O cartunista Laerte Coutinho, conhecido não só pelo seu trabalho genial como também pelo hábito de se vestir de mulher, entrou na justiça para ter acesso ao banheiro feminino. A matéria é da Natália Cancian para o caderno Cotidiano da Folha.com. Clique aqui para ler na íntegra. Abaixo, um trecho:
Em uma noite de terça, uma senhora entra no banheiro feminino da Real Pizzaria e Lanchonete, na zona oeste de São Paulo. Ela veste uma minissaia jeans, uma blusa feminina listrada, meia-calça e sandália.
Momentos depois, é proibida de voltar ao banheiro pelo dono do estabelecimento. Motivo: uma cliente, com a filha de dez anos, reconheceu na senhora o cartunista da Folha Laerte Coutinho, 60, que se veste de mulher há três anos.
Ela reclamou com Renato Cunha, 19, sócio da pizzaria. Cunha reclamou com Laerte. Laerte reclamou no Twitter. E assim começou a polêmica. O caso chegou ontem à Secretaria da Justiça do Estado.
Vou contar a vocês: ainda não sei o que pensar sobre isso.
Eu não sei se estou do lado do Laerte ou de quem prefere que ele use o banheiro masculino.
Se, por um lado, não gosto da ideia de homens entrando no banheiro feminino enquanto eu o uso, por outro, sonho em viver num mundo onde a gente não precise se sentir ameaçada pela ideia de entrar tarde da noite, sozinha, num banheiro público e dar de cara com um maluco que se vestiu de mulher só para entrar lá e se aproveitar da situação. É claro que o Laerte não faz esse tipo – ele se veste de mulher apenas porque gosta. Mas se houvesse uma lei dando livre acesso ao banheiro feminino a homens vestidos de mulher, quantos pervertidos não aproveitariam a situação e se fantasiariam só pela chance de pegar desavisadas?
Na verdade, de acordo com a matéria da Folha, tal lei já existe:
A coordenadora estadual de políticas para a diversidade sexual, Heloísa Alves, ligou para Laerte e avisou: ele pode reivindicar seus direitos. Segundo ela, a casa feriu a lei estadual 10.948/2001, sobre discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero.
É aqui que eu me pego num dilema. Oponho-me à imposição de papéis sociais aos gêneros e defendo que pessoas de qualquer orientação ou identidade sexual tenham o direito de ir e vir sem serem barradas ou agredidas, não importa o quanto os caretas se incomodem com isso. Mas já diz o velho ditado: sua liberdade termina onde a minha começa. Ou algo assim. A liberdade de ir e vir termina onde? Na porta do banheiro? Tenho o direito de barrar a entrada de alguém no banheiro que usamos porque a presença daquela pessoa fere, de alguma forma, o meu gosto, a minha liberdade, a minha intimidade? Para quem defende tanto a união dos gêneros, não seria isso uma forma de hipocrisia?
Gostaria de um mundo em que isso sequer levantasse questões. Em que banheiros mistos não fossem apenas point de sexo em casas GLS, onde frequentemente parecem extensões dos famigerados dark rooms, e no qual não importasse o seu sexo na hora de entrar na cabine. Porque, aliás, aqueles mictórios abertos de banheiro masculino são de extremo mau gosto, e conheço muitos homens que não gostam de se expor assim ao urinar.
Por que a gente não pode ser livre e ao mesmo tempo ter privacidade?