Gloriosa solidão

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Hoje terminei um trabalho freelancer que, apesar de muito bem-vindo, ameaçava engolir meu recesso de final de ano. Finalmente eu teria algumas horas para mim mesma. E eis que me aparece um convite para ir a um bar fazer uma despedida de 2008. E eu já fiz despedidas nos dias 17, 20 e 27 deste mês… A opção? Ficar sozinha em casa. Fiquei.

Algumas pessoas me oferecem estranhos olhos de piedade quando menciono dias em que fiquei em casa absolutamente sem companhia. Mas sozinha? Fazendo o quê? Gente. Peninha de quem não imagina o zilhão de coisas que podem ser feitas quando se está sozinho em casa. Desde dançar pelado no corredor a concentrar-se num novo conto a ser escrito, as opções são inúmeras. Vá lá, dançar pelado no corredor é algo que pode ser melhor aproveitado a dois, mas… escrever um conto? Nessas horas, prefiro trabalhar sozinha. Só depois do conto escrito é que invariavelmente recolho opiniões de alguns leitores confiáveis a fim de lapidar a rocha bruta. Mas até esta hora, durante os momentos mais febris, espasmódicos e orgásticos da criação, eu preciso estar sozinha. Mesmo.

Nossa cultura vê na solidão algo ruim em essência. Nossas músicas falam dela como uma maldição. Nossas telenovelas (argh!) a retratam como o fundo do poço – personagem sozinho é personagem infeliz. Nossas celebridades correm dela, trocando de amante ou cônjuge a cada estação do ano, mas nunca ficando sozinhas. Mais do que uma mania de estar com o outro, para mim isso reflete uma mania de viver o outro – em lugar de viver a si mesmo. Essa cultura, ou descultura, deseduca as pessoas, condicionando-as a pensarem que é impossível estar bem sozinho. E ao longo da vida tenho conhecido muitas pessoas que de fato pensam e agem assim.

Este foi um ano complicado para mim. Houve momentos, não poucos, em que estar só comigo o dia inteiro ameaçou minha saúde mental. Há 6 anos eu trabalhava a partir de casa, como freelancer, estilo de vida invejado por muitos e devidamente apreciado por mim. Mas minha tendência à clausura com freqüência me mantinha de pijama o dia todo, sem pôr um pé fora de casa nem ver a cor do dia. Desde novembro estou trabalhando dentro de um estúdio do outro lado da cidade, o que tem me beneficiado imensamente – e, ao mesmo tempo, tomado muito do tempo que antes era só meu, para o bem ou para o mal. Confirmei assim uma antiga opinião: a solidão obrigatória é tão nociva quanto a presença compulsória, assim como a solidão voluntária é tão fundamental quanto a presença bem dosada de um ente querido.

Gloriosa solidão, sem interrupções, distrações e outros ões. Momentos raros e valiosos em que a concentração é total e a criatividade pode galopar de rédeas soltas.

Não vou mentir, não sou de ferro. Adoro estar (bem) acompanhada e às vezes só o que quero é um bom amigo para conversar, rir ou ver TV junto. Mas horas de solidão são essenciais. Desvencilhar-se do mundo, interiorizar-se, entreter-se, reencontrar-se, estar bem consigo mesmo sem precisar visceralmente de outra pessoa para garantir momentos agradáveis é uma necessidade para qualquer um que tenha projetos pessoais. É para mim. Não significa que eu não ame minha família e amigos. Significa que eu os amo, e muito, mas não os respiro. Mais do que uma questão de independência, é uma questão de auto-preservação. Um caso de amor – de amor-próprio, amor à própria individualidade. Uma certa dose de egoísmo, sim. Eu me reservo o direito de estar só e gostar disso.

Para ilustrar por que eu queria tanto ficar em casa a sós comigo mesma: hoje consegui finalmente digitar um conto que havia redigido à mão em um caderno velho, em novembro. Só agora, no penúltimo dia do ano, pude transferi-lo para o computador e revisá-lo, preparando-o para leitura. Uma pequena grande realização para alguém que atualmente está correndo atrás do Tempo e pedindo para ele ir mais devagar. Provisoriamente, chama-se A outra margem do rio e, como passa dos 20 mil caracteres, publico apenas o começo aqui:

Leste e Oeste eram separados por um rio caudaloso, apressado. O que o rio separava, uma única ponte unia. Houvera outras, mas o tempo se encarregara de arruiná-las, ninguém se encarregara de reerguê-las e, assim, restara apenas uma. Era curva e feita de pedra, muito antiga, pouco segura. Ninguém se preocupava demais com isso, já que poucos tinham motivos para atravessar de uma margem à outra.
Não é que o Leste fosse inimigo do Oeste. Mas tampouco tinham-se como grandes amigos. Não havia muitas coisas que o povo levantino quisesse fazer junto com o ocidental. No Leste, muito se plantava e muito se colhia; longas extensões de terra generosa eram cobertas de hortas e pomares. Na margem Oeste, os bosques eram dominados por caçadores hábeis e o gado montanhês procriava à farta nas colinas. Um lado comprava o que o outro produzia. Mas, para isso, todos concordavam que uma grande balsa indo de lá para cá no delta do rio, lá onde se erguiam as capitais, era o suficiente. Para o resto, bastava a pontezinha de pedra.
Era essa ponte que Haric precisava atravessar para casar-se com uma mulher chamada Merissa, a quem ele jamais vira.

O conto é para o Reino das Névoas, que por enquanto é apenas o sonho de um livro na minha cabeça.

A imagem no começo do post é uma foto que tirei em Parati em outubro/2008. Ela ilustra bem o tema aqui pelo seguinte: o cachorro estava parado na porta de uma pousada e eu, como não posso ver um animalzinho, fui lá ensebar no pobre. O bicho não me deu a menor audiência. Estava ocupado curtindo a própria companhia. 😉

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4 comentários sobre “Gloriosa solidão

  1. Pô, gostei pacas da foto! Cê sabe mesmo tirar fotos artísticas hein? 🙂
    Esses tempos estão difíceis mesmo para trocar o solidão/presença obrigatória por solidão/presença dosada e voluntária… É mais um texto interessante sobre a individualidade.
    Todo mundo devia experimentar passar o ano sozinho, que realmente não dói!
    Li a sua entrevista lá e gostei de saber que você está mandando bala no seu futuro livro 😀

  2. Oi, Gi! Obrigada! De cada 100 fotos, 1 acaba saindo boa, eheheheheh.
    A solidão “boa” e o exercício da individualidade são temas que sempre dão pano pra manga. Gostaria que mais pessoas se manifestassem a respeito do assunto.
    O futuro livro até que está indo bem, sabia? Só extrapolou o prazo que eu tinha traçado para conclui-lo, rs, mas tá quase lá.
    Beijão!

  3. A solidão de vez em quando é muito bem vinda!
    A gente precisa de um tempo só nosso, pra fazer nossas coisas individuais, pra cuidar um pouco de nós mesmos, pra pensar, pra viajar longe.
    Solidão é boa sim.

  4. Fabs,
    Obrigada pela visita, mana.
    Todo mundo precisa de um tempo sozinho, não é mesmo? Mas muita gente tem medo desses momentos. Às vezes dá mesmo um certo horror de estar a sós com os próprios pensamentos, rs.

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