O jogo da meia-noite

conto de 2005

Photobucket

Meia-noite. O jogo acontecia quando eles voltavam sóbrios, ansiosos por serem só dois amantes sob um dossel, sem multidão.

Diante da penteadeira ela limpava o rouge, o rímel, a pinta artificial na bochecha esquerda que cobria a pinta real cor de canela. Ele, na cama, esperava sob os lençóis.

Vinha limpa e indecente, meias de liga, espartilho negro, nem parecia uma veste escravocrata do corpo – era a desenvoltura de gata no cio que o desmentia. Tinha na mão a pluma de avestruz que as vedetes usam no chapéu e ciciava:

– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

O lado esquerdo era dela, era onde dormia. Por isso ele estendia ali o corpo nu. Para ser docemente coagido a mudar-se. Dizia não meneando a cabeça, sorriso de sátiro à espreita da ninfa. Primeiro eram os beijos. Depois a pluma, cócegas que o faziam convulsionar mas não fugir, então os tapas nas nádegas e por fim os arranhões, amável rastro das unhas de meretriz e atriz que ela era. Atriz em vários palcos, puta dele só. A noite era longa: corridas pelo apartamento, absinto francês, muita sujeira para a camareira no dia seguinte.

Lola, Lola tão tola, despida, girou com a garrafa até a varanda numa dança de fazer corar avós para atiçar seu homem, e ela foi, passou as cortinas, ele a segui-la com os olhos pela sacada. E a balaustrada tão baixa.

Apartamento grande, herança de pai, alegria de filho notívago que desmaiava a cada madrugada, trazido do teatro para casa por amigos menos ébrios. Que noites, que dramas, comédias, canções. E Lola, que foi para sua cama como um raio e sacudiu seu mundo, mulher, terremoto, furacão que ficou na sua mente desde então menos equilibrada e mais feliz.

A cama com dossel, jacarandá esculpido e envernizado, leito imenso, bom para a orgia. Alcova ampla, portas-balcão levando à sacada onde a juventude admirava um horizonte letárgico ficar mais vermelho toda tarde, calmaria interrompida nunca por arranha-céus, mas ocasionalmente pelo som distante dos bondes dos trabalhadores. Que bom ser jovem, não trabalhar, fingir que estuda e ter varanda. E ter mulher constante, mas sempre inédita.

Foi culpa do absinto. Da balaustrada baixa. Ou de Lola cansada do jogo. O bailado a levou longe demais. Além da sacada, seu corpo beijou os paralelepípedos. A Fada Verde escapou do vidro, lambeu a calçada. Seus olhos ficaram pasmados no último instante. Seu corpo lá embaixo. Dentre os fios pretos do cabelo, um vermelho e grosso que crescia pela rua.

E agora, como fica o quarto sem seus pés descalços no soalho? O corredor é mudo sem sua voz afinada cantando impropérios.

Como fica a vida se o relógio anuncia a meia-noite e ela não vem?

Cômodos vazios.

Ele está na cama, do lado esquerdo. O perfume dela ficou em tudo. No divã, duas putas largadas. Cheias de formas, seios, quadris, não conseguem alegrar a casa que Lola, sozinha, enchia de vida. Elas desmaiam, dormem. Ele, não. Seu corpo mal-saciado arde em vício, compulsão de amor endemoninhado, convulsão de narcóticos comprados de um mau boticário. De que vale ser sóbrio? Vale-lhe mais sonhar asneiras de apaixonado. É meia-noite. Hora do jogo. Lola, tão tola, tão depressa…

Sua voz sai como a de um velho:

– Querida, foi tão cedo.

Rola sobre os lençóis. Mas pára.

– Foi mesmo, amor.

O rosto dela voltado para o seu. Na cama. No lado direito. No espartilho negro. Ela é bela. Ela é profundamente…

– …pálida. – Ele a toca no rosto; é real. – Lola – repete infantil, prendendo o nome na língua embriagada na ilusão de prender também a amante ao seu lado.

– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

Mas a mulher não o beija nem o afaga. Não; ela se levanta, meias pretas de liga, botinas de salto. Não dá valor às perdidas no divã. Quer as cortinas que esvoaçam. A varanda.

– Venha! Venha dançar!

E ele vai. Para além da balaustrada, onde os corpos que voam beijam as pedras da rua.

Anúncios

34 comentários sobre “O jogo da meia-noite

  1. Agora o conto.

    Achei romântico, não sei porque, me remeteu um pouco a Lord Byron, a Casanova, aos românticos e malditos. Deve ser efeito da fada verde.

    Não tinha algo mais gostoso pra beber?

  2. De qualquer forma, ela o levou para onde antes tinha ido. Juntos ficaram… vampira, ilusão? Quem saberá?
    Ele não pode contar mais…
    E o apartamento ficou para as putas largadas. hahahaha

  3. Cris, não saquei se a tontura foi algo bom ou ruim, mas vou deixar essa questão com você, rs. Apesar de eu não curtir obras do Ultra-Romantismo, às vezes escorrego no Mal do Século.

    Fabs, eu gosto de ler textos em que uma coisa bastante simples pode ser interpretada de várias formas, ao gosto do leitor, sem que falte uma conclusão satisfatória. Assim, também tento produzi-los. E suspeito que as putas largadas usaram bem o imóvel. 🙂

    Hugo, obrigada pela visita! Considere-se igualmente linkado.

    Luu, obrigada pelos comentários. Volte sempre, viu?

    Valeu a todos!

    Beijocas.

  4. Ahn, que conto? Cadê ele? Ah, aqui tá… rs
    Cara, que ilustração bacanérrima! 😀 E o conto realmente foi acometido do mal do século rs (no sentido de hiper-romântico a ponto de se matar). Gostei hein.

    • Botter, Gi: obrigada pela visita! Fico feliz por poder entretê-los. 🙂

      Cris: vai um café aí pra clarear as idéias? 😉

  5. Pingback: Você tem fome de quê? «

  6. nossa adorei tenho 12 aos e ja sou sua fa parabens vc e muito dedicada a isso se tranmitiu pra mim parabens pelo se trabalho ele foi feito com muito carinho teho certeza disso

  7. Gostei das linhas fortes da ilustração. Dedos nada indeléveis deslizam por aí. Verdadeiro papel que arfa a cada palavra, frase e oração. Orações nada inocentes. Amém. Ótimo cair na madrugada durante a folga dos trabalhos e esfolar os joelhos na lasciva! O que fazer agora? Terei que devorar o restante dos textos até o fim da manhã. Aiai…

  8. EU CREIO QUE ELA O LEVOU AO ANSEIO MAIS PROFUNDO DE UMA PAIXÂO TÂO OBSCURA QUE ELE SE DEIXOU LEVAR POR ESSE TANTO VÍCIO TÃO GOSTOSO E AMARGO AO MESMO TEMPO
    EU GOSTEI MUITO É UM ROMANCE SÓMBRIO E SONHADOR AO MESMO TEMPO

  9. Impactante vc ta de parabens, eu gosto d livros d autores antigos , pelo jeito d narrar , vc esta bem parecida , deixa esplica e assim vc diz tudo d uma maneira clara mas nao vulgar como se fala hoje em dia entende. Bjs e parabens sorte pra ti

  10. Vc é muito simpática pelo que percebi e seus dons artísticos sao ótimos ! Parabéns pra ti ! Vc deve ser uma pessoa bem interessante rs muita sorte

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s