Sua dor, meu prazer


Foto de Rene Asmussen com montagem de Mila F.

Creio que tenho esse dom. Assim como algumas pessoas têm a dádiva da fé, eu possuo o dom da culpa. Coisa minha, que não se evita, assim como as sardas e olheiras, senão com alguns quilos de maquiagem social. Disfarce, sorria, acene para a câmera. Estamos sendo filmados.

Hoje estou em guerra contra mim mesma pelo direito de ser egoísta. Direito? Errado. Confrontam-se a futilidade de meus desejos e o desespero das necessidades alheias. Sou conivente com o abandono dos desafortunados. Eu não o causo, mas nada faço para remediá-lo. Apenas sofro – mais que aqueles que nada fazem por indiferença e mais que aqueles que tudo movem ao seu alcance, por amor ao próprio mundo. É o sofrimento dos indolentes. Mereço o inferno mais que todos. Haverá lá um círculo para os que não agiram? Um poço fundo onde lamentem a perda dos braços, arrancados por não terem se estendido em auxílio dos caídos, e das pernas, amputadas por não terem corrido em socorro dos fracos?

Estou face a face com minha própria covardia. Eu sou a covardia.

Quero ajudá-lo, mas não o faço. Pois dar-lhe de mim me tiraria algo que prezo por demais – uma caixa pequena e mesquinha, cheia de vaidade e indolência, vazia de coragem ou compaixão. Autoindulgência: eu me poupo. Não quero a fadiga dos heróis.

Quero ajudá-lo, mas escolho me afastar. Escolho a vergonha de manter-me ilesa à honra dolorida de estender a mão. Isenção. Não fui eu quem causou a sua dor, mas tenho o poder de aliviá-la. Só não quero usá-lo. Tenho alimento, abrigo, segurança, amor e certos prazeres. Mas é tudo meu. Não lhe dou nada disso.

Quero ajudá-lo. Mas não quero de verdade.

Pois tenho medo de voltar. Hoje, meu medo é mais forte que minha vontade. Meu egoísmo, maior que meu amor.

Será meu conforto prioritário às suas necessidades mais básicas? Meu prazer, mais importante que a sua dor?

Autopiedade? Ah. Esse é o menor de meus pecados.

Vai passar. Eu sei que vai passar. Mas sei também que voltará. A culpa e seus fantasmas.

É um dom que eu tenho.

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22 comentários sobre “Sua dor, meu prazer

    • Sei não, Laize. Conheço gente que dá de si não por culpa ou sentimento de dever, mas com verdadeiro amor pelo que faz. Você encontra essas pessoas em grupos de trabalho voluntário, visitando velhinhos em asilos, entretendo crianças doentes, distribuindo comida os pobres, salvando gatinhos e cachorrinhos abandonados. Tentei me espelhar nessas pessoas, mas algo deu errado. O pouco que faço, faço de coração. Mas é tão pouco. Acho que vai do tamanho do tambor de cada um. O meu tá mais pra cuíca. :-S

  1. Impressionante o texto, tive até que lê-lo duas vezes para entender direitinho…
    Ajudar é complicado mesmo. A gente faz o que pode, mas nem sempre está ao nosso alcance, né?
    Mas não se sinta culpada. Nas próximas reencarnações você corrige isso =P

    • Ah, Gi… Não posso dizer que não existam reencarnações, mas como eu só vou saber quando chegar lá, a vida para mim é o aqui e agora. Não tem antes nem depois. Erros, acertos e suas consequências – é tudo aqui que a gente resolve. Por isso é melhor pensar direitinho e aproveitar o tempo que temos para fazer algo que preste. Se não, vai que na tal da próxima encarnação eu venho em forma de caracol de jardim ou mula de carga. :-S

  2. Ótimo seu texto! vim aqui atavés de um conto seu no site do Afonso, mas este texto é muito melhor que o conto. Suas reflexões são absolutamente pertinentes e concretas, tem causa e fôlego para se extender pelas linhas que usou sem desperdícios. Parabéns.

