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	<title> &#187; Contos de terror romântico</title>
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		<title> &#187; Contos de terror romântico</title>
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		<title>Perfeita</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jul 2009 04:28:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>
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		<category><![CDATA[perfeição]]></category>

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		<description><![CDATA[um microconto

Eu teria perdoado sua beleza, não fosse sua inteligência. Poderia ignorar sua inteligência, não fosse sua beleza. Poderia esquecer a ambas, não fossem seus múltiplos talentos. E a estes eu até faria vista grossa, não fosse sua personalidade bondosa, vibrante e magnética, capaz de se compadecer sem arrasar-se, amar sem perder-se, doar sem esvair-se, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=666&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>um microconto</em><br />
<img src="http://camilafernandes.files.wordpress.com/2009/07/blaublau-copy.jpg?w=425&#038;h=425" alt="blaublau copy" title="blaublau copy" width="425" height="425" class="aligncenter size-full wp-image-668" /></p>
<p>Eu teria perdoado sua beleza, não fosse sua inteligência. Poderia ignorar sua inteligência, não fosse sua beleza. Poderia esquecer a ambas, não fossem seus múltiplos talentos. E a estes eu até faria vista grossa, não fosse sua personalidade bondosa, vibrante e magnética, capaz de se compadecer sem arrasar-se, amar sem perder-se, doar sem esvair-se, iluminar tudo à sua volta sem esgotar o próprio brilho.</p>
<p>Eu teria perdoado qualquer dessas coisas. Mas não todas elas juntas. Era pedir demais.</p>
<p>Por isso, depois de finalmente arrastá-la para a cama e copular por horas, apertei com força a echarpe de seda em torno do seu pescoço até ela parar de se debater.</p>
<p>Foi melhor assim. O mundo não estava pronto para ela.</p>
<p>Nem eu.</p>
<p><em>Montagem com fotografias de <a href="http://www.sxc.hu/profile/shanokee">Julian K</a> e <a href="http://www.sxc.hu/profile/lifan">Lisa Fanucchi</a>.</em></p>
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			<media:title type="html">Camila Fernandes (Mila F)</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>O monstro em mim</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Mar 2009 20:15:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>
		<category><![CDATA[Contos do cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[beleza]]></category>
		<category><![CDATA[ciúmes]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[egoísmo]]></category>
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		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<category><![CDATA[terror]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[Conto de 2005.
Há um monstro dentro de mim.
Ele aparece principalmente quando você está por perto.
Observa pelos meus olhos os seus gestos, me retorce as entranhas num nó de fúria e sussurra, de mim para mim, as lições que eu deveria lhe dar.
Esse monstro me mata, amor. E mata devagar. E ele já se mostrou a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=313&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>Conto de 2005.</em></p>
<p>Há um monstro dentro de mim.</p>
<p>Ele aparece principalmente quando você está por perto.</p>
<p>Observa pelos meus olhos os seus gestos, me retorce as entranhas num nó de fúria e sussurra, de mim para mim, as lições que eu deveria lhe dar.</p>
<p>Esse monstro me mata, amor. E mata devagar. E ele já se mostrou a você.</p>
