O primeiro conto do ano vem acompanhado de uma foto bastante conveniente que tirei na casa de meus pais.

Nas histórias que ouvia, sempre havia uma princesa, ou uma bruxa, ou um dragão, ou um príncipe – ou todos de uma vez. O príncipe salvava a princesa de grandes perigos. Mas ali, em sua vidinha, não havia qualquer uma dessas coisas. Não era princesa. Apenas a filha de um fidalgo. Um fidalgo menor, com poucas terras e nenhuma importância nobiliárquica, o que lhe bastava para viver confortável e despercebido.
Para ela, não havia perigo algum que não o tédio. Nenhuma salvação que não a fantasia.
A filha do fidalgo, pois, ouvia. E lia: privilégio de poucos. Mas não lhe agradava ler sobre fatos. Preferia saber de sonhos. Pois dizia: o fato me enfastia. Ao que o pai replicava: o sonho é enfadonho. Dá-me então alguma companhia com que me distraia, tornava a pedir todo o tempo. Ali, entre lavradores e porqueiros, não havia amizade que lhe chegasse. Mas o pai não lhe permitia ter um cão, por abominar latidos. Não lhe daria um gato, pois não queria pêlos na casa. Proibira-lhe mesmo um pássaro de gaiola, pois detestava o canto repetido e sem razão. E, por zelo da única filha, dizia que era cedo para casá-la. Era, afinal, um fidalgo pequeno, com pequenas idéias.
Então, ali ficava a filha, sem cão nem gato, sem príncipe ou mesmo dragão.
Um dia, porém, acordou e viu qualquer coisa no canto do quarto. Tinha o tamanho de um punho de moça fechado e a cor da azeitona. Era um sapo.
Feio e rugoso que era, na sua solidão julgou-o belo e o apanhou. Em sua anfíbia indiferença o sapo não pulou nem esperneou e ela o acreditou contente como ela de ali estar.
À noite, abriu a janela e acendeu uma lamparina para chamar os insetos. Atraídos, traídos foram, colhidos pela língua ágil da boca sem dentes. A cada mariposa que sumia no ar, a moça sorria, batia palmas – criança que era.
Se o pai não lhe cedia sequer um pássaro, não lhe negaria o sapo: jamais saberia dele. Seu tímido coachar não seria ouvido através das paredes. Seu porte pequenino não seria visto sob a cama. Seria um perfeito companheiro: silencioso, diminuto, concordante.
Ao deitar-se, trouxe o sapo ao peito e cobriu-o de leve com a manta como cobria o próprio corpo. Os olhos preguiçosos nada expressavam, como é dos sapos, mas, como é das moças sonhadoras, ela tudo lia no que ia vendo: amizade, entusiasmo, afeição.
Ouvira dizer que uma princesa qualquer beijara um sapo e este transmutara-se em lindo príncipe. E se também fosse assim com seu verde amigo? E se tivesse entrado no quarto daquela, única entre as mulheres, que ele sabia capaz de amá-lo ainda que fosse cor de oliva e áspero e gelado ao toque?
Teria quem a resgatasse enfim do tédio. E a vida seria sonho.
Havia de beijá-lo, sim. Esta noite, não. Estava insegura. Entusiasmada. E se não fosse como queria? Outro dia, outra noite. Hoje dormiria na doçura extrema da incerteza, o sapo frio aconchegado ao colo quente. Era cedo para quebrar tamanho encanto.
De manhã, desencanto. Deitada de bruços, a filha do fidalgo virou-se apenas para ver a nódoa vermelha estampada em sua camisola e o corpo do sapo, nunca príncipe, esmagado contra o colchão.
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