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Arquivo da categoria ‘Contos eróticos’

Conto de 2005, originalmente publicado no NecroZine #4, especial de contos eróticos de terror.

Ela jogou os cabelos para trás uma, duas, três vezes, no ritmo dos próprios gemidos. Atrás, o homem bufava, ia e vinha, eufórico. Ela fazia o que ele queria. Fazia tudo o que eles queriam. De frente, de lado, de costas, sobre o chão de folhas secas, acuada contra as árvores ou imersa no lamaçal. Em silêncio ou aos berros. Era sua prerrogativa.

Abordava-os no meio da estrada que atravessava o bosque. Nua, a pele de cera reluzindo ao luar, os cabelos de fogo fazendo espirais sobre seus seios, derramando-se em cascata nos quadris, lambendo-lhe mesmo os calcanhares. Uma visão. Uma Vênus. Braços estendidos. Venha. Faça de mim o que quiser.

Preferia os solitários, a quem a privacidade da mata roubava qualquer pudor. Os casados vacilavam, pensando na confiança das esposas. Aqueles que vinham em grupos eram ora tímidos, ora vorazes – isso dependia do que pretendiam provar uns aos outros. Mas todos, sem exceção, atiravam-se ao seu regaço. Por que fariam outra coisa? Experimentavam seus orifícios, faziam-se homens, copulavam por horas. Ela gostava sobretudo dos que pediam. Tinham mentes e línguas sujas. Tornavam seu labor mais fácil, ágil, prazeroso.

O homem dessa noite era vigoroso e indecente: ideal. Nada demorou, jogou-a na relva e possuiu-a ferozmente. As unhas muito longas da mulher rasgavam suas costas dos ombros aos quadris, deixando as marcas rubras do pecado. Mas ele terminou rápido demais e enterrou o rosto em seus seios, ofegante. Ergueu-se, refeito.

Ela sorriu. Palavras não eram necessárias. Estendeu uma vez mais os braços para ele, não para recebê-lo, mas para alcançar-lhe o pescoço, no qual fechou as mãos em garra. Apertou-o com uma força nunca vista em outras mulheres. Era sua prerrogativa também. Sua paga. Seu prazer após o prazer. Perfurou a carne com as unhas; sufocou-o e fê-lo sangrar. O corpo do homem estremeceu. Por fim, parou de mover-se para sempre.

Duas mãos apertaram o ventre do defunto, fazendo nele um rasgo, com num trapo que se parte em dois. Dedos habilidosos tatearam as entranhas ainda quentes, cavoucando. Retiraram de lá um órgão ovalado, do tamanho de um punho, e o embrulharam depressa na camisa do homem. As mãos penetraram mais fundo na carne morta, rasgando o caminho e fazendo espirrar o sangue, até alcançar um órgão maior, macio, que foi juntar-se ao outro na trouxa sangrenta. Então, o último, que encontrou bem protegido sob as costelas. Era maior do que esperava.

Um coração premiado.

Saciou-se rápido no que restava do sangue do homem. Tinha pressa e nada podia ser desperdiçado. Correu pelo bosque aos saltos, como a fera que já conhece todos os caminhos, atalhos, armadilhas. Logo chegou à caverna.

Três pares de olhos brilharam lá no fundo. Três rostos se adiantaram ao ver a mulher chegar. Rostos ainda infantis, pálidos como o dela, como se filhos da Lua. Lábios miúdos se arreganharam em sorrisos felizes, exibindo fileiras de dentes pontiagudos.

A mulher acariciou a cabeça do seu primogênito enquanto ele avançava para o banquete sanguinolento. Escolheu o fígado. Estava ficando forte; em poucos anos, seria um varão e ajudaria a mãe a caçar para os dois irmãos menores, que grunhiam de prazer, mordiscando e lambendo um baço e um coração. Também caçaria para a pequena fera que nesse instante se formava no ventre da mãe, filha do pai que, sem saber, os alimentava agora.

As bocas dos meninos estavam vermelhas; sua sede e sua fome, saciadas. Essa era sua prerrogativa.

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Texto de 2006, originalmente publicado no blog 7 Erros.

ela02

Para amar uma ruiva é preciso haver coração de sobejo.

Não que as ruivas não se amem facilmente. Na verdade, é comum que sejam amadas por muitos. Basta às vezes um só olhar para que isso aconteça.