<p>Na primeira vez, éramos somente nós, e eu me abri, revelei meu caráter mais íntimo, e lhe mostrei o que existe dentro de mim. Você não disse nada. Mudou o assunto, comprar cerveja, alugar um filme – mas vi nos seus olhos aquele desassossego de quem tenta enganar o medo.</p>
<p>Na segunda vez, tivemos platéia. O erro, o grito, os queixos esmurrados, o escândalo. Lembro-me quase sorrindo dos olhares chocados no bar. Lembro-me quase chorando das suas ameaças, mas não me deixe, não, amor, eu serei bom&#8230;</p>
<p>Foi só do muito que eu a quero que consegui fazê-la ficar. Recolhi o demônio ao meu calabouço mais profundo, barrei-o, soquei-o em mim, embalsamado. Então, cumulei-a de flores, perfumes, momentos de calmaria e gentileza, e olhe, amor é a nossa música tocando no rádio. Dancemos.</p>
<p>Chorar, nunca. A besta permite nunca o lamento e sempre o ódio.</p>
<p>Mas o monstro cochila e pisca os olhos sonolentos, muito vivos, para mim. Ele me diz que eu devo ser severo. Para puni-la por tudo o que ainda não fez. Para não deixar que você me engane. Você me engana, amor? Com os abraços e os beijinhos e os amigos que na sua boca são apenas amigos e talvez na sua esperança sejam mais? Você me diz que não há malícia, não há maldade neste mundo a não ser em mim, mas ilude-se e me ilude consigo: há interesse nos gestos casuais desses sujeitos que a cercam.</p>
<p>Você é belíssima. Bela demais para ser de um homem só. Bela demais para que o homem que a tem suporte dividi-la com outros.</p>
<p>A besta que reside em mim vigia seu domínio, querida. Você e eu? Suas vítimas. Seu nome? O ciúme.</p>
<p>Esse monstro me mata, amor. E, um dia, matará a nós dois.</p>
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			<media:title type="html">Camila Fernandes (Mila F)</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>O jogo da meia-noite</title>
		<link>http://camilafernandes.wordpress.com/2009/01/19/o-jogo-da-meia-noite/</link>
		<comments>http://camilafernandes.wordpress.com/2009/01/19/o-jogo-da-meia-noite/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 Jan 2009 21:52:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>
		<category><![CDATA[Contos do cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[fantasma]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[solidão]]></category>

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		<description><![CDATA[conto de 2005

Meia-noite. O jogo acontecia quando eles voltavam sóbrios, ansiosos por serem só dois amantes sob um dossel, sem multidão.
Diante da penteadeira ela limpava o rouge, o rímel, a pinta artificial na bochecha esquerda que cobria a pinta real cor de canela. Ele, na cama, esperava sob os lençóis.
Vinha limpa e indecente, meias de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=208&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>conto de 2005</em></p>
<p><a href="http://s4.photobucket.com/albums/y144/milaf/blog/?action=view&amp;current=mulhercopy.jpg" target="_blank"><img src="http://i4.photobucket.com/albums/y144/milaf/blog/mulhercopy.jpg" border="0" alt="Photobucket"></a></p>
<p>Meia-noite. O jogo acontecia quando eles voltavam sóbrios, ansiosos por serem só dois amantes sob um dossel, sem multidão.</p>
<p>Diante da penteadeira ela limpava o rouge, o rímel, a pinta artificial na bochecha esquerda que cobria a pinta real cor de canela. Ele, na cama, esperava sob os lençóis.</p>
<p>Vinha limpa e indecente, meias de liga, espartilho negro, nem parecia uma veste escravocrata do corpo – era a desenvoltura de gata no cio que o desmentia. Tinha na mão a pluma de avestruz que as vedetes usam no chapéu e ciciava:</p>
<p>– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?</p>
