O ornamento do mundo

Nada como diálogos estimulantes! Esses dias, falando com a amiga e escritora Cristina Lasaitis, me bateu saudade de uma época em que eu tinha mais tempo para pesquisar e escrever. Mais precisamente, senti ganas de ler pela terceira vez um certo livro…

Um jovem príncipe tem sua família inteira dizimada por rivais em busca do poder. Para não enfrentar o mesmo destino, o rapaz foge, percorrendo desertos e áreas tribais, até a rude periferia do que antes fora seu império, onde possa ser deixado em paz por seus inimigos. Mas, longe de passar o resto da vida em amargo exílio, o moço trata de reerguer-se ali mesmo, naquela terra estranha, povoada por uma mistura desorganizada de grupos étnicos e religiosos. O príncipe ordena, constrói, planta, cultiva, atrai novos colonizadores, aliados, comerciantes, sábios de todas as áreas… e funda um novo reino que seria reconhecido, a quilômetros de distância, como o ornamento do mundo.

Não se trata da mais nova saga de fantasia. Esta é a história verídica de Abd al-Rahman, que no século VIII viu sua casa real, a dos omíadas, ser derrubada pelos abássidas, que tomam o poder do então florescente Império Islâmico. Transferem sua capital de Damasco para Bagdá, o mais longe possível do território e dos resquícios culturais que restam do arruinado Império Romano, e Abd al-Rahman foge para proteger sua vida até ir parar num lugarzinho habitado por uns poucos berberes convertidos ao islamismo, visigodos cristianizados, judeus reduzidos a condições de quase-escravidão e uma população rural pagã, mescla de celtas, fenícios, gregos e romanos. Como província do Império Romano, o lugar era conhecido como Hispânia. Os islâmicos passariam a conhecê-la como al-Andaluz.

abderramao
Estátua de Abd al-Rahman I – ou Abderramão (argh!) na cidade de Almuñécar.

É daí em diante que a história do mundo muçulmano se divide em duas. A oficial é aquela sediada em Bagdá, o centro de poder do califado. A outra ocorre na antiga cidade visigoda de Khordoba, agora Córdoba, que rapidamente se torna um emirado – um estado menor dentro do califado, controlado por um emir – e aos poucos ganha vida própria, autenticidade e legitimidade, até o ponto em que, no século X, Abd al-Rahman III, descendente daquele príncipe fugitivo, proclama sem mais delongas o Califado de Córdoba – reino inteiramente independente, luminar do Velho Mundo.

cordoba
A Grande Mesquita de Cordoba, hoje Catedral. Do site Tenda Árabe.

A linha de Bagdá, em mãos dos abássidas, é considerada a “oficial” porque, no final das contas, permaneceu, enquanto que al-Andaluz, além de ter uma sociedade bastante distinta, deu certo por “apenas” 700 anos. Nesse tempinho de nada, os muçulmanos do local seguiram à risca a regra básica do islã que diz que os Povos do Livro, ou dhimmi – judeus e cristãos – não devem ser agredidos e sim protegidos. Por acreditarem no Deus do Abraão bíblico, do qual tanto muçulmanos como judeus e cristãos descendem religiosamente, são como que parentes espirituais. Em al-Andaluz, os adeptos dessas três religiões perceberam que multiplicar era mais próspero que dividir. Assim, aliaram seus conhecimentos e especialidades em todas as áreas do comércio, da ciência e da arte e criaram uma sociedade sem precedentes no mundo. Enquanto o resto da Europa se afundava na chamada “Idade das Trevas”, al-Andaluz iluminava tudo ao seu redor com os avanços culturais e científicos possíveis apenas numa sociedade orientada para a tolerância e o progresso. Nunca houve nada como ela antes – e nunca haveria depois.

Claro que nem tudo foi um sonho dourado. Houve escaramuças entre uns e outros por motivos religiosos, incluindo mortes e mártires, e na dissolução do Califado o poder foi tomado por correntes muçulmanas fundamentalistas vindas do norte da África, o que restringiu bastante as liberdades pessoais dos cidadãos. Mas nada disso reduziu ou intimidou os avanços andaluzes em todas as áreas. Quando al-Andaluz se fragmentou em taifas, espécie de estados muçulmanos independentes, a coisa virou uma espécie de Itália Renascentista: pequenos reinos que brigavam o tempo todo entre si não por ideologia ou religião, mas por simples supremacia territorial e cultural. Será que sociedades bélicas se tornam mais criativas? Se a Itália e al-Andaluz servirem como base, podemos dizer que a rivalidade e a competição militar entre estados servem como estimulante à criação intelectual e artística. Nessa época, longe de estarem interessados na dita “Reconquista” – a retomada pelos cristãos dos territórios espanhóis dominados pelo islã – os reinos do norte, de origem visigoda e orientação cristã, eram tanto amigos como adversários dos taifas. Freqüentemente um reino cristão se aliava a um islâmico para atacar um inimigo comum e vice-versa. El Cid, lendário herói espanhol, lutou tanto ao lado de cristãos como ao lado dos “mouros”.

