Leituras de 2009 – janeiro a março

Observando o trabalho bloguístico de autores como Cris Lasaitis, Eric Novello no Fantastik,Fernando Trevisan e Romeu Martins no Overmundo, só para citar alguns, noto que escrever resenhas não é legal apenas por oferecer aos leitores dicas de livros e por que eles devem ser lidos, mas também porque, para o autor, é um exercício do poder de síntese. Habilidade que ainda não conquistei. Mas, se a prática leva à perfeição, vamos lá: leituras de janeiro a março. E, quando eu tiver saco tempo, mando mais.

1. Histórias do Tarô – vários autores
taro
Livro que me deixou dividida com seus 22 textos de Richard Diegues, William Goldoni, Melissa Mell, Marcos Torrigo, Giancarlo Kind Schimid, Ivana Regina, Mauro Caramico, Rosana Rios, Rodrigo Venkli, Tuga Martins, Mauricio Mikola, Janaina Caetano, Denise M. G., J. A. Domingos, Sérgio Pereira Couto, Ana Marques, Júlia Sanchez, Gledson Lima, Alessandra Fonseca, Cezar Augusto Drake, Eddie Van Feu, Heloisa Galves, Gianpaolo Celli. De um lado: proposta muito original da editora, que chamou escritores experientes para contar histórias baseadas no significado dos arcanos maiores do tarô, com belíssimo tratamento gráfico. De outro: alguns autores que não são escritores de ficção nem mestres da narrativa e sim tarólogos e místicos, o que é bom, pois este é o assunto do livro, e ao mesmo tempo é ruim, por resultar em alguns contos um tanto crus para o nível de publicações da editora, normalmente bastante elevado. Na mesma linha, eu já sugeri ao pessoal da Tarja um Histórias do Zodíaco. 😉

02. Portal Neuromancer – vários autores
neuro
Boa antologia de fantasia & FC, organizada por Nelson de Oliveira, com o mérito de não ter nenhum conto que não seja no mínimo profissional. Edição limitada, não foi vendida, mas distribuída a leitores selecionados – eu só consegui uma pelas mãos do Ivo Heinz (valeu, Ivo!). Faz parte de um projeto de 6 livros/revistas cujos títulos homenageiam cânones da ficção científica. Os autores: Fábio Fernandes, Roberto de Sousa Causo, Geraldo Lima, Ataíde Tartari, Marco Antônio de Araújo Bueno, Lima Trindade, J.P. Balbino, Rogers Silva, Tiago Araújo, Jacques Barcia, Luiz Bras (pseudônimo do próprio Nelson) e Ana Cristina Rodrigues. Dos textos, nem todos são memoráveis. Como os melhores, destaco Concha do Mar, de Roberto de Sousa Causo, pela delicadeza com que abordou a personagem feminina; Uma Vez no Céu Escuro e Brilhante, de Lima Trindade, pelo bom humor; e Pequeno Punho do Outono, de Jacques Barcia, pela originalidade e inspiração da mitologia indiana.

03. A Dança do Universo – Marcelo Gleiser
dança
Este livro funciona como uma breve história do pensamento científico e das descobertas em relação ao cosmos e uma introdução à física, tanto a clássica como a moderna, com detalhes apetitosos sobre os personagens históricos que contribuíram para os avanços da ciência. Para quem acha que cientistas são frios e exatos, Gleiser demonstra uma escrita sensível e divertida, quase romanceada. O cara escreve muito bem – ou teve um excelente preparador de textos. Leitura cativante, fluída e curiosa. Totalmente recomendável para leigos como eu. 😉

04. Chibata! João Cândido e a revolta que abalou o Brasil – Hemeterio & Olinto Gadelha
chibata
Belíssima HQ 100% nacional em P&B que romanceia a história do Almirante Negro, alcunha pela qual ficou conhecido João Cândido, um dos líderes da Revolta da Chibata. No começo do século XX, a Marinha Brasileira era comandada por filhos das elites, enquanto o grosso da marujada era formado por indivíduos de origem muito humilde, em sua maioria negros. Apesar de serem militares e assalariados, eram tratados como escravos, sendo punidos por qualquer infração das regras com chibatatas e períodos na solitária. Insatisfeitos com os baixos salários, as condições miseráveis de vida dentro dos navios e a humilhação física e moral a que eram submetidos, em 1910 os marinheiros formaram um motim. Sem conseguir resultados pelas vias pacíficas, apontaram seus canhões para a Capital Federal (à época, Rio de Janeiro) e o país não pôde mais ignorar sua situação. Mais que uma história de guerra, esse é um dos episódios mais simbólicos e inspiradores da História do Brasil, estranhamente pouco comentado. João Cândido é retratado aqui como um homem simples, honrado e idealista. Um Braveheart brazuca, de vida dura e triste fim.

05. Dom João Carioca – Lilian Moritz & Spacca (HQ)
domjoao
HQ nacional, divertida e leve, se bem que algo didática, sobre a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil e as transformações políticas e sociais que isso ocasionou. O visual é lindo e cartunesco. Dom João VI é mostrado como um rei manso e bonachão, enquanto sua mulher, Carlota Joaquina, parece uma mistura temperamental de Frida Kahlo com Didi Mocó.