<p>O lado esquerdo era dela, era onde dormia. Por isso ele estendia ali o corpo nu. Para ser docemente coagido a mudar-se. Dizia não meneando a cabeça, sorriso de sátiro à espreita da ninfa. Primeiro eram os beijos. Depois a pluma, cócegas que o faziam convulsionar mas não fugir, então os tapas nas nádegas e por fim os arranhões, amável rastro das unhas de meretriz e atriz que ela era. Atriz em vários palcos, puta dele só. A noite era longa: corridas pelo apartamento, absinto francês, muita sujeira para a camareira no dia seguinte.</p>
<p>Lola, Lola tão tola, despida, girou com a garrafa até a varanda numa dança de fazer corar avós para atiçar seu homem, e ela foi, passou as cortinas, ele a segui-la com os olhos pela sacada. E a balaustrada tão baixa.</p>
<p>Apartamento grande, herança de pai, alegria de filho notívago que desmaiava a cada madrugada, trazido do teatro para casa por amigos menos ébrios. Que noites, que dramas, comédias, canções. E Lola, que foi para sua cama como um raio e sacudiu seu mundo, mulher, terremoto, furacão que ficou na sua mente desde então menos equilibrada e mais feliz.</p>
<p>A cama com dossel, jacarandá esculpido e envernizado, leito imenso, bom para a orgia. Alcova ampla, portas-balcão levando à sacada onde a juventude admirava um horizonte letárgico ficar mais vermelho toda tarde, calmaria interrompida nunca por arranha-céus, mas ocasionalmente pelo som distante dos bondes dos trabalhadores. Que bom ser jovem, não trabalhar, fingir que estuda e ter varanda. E ter mulher constante, mas sempre inédita.</p>
<p>Foi culpa do absinto. Da balaustrada baixa. Ou de Lola cansada do jogo. O bailado a levou longe demais. Além da sacada, seu corpo beijou os paralelepípedos. A Fada Verde escapou do vidro, lambeu a calçada. Seus olhos ficaram pasmados no último instante. Seu corpo lá embaixo. Dentre os fios pretos do cabelo, um vermelho e grosso que crescia pela rua.</p>
<p>E agora, como fica o quarto sem seus pés descalços no soalho? O corredor é mudo sem sua voz afinada cantando impropérios.</p>
<p>Como fica a vida se o relógio anuncia a meia-noite e ela não vem?</p>
<p>Cômodos vazios.</p>
<p>Ele está na cama, do lado esquerdo. O perfume dela ficou em tudo. No divã, duas putas largadas. Cheias de formas, seios, quadris, não conseguem alegrar a casa que Lola, sozinha, enchia de vida. Elas desmaiam, dormem. Ele, não. Seu corpo mal-saciado arde em vício, compulsão de amor endemoninhado, convulsão de narcóticos comprados de um mau boticário. De que vale ser sóbrio? Vale-lhe mais sonhar asneiras de apaixonado. É meia-noite. Hora do jogo. Lola, tão tola, tão depressa&#8230;</p>
<p>Sua voz sai como a de um velho:</p>
<p>– Querida, foi tão cedo.</p>
<p>Rola sobre os lençóis. Mas pára.</p>
<p>– Foi mesmo, amor.</p>
<p>O rosto dela voltado para o seu. Na cama. No lado direito. No espartilho negro. Ela é bela. Ela é profundamente&#8230;</p>
<p>– &#8230;pálida. – Ele a toca no rosto; é real. – Lola – repete infantil, prendendo o nome na língua embriagada na ilusão de prender também a amante ao seu lado.</p>
<p>– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?</p>
<p>Mas a mulher não o beija nem o afaga. Não; ela se levanta, meias pretas de liga, botinas de salto. Não dá valor às perdidas no divã. Quer as cortinas que esvoaçam. A varanda.</p>
<p>– Venha! Venha dançar!</p>
<p>E ele vai. Para além da balaustrada, onde os corpos que voam beijam as pedras da rua.</p>
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			<media:title type="html">Camila Fernandes (Mila F)</media:title>
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			<media:title type="html">Photobucket</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>Epitáfio</title>
		<link>http://camilafernandes.wordpress.com/2008/08/27/epitafio/</link>
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		<pubDate>Wed, 27 Aug 2008 20:57:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>

