Estou contigo, Alvaro

Caro Alvaro,

Tu não me podes ouvir porque já és morto enquanto eu vivo. O Tempo, no entanto, é irônico e mau: permite que eu leia teus desabafos como cartas para ninguém, às quais eu, destinatária acidental, não posso responder. Se a vida corresse ao contrário uma só vez, eu poderia te dizer: estou contigo. Sou vil e mortal como tu e talvez por isso te ame sem jamais ter te visto.

Acredita-me: também estou farta de semideuses. Sinto-me um Ganimedes neste Olimpo moderno, onde não acho par para as minhas vilezas, onde não há irmão para minha alma enferma de pragas indizíveis como a inveja, a ânsia, a incerteza quanto a meus méritos. Tudo o que vejo aqui são príncipes e princesas, belos, altaneiros, perfeitos em cada palavra e vitoriosos em cada gesto. Eu os amo; também os odeio. É que mirá-los me arde nos olhos e tocá-los me queima nas mãos. Cada vez mais me firo voluntariamente na ânsia de me achegar deles. É tola e pífia a minha busca. Eu não nasci para galgar as montanhas, mas para rolar encosta abaixo feito um Hefesto rejeitado ao nascer. Eu não devia estar aqui. Eu devia estar aí, contigo.

Já não suporto esta gente bem-resolvida, auto-suficiente, atualizada e polivalente, que não precisa de doutores para suas dores ou soluções para suas aflições. Não suporto meu amor por elas e habito uma casa de ódio mascarado. Vivo entre véus de decência e afeição sobrepostos a um espírito que rola na lama, no qual a sujeira, de tanto repetir-se, passou a integrar a própria essência e já não é possível dissociar uma da outra. Congratulo-te pois: és o mais honesto dentre nós, os decaídos, capaz de uma franqueza que eu própria não me atrevo a ter, porque ainda acredito em minhas máscaras. Nessa honestidade reside a tua coragem, maior e mais sedutora que a de qualquer herói. Não sejas nunca um anjo, nunca um deus, nunca um ideal que eu não possa alcançar. Sê para sempre um boêmio da sarjeta, um poeta sem rima, um bufão sem graça, a causar mais pena que riso. Assim, seremos sempre irmãos.

Anseio pelo dia em que poderei me sentar contigo para nos embebedarmos e chorar levianamente as nossas dores. Sem vergonha da auto-piedade. Sem medo do ridículo.

Deixo aqui um eco do teu futuro, meu presente, repetindo os versos com que tu me cativaste. Estou contigo, poeta fingidor.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa, 1888-1935)

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13 comentários sobre “Estou contigo, Alvaro

  1. Wow! Mila, parece que tu tirou as palavras de minha boca…. posso me reunir a vocês na mesa do bar do além?
    Atingir o ideal é pedir demais, meio que querer atingir a perfeição, coisa que ninguém consegue. Minha analogia preferida com relação à perfeição é a seguinte: podemos fazer um polígono com o maior número possível de lados, mas nunca conseguiremos fazer um círculo perfeito.
    Mas a gente vai se esforçando para dar um jeito nos defeitos que insistem em voltar à tona =)

    • Opa, Gi, seja bem-vinda à sarjeta, digo, ao bar!
      Adorei sua analogia, exata em mais de um sentido.
      Saber que a perfeição é impossível é tão importante quanto jamais deixar de persegui-la.
      Opinião obsessiva minha, claro.
      😉

  2. Por isso que adoro gente.
    E também seus textos, hehe.
    Elogio abertamente sem medo de ser feliz.
    Quem nunca te leu está perdendo parte importante da produção atual. Bjss! Fotos lindas abaixo. Visual não é tudo, mas é 100%. Ou esse era o dinheiro? rs. Baci.

    • Valeu, Eric! Espero que todo mundo siga seus sábios conselhos. Modo interesseio off agora.
      Acho que visual é no mínimo metade do caminho. E se o visual não veio com a genética terá de vir com os artifícios. Por que será que as bailarinas famosas e prestigiadas são gatíssimas? Será que as feias não dançam? Ou será que entre ver uma feia com talento e uma bonita com talento as pessoas sempre preferem a segunda opção? Somos seres visuais. Nada a discutir.
      Mas até feiura tem cura ou, pelo menos, paliativo. Por isso meu novo lema: se não pode ser bela, seja estilosa. 😉

  3. Oie Camila :p Só agora achei seu blog, mas ja conhecia seus contos e amo seu estilo ;D Ainda bem que você permite que os contos sejam publicados em outros sites, pois do lugar onde os vi não dizia nada especifico… Então publiquei com os devidos creditos! Mas agora que achei o blog nada mais justo avisar neh quem não gosta de ver seu trabalho em outros lugares :p Espero que goste do lugar onde eles estam 😀

    Bjs inté mais

    • Oi, Flávia!
      Claro que permito a publicação! O interesse é meu também e eu agradeço por você curtir meu trabalho e ajudar a espalhá-lo. No caso de textos curtos não há nada demais, para a maioria dos escritores é uma vantagem vê-los navegar em outros barcos. Basta creditar a autoria e tudo bem! 🙂
      Prometo uma visita em breve ao seu blog!
      Beijão.

  4. Pessoa, Mila, sempre foi impagável, se tivéssemos que pagar não pelos livros mas sim pelo valor das palavras ali impressas, nem Visa, nem masterCard…pagariam. Não achas?
    Forte abraço do poeta.

    • Acho, sim, Thelmo. Livros no geral são mais caros do que deveriam, pois seu preço restringe o alcance do povo à leitura. Mas a qualidade de certos textos, com os do Pessoa… isso não tem preço!

  5. Parabéns pelo trabalho. Aproveito para apresentar minha obra, CROCODILO SONHADOR, romance editado em 2009 pela EDITORA GLOBO. Espero contar com o apoio deste reconhecido blog. Abraço, Vanda Amorim (vandaamorim@uol.com.br)

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