todo mundo se sente diferente, esquisito, inadequado. Acho que nos sentiríamos assim mesmo se fôssemos todos fisicamente iguais, como nas definições de raças alienígenas. Acho isso bom! É o que faz lotar as salas de terapia. Prova de que TODO mundo (ou pelo menos quem tem coragem de admitir) se sente assim, como você, como eu. É bom ser diferente!
    “Minhas fotos sugerem uma vida bem mais emocionante do que eu realmente levo.”
    Duvido que haja um ser humano nessa droga de mundo que não se sinta sozinho. Duvido mesmo!
    Estamos sempre rodeados de pessoas, de vida, de afazeres. Mas às vezes parece que nada nos toca, nada importa. Acredito que viver em paz é saber administrar a própria solidão. É saber apreciar a própria companhia.
    Numa conversa com meu sobrinho ele me disse: “Sou tão egoísta que adoro ficar em casa sozinho!”. Daí eu respondi que isso não é egoísmo. É um culto ao individualismo. E isso é ótimo!
    A gente só consegue ficar bem quando passa a curtir a própria companhia, a respeitar nossas limitações, a admirar nossas qualidades por mais singelas que possam nos parecer.
    Quanto à fome, espero que ela nunca passe. Seu significado é: sensação causada pela necessidade de comer. Sentir necessidade de alguma coisa ou de alguém é importante. Acho que seria demasiadamente chato se não sentíssemos necessidade de nada ou de ninguém. Quem garante que a admiração por outra pessoa, a ânsia de ter alguém do nosso lado ou ser parecido com fulano não é uma forma de antropofagia? rs
    Como numa música da Adriana Calcanhoto: “Eu gosto dos que têm fome…”
    Eu tenho muitas máscaras pra te emprestar… mas eu preferia te emprestar meus olhos! Vc quer?
    Assim vc poderia se enxergar como eu te vejo, ou seja, com admiração e carinho!
    Bjs! Fique bem!

    • Flor, não há nada de mal em fazer do blog um confessionário. Só não era o meu objetivo quando criei o meu. As coisas simplesmente descambaram, rs.

      Não ligo de ter fome, a fome é o que nos faz ir à caça de novidades. Só não gosto de andar por quilômetros sem ver nada de comida. :-S

      Olhos novos não são má idéia! Você teria aí pra mim um par com as íris bem verdinhas? Rs!

      Obrigada pelo carinho, flor… Further coments by mail!

      Beijão.

  3. Ótimo texto, Camila e ótimo título também.

    Já pensou em escreve um conto com zumbis, zumbis de verdade com fome de verdade, e por este título? rs

    Acho que até o George Romero ia te aplaudir.

    bjos.

    Ah, te add ao meu blog.

    • Oi, Rober!

      Confesso que zumbis não são muito a minha praia… talvez porque a gente viva num mundo cheio deles. :-S

      Mas vc me deu uma idéia… rs!

      Beijão e valeu por add!

  4. Eu adoro tudo o que é visceral. Adoro ler e escrever sobre o que a gente é no fundo, e acho que todos somos temperados com um tanto de crueldade, de maldade, de indiferença, de um monte de coisas ruins que estão aqui, penso, para equilibrar o que realmente somos. Chato é ler que tudo é mesmo lindo, tudo perfeito… Eu penso que todo o perfeito, absolutamente perfeito, tem um Q de farsa. Gosto de colocar o monstro no colo e me deixar dilacerar por ele, não sei se pelo prazer de me reconstruir depois ou se porque são – também – as cicatrizes que ele deixa que servem de cola entre o que eu quero e me esforço pra ser e o que eu sou. São fronteira tão clara, e estão ali para que eu nunca me esqueça de que há sempre muito trabalho a ser feito… Principalmente em mim.

    Genial e muito corajoso, Mila.

    Beijo.

    • “Eu penso que todo o perfeito, absolutamente perfeito, tem um Q de farsa.”

      Pior que eu concordo, flor…

      Todo mundo quer acreditar em alguém lindo, inteligente, legal, honesto, talentoso e divinal em tudo. Mas no fundo acho que sabemos a verdade.

      Obrigada por passar por aqui e deixar um pouco de você pra gente. 🙂

      Beijão…

  5. Olha eu aqui, sempre atrasada.
    Eu sempre tenho insônia.
    Fui ao médico uns meses atrás e ele riu, disse que uma mulher de 31 não tem motivos pra não dormir e que ele sim, aos 60, tem todos.
    Saí do consultório com uma receita à base de maracujá e a sensação latente de que o mundo está do avesso.
    Até o meu sorriso insano dizia isso para as pessoas ao redor.
    Tenho medo do escuro, do espelho que reflete a luz da rua, dos ruídos da madeira no meio da noite e dos gatos no telhado.
    Tenho medo dessa fome aí também.
    E já não espero mais ser amada, apesar de querer desesperadamente (e acho que sou, afinal).
    See you.

    • Ro, não está atrasada, pois o assunto é recorrente!
      O seu médico deve saber muito sobre idade, mas pouco sobre mulheres.
      A minha insônia me dá medo por ser rara. Nunca sei quando ela virá nem como lidar com ela.
      Eu “suspeito” que você é amada, sim… rs!
      Obrigada por passar por aqui.
      Beijão…

  6. Não digo minha idade, nem onde moro,nem meu nome de verdade, não pense que sou timida, tudo beem só um pouquinho com quem eu não conheço. Só estou tentando escrever contos, musicas, analises, mas nada presta e que coragem eu tenho de expor para todo mundo ver? só sei que só comecei a ler seu textos por causa de um trabalho de escola, uma analise de conto. Eu te achei pelo google SHAUSHAUSH’ agora não paro de vir aqui só pra ler as postagens, cofesso que não gosto muito de alguns, só que continuo amando seus contos e amei esse texto, sei lá o jeito que você escreve como se tudo pode acontecer enquanto as palavras não terminam, que faz dos seus textos muuito bons!

    • Oi, Aléxia, legal saber que você veio parar aqui meio que “por acaso” e acabou gostando. O fato de não curtir todos os textos que estão aqui só demonstra que você tem critério para separar o que te agrada do que não te agrada, e ser criteriosa certamente vai te ajudar a escrever cada vez melhor. Fico feliz que goste de passar por aqui. Fique à vontade, OK?
      Beijão.

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