2008

Mais ou menos como uma daquelas viagens marítimas de descobrimento do século XV em que o vento não sopra na direção certa, o calor é insuportável, a comida acaba em alto mar, as doenças proliferam a bordo e há ameaça de motim, mas ao final chega-se a uma terra prenhe de possibilidades, que até então só existia nos sonhos mais loucos do capitão. Foi assim o ano de 2008 para mim. Em toda jornada há perdas e ganhos inesperados. Nessa, não foi diferente. Se não aprendi muitas coisas sobre o mundo, aprendi um bocado sobre mim mesma, o que já conta para, na próxima, fazer diferente.

Algumas dessas coisas são daquele tipo óbvio, que todo mundo sabe, mas só assimila de verdade na marra.

Aprendi que não sou nem tão generosa nem tão capaz de tudo quanto eu imaginava. E não preciso ser. Tudo bem ser egoísta de vez em quando.

A culpa é um mal poderoso a ser combatido. Uma doença, um tumor. Um bem que só se faz por culpa não é um bem genuíno. Este não vem da culpa e sim da consciência, do afeto, da paixão pelo simples prazer de realizá-lo. Infelizmente, para algumas pessoas só a culpa impulsiona.

Convivo muito melhor com a saudade do que com a dependência. Quero ser apreciada por quem aprecio, mas não suporto ser imprescindível. Gosto de te ajudar, mas saiba se virar sem mim. Não quero cuidar de você, só quero sua companhia. Ser sua amiga, mas nunca sua mãe. Sou livre, irresponsável, aguém que esquece os deveres e passa a noite na rua – ainda que tenha plena capacidade para ser o contrário disso. É o que sou. O que quero. Não tome isso de mim. Eu morreria na gaiola.

Aprendi que dentro da minha cabeça habitam mais problemas do que no mundo de fora. A mente mente. Não aprendi ainda como exterminar essa praga. Aprendi que em meu coração não cabe tanta coisa que eu possa pôr nele tudo o que merece estar lá sem o risco de explodi-lo. Frívola?

Com freqüência meus desejos são feito velas de bolo de aniversário: você acende, elas soltam mil faíscas maravilhosas e morrem rapidinho, antes, talvez, que você tenha a chance de soprá-las. Por outro lado, tenho a obsessão. E não existem obsessões pequenas ou de curta duração. Paixão é avalanche. Repercussão máxima.

Em minha alma não há a constância do lago nem a determinação apressada do rio. Somente as ondas do mar. Que vêm, vão, levam o que já não serve, trazem surpresas e, às vezes, o passado de volta à margem da consciência.

Eu surfo, eufórica e sempre. Subo e desço no lombo da maré ou soterrada sob seu peso. Tudo é muito. E nunca é o bastante. Alegria? Sim. Satisfação? Jamais.

Meu sofrimento não dura. Minha felicidade, também não.

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6 comentários sobre “2008

  1. Não sei se fico feliz ou triste pelas partes que me identifiquei. E culpa é coisa de mané, que bom que você se livrou dela =) Bjs!!!

    ps. minha gaiola tem bastante espaço, tá! humpf.

  2. Por que será que eu me identifiquei tanto com este texto? 😀

    Arrazou Mila!

    Bjitos,

    Loo, feliz em saber que não é a única “doidinha” (sim, eu sou modesta) do pedaço.

  3. E eu era o marujo nessa nau que estava encarregado de lavar o chão para a capitã… hehehe mas eu quase nunca lavava! Serve lavar a louça?

    beijão

  4. Eric, olha pelo lado bom: não estamos sós na nossa loucura (se é que há algo de bom em se ter mais do que um único louco no pedaço rs). Mas ei, quem falou que eu me livrei da culpa? Ainda estou trabalhando nisso e, até lá, continuarei mané, rs. Com alguns bons anos de lucro para um terapeuta, talvez.

    Lu, a gente é doida mas eles gostam. 😉

    Marujo David, trate de esfregar bem esse chão ou será punido com o pagamento de práticas sexuais aviltantes para sua pessoa – à capitã!

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