O lado sombrio de todos nós

A Lua pode parecer luminosa para quem a vê no céu, mas esconde uma outra face na sombra.

Minha amiga Viviane Yamabuchi é uma pessoa adorável que possui um blog assustador. Há! Assustador para quem passa por ele sem se ligar que mesmo os mais agradáveis entre nós têm um lado sombrio que, via de regra, preferem não exibir. É sempre espantoso deparar-se com ele de supetão, ali, bem na tela do nosso computador. É que às vezes nos vemos espelhados na escuridão de outro, que teve a coragem de assumir e exibir seu monstro interior. E deparar-se com ele é sempre aterrador.

Não costumo abrir a porta para meus monstrengos saírem pelo mundo, assim, à luz do dia (ou melhor, do monitor). Embora este blog contenha alguns contos de terror, que considero como gestos de auto-exorcismo, sua função primordial não é a de expôr desabafos. Peitar o outro eu olho no olho? Não é todo dia que tenho estômago para isso. Nem sei se é produtivo. Mas, inspirada pelas maravilhas e horrores (rs!) do Coquetel de Personas, o blog da Vivi, resolvi ressuscitar um texto meu escrito em 2005. Vai me trazer algum bem? Vai me fazer mal? Não sei. Mas não vou apagar o que escrevi. Curtam! Ou não. Só não me julguem. Afinal, quem nunca errou que aperte a primeira tecla!

O medíocre

Invejo a sua noite de sono. Invejo o seu travesseiro que nunca se ensopou de lágrimas.

Invejo tudo o que você é. Porque te amo. Tenho a vergonha e o privilégio de ter sido a primeira a te fazer chorar.

Eu sou todos os maridos brochas que tarde da noite viajam nos corpos imaginários de outras mulheres. Sou todas as donas-de-casa que sonhavam com maridos perfeitos e hoje acumulam gordura, desgosto, lágrimas de fim de tarde. Sou uma ode à mediocridade.

Falo demais. Quisera dizer tanto quanto falo.

Sou todos os adolescentes de trinta que não perderam seus complexos, não
venceram seus valentões, não conquistaram suas garotas populares e substituíram as espinhas no rosto pelos pneus na cintura. Sou todas as mulheres mal-resolvidas, estagnadas, perpetuamente descontentes. Todos os homens infantilizados, saudosistas, atolados no próprio passado, sem saco pra crescer.

Sou aquela que olha para o belo e murmura: se pudesse, te destruiria. Odeio o belo. O belo que sabe que é belo, este ainda mais. Mas nenhum eu odeio mais do que o belo que é mais do que um rostinho bonito. Uma mente brilhante. Uma personalidade carismática. Uma presença irresistível.

Dos feios eu gosto. Dos imbecis. Dos desamados. A estes posso perdoar. A estes posso pedir sem prévio rancor:

Aniquilem-me.

Esmaguem-me em todos os pombos que não saem da frente dos carros em alta
velocidade.

Pisoteiem-me em todos os chicletes cuspidos na rua.

Fechem na minha cara as portas diante das caras de todos os pedintes.

Espirrem no meu orgulho o gozo engolido por todas as prostitutas.

Sim, aniquilem-me. Humilhem-me. Reduzam-me. Tornem-me minúscula, invisível, atômica, façam de mim algo que não se pode perceber. Acabem com o que sou.

Permitam-me não ser. Tragam-me álcool. Cigarros. Coisas de cheirar ou de injetar na veia. Coisas que me separem de mim. Que me percam. Que me evaporem.

Eu nunca quis morrer. Só gostaria de inexistir. Por alguns instantes, apenas. Se me fosse dado dormir esta noite. Tudo seria diferente amanhã se eu pudesse dormir. Deus! Se eu pudesse não ser eu apenas pelo tempo de uma piscadela. Uma piscadela e um sonho de amor e perfeição.

Um sonho de aniquilação. Um surto. Um erro. Uma falha de programação. E mais nada.

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11 comentários sobre “O lado sombrio de todos nós

  1. Camila, amei!!!! Definitivamente, vc é alguém que me entende!!! 😉
    Que nossas trevas, ao serem expostas, sejam dissipadas!! Amém!

  2. Ahhh, e obrigada pelo post dedicatório!!! 🙂
    Fiquei lisonjeadíssima!! E muito feliz!!!!
    bjs obscuros

  3. Vivi,
    Você sabe, quando eu gosto, falo mesmo!
    Quando não gosto, saio de fininho… rs.
    Que nossas trevas procriem, muié. De preferência na arte.

    Eric, é esta Vivi mesma.
    Fica arrasado, não! Acho que todo adulto tem assuntos típicos de aborrescência mal-resolvidos. Um é porque ainda não aprendeu a não ser capacho dos “valentões”. Outro continua cheio de complexos com a aparência. Outro não se emancipou dos pais. E ainda tem aquele imaturo que vai continuar com cabecinha de 15 anos até a morte. Rs! Será que um dia seremos adultos? Sabe, eu espero que não! Crianças são tão criativas. 🙂

  4. Vivi, eu também, mas de preferência sem espinhas nem pneus. Rs!

    Lu, obrigada pela visita, que bom que gostou!

  5. Ugh! Realmente um soco na cara!! Mas acho que a gente tem que expurgar mesmo algumas coisas que andam por dentro da gente. E muitas vezes, quando relemos coisas do passado, vimos o quanto mudamos. Ou não…
    Melhor mudar, né?! rsrsrs

  6. Camila,
    cá estava eu pesquisando como migrar meu portfólio do blogspot para o wordpress e me deparo com seu conto.
    Adorei, vou indicar o link para uns amigos.
    Prosperidade para você!
    Um abraço
    Cris Carnelós

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