É que, uma vez acesa a chama, nunca será pequena; será sempre fogo denso, impiedoso, inquisidor.

Portanto, para amar uma ruiva é preciso saber queimar. É preciso brincar sem medo com fogo. E é preciso também respeitá-lo – o fogo que nasce no crânio da ruiva feito cabelo, que lhe afogueia as faces. Um fogo que, quando afrontado, em lugar de aquecer, incinera.

Judas tinha cabelos vermelhos, diz-se; como Esaú também os tinha, e antes dele, Caim. Waterhouse pintou Lamia, lenda de sedução, com cabelos vermelhos; as madeixas com que a Vênus de Boticcelli cobre languidamente o sexo não são de outra cor que não a do fogo. Cor que é certamente um sinal de perigo. Sinal claro de divindade.

Para amar uma ruiva é preciso fitá-la intensamente nos olhos – sejam azuis do mar, verdes dos fiordes ou, mais raramente, castanhos como a terra que os consumirá – e provar-lhe a ausência do medo. Conquistá-la no olhar primeiramente, e só depois no toque – pois tu certamente quererás tocar a pele muito, muito clara, de uma claridade quase ofuscante, mesmo sob o sol maldoso dos trópicos. Quererás isso como teus pulmões querem o ar. Eu sei porque já quis.

Mas, antes disso, terás de provocar seu sorriso, e embora sorrisos sejam fáceis na boca-morango da ruiva, não penses que serão todos teus. Alguns serão da tua tolice, da tua presunção, e estes ela te dará sem cerimônia, sem promessa, sem futuro. Serão paina ao vento, macios e inúteis. O sorriso que queres tomar da ruiva é o do fascínio. Pois ela, que fascina, não quer outra coisa que não ser fascinada. Ela é chama, e para incendiar deve ser alimentada com palavras hábeis, coração honesto, virilidade sem disfarces. É preciso atrevimento, mas nunca certeza; ela é amada por muitos, e pode escolher a quem amar.

Então, quando obtiveres esse sorriso, estarás pronto para amar uma ruiva.

Para isso, começa sempre no beijo, mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja, porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa, o ato que lhe faça justiça. Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso, onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível; às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha, que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo – é algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher de cabelos carmesim, cobre ou dourado-fogo. Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre as coxas. Sem pressa, porém; pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno: por toda uma noite, aquecendo a casa, crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.

Para amar uma ruiva é necessário amar-lhe cada sarda, da testa ao ventre, saboreando-as como raspas de canela que temperam a pele-leite.

É preciso consumir-se nos cabelos-labareda.

É preciso afogar-se no sexo, rubro jardim sem espinhos, e santificar seu aspecto perpetuamente virginal, a despeito do pecado, que ela te ensinará a adorar, se já não souberes.

Para amar uma ruiva – e disso sei por já ter amado muitas – é preciso arder com graça.

É preciso amar um pouco o próprio inferno.

Por isso, ruiva, se é que deves mesmo me ferir, sê breve: tenho pressa do paraíso.

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texto de 2005

Eu não me achava gostosinha aos 16 anos. Mas cheguei a ficar convencida quando ele me lançou aquele olhar canibal. Eu passara o sábado todo de pijama, shortinho curto e tal – na varanda da minha casa, qual é? Não deveria ser um problema.

Fazia calor e fui pegar um pouco de sol enquanto tomava o café da tarde. Quase larguei o copo de suco e o pão no chão quando dei de cara com o sujeito parado ali na sacada, apoiado na grade frouxa que podia ceder a qualquer momento, fumando e me encarando como se estivéssemos prestes a ir para a cama juntos.

– Quem é você? – perguntei, embora o impulso inicial fosse berrar por meu pai.

O mané riu debochado. Vá lá, não era mané. Era um exagero de homem. Não pude evitar encará-lo de volta. Cabelos pretos jogados na testa, pele tostada, olhos cor de cerveja que não pareciam ser realmente daquele rosto. Jeans, camiseta justa, básico, no ponto. Jogou sua bituca no chão e apagou-a com o pé. E respondeu:

– Talvez a resposta às suas preces?

Desviei o olhar quando vi que ele estava mentalmente comendo as minhas pernas. Sei que corei. Eu tinha vergonha daquelas coxas que para mim, moleca, eram grossas demais, mas que para mim, mulher, no futuro seriam motivo de orgulho.