Embora desde o começo fosse vantajoso, política e socialmente, converter-se ao islã, não havia pressão (ou opressão) sobre os adeptos das outras duas religiões “do livro”. Casamentos entre príncipes árabes e princesas visigodas realizavam-se com tranqüilidade, resultando, anos depois, em curiosos muçulmanos de olhos azuis e cabelos claros circulando pelos jardins dos palácios. Um judeu chegou a ser vizir do califado, cargo equivalente ao de primeiro-ministro. Um bispo era o homem de confiança do califa, sendo enviado como emissário à corte de Oto I, sacro imperador romano-germânico, e precisamente o responsável pela descrição das inigualáveis riquezas materiais e intelectuais que a monja saxã Hroswitha de Gandersheim transcreveu no século X, apelidando al-Andaluz de “o ornamento do mundo”.

ornamento

Esse apelido é o título de um livro da filóloga cubana María Rosa Menocal, lançado pela Record em 2004. Novamente, não tenho o hábito de escrever resenhas, mas este texto é minha frágil tentativa de mostrar quão reveladora, bela e emocionante a obra é. Numa prosa graciosa e ao mesmo tempo precisa e clara, a autora narra “como muçulmanos, judeus e cristãos criaram uma cultura de tolerância na Espanha Medieval”, cultivando as obras dos sábios gregos, então perdidas para o resto da Europa; venerando e praticando a poesia; construindo palácios, mesquitas, sinagogas e igrejas numa fusão inigualável de estilos arquitetônicos; etc. etc. Etc. A biblioteca do califa era apenas umas das 70 que se espalhavam pela cidade de Córdoba. Possuía 400 mil volumes. E enquanto o resto da Europa despejava seus excrementos nas ruas, os cordobenses tinham água encanada e banhos públicos, alimentados por aquedutos bastante parecidos com os dos romanos.

María Rosa é uma ágil narradora e parece perdidamente apaixonada por al-Andaluz. Não trata cristãos como vilões e islâmicos como mocinhos, nem o contrário. Também não doura a pílula, expondo tanto as belezas como as falhas daqueles 700 anos de história. Conta como aquela sociedade inimitável se originou, prosperou, padeceu com disputas internas e entrou em decadência, sendo afinal sobrepujada pelas forças cristãs. Os famosos monarcas Isabel e Fernando, os mesmos que financiaram a viagem de Colombo pelo Atlântico, concluíram a Reconquista da Península Ibérica. No mesmo ano em que Colombo descobriu a América, os Reis Católicos derrubaram Granada, último bastião do islã, e expulsaram judeus e muçulmanos de suas terras, confiscando seus bens materiais e tornando-se herdeiros de suas realizações culturais, abrindo caminho para a Era de Ouro da Espanha. Infelizmente, uma Espanha bem menos tolerante do que aquela que nos é apresentada no começo do livro.

Esse é precisamente o tipo de livro que nos transporta para longe da realidade diária, para uma época e lugar de sonho. Quem já me viu falando sobre ele sabe que me vêm lágrimas aos olhos quando falo do que aprendi ao lê-lo. Não é tristeza; talvez saudade do que não vi. Não é angústia; é pura emoção por poder escutar ao menos eco de tudo o que al-Andaluz foi.

Leitura mais que recomendada.

Ah, sim: o motivo da minha leitura não é mera curiosidade. Esse livro faz parte de uma pesquisa de longa data (e momentaneamente interrompida) para um daqueles meus romances encalhados. Uma parte da história deve passar-se na Espanha durante o domínio muçulmano. O ambiente promete. E não é leitura pra banheiro ou ônibus. É livro pra se ler com um caderno de anotações ao lado, um novo dado relevante a cada página! 😉

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4 comentários sobre “O ornamento do mundo

  1. Belo post, Mila! =)
    De fato, a história da civilização islâmica é rica e interessante, principalmente as partes que se referem à Espanha antes da Reconquista… Putz, quero ler esse livro! Depois você me conta mais coisas sobre ele?
    E muié, escreve logo esse romance, vai! rs

  2. Nega, você anda escrevendo pra caramba no seu blog, hein?!
    Que bom ver que conversas suscitam idéias mirabolantes, ou antes, idéias perfeitamente possíveis e que te trazem certa felicidade. Como a sua pesquisa.
    Anteontem nós pincelamos sobre o assunto, mas não deu tempo de vc falar muito. Sinto… parece que você foi meio que tesourada pelo estouro da boiada do metrô.
    Mas a gente conversa sobre isso na próxima! Pois acho que dá pano pra manga. E é um assunto demais da conta!!
    bjs

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