Tá, vamos destrinchar um pouco esse título.
Não gosto dos meus olhos meio caídos, das minhas olheiras muito escuras, das minhas pálpebras, nas quais uma vez uma amiga disse que daria para pintar um arco-íris inteiro, tão grandes elas são. Não gosto do ar de cansaço ou embriaguez que isso me dá. Também não gosto do fato de que, quando sorrio para uma foto, meus olhos “desaparecem”, virando dois rasguinhos pretos no meio de tanta pálpebra, em cima, e tanta sarda, em baixo.
Também não gosto das minhas sobrancelhas, que, apesar de terem muito pelo, têm esses pelos todos espalhados para cantos onde não deveriam estar, em vez de se concentrarem num desenho bonito e expressivo. Até que gosto do formato que se revela quando eu tiro o excedente. Mas, se eu passo do ponto, minha mãe diz que fico parecendo “aquele cara feio, o Sr. Spock”.
Não gosto muito do meu sorriso. Ele é torto. Disseram-me que eu deveria usar aparelhos nos dentes quando era bem menina, pois se não fizesse isso me arrependeria depois, adulta. Hoje em dia, adultos usam aparelhos numa boa, e dizem por aí que mesmo quem já passou dos 40 anos ainda pode corrigir a dentição. Eu, teimosa e sovina, continuo não querendo colocar aparelho. Mas continuo não gostando do meu sorriso. Ele é um mal necessário na hora de parecer amável. O que será pior: um sorriso feio ou um sorriso ausente? O feio ainda pode ser simpático. Acho. Enquanto isso, uso meu canino superior direito, principal responsável pela tortice (ou tortura?) do dito sorriso, como abridor de garrafinhas de iogurte.
Não gosto do meu queixo imenso, vagamente prognata, que parece ainda maior em fotografias. Ele me dá um ar prepotente e bruto, coisas que eu talvez seja, mas talvez não queira que estejam tão na cara – literalmente. O queixão ainda intensifica a impressão de “cara chupada” que os anos estão me trazendo. Há uma década eu tinha bochechas cheias e juvenis. O tempo levou embora a firmeza dessa época e deixou um rosto magro no lugar. Abaixo das maçãs, vincos cada vez mais fortes se pronunciam, um de cada lado.
Também não gosto da minha boca. Se não gosto nem do sorriso aberto, como gostar da boca fechada, séria? Ela é pálida. Não tem cor. Não tem o menor destaque no rosto.
Enfim, às vezes – muitas vezes -, eu não gosto da minha cara. Não mesmo. Não gosto de ser aquela menina sempre menos bonita do que as amigas, sempre em segundo (ou terceiro, ou quarto… ou último) lugar na predileção dos rapazes e de algumas moças. Não gosto de não ser notada ou de só ser notada quando me porto de forma ridícula. Não gosto de pensar que talvez tenha perdido alguma oportunidade porque outra pessoa, mais bonita, foi favorecida no lugar da “feinha” aqui.
(Observação: também não gosto do meu corpo. Mas ele é um problema maior – e um texto ainda mais chato – do que meu rosto.)
Eu não gosto da minha aparência geral. Pronto, falei. Admito.
Mas aprendi a lidar com isso.
Uma das coisas que me ajudaram foi fazer terapia e usar um medicamento para regular a cuca – e disso eu falarei mais detalhadamente outro dia. Outra coisa foi ler. Não ler qualquer coisa, mas reportagens, artigos, blogs de gente interessante com ideias relevantes. Textos que me fizeram entender que eu só me castigava por essa ausência de perfeição porque fui educada para isso. Não pelos meus pais nem pelos meus professores, mas pela sociedade em que vivo. Não posso falar disso em amplo aspecto, pois não pesquisei o suficiente sobre “o que é a beleza” no resto do mundo. Mas na sociedade ocidental, ainda mais especificamente na brasileira, beleza é fundamental – se você for mulher.
Claro que a beleza masculina também é apreciada e favorecida. Claro que homens também têm complexos relacionados à sua aparência. Claro que eu também adoro olhar para homens bonitos. Para mulheres bonitas, também. Mas olhe à sua volta, observe a publicidade, os comerciais e programas televisivos, as capas de revista, os comentários dos colegas de trabalho… Mulher tem que ser bonita. Ponto. Não adianta ser boa profissional, inteligente, honrada, gente boa e coisa e tal. Se não for linda e bem-cuidada, está “faltando algo”. Quer um exemplo? Jogadora de futebol. Em vez de dizer “cara, essa mina joga muito”, o comentário mais frequente é “pô, mó baranga”. Sua aparência é mais importante do que seu desempenho. O que não se aplica às suas contrapartes masculinas, já que os melhores jogadores do mundo normalmente são reconhecidos por seu trabalho e não por sua beleza.
Sim, eu sei que os homens enfrentam outras cobranças sociais, e não, não acho que ser homem seja fácil. Mas este texto é sobre aparência e, principalmente, sobre minha relação de amor e ódio com o espelho.