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		<description><![CDATA[texto de 2005
A tarde é vermelha, pinta os campos e o lago de dourado e aquece o seu rosto que eu encontro a espreitar o meu. Tenho um espelho nas mãos. Encaro-me nele, investigo as rugas que já se insinuam. Mas não você; tudo o que vê em mim é jovem e fresco. Detrás de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=74&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>texto de 2005</em></p>
<p>A tarde é vermelha, pinta os campos e o lago de dourado e aquece o seu rosto que eu encontro a espreitar o meu. Tenho um espelho nas mãos. Encaro-me nele, investigo as rugas que já se insinuam. Mas não você; tudo o que vê em mim é jovem e fresco. Detrás de mim, sussurra-me ao ouvido:</p>
<p>– Você é tão bela.</p>
<p>Belo é ter seus braços sobre meus ombros, agasalho humano, e seus dedos nos meus cabelos, o melhor dos pentes. Tudo é perfeito em nós.</p>
<p>– Não mude nunca.</p>
<p>E você se ergue no espreguiçar sossegado de quem sabe apenas gozar a vida. Mas eu tenho um espelho nas mãos. E nele o que vejo é a marcha invencível das décadas nublar de súbito tudo o que sou. Tudo o que você ama.</p>
<p>Serei velha um dia, amor. Quem há de querer uma velha?</p>
<p>Creio que o assusto quando atiro o espelho no lago. Sorrio e você pensa que é piada – o disfarce do meu desespero.</p>
<p>– Não mudarei, meu querido – e o que digo é uma jura.</p>
<p>Escurece, o campo é perigoso à noite, você tem também a sensação de que somos vigiados? São apenas as sombras das árvores. Recolhemos a toalha e a louça. Ainda sinto o gosto da torta de amoras no seu último beijo à minha porta. Mais um chá sob a macieira domingo que vem? Até domingo, então; você pode esperar, mas eu não.</p>
<p>Eu serei velha.</p>
<p>No espelho do meu quarto, já sou. O preto dos cabelos desbota para o branco, a pele escorre cinza sobre os ossos e os olhos brilham ainda, mas no fundo de duas covas cavadas no meu rosto pela mão do tempo. O tempo maldito.</p>
<p>Cubro o espelho com um lençol. Não quero um cadáver a me encarar a noite toda. Fito minhas mãos: ainda são as de uma moça. Suspiro, por ora livre do meu pesadelo desperto. Mas não durmo, pensando no amor, que é caro, no medo, que é grande, e na decadência, que é certa.</p>
<p>Entretanto, é manhã, e eu me levanto sem ter sonhado. Passar o dia a bordar e coser ou respirar na praça; não, quero estar de pijama, acorrentada à escrivaninha, papel e tinta diante de mim numa sentença que cumpro em versos. Amanhã, levá-los ao editor. No jornal sempre há espaço para a minha poesia.</p>
<p>Sento-me. Sirvo-me de chá verde. Papéis novos sobre a mesa. Uma carta. Do meu amor? Não há remetente, endereço ou mesmo perfume. Abrindo-a, desdobro uma nota escrita por mão pesada, inábil, agressiva:</p>
<p><em>Deseja ser jovem para sempre?</em></p>
<p><em>Eu concedo esse desejo.</em></p>
<p><em>Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.</em></p>
<p><em>Venha só. Não terá outra oportunidade.</em></p>
<p>Não assina.</p>
<p>Meu coração quer me arrebentar o peito, bate furioso, tremem-me as pernas como as de uma debutante apaixonada. Apaixonada pelo quê? Uma possibilidade, um sonho&#8230; uma mentira?</p>
<p>Mando vir mais chá. Que seja egípcio: <em>karkadeh</em> me distrai por ser vermelho como sangue. Não quero almoço. Passo o dia a mordiscar biscoitos. Mais alguns versos e estarei curada.</p>
<p><em>Deseja ser jovem para sempre?</em></p>
<p>Mas nada sai da minha pena. Suponho espetá-la no braço e daí fazer brotar boas quadras, honestas e intensas, mas tenho medo da cicatriz. Quem sabe uma anedota hoje em lugar de um soneto.</p>
<p><em>Eu concedo esse desejo.</em></p>
