um exercício
Da janela nada se vê além dos contornos dos prédios sob a chuva. Feita de pedaços aéreos, desiguais, mais poeira do que chuva, ela voa na horizontal. Desafia as noções de como deveria ser. Assusta pelo movimento insólito, irreal. Vez por outra ruge com mais força, raivosa, como se disposta a pôr abaixo este prédio.
Aqui, um estúdio de arte, olhos apertados, luzes falhando. Lá fora, um mundo branco, submerso num rio que corre pelo ar.
Quando o vento se cansa o branco se dissipa, fica o cinza, o negro, o fundo da rua. Não vejo mais os paralelepípedos. Já não há calçada. Motoristas se apressam, tirando seus carros do acostamento inundado para sabe-se lá onde. No estúdio, burburinho; lá fora, trovão. Há quem ria nervosamente, camuflando-se com piadas. Aqui é São Paulo. Se não chover de manhã, chove de tarde. Outros confessam o medo, murmuram baixinho. Preciso pegar as crianças da escola. Como é que nós vamos para casa?
A luz vacila. Um olho cansado que se fecha e não se abre mais. No meio da tarde, o escuro da noite. A água continua subindo.
Estamos todos nas janelas, namorando apavorados o novo mar que devora a cidade, quando ele entra na sala:
- Melhor chamar logo a arca que essa porra não acaba hoje!
Oi, Camila, muito legal seu conto. Vejo que os nossos trabalhos paralelos (ilustrações também) para livros são a nossa “banda de garagem” para reconhecimento e investimento pessoal. Vamos à luta, né?
Marcelo,
Banda de garagem… Você falou tudo!
Beijão.
E eu que sempre penso “como vou sair da usp toda alagada?”. Daqui a pouco vão trocar os busões estudantis por barcas =P
Mas a chuva fica bonita quando apreciada de dentro…
Gi, eu sou mole. Acho a chuva bonita e necessária, mas também terrível. Quando cai forte, sempre penso nas criaturas que não têm onde se abrigar. E a chuva que caiu nesse dia foi apocalíptica por meros 30 minutos. :-S
Também gostei bastante do texto Mila, não apenas por estar bem escrito, mas também pelo tema.
A chuva pra mim é algo entre melancólico e mágico, perfeito para descrever sensações.
Bjitos,
Loo
Obrigada, Loo! Nada como um pouco de água morro abaixo pra botar a gente em contato com o que há de mais íntimo em nós mesmos.
Juro que ouvi um solo de sax bem baixinho ao ler essas linhas….E vi um pouco daquele amor abusado que temos pelas nossas cidades.
Grande beijo!! Saudades de Sampa e de vocês aí!
Amor abusado, amor abusivo… use e a buse do blog, Márcio! Bom te ver por aqui! Beijão.
E aí, Camila! Como anda a produção? =*
Vou te emeiar esses dias.
Completamente dispersa e indisciplinada, como sempre, Eric. Mas do caos acaba saindo alguma coisa. Já te respondi via “emeio”. Beijo!