– Se liga – retruquei, querendo parecer forte. – O que é que você tá fazendo na minha varanda? Pode ir rapando daqui, senão…

– Ah! Você tá aí. – A voz que vinha das minhas costas era de Clélia. Ela foi avançando pela sacada, que pelo jeito já não era mais minha, pegando na mão do cara e puxando-o em direção ao seu portão, que estava ali só para efeito psicológico de limite de territórios, já que era pequeno e de madeira, sem nenhuma segurança. Talvez por isso o seu amiguinho tivesse achado que podia ir e vir quando quisesse.

Ela me deu um oi enviesado e rebocou o bonitão pelo corredor que levava à sua casa.

Clélia vivia na casa dos fundos. Eu morava com meus pais e meu irmão na da frente. O locador gostava de nós e no contrato constava que a área da varanda e do jardim nos pertencia, sendo vedado ao morador da casa nº 2 transitar por ali, ou qualquer outro palavreado empolado que os advogados adoram. Clélia, aliás, era advogada, provavelmente em começo de carreira – ou muito ruim, pois a casinha que alugara não era grande coisa. Eu já entrara lá no tempo em que estava vazia com um ou outro namoradinho, só para me divertir um pouco, mas ninguém com quem eu tivesse ânimo de perder minha virgindade. Cozinha, banheiro muito apertado, sala e, no andar de cima, dois quartinhos acarpetados, próprios para criar pulgas.

Quando ela se mudou, não ficamos muito felizes. Vimos uma moça de uns 35 anos e começamos a esperar criança, cachorro, papagaio e tudo mais que fosse capaz de arruinar o silêncio tão prezado na minha casa. Mas nada disso veio. Clélia morava sozinha. Só que fazia barulho por uma família inteira, com seus tamancos de madeira e telefonemas em viva-voz tarde da noite.
Por sobre o muro baixo que separava nossos territórios, o sujeito me lançou um último olhar antes de fechar a porta atrás de si. E piscou.

Os dois passaram o resto da tarde lá. E eu não tirei aqueles olhos amarelos da cabeça. Não comentei sobre o episódio da varanda com meus pais. À noite, recusei o convite de umas amigas para pegar a matinê numa danceteria do bairro. Estava enjoada de ouvir som eletrônico e ser abordada por pirralhos de topete oxigenado. Preferi ler um pouco. Estava estudando espanhol e meu pai tinha uma edição argentina de D’Artagnan e os Três Mosqueteiros. Fui para a cama com os três, ou melhor, quatro – afinal, o carinha do título não era mosqueteiro também?

Fiquei na dúvida, pois não conseguia ler. Estava mais concentrada nas conversas que atravessavam minha parede. Meu irmão era moleque e eu, primogênita, ficara com o quarto maior. Grande coisa. Era grudado com o cômodo que Clélia escolhera como dormitório, e vez ou outra eu tinha que socar a parede para ela abaixar o volume da TV. Mas agora eu ouvia Elis Regina cantando baixinho do outro lado – bom gosto para música e para homens, isso ela tinha – e umas risadinhas ocasionais. Será que ele era bom de piada? Logo Clélia ia ver se ele era bom de outra coisa. E eu também.

A música terminou. Ninguém virou o disco. Estavam ocupados. Apurei os ouvidos. O livro eu já tinha esquecido de lado. Então quem começou a rir fui eu, tolamente entretida no meu jogo de invasão de privacidade. Sentia-me esperta. Sentia-me importante como portadora dos segredos de alguém. Naquela semana eu ouvira o quebra-pau verbal entre Clélia e o namorado, o bater de portas, os pneus do carro cantando. Não sabia se eles haviam rompido. Decerto tinham, já que agora ela tinha outro em sua cama, a esperta.

Calei-me quando começaram os gemidos. De discretos, foram se tornando altos, intensos. Senti vergonha de mim mesma quando percebi que molhara a calcinha. Tolice, eu sei. Muitas das minhas amigas já estavam mais rodadas do que a Brasília 77 do meu tio, mas eu era pouco mais do que uma criança. Não ponho a culpa na religiosidade recalcada da minha mãe. Era algo muito meu, minha trava, minha tranca.

