Ceticismo & Fortianismo

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Tirinha do site O Cético, de Thiago Lobo e Michelson Borges e forte orientação criacionista. O personagem Cético vê o ceticismo com muita ironia e… ceticismo.

Todo mundo sabe que o cético é aquele sujeito que não acredita em nada que não tenha uma explicação lógica. Isso é suficiente, num contexto superficial, para compreender quem é o cético. Mas e a sua contraparte, o fortiano? Ei, que raio é um fortiano? Comecei a ver esse termo em diversos endereços internéticos dedicados a cultura, ciência e desmistificação de pseudociências, como o Ceticismo Aberto e a coluna Dúvida Razoável do Sedentário & Hiperativo. Mas, confesso, boei: não tinha idéia do que significava. Parecia vagamente que o fortianismo é uma corrente contrária ao ceticismo. Mas será que um fortiano é simplesmente um crédulo?

O buraco é mais embaixo e o saber compensa. No excelente artigo “Ciência, Fortianos e Céticos”, do escritor inglês Steve Dewey, traduzido pelo pessoal do Ceticismo Aberto, a diferença se torna mais clara e os conceitos, mais abrangentes.

Aqui, trechinhos apetitosos:

“De muitas formas, os Céticos e os Fortianos são lados opostos da mesma moeda. São os Fortianos que descobrem e defendem os ‘dados’ que os Céticos então analisam. Ironicamente, são os Fortianos que mais se aproximam em espírito ao cepticismo clássico. Fortianos clássicos – aqueles que seguem a filosofia de Fort à risca – rejeitam explicações dogmáticas de fenômenos quer elas venham da ciência ou das ciências humanas.”

Grosso modo, se o cético é aquele cara que não acredita em nada, o fortiano é aquele que não duvida de nada. Uma postura saudável, talvez? Mas é impossível evitar a impressão de a maioria das pessoas na verdade é “fortiana” por pura falta de informação. Via de regra, por preguiça de procurá-la. 😛

“Enquanto o Fortianismo serve para lembrar a ciência de que nenhuma teoria está acima da dúvida e que o conhecimento é provisório, ele serve a um propósito ‘bom e saudável’. (21) Porém, quando ‘um Fortiano acredita seriamente que todas as teorias científicas são igualmente absurdas, todo o humor rico da Sociedade dá lugar a uma desdém ignorante’.”

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, hein? Dúvida e crença são forças complementares.

2008-09-05-desvio13
Desvio é uma tira sobre… tudo! De A. Moraes e Jean Okada, que você pode apreciar no Quarto Mundo.

Invista um tempinho do seu dia para ler o artigo (afinal, são mais de 35 mil caracteres que valem uma boa vista d’olhos).

Para mim o texto serve no mínimo como estimulante mental. Até eu, atéia não-militante, creio em coisas. Por exemplo, acredito que o vegetarianismo é um caminho para uma vida menos agressiva e que ainda dá tempo de salvarmos o planeta que nossa civilização insiste em vampirizar. Mas também não sou dona da verdade. É… até os céticos têm fé em alguma bobagem. 😉

Se você é alguém que se considera cético e racional, mas ao mesmo tempo se interessa por tudo o que parece inexplicável e além do alcance da compreensão humana, espero que o artigo mexa com sua forma de ver as coisas, assim como fez com a minha.

Mas, se o tempo estiver curto, leia este artigo ótimo e rápido de Marcello Truzzi sobre o pseudo-ceticismo, no mesmo site.

“Verdade absoluta, como justiça absoluta, raramente é alcançável. Nós podemos apenas fazer o melhor que podemos para nos aproximar delas.”

2008-09-02-desvio10

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15 comentários sobre “Ceticismo & Fortianismo

  1. Hey, assunto interessante esse! Me fez lembrar do papo que tivemos sobre acreditar ou não em alguma coisa e que crenças não são self-service.
    Tô meio que com preguiça de ler os artigos hehe, mas estão abertos, vou começar a lê-los. E boas as dicas das tirinhas (se bem que estão um pouco pequenas, não? rs).

  2. Giseli, você tem razão, as tiras estão pequenas e por alguma razão ainda não descobri como aumentar sua visualização (no melhor estilo “clique para ampliar”). Espero que dê para ler assim mesmo. Ou que eu me entenda o suficiente com o WordPress para arrumar a bagaça. 😛

    Sabe, eu acho que crenças podem ser self-service – você pega aquelas de que gosta e descarta as que não lhe servem, sem se comprometer com alguma seita, rs. O que acho bizarro é filiar-se a uma religião institucionalizada mas tratá-la como um bifê, isto é, precisar de um rótulo religioso e social, mas não assumir tudo o que ele acarreta. Hipocrisia, né?

    Obrigada pela visita… beijos!

  3. Eeeiii, que legal!!
    Eu nunca tinha ouvido falar em fortianismo…
    As tiras estão pequenas sim, mas deu pra ler!
    E obrigada pela sua presença ontem, fiquei muito feliz por ter vc lá!
    bjooo

  4. Uma das poucas certezas que eu tenho é de que as pessoas PRECISAM inventar correntes e contra-correntes de pensamento para terem assunto sobre o qual querelar, brigar, guerrear e assim enganar o tédio por alguns momentos.
    Parece que a discórdia é inerente à humanidade.

    Desde que li Richard Dawkins sinto uma total indisposição pra entrar nesses debates.

  5. Vivi, eu também não conhecia. Gostei de passar a compreender o significado de um conceito que vem sendo uma constante em algumas de minhas leituras na web, rs! As pessoas rotulam e comparam para compreender e, na maior parte do tempo, para tomar partido. Mas isso me leva à minha frase preferida no momento… Pra que dividir quando a gente pode multiplicar?