<p>Logo estou bebendo aguardente da garrafa que mora debaixo da cama. Esqueço depressa o copo, beijo o gargalo, amante de vidro. A carta não tem nome, mas tem olhos, espia-me de lado, afronta-me&#8230;</p>
<p><em>Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.</em></p>
<p>Apanho-a, envelope e tudo, amasso-a no punho fechado, atiro-a longe. Mas ela ainda existe dentro do meu escritório, num canto de parede, num canto de memória:</p>
<p><em>Venha só. Não terá outra oportunidade.</em></p>
<p>Chega a noite e eu tomei minha decisão. Lavo as olheiras, tenho um vestido discreto, o cinza não chama atenção à noite. Um xale nos ombros.</p>
<p>Levo meia hora a pé até a Rua do Poço. Conheço tão mal a cidade. O frio, a escuridão, o silêncio, tudo sacode meu corpo em calafrios progressivos. Este é um lugar solitário, cama dos desvalidos, parque dos delinqüentes. Estou só e é tarde. Sou louca por ter vindo. Sou louca, não resta dúvida; mereço ao menos recompensa pelo meu atrevimento.</p>
<p>Por isso, avanço para a esquina onde já me espera o remetente.</p>
<p>A dois metros dele eu me detenho. O homem é calvo, nem tão velho para o ser pela idade, a cabeça enterrada no corpo muito magro – demais, talvez, para pensar em me fazer mal. Parece tão frágil nas pernas longas e finas, nas costas arqueadas. Sinto pena do seu corpo. Mas tenho medo da sua face – não consigo vê-la assim tão longe do poste mais próximo.</p>
<p>– Eu vim – digo-lhe. – Por isso, fale: o que pode me oferecer?</p>
<p>Agora é ele quem se adianta, o lampião de gás revela no seu rosto uma testa fechada, um nariz de abutre e uns olhos sem cor, duros como a vida. A boca é um rasgo cruel na face cor de cera, que se abre para responder:</p>
<p>– Tudo.</p>
<p>Ele é tão&#8230; feio. Sinto pena e algum nojo; recuo e não desisto.</p>
<p>– E qual é o seu preço?</p>
<p>Agora ele apenas me sorri. Meu coração quer fugir pela boca. Seu sorriso é horrível como só a morte. Seus dentes são amarelos, terminam em punhais, punhais em toda a sua boca, dentes em ponta como os de um cão, de uma serpente, de um tubarão, ou todos juntos. E todos juntos avançam para mim.</p>
<p>Eu&#8230;</p>
<p>Eu tenho um sonho, amor, no qual você é triste. O dia é nublado, como poderia ser de sol? Eu me deito numa cama de cetim. Estou no meu vestido azul, aquele que eu deveria usar nas missas. Chovem rosas sobre o meu corpo, lentas como as horas de espera por você. Não nos veríamos só no domingo?</p>
<p>Você me atira uma flor. Tudo é tão devagar. O tempo já não passa em meu leito macio. Venha deitar-se comigo&#8230; Mas você se vira, dá-me as costas, caminha para longe. E tudo se torna chuva.</p>
<p>Meus olhos se abrem vagarosos. Silêncio. Escuridão. Meus dedos tateiam paredes muito estreitas.</p>
<p>Entendo&#8230;</p>
<p>Meu caixão é forrado de cetim.</p>
<p><span style="font-style:italic;font-family:trebuchet ms;"><strong>Epitáfio</strong> narra acontecimentos que precedem o conto <strong>Lápide</strong>, já publicado aqui. Os dois textos podem ser lidos e compreendidos independentemente, mas a leitura de ambos traz maior aproveitamento.</span></p>
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			<media:title type="html">Camila Fernandes (Mila F)</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>O beijo dela</title>
		<link>http://camilafernandes.wordpress.com/2008/08/19/o-beijo-dela/</link>
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		<pubDate>Tue, 19 Aug 2008 22:30:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>

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		<description><![CDATA[conto de 2006

O beijo dela. Fui pego de surpresa. Primeiro o nome.
Começava num rosnado e terminava em melodia. Rrr, vibrava, sotaque italiano. Depois, duas eles bem molhadas. Rafaella.