06. O Dia em que Troquei Meu Pai por Dois Peixinhos Dourados – Neil Gaiman & Dave McKean (álbum gráfico)
odia
A já consagrada parceria Gaiman & McKean produziu um livro surreal em que um menino literalmente troca o pai, presença nula em sua vida, por um par de peixes num aquário. Por ordem da mãe, é obrigado a desfazer a barganha, apenas para descobrir que o pai já foi trocado por outra coisa com outra pessoa, e outra, e outra. Pode dar sem medo pros seus filhos. Ou pra você. 😉

07. The Wolves in the Walls – Neil Gaiman & Dave McKean (álbum gráfico)
wolves
Mais um produto bonito e surreal do duo. Aqui vê-se o quanto a imaginação das crianças (e a dos escritores) é influenciada por fatos simples do dia-a-dia, como os ruídos característicos das casas antigas, que, na cabeça da protagonista deste livro, são uivos e arranhões de lobos que moram dentro das paredes. Um dia, os lobos decidem sair…


08. Lavoura arcaica – Raduan Nassar

lavoura
Nassar é conhecido como um escritor que revolucionou a narrativa em língua portuguesa. E revolucionou mesmo: praticamente não usa pontos-finais, travessões em começo de falas e outras divisões que não vírgulas. É preciso que o leitor se habitue ao seu ritmo e forma não-linear de construir sua obra para apreciá-la. Lavoura é uma história instigante e rápida sobre um rapaz que abandona sua família numerosa e tradicional em uma fazenda e vai morar numa pensão na cidade. Quando o irmão mais velho vai buscá-lo, começamos a descobrir, muito aos poucos, as razões de sua fuga. É um retrato delicado e ao mesmo tempo brutal da hipocrisia familiar, da casa transformada em um reino onde o pai é a máxima autoridade, dos desejos insaciados e impronunciáveis. Do autor eu já tinha lido Um Copo de Cólera, que, apesar das belezas estilísticas e do realismo dos personagens, achei pouco proveitoso como história (a novela inteira é uma briga de casal). Nassar parece priorizar a forma sobre a trama, algo que a literatura, como arte, permite. Se é bom ou ruim, vai depender do gosto de quem lê.

09. Busca nos Céus – Frederik Pohl e C. M. Kornbluth
busca
Coisa de sebo, da clássica Coleção Argonauta. Aqui, perdeu-se a tecnologia de viagens interestelares que transformava os anos-luz em poucos dias e que há séculos permitiu que diversos planetas fossem colonizados pela raça humana. Num desses mundos, os habitantes aguardam a chegada de naves que viajam por centenas de anos, onde gerações inteiras se desenvolvem e morrem e as regras sociais são primitivas e infantilizadas. Essas naves são o único meio de comércio entre os vários planetas colonizados. Não há outra comunicação entre eles, a economia depende das parcas novidades de 200 anos atrás para se manter e, com isso, todas as colônias encontram-se estagnadas, à beira da decadência. Um dia um rapaz, numa dessas colônias, obtém acesso a uma nave capaz de finalmente realizar as jornadas na velocidade da luz. Com ela, viaja até os outros planetas habitados por humanos, inteiramente desconhecidas do seu, nos quais existem sociedades bizarras, uma mais absurda do que a outra. Um mundo onde crianças e jovens trabalham como escravos até os 30 anos, quando então podem freqüentar a escola, e velhos capengas são a elite social e intelectual de um regime tirânico. Outro em que mulheres dominam os machos numa espécie de ditadura feminina que, apesar de ser um baita clichê, fornece momentos engraçados (por irônicos), em que homens são assediados sexualmente, aprisionados por dissidência política e relegados a subempregos por sua pouca capacidade intelectual, moral e física (?). Outro em que uma sociedade de semideuses humanos se dedica a… bom, se tiver chance, confira você. Não posso traçar comparações com outras obras de Pohl e Kornbluth por ser esta a primeira que leio. Mas diverte e faz pensar. Mais que uma obra de FC, um ótimo livrinho de comédia que ironiza os excessos da condição humana, passando pelo respeito irrestrito aos mais velhos, os crimes do sexismo, a busca desenfreada pelo prazer e a obsessão pela idéia de que só igual é bom, diferente não presta.

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6 comentários sobre “Leituras de 2009 – janeiro a março

  1. Bacanas suas dicas, Mila! Gostei principalmente das dicas de HQs, bem que estou precisando ler umas boas mesmo…
    Um do Pohl que recomendo é algo chamado Portal das Estrelas, não me lembro bem, mas é bem legal.
    Até que enfim tu terminou a dança do universo hein? rs Bom, com licença que vou botar alguns desses livros na lista de empréstimos a fazer =)
    Bjos!

    • Gi, o mundo das HQs não vive só de super-heróis americanos, tem muuuuuita coisa boa e diferente, não só em álbuns europeus e mangás, mas também, como pode ver, boas opções brazucas!
      Meu véio deve ter esse do Pohl, ou algum outro. Vou pedir! Ele é minha fonte direta desses livrinhos. Valeu pela dica!
      Agora, “até que enfim” é meio exagerado considerando que estamos em agosto e essa foi uma lista das minhas leituras só até março, eheheheh. 😉
      Tenho lido bem menos do que gostaria, mas tanto quanto posso, e na medida do possível continuarei publicando mini-resenhas.
      E não esqueça de me cobrar os livros do Bernard Cornwell quando você for em casa!
      Valeu pela visita.

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