    Cris, você está certa. Na Pré-História já brigávamos por comida e território, hoje não é diferente. Todo grupo deseja supremacia sobre os outros. Hoje a supremacia não é apenas física ou biológica, é ideológica e intelectual. Por que partidários de diferentes religiões se matam? Por que torcedores de times adversários de futebol se matam? Por que o fato de o outro ser diferente parece agredir tanto?

    É por saber que essa mania de discórdia existe em cada um de nós – acho que nem você nem eu estamos livres dela – que tento ser racional e enxergar os vários lados de uma questão, não só aquele que me convém. Não é aceitável viver num mundo onde tudo tenha de ser preto ou branco.

    É por isso que, num texto sobre ceticismo, inseri uma esperta tirinha criacionista. Os seus realizadores são membros de uma igreja adventista.

    É por isso que acredito que o saber compensa e que gosto tanto da história de “O Ornamento do Mundo”. O que me leva novamente à minha frase preferida.

    Como escritora, quero mais é explorar essa e outras facetas selvagens e permanentes da humanidade e, de preferência, expô-las ao ridículo.

    😉

  6. Artigo interessante, eu também não conhecia o “fortianismo”. Acho que toda discussão com certo embasamento dos dois lados é válida. Gostei do toque sobre imformação.

  7. Qual foi a intenção ao escrever o texto? Não tomou nenhuma posição, não incitou nada de mais. Citar autores como Geisler e Turek parece hobby de todo “blogueiro” que fala sobre esse tipo de tema. A coisa ficou inocente, esse “meio” não aceita isso, as coisas têm de ser de um modo contundente, imparcial esse tipo de tema não é para romancista nem “adolescentes”. A não ser que… bom, assim como FMD vou me dar o direito de deixar a frase incompleta. Acho que o deve “conhecer”!

    • Olá, Mal-Humorado! Dá pra ver que você faz jus ao seu codinome, rs! Leia os comentários dos leitores a este post e minhas respostas a ele e a intenção do texto ficará mais clara pra você. Pra mim, pensar e repensar é mais saudável do que ser eternamente convicto. Existem várias formas de se ver um tema, mas pessoas convictas tendem a achar que só a sua forma é correta. Felizmente, tenho o direito de analisar um tema com calma, ser “inocente” e não levantar bandeiras apenas pelo prazer de contrariar alguém. Há vários sites, que você provavelmente “conhece”, que vão corroborar seu ponto de vista ou contradizê-lo da maneira “contundente” que você espera. Procure-os! Ou tome um suco de maracujá. 😉

  8. Adorei seu post e me identifiquei muito com sua forma de pensar. Não conhecia o fortianismo mas me interessei muito pelo assunto. A parte que mais gostei foi quando disse que o Cético é aquele que não acredita em nada sem uma explicação lógica ao passo que o fortiano não duvida de nada. De certa forma são parecidos… mas o fortianismo me pareceu algo atraente. Sempre gostei do ceticismo, mas este post me fez ter dúvidas se é realmente o que eu quero. Muito bom!

    • Oi! Obrigada pela visita e pelas palavras. Acho que questionar-se de vez em quando é uma atitude saudável!

  9. Pessoalmente, creio que há muito “cético” que está mais para um fortiano ás avessas, isto é, que não acredita e pronto. No sentido popular, pessas assim são chamadas de “céticas”, mas esta não é definição adequada. Um cético é alguém que pede coerência numa afirmação para poder tê-la como verdadeira. Alguém pode acreditar em ETs e ser cético, desde que tenha tido boas provas compatíveis com a lógica e o bom senso… Da mesma forma, agnósticos são céticos, e ateus e teístas não são…

    Por fim, só me deixe avisar que as tirinhas “O Cético” não têm nada de ceticistmo: São tirinhas criacionistas que usam este nome para não denunciar o intento religioso àqueles que não conhecem seus autores. (Aos que duvidarem, busquem seus nomes no Google…)

    • Oi, Ravick! Obrigada, mas não precisa avisar sobre a tirinha “O Cético”. Sua natureza criacionista fica bem óbvia para qualquer um que a leia. Eu achei o exemplar que publiquei aqui muito engraçado e, mesmo sendo ateia, não vi motivo para negar representação à corrente contrária, especialmente se ela também sabe se expressar com bom humor. 🙂 Obrigada pela visita.

  10. Pingback: Tirinhas « Fórum Ateus do Brasil

  11. Gostaria de clarificar uma coisa sobre a qual rapaz acima se equivocou:

    Agnosticismo é uma posição filosófica relacionada ao conhecimento em relação à questões metafísicas, como a existência de deuses, por exêmplo, e sim, ela tem ligações com idéias do ceticismo.

    O erro está em achar que o agnosticismo é uma terceira posição de crença (neutra e cética), e que as outras não o são, é um equívoco comum.

    Quando se fala de posições filosóficas relacionadas à crença em deuses, há duas opções: o teísmo (a crença em deus) ou o ateísmo (a ausência do teísmo para um ou mais deuses).

    Ateísmo: A (ausência), theos – grego para “deus”.

    Tanto o teísmo e o ateísmo podem se abster da afirmação da existência ou inexistência OU não.

    No caso do ateísmo positivo há a afirmação de que tais deidades não existam, e no teísmo positivo a afirmação de que existam.

    O ateísmo negativo (também chamado de ateísmo CÉTICO) não se vale da idéia de fazer afirmações, pelo contrário, se permite a dúvida.

    Temos que lembrar que não crer não implica negar.

    Espero que minha explicação possa ajudar.

    Abraços.

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