Sempre há quem diga: tem olheiras? Use corretivo e base. Boca pálida? Batom resolve. Cara chupada? Engorda um pouquinho (não, obrigada; eu não sou magra demais e não preciso engordar). Ou faz uma plástica (não, não mesmo, muitíssimo obrigada!). Por que essas coisas são cobradas das mulheres? Por que temos de estar sempre maquiladas, alisadas, com acessórios bem escolhidos e umas belas sandálias de salto alto? O que nos homens é visto como elegância, nas mulheres está muito aquém do esperado. Se estivermos apenas tão arrumadas quanto se espera dos homens – de banho tomado, com um traje alinhado e um par de sapatos em bom estado -, passamos por “desleixadas”.
Sabe o que é, gente? Eu não tenho nada contra querer ser mais bonita. Não tenho absolutamente nada contra maquiagem; eu uso em ocasiões especiais, quando a vontade de ficar “na minha melhor forma” é mais forte do que a preguiça, que em geral governa. Ou seja, eu uso quando estou a fim (o que anda cada vez mais raro…). Também não tenho uma postura radical em relação à cirurgia plástica, embora ache que não faria; em outro momento falarei sobre isso. Mas é que a maquiagem poderia camuflar os meus defeitos e a plástica poderia realmente corrigí-los… Mas nenhuma dessas coisas mudaria quem eu sou de verdade. E quem eu sou de verdade se sente muito, muito agredida pela simples ideia de que, para obter algo como aprovação social, atração sexual ou, simplesmente, ser notada, eu precisaria mudar o que eu sou. Que, em essência, não tem defeitos gritantes. Tudo funciona muito bem. Isto é: funciona dentro da vida que eu levo.
O fato de ter olheiras, queixão ou o que o valha nunca me impediu de desempenhar nenhuma das funções que me propus. Nunca me impediu de desenhar bem, escrever habilmente, ler com gosto, aprender com facilidade, encontrar trabalho, satisfazer meus clientes e ser a cada dia melhor em tudo o que eu faço. Não me impediu de participar de 9 antologias literárias e ganhar um prêmio para publicar meu primeiro livro solo, Reino das Névoas. Não me impediu de fazer amigos, ter vida social, rir e pensar com as pessoas, receber o e-mail ou telefonema de alguém que simplesmente estava com saudades do meu papo. Não me impediu de encontrar um parceiro incrível para esta vida, alguém que – ironicamente? – eu admirei primeiro pela aparência física e só depois pelo caráter, alguém com quem posso conversar sobre tudo o que imaginar, sem freios, sem tabus; alguém que continua me surpreendendo diariamente com sua bondade, seu desapego e sua lucidez, apesar de já estarmos juntos há quase 9 anos.
Trocando em miúdos 1: o fato de não ser lá muito bonita já me frustrou demais, e às vezes ainda frustra, mas não me impediu de ser bem-sucedida, notada e amada – por quem realmente importa.
Trocando em miúdos 2: sabe a Angelina Jolie? Aquela atriz linda e sexy, riquíssima, talentosa, reconhecida e além de tudo engajada, casada com um outro ator lindo e sexy, riquíssimo, talentoso e reconhecido, e mãe de uma família enorme? Ela sofre de depressão. Ficou deprimida após a morte da mãe e após o parto de um dos filhos, ficou deprimida com o assédio da mídia, com o estresse de ser responsável por uma família tão grande e sei lá mais por quantas coisas às quais a imprensa atribui seu estado de espírito. O fato é: Angelina Jolie, aquela linda, tem depressão. Nem a beleza, nem a riqueza, nem o reconhecimento mundial a pouparam disso.
Longe de mim desejar episódios depressivos a ela ou a quem quer que seja, pois só quem já teve essa porcaria sabe o quanto a gente sente vontade de cavar um buraco e se enterrar nele. Mas esse caso específico cabe aqui como referência. A beleza não salvou Angelina. Também não me salvaria. Será que ser linda e notável iria mesmo resolver algum dos meus problemas? Não creio. Ainda que eu tivesse a aparência dela, o dinheiro dela, o sucesso dela, mesmo assim eu não estaria a salvo. Inventaria algum motivo de insatisfação – ou minha química cerebral caquética se encarregaria disso para mim. Eu ainda reclamaria de algo. Ainda choraria e me desesperaria por coisas pequenas, como olheiras. E não estaria a salvo das coisas grandes, como depressão crônica ou a morte de entes queridos.
Então, pensando bem… uma aparência “mais ou menos”, uma família ótima, uma profissão interessante, amigos legais e um marido incrível não constituem exatamente uma situação ruim, né?
Trocando em miúdos 3: eu posso não gostar da minha aparência, mas isso não significa que eu não me ame. Manja aquele cachorro vira-lata velho, feio, muito do sem-vergonha, barulhento e estragão que, mesmo assim, há alguém que adora? Então. É assim que eu me amo. Com TODOS os meus defeitos reconhecidos e atestados.
Tá bom pra você? Pra mim, tá ótimo.