Velha

De 1995 a 1999, escrevi muita poesia. O suficiente para juntar tudo em dois documentos que eu tencionava transformar em livros. Tinha até prefácio. Por razões diversas, abandonei a idéia.
Muito não necessariamente significa bom. A maior parte do material era extremamente rebuscada, com versos longos demais e métrica caduca ou ausente (nenhum problema com os versos brancos, o problema é forçar uma rima ao ponto do absurdo, rs). Mas há uma parte desses poemas que considero aproveitável, especialmente considerando o quanto eu era crua e jovem quando os compus.
Aqui segue um deles, de 1998.

Velha

Sou velha. Nos vincos de meu rosto
Dormem os nomes de meus amores;
Na tez macilenta jazem dores:
Herança de um gozo pressuposto.

Na curva indigente da verruga
Rola a lágrima, que na secura
Da pele experiente se enxuga,
Como um mal que sozinho se cura.

Olhares dolentes, de esguelha,
São-me oferecidos; sou idosa:
Silhueta lassa e lacrimosa
Que a alma de tanta gente espelha.

Comigo, importo-me muito pouco;
Não sou beata de vossa igreja
E a indiferença me sobeja
Aos que seguem visionários loucos.

Pouco se me dá que me olheis
Com sorrisos tímidos e largos;
Se hoje vós sois, por vitais leis,
Doces, amanhã sereis amargos.

Ríeis do meu arroubo ranzinza?
Temei a profana casquinada
Com que honro a troca efetuada
Entre rubra infante e velha cinza!

Teus gostos, um dia, foram meus,
Mas, ora, exacerbo-me à toa,
Namorando arcaicos camafeus;
Não há o que me alente ou já me doa.

Na ausência de lábios e meiguice
– Uns, ralados da guasca dos anos,
Outra, extirpada pelo que disse
Ao peito a voz grave dos enganos –,

Espraio-me ao sol senil da idade;
Folgo da arenosa consistência
Destas rugas, cuja faculdade
É deixar-me à flor da decadência.

Hei de estar assim, silente e queda,
Ícone de mil temeridades,
Engendrando, entre vis veleidades,
Iscas para quem de mim se arreda.

Do início das raças fictícias
Ao fim das verdades animais,
Do alto da mágoa aos pés da delícia,
Estou cá desde sempre até jamais.

Sei que a insaciedade já me estoura
E, antes que a plenitude me leve,
Eu quero ser eternamente breve
E efemeramente imorredoura.

Sou eu mesma a torpe legatária
Da poeira dos risos que eu rir;
Sou velha: uma fera temerária;
Sou velha: acostumada a ferir.

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