Que calor fazia! Toquei a parede que me separava da dupla entusiasmada. Fechei os olhos. Era quase como apagar a parede na minha mente. Enfiei um dedo cuidadoso dentro do short. Muito quente. Muito molhado. Enfiei mais um.

Peguei-me imaginando cenas. Ele, o cara sem nome, por cima, mexendo o quadril em círculos, sem pressa; depois, a garota por cima, pulando sobre ele como uma amazona a galope; então, ela se pôs de quatro e ele agarrou seus quadris e começou a estocar com vigor, trazendo-a para frente e para trás, estocando, estocando. A garota pedia mais. Quando olhei para o rosto dela, era o meu.

Estocar… D’Artagnan tinha uma espada e estocava com ela… os homens adoram armas fálicas e as mulheres adoram ser suas vítimas.

Eles ainda não tinham acabado. Eu já. Esparramei-me na cama banhada de suor, ainda ouvindo os sons do espadachim e sua vítima feliz. Não sei bem dizer o que aconteceu então. Eu me sentia esgotada. Sentia a parede pulsar nos meus dedos. Eles não paravam mais. Caí num sono leve, um sono quase acordado, embalada pela canção de gemidos.

Quem nunca teve a impressão de flutuar por um instante e acordar de repente, chutando ou socando algo num sonho? Aconteceu comigo. Algo vermelho piscou na minha mente, algo brutal. Uns olhos vidrados, sem viço, sem vida. Um corpo abandonado na cama. Dei um tranco com o pé, voltei a mim, vi-me deitada, pernas entreabertas num convite. Fechei-as por instinto. O quarto era quente. Fui ao banheiro lavar o rosto; na volta, veria se meu irmão estava usando o ventilador de chão ou se eu podia furtá-lo enquanto ele dormia.

Não sei o que me levou a olhar pela janela do banheiro. Mas foi o que fiz, e eu o vi. O bonitão. Ele estava apoiado ao muro que separava os quintais. Olhava para a minha janela como se me esperasse. Tão sem sentido quanto essa impressão foi a certeza que tive de que queria descer até ele. Devia.

Lá fora o ar estava fresco demais para o meu pijama indecente. Senti arrepios no corpo todo. Ele notou o efeito. Cruzei os braços, escondendo os seios e fazendo cara de paisagem. O motivo do meu embaraço ia muito além dos meus trajes reduzidos. Estar ali com ele me envergonhava. Ele me envergonhava. Busquei o controle por meio do diálogo mais óbvio.

– Qual é o seu…

– Não. – Ele pôs dois dedos sobre a minha boca. – Você não tem que saber meu nome. Nem eu o seu.

Aproximou-se. Eu? Descruzei os braços, lógico. Ele aproveitou para chegar mais perto. Perto demais. Seu peito tocava o meu. Sua mão ainda estava na minha boca. Às minhas costas eu tinha o muro. Tarde demais para desistir.

O indicador pressionou meus lábios até separá-los. A língua veio depois. Senti o gosto do seu jantar, mas isso não nos deteve. Agarrei-o com força sem saber que o agarrava, sem saber de onde vinha aquela força que seus braços repetiam em mim, colando meu corpo ao seu. Ele afastou minhas pernas com um joelho. Sua coxa pressionou meu sexo. O seu latejou de encontro ao meu quadril. Sua boca me afogou. Sua mão arrebentou a alça da minha blusa e descobriu meus seios. Ele todo era demais para mim. Não pude esperar. Gozei ali, na sua coxa. No seu beijo.

O corpo inteiro tenso e, então, tudo desabou em mim. Minhas pernas amoleceram. Ele notou. Olhou nos meus olhos, que eu desviei, de volta à realidade. É claro que corei. Depois de me entregar à provocação, me recompunha, envergonhada da minha pressa, da minha impaciência. Ele devia pensar que eu era uma caipira. Pensei que ia me pedir algo que eu não sabia se queria dar. Mas ele apenas riu sem voz e me perguntou num sussurro:

– Quantos anos você tem, menina?

– Dezes… Dezoito.

– Mentira.

– E daí? – Sustentei o olhar.

– Ainda é nova demais. Mas não se preocupe. Eu volto pra te buscar.