  3. Hhhhmmm, acho complicado generalizar situações de compaixão e caridade.
    Eu tb acho o máximo essas pessoas que sacrificam suas vidas por uma causa…
    Outro dia mesmo eu estava pensando nisso:
    “Putz, eu não faço nada pra ajudar ninguém!!
    Minha existência é absurdamente egoísta.”
    Bom, talvez me falte amor no coração ou talvez eu ainda não tenha descoberto nada que me faça mais caridosa.
    Mas, sobre estender a mão quando alguém está sofrendo, bom, eu acredito no direito da escolha. Eu tenho o direito de decidir estender ou não minha mão.
    E, independentemente da escolha, ninguém tem o direito de me julgar (coisas do tipo: se ajudei, sou uma santa; se não, sou uma insensível egoísta). Na verdade, nem eu mesma deveria me julgar.
    Porque eu acredito que só as coisas que são feitas com o coração valem a pena.
    E acho que o processo da outra pessoa merece respeito também. De repente ela sofre porque algo está se transformando dentro dela ou algo que vc disse ou fez tocou em alguma ferida. Às vezes precisamos deixar os outros administrarem suas próprias dores, não? (Já que temos que fazer isso com as nossas…)
    Sobre o sentimento de culpa, bom, eu já sofri muito com isso, muito mesmo!
    Mas hoje eu simplesmente respeito minhas decisões sem julgar meus motivos. Eu quis ajudar e ponto! Eu não quis ajudar e ponto!
    Todo mundo tem um pé no lado negro da força! Que bom!!
    Somos humanos!! rsrsrs
    Bjs

    • Sei lá, Vivs, eu nunca curti a palavra “sacrifìcio” e os significados nela embutidos. Viemos ao mundo para viver por nós mesmos ou para viver e morrer por outrem? Acredito que cada um vem ao mundo para seus próprios propósitos, e portanto desprovido de propósitos: vamos formando os nossos ao longo da vida. Mas não acredito em colocar o outro, ou os outros, num pedestal e servi-los.

      Concordo com você, ajudar é uma escolha, um direito inalienável, jamais uma obrigação… Eu fico zangada quando uma pessoa gasta dinheiro numa bestagem qualquer (bestagem pra mim, não para ela…) e não compra o calendário de gatos que estou vendendo a R$ 10,00 para ajudar uma ONG alegando que está sem grana. Prefiro que a pessoa me diga na cara que essa causa não é importante para ela, que ela odeia gatos ou que não está nem aí com os bichos abandonados. Mas sei que NÃO tenho o direito de ficar zangada… rs! Da mesma forma que eu posso gastar R$ 100,00 em livros em lugar de doá-los à caridade, os outros podem fazer o que quiserem do seu salário, tempo ou talento. Inclusive usá-los para propósitos inteiramente egoístas.

  4. Mila, sou muito cético quanto ao nosso poder de ajudar os outros. Nada de cachorrice liberal, a culpa não é deles. No entanto, oferecer uma mão, estar perto, isso realmente seria de alguma ajuda? Um conforto, solidariedade. Nada disso é feio, mas realmente ajuda a resolver? As pessoas não precisam de favores. Podem até achar bonitas as atitudes de alguns. Mas precisam mesmo é de uma outra postura de toda a sociedade, que precisa lembrar de músculos que não usa há muito tempo.

    • “Mas precisam mesmo é de uma outra postura de toda a sociedade, que precisa lembrar de músculos que não usa há muito tempo.”

      Um belo tapa na cara de todos nós. Gostei. Mas onde começa uma mudança social? Talvez num indivíduo ou num pequeno grupo de indivíduos. Alguém tem de tomar a iniciativa, mostrar que é possível, que é prazeroso, que é benéfico para todos. Alguém tem de gritar o “yes, we can”. E essas vozes têm gritado há anos. Mas só ouve quem quer…

  5. Dignissimo seu texto!

    “Apenas sofro – mais que aqueles que nada fazem por indiferença e mais que aqueles que tudo movem ao seu alcance, por amor ao próprio mundo.”

    Me identifiquei muito com teu trabalho!

    Beijo

  6. Mas acho mesmo que fazemos as coisas que nosso coração (mente, espírito, sei lá o que) manda que façamos… não adianta nada fazermos algo “de bom” pra alguém por nos sentirmos culpados. Tem de ser uma atitude de doação, sem julgamentos…
    Mas que é difícil nós mesmos agirmos sem nos julgar… ah, isso é.

    • Costumo dizer isso a mim mesma, hermana. Que fazer algo por culpa não vale nada, só serve serve de algo se for com amor. Mas talvez, se você ajudar alguém apenas por culpa, mais importante do que os sentimentos que a levaram a isso seja o fato de TER ajudado. Será que a motivação realmente vale mais que o efeito? Não sei…

  7. Eu ia dizer isso, mas aí cheguei ao final dos comentários e você disse: ‘só serve de algo se for com amor’. Amor, identidade com aquilo e a ciência de que jamais pode ser algo que fazemos pra tapar um buraco qualquer: de tempo, de amor, de falta dele, de falta de emprego, de trabalho… O amor faz agir de dentro pra fora e de uma maneira tão absolutamente sólida que buscamos ser nós mesmos o tempo todo pra não perder nunca o que nos moveu àquilo. Amei o texto. =o)

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