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Arquivo da categoria ‘Contos de fantasia’

um exercício

Da janela nada se vê além dos contornos dos prédios sob a chuva. Feita de pedaços aéreos, desiguais, mais poeira do que chuva, ela voa na horizontal. Desafia as noções de como deveria ser. Assusta pelo movimento insólito, irreal. Vez por outra ruge com mais força, raivosa, como se disposta a pôr abaixo este prédio.

Aqui, um estúdio de arte, olhos apertados, luzes falhando. Lá fora, um mundo branco, submerso num rio que corre pelo ar.

Quando o vento se cansa o branco se dissipa, fica o cinza, o negro, o fundo da rua. Não vejo mais os paralelepípedos. Já não há calçada. Motoristas se apressam, tirando seus carros do acostamento inundado para sabe-se lá onde. No estúdio, burburinho; lá fora, trovão. Há quem ria nervosamente, camuflando-se com piadas. Aqui é São Paulo. Se não chover de manhã, chove de tarde. Outros confessam o medo, murmuram baixinho. Preciso pegar as crianças da escola. Como é que nós vamos para casa?

A luz vacila. Um olho cansado que se fecha e não se abre mais. No meio da tarde, o escuro da noite. A água continua subindo.

Estamos todos nas janelas, namorando apavorados o novo mar que devora a cidade, quando ele entra na sala:

- Melhor chamar logo a arca que essa porra não acaba hoje!

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Vivia desorientada. Por isso, foi a um estúdio de arte corporal e adquiriu sua primeira tatuagem: uma bússola, gravada bem no meio das costas.

Verdade que não apontava para o Norte e sim para onde quer que ela se virasse. Mas pareceu funcionar; sua auto-sugestão era forte. Seu senso de espaço melhorou muito.

Gostou da experiência. Nunca mais parou.

Notou que vivia sem tempo para tudo. Então, tatuou uma ampulheta ao longo da panturrilha direita. O bojo superior da peça foi desenhado cheio e jamais se esvaziava. Nunca mais faltou-lhe tempo.

Morava só, em silêncio. Quis ter um bicho de estimação, mas o gato fugiu e o canário morreu (antes de o gato ter fugido). Então, mandou tatuar um jaguar e uma arara – não fazia mal ser hiperbólica nessa hora. Fez também um lobo, um cavalo, uma baleia narval. E desde então não teve dentro de si mais nenhum silêncio constrangedor.

Mas ainda sentia-se só. Faltava companhia humana. Por isso, tatuou um rapaz viril, um velho paternal, um divertido menininho. Fez também a mãe já morta, a irmã que não teve, a avó que não conheceu. O casal de filhos – gêmeos – que nunca pariu.

E, como os humanos nada são sem seus mitos, mandou espraiar uma sereia na coxa, onde ainda havia espaço; uma fada a voar no braço; um unicórnio empinado no tornozelo.

Um dia, entendeu que, a cada ausência que preenchesse com tinta, outra lhe surgiria. Sempre haveria lacunas em sua vida. Mas no corpo já não havia nenhuma. A pele era espaço finito.

Agora, ela era uma coisa circense, inumana, causando sustos pela rua com o universo vivo na derme.

Percebeu que o que lhe faltava verdadeiramente era a emoção. A aventura. Mais que pintar na pele o mundo todo, ganhá-lo – e ser dele.

Então, assinou contrato com uns japoneses para que a esfolassem após a morte e vendessem sua pele esticada em abajures exclusivos, milionários. Recebeu alguns milhões de euros por isso e foi viajar.

Gostou da experiência. Nunca mais parou.

Pois desde esse dia, dinheiro, pelo menos, nunca mais faltou.

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O primeiro conto do ano vem acompanhado de uma foto bastante conveniente que tirei na casa de meus pais.
sapinho

Nas histórias que ouvia, sempre havia uma princesa, ou uma bruxa, ou um dragão, ou um príncipe – ou todos de uma vez. O príncipe salvava a princesa de grandes perigos. Mas ali, em sua vidinha, não havia qualquer uma dessas coisas. Não era princesa. Apenas a filha de um fidalgo. Um fidalgo menor, com poucas terras e nenhuma importância nobiliárquica, o que lhe bastava para viver confortável e despercebido.

Para ela, não havia perigo algum que não o tédio. Nenhuma salvação que não a fantasia.

A filha do fidalgo, pois, ouvia. E lia: privilégio de poucos. Mas não lhe agradava ler sobre fatos. Preferia saber de sonhos. Pois dizia: o fato me enfastia. Ao que o pai replicava: o sonho é enfadonho. Dá-me então alguma companhia com que me distraia, tornava a pedir todo o tempo. Ali, entre lavradores e porqueiros, não havia amizade que lhe chegasse. Mas o pai não lhe permitia ter um cão, por abominar latidos. Não lhe daria um gato, pois não queria pêlos na casa. Proibira-lhe mesmo um pássaro de gaiola, pois detestava o canto repetido e sem razão. E, por zelo da única filha, dizia que era cedo para casá-la. Era, afinal, um fidalgo pequeno, com pequenas idéias.

Então, ali ficava a filha, sem cão nem gato, sem príncipe ou mesmo dragão.

Um dia, porém, acordou e viu qualquer coisa no canto do quarto. Tinha o tamanho de um punho de moça fechado e a cor da azeitona. Era um sapo.

Feio e rugoso que era, na sua solidão julgou-o belo e o apanhou. Em sua anfíbia indiferença o sapo não pulou nem esperneou e ela o acreditou contente como ela de ali estar.