Saiu andando, passou pelo portão da casa dos fundos, depois pelo portão do terreno, que abriu com a chave de Clélia. Não se saciou. Não olhou para trás. Fiquei sem saber o que ele quisera dizer.

Na cama, segui acordada até a madrugada, pensando sem querer em mil fantasias nas quais nós nos reencontrávamos anos depois e vivíamos um grande amor, uma paixão tórrida ou algo igualmente brega.

Estranhei a ausência do sapateado costumeiro de Clélia logo cedo. Ela não passava muito tempo dentro de casa, mas era domingo e a noite fora boa. Devia ter ficado até mais tarde na cama, sonhando com certos lábios, com certas mãos, como eu.

Na segunda-feira, senti falta dos tamancos pela manhã. E do tilintar desenfreado de chaves depois do desjejum. E dos recados em viva-voz no final do dia. Até do cantarolar no banho de duas horas que enchia meus ouvidos toda noite. Só o que eu ouvia agora era o telefone tocando, irritante, ignorado. Não é que eu gostasse de nada disso. É que…

Os sons desagradáveis do nosso dia-a-dia passam a fazer parte da lista de ingredientes que compõem nossa sanidade. Em São Paulo, as buzinas, os palavrões dos vizinhos, o pagode de sábado à noite na esquina e até os tiros na escadaria do beco marcam hora, estabelecem rotina, atestam que tudo está normal no absurdo diário. E então vem o silêncio. Absolutamente pacífico e bendito. E é aí que você vê que alguma coisa está muito errada.

Lá pelo meio da semana atendi a um telefonema do namorado – ou ex – da vizinha. Até hoje não sei como ele tinha nosso telefone. A folgada devia ter dado o número a ele para recados.

– Desculpa telefonar pra casa de vocês, mas sabe o que é? Estou ligando já faz uns dias e ela não atende. Sei lá se o telefone dela tá com algum problema ou ela que não quer atender. Deve ter colocado a Bina, né? Ela tava louca da vida comigo outro dia…

– É, é assim mesmo… – assenti, sem dizer algo que realmente fizesse sentido.

– Mas então… eu queria te perguntar se você sabe dela. Já deixei uns mil recados na secretária eletrônica. Eu gosto dela, sabe? Briga de casal é foda, mas passa. Quem sabe se você falasse com ela…

– Meu… me deixa fora disso.

– Eu preciso saber se a Clélia tá legal! Por favor!

Não sei se foi por pena ou bisbilhotice que cedi. Mas minutos depois eu estava socando a porta da casa dos fundos e chamando por ela. Também não sei por que me ocorreu simplesmente virar a maçaneta. O fato é que a porta, destrancada, se abriu.

Na cozinha, um resto de espaguete com algo mais fedia. Dois pratos dentro da pia enfeitavam todo o ambiente com moscas. O nojo quase me levou embora, mas a morbidez da minha curiosidade me obrigou a ficar, apoiada pela certeza de que Clélia não usava a casa havia dias.
Mesmo assim, subi as escadas chamando por ela. E se estivesse doente? Fraca demais para erguer uma mão? Hah. Nenhum cara é assim tão bom de cama.

Era o que eu pensava na hora, com deboche, na minha ignorância abençoada. Agora, não consigo pensar em outra coisa que não a imagem que se cravou na minha mente quando entrei no quarto de Clélia. Gritei, gritei até perder o fôlego, como se meu alarme pudesse reverter o quadro, apagar a tinta do tempo, impedir a formação de uma memória. Tarde demais. O corpo, antes roliço e vistoso, jazia cinzento sobre os lençóis, murcho, coberto de moscas que tateavam o que já havia sido um par de seios fartos, uma boca sorridente, uma garota ruidosa e cheia de vida. Um borrão escuro de sangue já velho empapava o lençol junto ao seu pescoço.

É claro que a polícia não nos deu os detalhes apurados na perícia. Mas eu sei o que vi. Vi um corpo esgotado, sugado, espremido como um limão, sem uma gota de sangue dentro de si. Vejo-o agora se me permito fechar os olhos e recordar. Vejo-o às vezes quando não quero. E penso no gosto acre que senti na língua do amante sem nome que a exauriu em mais de um sentido. Que me beijou com uma boca assassina. Que poderia, naquele beijo, ter devorado também a minha vida.