E essa coisa interessante que aconteceu primeiro nos meus ouvidos foi parar dentro das minhas calças. Ela viu o volume. Eu falei uma besteira. Levei um tapa no [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=62&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><div><em>conto de 2006</em></div>
<div><em></em></div>
<div>O beijo dela. Fui pego de surpresa. Primeiro o nome.</div>
<div>Começava num rosnado e terminava em melodia. Rrr, vibrava, sotaque italiano. Depois, duas <em>eles</em> bem molhadas. Rafaella.</div>
<div>E essa coisa interessante que aconteceu primeiro nos meus ouvidos foi parar dentro das minhas calças. Ela viu o volume. Eu falei uma besteira. Levei um tapa no rosto, daqueles de arder na alma, e então o beijo.</div>
<div>O beijo dela.</div>
<div>Em um momento eu era um Apolo que ofuscava o brilho dos homens e incendiava o coração das mulheres. No outro, era uma sombra que a acompanhava com canina devoção. Um cão. Escorraçado e afagado. Conduzido àcoleira. Comendo migalhas. Ganindo de mágoa e babando de euforia.</div>
<div>Ela era loura, vigorosa, indecifrável, capaz de torcer o nariz para uma gargantilha de brilhantes e sorrir com malícia ao ganhar uma flor de calçada. Mas estou invertendo a ordem dos acontecimentos. Os primeiros presentes foram simples. Ela os apreciou. E, a cada vez, me recompensou.</div>
<div>O beijo dela acabou com minha paz. Porque eu quis mais e ela, também. Agrados mais sofisticados. Mais caros. Ela virou minha vida do avesso. Virou meus bolsos do avesso.</div>
<div>Aparecia apenas quando queria. Chegava me empurrando, me arranhando, me jogando sobre a cama, rasgando as minhas costas com as unhas, tomando meu fôlego, me matando. Matando devagar. Sugando.</div>
<div>Depois, me xingava. Ia embora. Eu chorava em silêncio.</div>
<div>Eu a amava.</div>
<div>Eu a odiava. A bruxa peçonhenta. A fada encantadora.</div>
<div>Mulher incrível, inevitável, insuportável. Nunca dizia se voltaria. E eu esperava seu retorno, impaciente, dependente. Agitado em meu quarto como um tigre em exígua jaula. Muito café. Muitos cigarros. Muitas olheiras. Ela podia aparecer de madrugada e se eu não ouvisse a campainha ela não poderia entrar&#8230;</div>
<div>Meu corpo não enfrentava o dia sem uma noite ao lado dela. Sobre ela. Debaixo dela. Como fosse. Ela agarrava minha masculinidade, exaltava-a e então a destruía. Destruía-me. Fumava meu corpo como um cigarro barato e atirava a guimba no lixo.</div>
<div>Não há escravo sem mestre. Eu não existia mais sem ela. Sem o beijo dela. O beijo que me viciou, me deturpou, me extingüiu.</div>
<div>Ontem eu quis saber se havia outro. Ela riu. Meu amor era piada para ela. Disse que teria quantos amantes quisesse. Que eu não era homem para ela. Fraco. Pequeno. Insuficiente.</div>
<div>Chamei-a de vadia e ela me estapeou a boca. Um fio de sangue muito ralo. Ela lambeu meu lábio partido e me chamou de menino.</div>
<div>Ela tinha poder sobre mim, um poder rude e cáustico.</div>
<div>Mas me disse uma palavra terna. Menino. Isso bastou para fragilizar o elo.</div>
<div>Mas ela vai voltar hoje para reforçar o vínculo. Sabe que deve fazer isso ou vai me perder. Ou enlouqueço e me atiro pela janela.</div>
<div>Ela vai chegar jogando a bolsa sobre a mesa, me empurrando para o quarto. E vai me dar um único privilégio, deixando-me deitar sobre seu corpo. E vai me insultar gritando enquanto empurro meu sexo dentro do dela. E eu vou amá-la. Um homem deve fazer o que é necessário.</div>
