Desacelerando

ou A chance de não existir

Há uns 8 anos minha família adquiriu um terreno no interior de São Paulo, já que na cidade não dava para comprar nada.

Há 2, meus pais se mudaram para a casa que construíram lá.

É meu destino obrigatório uma vez por mês. Vou para lá fazer uma série de coisas fundamentais: ficar com minha família e animais de estimação, curtir a paisagem, ler, comer manga direto do pé e, principalmente, desacelerar.

Já é lugar-comum uma pessoa dizer que precisa de um dia de 48 horas para fazer tudo o que quer. Não escapo desse clichê. Os deveres passam na frente do lazer, o trabalho avança e os projetos pessoais ficam pelo caminho. O dia é curto demais para tantas vontades. Há desenhos a entregar, livros a revisar, contos a escrever, pessoas a encontrar e locais a comparecer. A vida passa depressa. Acelerada. E eu ainda dou um jeito de sumir de casa nos finais de semana – para o litoral, para o meio do mato, para qualquer lugar que seja. Não páro um minuto, talvez por falta de opção, talvez por opção própria. Mesmo que faltem o tempo e a energia para cumprir tudo o que me proponho, não me é natural parar. Cobro-me resultados.

Mas, bom, lá no interiorzão eu desacelero. Einstein disse que o tempo é relativo, certo? Verdade, se mesmo não entendendo patavina de Física eu puder confiar em minha percepção pessoal. Sinto esse lugar como um ponto à parte do tempo, onde a corrida interminável, agarrada por algum fenômeno inexplicável, entra em câmera lenta. Absorvo a atmosfera daquela vida rural, aposentada, modorrenta – contemplativa até. Durmo cedo, acordo tarde, sento-me na varanda com algum livro e pressa alguma de lê-lo. Acompanho com os olhos o cão estirado no chão, o gato estendido na cadeira, o verde espraiado por toda parte. E não espero de mim nada sequer vagamente produtivo. Por um final de semana que seja, esqueço deveres, planos, expectativas. Esqueço de mim, descanso das coisas que me tornam o que sou, dispenso minha identidade. Dou-me a chance de não existir por um tempo.

É uma viagem, sim. Para bem longe de mim.

E, como normalmente é apenas um final de semana, não dá tempo de sentir tédio.

Só saudade.

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Colírios mil à disposição.

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3 comentários sobre “Desacelerando

  1. Lá o tempo para… lá é só verde a encher os olhos. Lá o chão é sagrado, é eterno, é verde, azul, formiguinhas, taturanas, borboletas, gaviões, o mato estalando sob da chuva, as árvores dançando no vento.
    É lindo… e lá somos mais nós mesmos.
    Sodade… sodade…

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