Meus pais não quiseram mais ficar na casa da frente. No final do ano, o contrato terminou e nós evaporamos. Soube mais tarde que o proprietário, sem conseguir arranjar novos inquilinos, mandou demolir todo o imóvel. Não sei o que construíram no lugar. Só espero que não tenha sido uma daquelas igrejas de garagem, para que ninguém mais berre descontroladamente onde Clélia morreu.

Penso às vezes na razão de ter sido poupada. Talvez ele tenha tido pena da minha imaturidade, do nada que eu havia vivido até então. Talvez tenha preferido me deixar com o benefício e a maldição da dúvida. Eu volto pra te buscar. Isso foi há cinco anos. Ele não veio.

Ainda.

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texto de 2005

Seja meu esta noite para sempre.

Porque todo dia eu confundo seu corpo com o meu. O dedo que coça minhas costas é da sua mão. O olho que pisca em seu rosto é meu. O pêlo que nasce rebelde é de ouro no seu pescoço e de carvão na minha têmpora. Um fio sem dono. Sem propósito. Que arranco de mim – e ele sai de você.

Os versos de Neruda que martelam minha cabeça foram feitos para a mulher dele. E para você. Que é meu homem. Que ficou na minha boca como a bala de hortelã que a gente não quer que se dissolva. Ficou na minha roupa. No meu corte de cabelo. Na cor da minha barriga no verão.

Como eu fiquei em você. Estou aí. Nas escolhas do seu dia. Na sua lâmina de barbear. Na sujeira que você lavou da pele no banho.

Na sujeira.

Eu o sujei hoje. Foi vermelho e negro como o livro que não li. Foi crime e castigo como o que larguei pela metade.

Provei de mim na sua boca manchada com a cor do meu sexo. Meu dedo na sua boca. Meus fluídos passando a ser seus. Meu corpo escorregando todo cheio de você. Sangue tem quase gosto de lágrima. Fato tem quase jeito de sonho.

Enrubesço quando lembro.

Você, cachorro, vagabundo. Você me obedece. Tortura-me. Disseca-me amorosamente. Nome feio na sua boca é música. Fico querendo dançar. Você vem e faz tudo o que eu peço, tudo o que não pode, só porque eu peço, só porque não pode. Proibir é incitar. Quem mandou proibirem a gente?

Enrubesço, pode acreditar.

Vergonha de gostar do que não presta. Vergonha de achar que não presto. Como a coisa errada pode ser tão deliciosa? Não há coisa errada. Errada é a cabeça. A que nega a coisa. A coisa dentro de mim pulando sobre você. Exigindo você em mim.

Romantismo reverso. Não é hora de poesia. É hora de unhas nas costas, amor sem maquilagem, sem educação, nem estribo, nem escrúpulo.

Eu o ensinei a gostar disso. A adorar o segredo. O que fizemos não tem nome. Não tem descrição. Só gritando para entender. Só estando naquela cama, sendo eu sob você, sendo você sobre mim, atrás de mim, chamando-me puta, vadia, cadela, minha, minha, minha. Sendo sua. Sendo eu. Querendo mais. Mandando fundo.

Seja meu para sempre esta noite.

Só assim para entender.

Olhe para mim. Estou diante da janela escancarada. Eu escancarada. As cortinas voam. A cidade vive. Você me encara.

– Daqueles prédios dá para ver tudo o que a gente está fazendo.

Sou risada.

– Deixa, amor. Voyeur também é filho de Deus.

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conto de 2004

Ela lambeu minha orelha.

Fê-lo com a delicadeza de um zéfiro nas manhãs antigas. Dríade, brincou no bosque dos meus sentidos. A ponta flexível vibrou no lóbulo e se encaixou nas cavidades retorcidas. Vai-e-vem. Labirinto úmido, labirinto inundado de sussurros, súplicas, ordens.

“Vamos?”

“Eu… vou.”

Foi meu vício quem respondeu.

Comi ambrosia nos seus lábios. Quis morrer nos seus braços – eu, a louca, ela, a camisa-de-força, meu corpo-terra-seca, ela-chuva. Choveu e eu bebi. Cavalo bravo, bufei, corcoveei – não de ódio, de alegria. De religião. Atéia, encontrei a deusa que abençoou esta descrente com a fé cega na sinceridade de seus suspiros.

Ajoelhou. Rezou.

Eu gritei num silêncio só meu.

