Recebo alguns e-mails que variam no discurso mas fazem a mesma pegunta: Como faço para me tornar ilustrador?. Pedem-me que conte minha experiência, que cursos fiz, o que recomendo. Não sou a pessoa mais adequada para responder a isso – há profissionais mais experientes e articulados para a tarefa. Mas já que perguntaram para mim e não sou de ignorar ninguém, segue aqui uma resposta-padrão que envio às pessoas. Afinal de contas, as palavras podem ser diferentes, mas as dúvidas são quase sempre as mesmas.
Olá!
Ilustração não é uma profissão fácil, mas não há profissões fáceis. O que dificulta essa carreira no Brasil é principalmente o fato de ser pouco conhecida, sem regulamentação e portanto pouco respeitada. Tem cliente pedindo desenho a “dé real”, alegando absurdos do tipo “isso é um dom que Deus te deu, você devia fazer de graça” ou “ainda é muito eu ter que pagar, meu sobrinho faz isso aí por uma pizza”. Enfim, é um mundo de profissionais pouco compreendidos e infestado por pestes como “sobrinhos” e “micreiros”, que acham que por saberem fazer uns gradientes e Layer Effects no Photoshop já podem ser ilustradores. Eu amo Photoshop e artes digitais, mas é preciso mais do que isso. É preciso criatividade, planejamento e empenho.
Nem por isso ser ilustrador é uma profissão ruim. Ao contrário, há muitos profissionais bem pagos, extremamente respeitados, tanto por clientes como por colegas, verdadeiras inspirações para nós que ainda não somos ninguém. No Brasil, destaco caras como Montalvo Machado, verdadeiro ativista dos direitos dos ilustradores e meu guru em assuntos desenhísticos contratuais; o mestre completo Alarcão, que dispensa comentários; o clássico Benício, rei das pin-ups; Cárcamo, senhor das aquarelas que nasceu no Chile mas mora e trabalha aqui; Kako, prodígio dos vetores reconhecido internacionalmente; a fashion Fernanda Guedes, conhecida por suas ilustrações estilosas e modernas; Ricardo Antunes, artista versátil e engajado que no momento vive em Portugal, de onde publica online a Revista Ilustrar, feita gratuitamente por ilustradores para ilustradores; Hiro, responsável pelas ilustrações das bandejas do McDonald’s, que todo mundo conhece e curte. Enfim, há muitos outros nomes de peso e não é justo que eu mencione só esses, mas esta mensagem não teria fim e esses caras estão no topo da minha lista pessoal de feras. Visite seus sites. Você vai se maravilhar com o trabalho deles, caso ainda não os conheça.
Pra se estabelecer na área tem que ser ou muito versátil – capaz de desenhar lindamente qualquer coisa que o cliente peça, do jeito que ele pedir – ou criar um estilo único, tão distinto e cheio de personalidade que quando o cliente te contratar ele vai querer exatamente aquele trabalho que só você poderia fazer. Pode fazer as duas coisas também, se levar jeito. Tenho meu próprio jeito de ilustrar, mas a maior parte dos trabalhos pagos que faço pede outros resultados.
Trabalho que fiz para a escritora Rita Maria Félix no meu estilo com nanquim.

Ilustração de abertura do jogo para celular BlackJack Max; o cliente, Microways, me deixou fazer do meu jeito, desde que o apelo visual fosse bem forte (sim, pode olha para a peitaria da moça de rosa).

Este, fiz para a agência Casanova em estilo definido por eles.