<div>Na hora em que ela gritar como uma soprano em êxtase eu vou agarrá-la pelos cabelos. Os cabelos muito longos, muito louros. E vou fazer com eles uma forca dourada. E passá-los com delicadeza em torno do seu pescoço arfante. Apertar com força. Deixar que as unhas vermelhas lacerem meu peito enquanto o corpo exuberante se debate sob o meu, querendo fugir, querendo viver. Porque um homem deve fazer o que é necessário.</div>
<div>E então Rafaella deixará de ser. E eu voltarei a ser o vira-lata magro, sem coleira, sem nome, mas livre.</div>
<div>Que os tabacos e uísques e drogas do mundo me aprisionem. Que eu possa ser um viciado, um perdido.</div>
<div>Serei um miserável de sorte se, mergulhado em outra decadência, eu possa me esquecer de Rafaella.</div>
<div>E do beijo dela.</div>
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		<title>A lápide</title>
		<link>http://camilafernandes.wordpress.com/2008/08/11/a-lapide/</link>
		<comments>http://camilafernandes.wordpress.com/2008/08/11/a-lapide/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 11 Aug 2008 14:42:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos de terror romântico]]></category>

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		<description><![CDATA[Você vem arrastando os pés na relva, sem muita vontade, sem muita coragem. Mas precisa desse ritual &#8211; seu coração o exige &#8211; muito mais do que você é capaz de admitir.
Posso vê-lo de meu escaninho no arvoredo. Disfarçada estou nas silhuetas de negros ciprestes. Você se ajoelha diante do túmulo mil vezes renegado. A [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilafernandes.wordpress.com&blog=4378976&post=32&subd=camilafernandes&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="justify">Você vem arrastando os pés na relva, sem muita vontade, sem muita coragem. Mas precisa desse ritual &#8211; seu coração o exige &#8211; muito mais do que você é capaz de admitir.</p>
<p align="justify">Posso vê-lo de meu escaninho no arvoredo. Disfarçada estou nas silhuetas de negros ciprestes. Você se ajoelha diante do túmulo mil vezes renegado. A brisa lhe alvoroça os cabelos claros como os meus dedos teriam feito.</p>
<p align="justify">- Olá, meu amor.</p>
<p>Ah, sim, diga essas palavras que eu esperei tanto para&#8230;</p>
<p>- Sei que não tenho vindo vê-la. Estive no seu&#8230; funeral&#8230; e nada mais. Não ousava&#8230;</p>
<p>Sua voz se torna um soluço amargo, e você se deixa prostrar diante da lápide, apoiando sua cabeça a ela, envolvendo-a com seus braços, como se a força da sua vontade pudesse dar vida à pedra áspera. Não, não é daí que virá o calor de que você&#8230;</p>
<p>- Passei cada dia desde que você partiu aguardando seu retorno, acreditando a cada manhã que eu iria despertar e me virar e encontrá-la ao meu lado, seus cabelos espalhados no travesseiro e suas mãos&#8230; suas mãos&#8230;</p>
<p>Sim, minhas mãos nos seus lábios. Lábios doidos por tabaco do sul e narguilé do leste, que posso enxergar, mas cujas palavras doloridas parecem-me distantes como sonhos de infância. O que foi feito daquela parte de mim que sabia apreciar a curva sutil de suas costelas sob a pele sem lençóis, o quadril sem querer sinuoso para meus olhos e a boca cheirando a fumo e cevada?</p>
<p align="justify">- Todos aqueles festins, aqueles falsos amigos, aquela gente traiçoeira à nossa volta, os nossos vícios&#8230; Era tão difícil não enlouquecer. Eu nunca lhe disse o quanto era importante para mim, querida. Nunca lhe confessei que seu rosto junto ao meu na noite era a única coisa capaz de preservar minha sanidade.</p>