À noite, abriu a janela e acendeu uma lamparina para chamar os insetos. Atraídos, traídos foram, colhidos pela língua ágil da boca sem dentes. A cada mariposa que sumia no ar, a moça sorria, batia palmas – criança que era.

Se o pai não lhe cedia sequer um pássaro, não lhe negaria o sapo: jamais saberia dele. Seu tímido coachar não seria ouvido através das paredes. Seu porte pequenino não seria visto sob a cama. Seria um perfeito companheiro: silencioso, diminuto, concordante.

Ao deitar-se, trouxe o sapo ao peito e cobriu-o de leve com a manta como cobria o próprio corpo. Os olhos preguiçosos nada expressavam, como é dos sapos, mas, como é das moças sonhadoras, ela tudo lia no que ia vendo: amizade, entusiasmo, afeição.

Ouvira dizer que uma princesa qualquer beijara um sapo e este transmutara-se em lindo príncipe. E se também fosse assim com seu verde amigo? E se tivesse entrado no quarto daquela, única entre as mulheres, que ele sabia capaz de amá-lo ainda que fosse cor de oliva e áspero e gelado ao toque?

Teria quem a resgatasse enfim do tédio. E a vida seria sonho.

Havia de beijá-lo, sim. Esta noite, não. Estava insegura. Entusiasmada. E se não fosse como queria? Outro dia, outra noite. Hoje dormiria na doçura extrema da incerteza, o sapo frio aconchegado ao colo quente. Era cedo para quebrar tamanho encanto.

De manhã, desencanto. Deitada de bruços, a filha do fidalgo virou-se apenas para ver a nódoa vermelha estampada em sua camisola e o corpo do sapo, nunca príncipe, esmagado contra o colchão.

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conto de 2004

Ela lambeu minha orelha.

Fê-lo com a delicadeza de um zéfiro nas manhãs antigas. Dríade, brincou no bosque dos meus sentidos. A ponta flexível vibrou no lóbulo e se encaixou nas cavidades retorcidas. Vai-e-vem. Labirinto úmido, labirinto inundado de sussurros, súplicas, ordens.

“Vamos?”

“Eu… vou.”

Foi meu vício quem respondeu.

Comi ambrosia nos seus lábios. Quis morrer nos seus braços – eu, a louca, ela, a camisa-de-força, meu corpo-terra-seca, ela-chuva. Choveu e eu bebi. Cavalo bravo, bufei, corcoveei – não de ódio, de alegria. De religião. Atéia, encontrei a deusa que abençoou esta descrente com a fé cega na sinceridade de seus suspiros.

Ajoelhou. Rezou.

Eu gritei num silêncio só meu.

Seu corpo, depois de amado, ficou cansado. Adormeceu e sonhou. As pupilas sob as pálpebras brincando agitadas.

A curva de seus quadris, o ângulo agudo do osso junto à carne farta. Para as nádegas existem as mãos. Para as suas, as minhas.

O vão sagrado entre as duas metades brancas feito maçã partida ao meio. Não tinha semente. Mas era de comer. Com a ponta da língua, feito mel. Chave na fechadura.

Ela gemeu, mas os olhos não se abriram.

Manhã clara me pegou na sua maciez. Desejei toda a beleza de seus dedos longilíneos, coxas entreabertas, pescoço de cisne, beleza sem penumbras, sem cortinas, sem janelas fechadas.

Eu abri a janela.

O sol foi cruel no seu rosto. Os olhos se abriram de pasmo. Espasmo. Contração. Convulsão. E era de dor. A louça que era branca trincou nas bochechas. O grito foi um guincho. Os seios, que eram torres, foram pó. O corpo, que era império, foi ruína. E ela, que era Éden, foi inferno. Anjo, caiu da graça. Condenada, queimou na estaca.

O sol fez dela uma montanha de cinza enegrecida sobre o lençol de seda púrpura.

Na ponta da minha língua, o gosto do fruto que madurou e apodreceu.

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texto de 2008 – um fragmento

Um dia antes da estação fria, o rapaz escolheu sua árvore e preparou o gume. Ouviu os estalos comuns da mata, da vida prosseguindo e se perpetuando no escuro, e isso lhe garantiu que aquela era uma tarde como outra qualquer. Mas, ao erguer o machado, viu um vulto passar entre a folhagem. Não pôde entender se era grande ou pequeno, fera ou presa, e não se ocupou disso. Apenas o cinza da sombra fugaz se lhe assentou na memória. Ergueu de novo o machado e acertou a última árvore a cair na temporada.

Partiu o tronco em pedaços de forma a carregá-lo de uma só vez em seu carrinho de mão. A madeira da vez era pesada e teimosa e fez o suor brotar sob seus braços.

Então, um grupo encheu o dia, agudo e terrível.

O coração do lenhador saltou. Apurou olhos e ouvidos em busca de perigo, mas o som foi único; depois dele houve apenas silêncio. Sua mente se encheu de pensamentos de ódio e dor. Imaginou uma criança ferida, uma mulher furiosa, uma fera enlouquecida. Pensou, por fim, que a mata tinha ses segredos e o melhor seria não se desviar de seu longo caminho de volta ao lar. Segurou firme nos cabos dos carrinho, empurrando-o com alguma pressa. Os antigos já diziam, e os mais moços nem sempre reconheciam, que havia coisas que só o bosque poderia entender.

Este é um fragmento do conto “O Lenhador e a Sombra”, a ser publicado em meu primeiro livro-solo, “Reino das Névoas”. Mais detalhes em breve.

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