Tem que se empenhar bastante para se aprimorar sempre e de preferência se relacionar com profissionais mais experientes na área, que podem de tar toques a respeito de como e quanto cobrar, como lidar com os clientes, etc. Isso porque a maioria dos ilustradores é freelancer, especialmentre no Brasil. Ser freelancer é bom, porque não tem patrão nem horário fixo. E é ruim, porque não tem garantia de trabalho e ganho mensais. É uma vida que cai como uma luva para alguns, mas não serve para todos.
Existem estúdios que contratam ilustradores como funcionários, mas a maioria trabalha de forma independente mesmo. Eu trabalhei 6 anos como ilustradora independente, tenho firma aberta e emito nota fiscal. Gostava muito de ser freelancer, trabalhar de pijama e folgar no meio da semana (mas em compensação trabalhando às vezes nas noites e finais de semana), mas cheguei a um ponto da vida onde a insegurança começou a mexer com meus nervos. Hoje trabalho fixa no estúdio do Mauricio de Sousa, mas não sou funcionária registrada, emito nota para eles também.
O campo de trabalho é variado. Você pode se voltar para moda, artes plásticas, design gráfico, ilustração editorial ou publicitária, quadrinhos, desenho animado. Veja com que você se identifica e onde as oportunidades parecem mais interessantes.
Faculdade é apenas um caminho; há outros. Pode ajudar ou não, depende de para que área você quer se voltar. É bom pesquisar direitinho e conversar com pessoas que já tenham feito ou estejam fazendo os cursos que te chamam a atenção. É o melhor jeito de avaliar se eles vão te acrescentar alguma coisa antes de investir tempo e grana neles. Pessoalmente prefiro cursos livres e intensivos, como cursos de desenho anatômico ou de programas para ilustração. Dei aulas de Photoshop na Cadritech, ótima escola de computação gráfica. Não fiz faculdade, não foi atraente para mim, mas para outras pessoas faz toda diferença, se não pelo que você aprende, pelos contatos que faz com outras pessoas da área, seus futuros colegas de profissão, que podem te indicar em lugares e vice-versa.
Para você que ainda não sabe se vai seguir essa profissão, comece já a se informar com esta leitura fundamental: o Guia do Ilustrador. É um arquivo PDF muito bem-escrito por profissionais de respeito da área com a exata intenção de orientar quem não sabe como começar sua carreira em ilustração. Ele tem tudo o que é essencial para você se iniciar. É de graça, aproveite!
Para pedir dicas de assuntos específicos, recomendo um grupo de discussão do Yahoo! formado por profissionais de primeira linha, o Ilustragrupo.
Lá se conversa de tudo: dicas de preços, regras de contratos, exposições, cursos, técnicas específicas etc. Tudo que possa interessar a um ilustrador. Mas, antes de sair perguntando, leia o Guia, OK?
O mais importante é saber que você pode, sim, se tornar muito bom nisso, mas nunca vai ser tão bom que não possa ser ainda melhor! Por isso, se decidir mesmo ser desenhista, pratique a vida inteira, observe o trabalho dos outros, teste estilos diferentes, enfim, desenhe, desenhe, desenhe!
Boa sorte.
Seus desenhos com certeza têm uma impressão digital, sou capaz de reconhecer o seu traço até no 3º estágio de alcoolismo.
Essas incertezas da carreira são tão injustas, tanta gente talentosa que não merece ficar nessa corda bamba…
Por que fomos escolher tantas coisas com retorno incerto? Porque preferimos fazer o que gostamos.
É a difícil profissão de quem faz arte num país que importa boa parte de sua cultura, ciência, forma de pensar, etc. Detesto esse estigma de “país colonizado”, quando isso tolhe nossa criatividade e tunga os esforços de desenvolvermos uma identidade e cultura próprias.
Desejo que as coisas melhorem para todos nós.
Cris, mais do que do estilo, acho que essa impressão digital resulta de um vício. É como chegar a uma ocasião social com a convicção de que você vai se comportar direitinho e, na hora, acabar cometendo as mesmas gafes de sempre. A diferença, aqui, é que não dá pra considerar os “toques de autor” como gafes e sim como marcas bem-vindas do condicionamento artístico.
As coisas vão melhorar para todos nós. Na marra!
Uau, mulher, você manda bem nos desenhos! =)
Bem, não sei se reconheço um desenho de ilustrador, me ensina a reconhecer um seu? Ou o traço típico de algum artista, além de você. A assinatura não conta, claro…rs.
Gi, obrigada!
Acho que, pra reconhecer de longe o estilo de um ilustrador, só observando bem o trabalho dele. Se você gosta de lançar olhares demorados sobre peças visuais, vai acabar distinguindo aqui e ali aquele nariz anguloso que o autor é viciado em desenhar, aquela mania de fazer pernas grossas, aquela paleta de cores que ele adora usar, aquele jogo de luz e sombra que é típico de seu trabalho – propositalmente ou não. Ou seja, basta acompanhar e prestar bastante atenção.
Hum, valeu pela dica, Mila. Tudo bem que sou um pouquinho (pouco?) distraída, mas vou tentar reparar mais nos trabalhos visuais… Pelo menos isso é mais fácil que reparar no estilo de um cantor =P
Tá, agora tô pensando na futura apreciação da música toda hora e aguardando ansiosamente o grande dia…. aaaah!
Bjos
[...] Então você quer ser ilustrador – Camila Fernandes, Escritora e Ilustradora, fala sobre a profissão e dá dicas para aqueles que querem seguir esse caminho. [...]
Ótimos desenhos senhorita.
[interesseiro mode on]
Você já trabalhou com criação de sprites para jogos?
[interesseiro mode off]
Insane, obrigada! Eu não manjo muito de games. Mas se você está se referindo às splash screens, telas de aberturas, já fiz algumas para jogos de celular.