<p>As lágrimas brotam por entre suas pálpebras muito apertadas. Por que veio a esta hora, amor, quando é crepúsculo, e o céu está de luto, e eu estou alerta, tendo idéias com as nuvens cor de sangue? Qual é de fato seu propósito&#8230; e qual é o meu?</p>
<p>Noto que você adormeceu, rosto colado ao epitáfio, feito um indigente. É em seus sonhos que os homens vêem aquilo por que mais anelam. A visita derradeira dos amados que partiram.</p>
<p>É agora. Eu me aproximo. Mal ouço meus próprios passos. Sou uma sombra ou menos do que isso. Estou de cócoras, quase roço sua orelha com minha boca gretada, uma ferida na cera branca do meu rosto. Só nesta proximidade me é possível ouvir seu murmúrio adormecido.</p>
<p>- Não vá embora. Não de novo.</p>
<p>Eu não irei. Nunca fui. Sempre estive aqui à sua espera. <em>Eles</em> arranjaram tudo para que ninguém nunca venha a saber que esse túmulo está vazio. <em>Eles</em> têm seus truques&#8230; Não encontraram problemas para tomar meu ataúde à mãe-terra e cobrir novamente a vala vazia. Trabalham sempre à noite, velozes, silenciosos. Ninguém viu; ninguém verá. Não estou bem certa&#8230; da razão pela qual me escolheram. <em>Eles</em> têm seus pretextos. Talvez minha arte, ah, querido, você devia vê-los recitando meus versos com lágrimas nos olhos. Poetas, escultores, músicos e pintores, todos eles donos de talentos divinos. Os antigos já diziam: a vida é breve, mas a arte não morre. Tampouco os artistas. É pela arte que o ser humano, insignificante para o Universo, faz seu nome ecoar no mundo, tornando-se imortal para sua própria raça.</p>
<p>Você deve ter sentido meu hálito junto ao seu pescoço. Gelado. Pois percebo que desperta, lento, desnorteado, e volta para mim seus grandes olhos castanhos, que não têm um laivo de verde nem uma esmola de mel, mas nunca chegaram a ser pretos como os meus.</p>
<p>Você nem sabe o que dizer.</p>
<p>- Estou perdido&#8230; Enlouqueci&#8230;</p>
<p>- Não, meu amor&#8230;</p>
<p>Você, porém, não me escuta, não me vê. Ergue-se, brusco. Ganha distância. Está assustado? Deve ser por causa das minhas longas saias roídas pelas traças ou os torrões de terra que adornam meus cabelos sem toucado ou o azul de meus lábios antes róseos. Creio que não sou mais tão bela quanto antes.</p>
<p>Ainda tento fazer-me compreender:</p>
<p>- Eu fui reconhecida, e meu mérito, premiado. Fui abençoada, meu amado, com a imortalidade. Eles me fizeram maior do que a morte. E eu retornei para você, apenas por você.</p>
<p>Você não entende. É cego, é surdo à verdade. Conheço o terror em seu olhar. Está recuando, repelindo-me, odiando-me!</p>
<p>- Você me queria quando não podia ter-me. Eu cá estou&#8230; e você me rejeita?</p>
<p>- Afaste-se de mim!</p>
<p>Você corre com todas as suas forças. É apenas um homem. Sinto o odor do suor frio com lágrimas espalhando-se pelo vento. Você não me quer. Não como sou agora. Eu, contudo, ainda o quero; agora, mais do que nunca.</p>
<p>Decido, alcanço-o, minha mão abafa seus gritos com força inaudita, por que tem de gritar? Eu não me julgara assim poderosa. Sou uma poeta que chora sua sina, uma fera que subjuga sua presa e um fantasma que caminha para longe de seu fim.</p>
<p>- Você não sabe, não aceita, mas eu ainda o amo, amo-o além da vida e além da morte. Vou mostrar-lhe a grandeza deste amor.</p>
<p>Você está em meus braços como deve, coberto por meus beijos como precisa, amado por mim como quero. Consumido em minha fome por seu corpo. Há segredos maiores do que a frágil vida, meu adorado, e mais soberanos do que a morte. O fim não conclui, liberta. E irá libertá-lo, como a mim.</p>
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