Doença de escritora

blah

Há quanto tempo ela me assombrava? Dez, quinze anos? Perdi a conta.

Havia um rosto. Eu o moldara repetidas vezes, obsessivas vezes, a grafite e nanquim. Não era o meu rosto. Era o dela. Mas também era meu. Ela existia somente na minha imaginação, para minha fantasia, meu deleite. Era o barro ao qual eu soprava vida, prazer, tortura se quisesse. Um Judas para malhar sem maiores consequências em meus momentos sádicos. Uma deidade para adorar sempre que necessário. Meu títere. Existia para mim.

Ou será que eu é que existia para ela?

Ocasionalmente os papéis se invertiam. Era quando, deitada com o caderno, cotovelo formigando enquanto a mão escrevia teimosa, alheia aos queixumes do mau jeito, eu a sentia pairar sobre mim como um leitor não convidado que se debruça xeretamente sobre o ombro de quem escreve. Algo em mim suspirava e partia para longe e algo que vinha desse longe se aproximava e ocupava o posto vago. A letra mudava, serpenteando ilegível pelas páginas como uma receita médica infinita sem nenhuma consideração para com o paciente. Ela tinha chegado. Estava no comando.

E eu, que no sono sempre tive meu remédio, encontrava na insônia um veneno sem antídoto outro que não escrever.

E escrever.

E escrever.

E escrever.

Anúncios

5 comentários sobre “Doença de escritora

  1. Puxa, teve insônia ontem? =( Bom, uma ou outra noite mal dormida não faz mal…
    Anyway, escrever em qualquer situação é um excelente remédio. Panacéia universal?

    • Meninas, eu não costumo sofrer de insônia; ao contrário, normalmente é só encostar e puxar aquele ronco. Mas tem noites em que, bem, “ela” aparece. E acho que não vai sossegar enquanto eu não escrever sua história. :-S

      Lu, aproveita pra escrever! A insônia tem que ter uma razão de ser, né? 😉

  2. interessante isso, vc criou uma personagem para ir te acompanhando enqto vc escreve noturnamente…
    espero que seja uma companhia boa. se for assim, me manda, que eu tb adoro escrever para pessoas ou egos ou personagens… acredito piamente que a arte é uma arte do diálogo.
    bj e ótimo dia
    udo

    • Às vezes acho que não criei nada, Udo. Ela apareceu espontaneamente na minha mente. E me acompanha dia e noite, quer eu queira, quer não. :-S

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s