A ninhada

conto de 2004, originalmente publicado no NecroZine

Olhos bem abertos, os pequeninos passeavam pela casa, cheirando e cutucando tudo com as mãos peludas, inocentes como só as crianças – felinas – podem ser. Mas vida de gato não é fácil. Engana-se quem diz o contrário.
A de Buba andava difícil nos últimos tempos. A nova ninhada estava pronta para comer carne. Há horas ela rebolava diante do dono, enroscando-se em suas pernas, erguendo a cauda, miando amavelmente. Esperava ao menos uma porção de carne crua moída, já que não podia sonhar com a sofisticada iguaria em lata dos gatos de madame. Àquela altura, até a ração dura de saquinho serviria. Seu leite secara e os filhotes, dentes pontudos à mostra, não podiam passar sem comida sólida.
Mas o homem não fazia mais que pasmar diante da tela da TV permanentemente ligada.
Buba banhava os sete filhotes com a língua e mordiscava-os de brincadeira, enganando a fome. Começava a conformar-se com a idéia de levá-los para chafurdar no lixo do bairro. Admirava-se de que o dono, vendo-os desmamados, ainda não tivesse sumido com toda a ninhada.
Com a primeira fora fácil lidar. Buba, siamesa sem pedigree, tivera um namorico com um de sua raça. Os cinco nenéns de olhos azuis conquistaram rapidamente os vizinhos. Só a velha solteirona pegara três. Os dois restantes foram para as irmãs adolescentes que moravam no outro quarteirão. Agora, aqueles eram pretinhos de olhos amarelos. Temia pelo destino deles, metidos num saco e atirados num córrego, ou largados, um a um, nas portas de casas distantes. Corridos a vassouradas. Judiados por moleques. Mortos de fome. Coisas engraçadas, os humanos. São racistas até com seus bichos.
Mas ele não faria isso. Era um dono relapso, verdade, sem disposição para cafuné nem dinheiro para filé mignon, mas nunca um mau sujeito. Não ia jogar seus filhos no bueiro.
Os gatos rodearam o homem. Cheiraram seus sapatos velhos. Miaram agudos. Nenhuma reação.
Buba saiu pela casa em busca de qualquer coisa comestível. Sobre a mesa da cozinha, migalhas de pão amanhecido. Só recorreria àquilo em último caso. Pena não saber abrir a geladeira. Devia haver carne. Carne…
Apurou os sentidos, empinou o nariz, farejou o ar. Esquisito, mas muito familiar. Voltou à sala. Como não sentira aquele odor antes?
Seus filhos tinham sido mais rápidos. Maravilhosa juventude. Atrás da poltrona, no espaço entre esta e a parede, lambiam avidamente uns restos avermelhados. Coisa gostosa, Buba notou ao juntar-se a eles. Engraçado boa parte daquilo estar grudado na parede a uma altura considerável. Com certeza, vestígios do último jantar do dono, que, em algum acesso de fúria, atirara tudo na parede. Desperdiçar assim uma boa refeição… só gente mesmo.
Teve de ficar de pé para alcançar com a língua os últimos resquícios. No final, ela e a ninhada fariam um favor ao homem, limpando a sala que ele só soubera sujar.
À noite, sentiram fome outra vez. Idade de crescimento, claro. Então a mãe decidiu apelar. Caminhou decidida até a poltrona e saltou para o colo do dono. Miou adoravelmente. Esfregou com força a cabeça no seu peito. Nada. Olhou bem para a sua cara deslavada, censurando-o.
A boca aberta num pasmo imbecil. A boca muito aberta. Um cheiro ruim de algo que ela não conhecia. Depois um cheiro adocicado de…
Comida. Bem ali na frente dela. E ainda fresquinha!
Chamou os filhos. Vieram todos. Que gato rejeita um colo e um bom pedaço de carne?
Buba acordou no outro dia com batidas na porta da casa. Olhos remelentos. Estômago cheio. Seus gatinhos ressonavam felizes. Quem os estava acordando àquela hora?
Batidas e chamados. Não fez caso. Logo o silêncio prevaleceu.
Horas depois, porém, os sons voltaram. Visita teimosa. O dono não se levantou para atender. Bem, para ela é que não era. Gatos não recebem visitas.
Pulou apavorada com o baque da porta sendo derrubada. Arrepiou-se toda, pronta para proteger a cria.
Apareceram devagar. A velha – a que tinha ficado com três dos seus primeiros filhos – e mais dois homens jovens que ela não conhecia. Um deles deteve a mulher ainda à porta.
– É melhor a senhora não entrar. Nós vamos cuidar de tudo. Pode confiar. A senhora ajudou muito.
O outro caminhou para a sala. Ficou diante da poltrona.
Com medo e curiosidade, a ninhada se escondia mal e mal atrás do móvel, olhinhos amarelos espiando os invasores. Buba teimou no colo do dono.
– O cara ainda tá com a arma na mão.
– Eu vi. O pessoal da perícia vai examinar de qualquer jeito, mas tá na cara que foi suicídio. Cano na boca, bala no cérebro, zum, certinho.
– Cara… cadê a língua dele?
O mais maduro dos dois se aproximou, fazendo um gesto brusco com a mão.
– Xô, bichano!
A gata saltou fora cuspindo. O homem se inclinou sobre o corpo.
– A língua? O gato comeu. Ou melhor, os gatos. Sumiram com a língua, com os lábios e… com os pedaços dos miolos que espirraram na parede quando o cara apertou o gatilho.
Os dois policiais olharam para a gata e seus cinco filhotes no chão. Seis pares de olhos redondos os encararam, sustentando o olhar horrorizado com a inocência que só as crianças – felinas – podem ter.

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3 comentários sobre “A ninhada

  1. Olá, Camila. Devo confessar que gostei muito do conto A NINHADA. Seria até clichê, mas você soube explorar muito bem a narrativa e passou ao largo de torná-lo clichê. Velou o conto até o finalzinho… Muito bom. Quero pedir sua autorização para publicar o conto no meu site. O que acha? Abraço.

  2. Caramba… Que conto gosti! Eu nao sei por que mais eu nao fico com medo de nenhum conto(e eu vejo assombracoes na minha casa!!!) tenho 13 anos e quero escrever tm mais eu nao sei como….. ;> 🙂 😉 :* :/ :& 😀

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