Seu corpo, depois de amado, ficou cansado. Adormeceu e sonhou. As pupilas sob as pálpebras brincando agitadas.

A curva de seus quadris, o ângulo agudo do osso junto à carne farta. Para as nádegas existem as mãos. Para as suas, as minhas.

O vão sagrado entre as duas metades brancas feito maçã partida ao meio. Não tinha semente. Mas era de comer. Com a ponta da língua, feito mel. Chave na fechadura.

Ela gemeu, mas os olhos não se abriram.

Manhã clara me pegou na sua maciez. Desejei toda a beleza de seus dedos longilíneos, coxas entreabertas, pescoço de cisne, beleza sem penumbras, sem cortinas, sem janelas fechadas.

Eu abri a janela.

O sol foi cruel no seu rosto. Os olhos se abriram de pasmo. Espasmo. Contração. Convulsão. E era de dor. A louça que era branca trincou nas bochechas. O grito foi um guincho. Os seios, que eram torres, foram pó. O corpo, que era império, foi ruína. E ela, que era Éden, foi inferno. Anjo, caiu da graça. Condenada, queimou na estaca.

O sol fez dela uma montanha de cinza enegrecida sobre o lençol de seda púrpura.

Na ponta da minha língua, o gosto do fruto que madurou e apodreceu.

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A Partitura

conto de 2004

Bem devagar. Foi como começou.

Seus olhos correram pretos pelo branco de leite das mãos dele. Um presente para ela aconchegado nas palmas róseas. Sorriu. Avaliou a delicadeza dos homens verdadeiramente poderosos.

Caiu no abismo azul dos olhos dele. Doeu no fundo quando ele piscou. Que não piscasse. Que tivesse o tempo todo olhos para ela só.

Os lábios do homem ficaram entreabertos numa proposta entrecerrada.

Mãos de pianista, as dele. Encontraram no corpo dela suas teclas. Apanharam-na. Afinaram suas notas. Tiveram a paciência de um imortal. A certeza de um proprietário. O tempo de todo o mundo. Tensionaram cordas – e ela se converteu num brinquedo espontâneo.

Tangendo sempre… Flamenco nos seios. Jazz no ventre. Entre as pernas, um chorinho de arrancar lágrimas.

O bojo dos seus quadris apoiado sobre a coxa firme do homem. A mão esquerda conduzindo seu braço numa valsa descabida. A destra hábil gravou na sua medula a letra daquela canção.

Fez ecoar a voz do amado no recinto outrora vazio da alma da amante.

Ela se contorceu, se inclinou, gata em momento de preguiça, quatro patas, traseiro alto em alegre submissão. A boca dele cantarolou no seu sexo. Lábios com lábios. E todas as janelas do seu corpo se abriram, se escancararam, berrando um convite. Latejando. Umedecendo.

Ele escolheu uma entrada. A doce porta proibida.

Tocou de leve os glúteos fortes. Cor de trigo. Páginas sofisticadas. Abriu-as. O miolo de tal livro era algo a se conhecer.

Ele regia uma sinfonia suave, morosa. Primeiro os violinos. Meigos, furtando suspiros precoces.

E a porta antes trancada foi cedendo devagar.

Então, os oboés. Os violoncelos. Os clarinetes. A divina cacofonia.

O amante avançou. Entrou. Afundou com coragem. Curvou o torso. Encaixou-se à amada como o parafuso à porca. O peso do seu corpo firme sobre o dela, gentilmente subordinado. Tateou. Dedos cegos mas espertos logo acharam seu posto na orquestra. Aninharam-se na alcova alagada de um órgão em flor. Dedilharam… Um, dois, três. Um, dois, três. Encontraram o ritmo. Sem pressa, ele a embalou. Indo e vindo. Afundando sempre.

O maestro conduziu. A diva cantou. Prazer agudo. Palpitante. Infringir a regra e jamais contar a ninguém. Despejar o conteúdo de todas as gavetas. Rasgar as páginas de todos os diários. Falar de amor carnal e visceral em todos os altares. Preencher com gozo divino todos os buracos mundanos. Meter o pecado virtude adentro. Entrar e sair do paraíso roçando o inferno. Roçando o fogo.

A voz dela rivalizou com as de todos os castrati.

Ah! Foi uma longa sinfonia.

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